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  Revista Monet - Dezembro 2005  
   

O que é, que a Maria Tem?
Ela se tornou um fenômeno, mas Maria Rita é produto da indústria Fonográfica, que viu a chance de despertar a nostalgia por Elis Regina, ou uma artista talentosa, de herança natural?Conversamos com músicos, especialistas e fãs para encontrar a resposta!

   
   


Maria Rita


Desde criança, a ginecologista Cláudia Grilo é fã de Elis Regina.Comprava Lps Da “Pimentinha”, como foi apelidada carinhosamente a cantora de maior sucesso no Brasil entre os anos 60 e 70.Ao escutar uma canção no rádio com uma voz que lembrava muito a sua maior referência na música, morta em 1982, ela sentiu um nó na garganta, uma vontade imensa de chorar e correu atrás do primeiro cd de Maria Rita, filha de Elis com César Camargo mariano.”No começo, fiquei um pouco desconfiada. Pensei primeiro na influência do pai e da mãe, muito dna. Mas depois de escutar o disco inteiro posso dizer que foram o talento e a musicalidade próprias que me convenceram”, afirma a médica, que está tentando assistir a cantora ao vivo há algum tempo, mas sempre esbarra na falta de ingressos.

Os saudosismos dos tempos de ouro e ânsia pelo aparecimento de uma nova voz resultam numa combinação que agitou a MPB em 2003.Em 50 dias, o álbum de estréia de Maria Rita vendeu mais de 350 mil cópias.o dvd,com uma apresentação gravada no palco do Bourbon Street,em agosto deste ano,pouco antes do furacão,saiu para as lojas no Mês passado com 50 mil unidades reservadas.Os shows da capital paulista no mês de outubro tiveram lotação esgotada em duas semanas, os de novembro em três.

Não é difícil encontrar personalidades e autoridades na platéia “gostei muito de ter visto a Maria Rita. É ótimo que tenha surgido uma voz feminina desse porte”, resume a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy.

Para o produto musical e jornalista Nelson mota, o sucesso superou as expectativas mais otimistas e mostra a vitalidade da nova mpb.Além disso, a excelente marca de cópias vendidas sem uma canção carro-chefe nas paradas não pode ser explicada somente pela nostalgia de Elis.”O disco teve uma fantástica promoção espontânea da imprensa, que logo reconheceu as altas qualidades da cantora. Marisa monte, antes dos tribalistas, também não tocava muito em rádio e sempre vendeu acima de 500 mil discos. Elas têm um público de um bom poder aquisitivo que está ligado nisso ou em programas populares de televisão”, explica Motta.

Com uma longa trajetória de trabalho com nomes do porte de lulu santos e Daniela Mercury, o produto musical diz que é possível “construir” uma estrela da música no Brasil.”Mas é preciso que tenha muito talento, carisma e seriedade. Não se cria um mito do nada. Alias, quando uma gravadora resolve investir pesado em um artista, procura os que têm algo mais. Além disso, como tudo é preciso sorte e oportunidade. A pessoa, a música e há horas certas. É o caso da Maria Rita”.

Porém a grande discussão que envolve a nova cantora parte mesmo da inevitável comparação coma mãe.Especula-se que a Warner Music gastou cerca de R$ 1 milhão no seu lançamento, o que dificilmente vai se repetir com artistas sem os mesmos ramos da árvore genealógica.”Com o talento e a herança que ela tem, acho que era muito difícil não pensar em uma estratégia para lança-la. É a indústria fonográfica e isso faz parte do esquema”, afirma a apresentadora e jornalista Lorena Calábria, que acha inconveniente a busca incessante de traços da mãe na filha.”Nos shows, é algo que chega a irritar. Aquelas pessoas que ficam dizendo apenas” esse momento me lembrou tanto a Elis “. É uma coisa de carência, completa”.

Já o compositor Francis Hime, autor de canções eternizadas pela “Pimentinha” , como “Atrás da porta” e “por uma amor maior” , acredita que Maria Rita não deve dar bola para as analogias.Ele já assistiu a dois shows da cantora e saiu emocionado.”é como se Elis Regina tivesse voltado a terra.como isso pode ser uma coisa ruim?”,questiona o músico,que fica imaginando a artista cantando novas canções assinadas por ele.Hime leu algumas críticas em relação à semelhança entre mãe e filha e discorda do teor.”Muitos acreditam que ela busca ser um clone da Elis, uma coisa programada. Mas não me parece que seja isso. Para mim, justamente por ser filha de quem ela é, Maria Rita não refreia as semelhanças”.

Outros importantes diferenciais do primeiro disco de Maria Rita são os arranjos suaves, baseado na receita, percussão, piano e baixo, e o repertório cuidadosamente manejado por ela própria e pelo produtor Tom Capone.Apesar de canções de autores de longa estrada, como Milton nascimento, chama a atenção a opção por jovens promessas, como Marcelo camelo,da banda Los Hermanos.”O Tom mostrou pra ela um de nossos álbuns, o” bloco do eu sozinho “, e queria gravar músicas do disco. Ele me ligou e perguntou se eu tinha canções inéditas”, afirma o músico, que não sabe se vai repetir a parceria.”Sempre componho pra dizer alguma coisa. É a cristalização de algum sentimento. Em primeira instância, tenho vontade de cantar. Não consigo compor com um distanciamento. Se eu tiver a oportunidade de ter músicas quando estiver gravando, vou ficar muito feliz”,completa.


O PESO DA HERANÇA

No dia 9 de setembro de 1977, Maria Rita Mariano nasceu na maternidade São Luiz, em São Paulo.Até o nome possui relação estreita com a música.Elis Regina chamava amiga Rita Lee pelo nome Maria Rita.Quando sua primeira filha veio ao mundo, ela resolveu homenagear a precursora do rock and' roll no Brasil.Após a morte da mãe, Maria foi morar com o pai, César Camargo mariano e o contato com as canções eram naturais.Os almoços e jantares eram animados a batuques nos pratos, copos e talheres.Aos 13 anos, Maria Rita entrou para a banda do irmão Pedro, fazendo backing vocal.No colégio, montaram um show de duas vozes e violões.

Contudo, ela demorou para aceitar o destino como cantora e foi estudar nos estados unidos.Carregar o peso da herança da mãe não era uma tarefa simples.”Desde sempre, tive consciência de ser a única filha mulher de uma grande cantora. Depois de um tempo, percebi que era mais um mito do que apenas uma intérprete. Minha mãe virou uma coisa muito maior do que eu jamais compreenderia”, afirma Maria Rita, em entrevista nos extras do seu primeiro dvd.Ela diz também que não se sentiria bem se começasse a cantar logo aos 14 anos, mesmo sabendo que essa era a sua vocação “Eu me sentiria uma farsa”, revela.

Mas quem acompanhou a trajetória da mãe afirma, que o caminho de Maria Rita era inevitável.Walter silva produto do celebre “dois na bossa” (1965), encontro de Elis Regina e Jair Rodrigues que se tornou o primeiro disco a vender uma milhão de cópias no Brasil, antecipou o sucesso há dois anos, ao ouvir duas canções na voz da nova diva da mpb em um disco cd-r. O resultado foi o artigo “eu ouvi Maria Rita e chorei”, compilado no livro ”vou te contar” lançado pela editora Códex em 2002.”Para é um privilégio vê-la continuar o que a mãe deixou”, resume silva, que no mesmo texto deu alguns conselhos para a nova cantora.De acordo com ele, alguns foram seguidos outros não!

“MAS ELA TEM UM GRANDE FUTURO”, conclui.