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  Revista Mulheres que Fazem - 2001  
   

Maria Rita: A menina que o Brasil nunca esqueceu

   
   

 

Os Fãs de Elis Regina sempre tiveram um interesse especial por Maria Rita, filha da cantora com o músico César Camargo Mariano.
Por motivos óbvios. A imaginação aliada à saudade de seu ídolo fez o público projetar naquela menina - hoje uma mulher de 24 anos - uma provável substituta da mãe. Era a esperança de que Maria Rita fosse favorecida pro uma herança genética que lhe possibilitasse carregar os mesmos graves, agudos e talento da Elis. Doce ilusão. Aos 16 anos, a suposta herdeira partiu para os EUA e foi a única dos filhos a não optar pela carreira musical - pelo menos publicamente.Lá, ela se formou em Comunicações Sociais e Estudos Latino-Americanos.
Já acostumados com a idéia de nunca mais ouvir uma voz como a de Elis, os fãs se surpreenderam com uma notícia divulgada no início deste ano: Maria Rita não só gravou duas músicas na MCR, uma produtora muito conhecida em São Paulo, como fez as pessoas chorarem com sua performance. Walter Silva, jornalista e produtor musical, foi quem publicou o fato e aguçou a curiosidade do público. Maria Rita é a substituta de Elis, garantiu.
A redação da Mulheres que Fazem a procurou para saber mais detalhes, mas ela se recusou a falar sobre o assunto. Depois de muita persistência, Maria Rita aceitou conceder esta entrevista exclusiva diretamente de Chatham, Nova Jersey (EUA), onde mora atualmente.

Mulheres: Por onde você anda e o que está fazendo?
Maria Rita: No momento, ando explorando algumas possibilidades. Nada muito especial.

M: Você não quer comentar as suas gravações no estúdio MCR, em São Paulo. Você tem receio da pressão da mídia, das comparações com sua mãe?
MR: Receio de comparações eu não tenho. Não ligo se me acham parecida com ela ou não, se eu canto melhor ou pior do que ela. Eu sou bem segura com relação a isso. As pessoas já me comparam com ela quando eu digo "bom dia", já imaginou o que seria se eu cantasse profissionalmente? É parte da minha realidade, e isso não me incomoda. Eu evito falar sobre uma carreira na música, porque simplesmente ainda não sei se quero seguir. E não sou do tipo de dizer algo só para ter atenção. Se farei, farei 100% e sem enganar ninguém, muito menos o público -razão pela qual o lance na MCR não era para ter sido exposto - e explorado da maneira como foi. Aquilo era um experimento que acabou tomando proporções bem maiores do que deveria. Para mim, fazer nas coxas, só por fazer, seria falta de respeito com o público e comigo mesma. Eu tenho apenas 24 anos, sabe-se lá o que vai acontecer amanhã.

M: Você pretende voltar a morar no Brasil?
MR: Sempre quis voltar a morar no Brasil, dar uma de Joana D'arc e salvar a pátria, tentar utilizar a minha educação acadêmica para tentar melhorar algum aspecto do meu país.
Sou muito patriota, e tenho um orgulho tremendo do meu povo. No entanto, na minha situação, as coisas ficam mais complicadas, porque sou uma mulher extremamente ligada à família e tenho uma metade aqui e a outra metade aí.
Eu não tenho uma resposta simples para tal pergunta... Eu gostaria de voltar a morar no Brasil, mas ainda não.

M: Como foi para você e seus irmãos conviverem com a repercussão do sucesso de Elis?
MR: Quando relato a maneira como nós crescemos, muitos não acreditam. Eu acredito ter tido uma infância "normal". Brincava na rua, passava finais de semana na casa da minha melhor amiga, comíamos pizzas aos domingos... coisas normais. Meus amigos ficavam exaltados quando eu dizia que João Bosco ou Milton Nascimento tinham ido em casa, mas, para mim até isso era normal, era o trabalho do papai.

M: Quais foram as principais dificuldades depois que sua mãe morreu?
MR: As dificuldades só vieram mesmo lá pelos 16 anos, com a necessidade de entender de onde eu tinha vindo, quem eu era - enfim, a minha história. Fora isso, eu às vezes questiono como teria sido viver com ela, ter sido filha dela no sentido prático da coisa, não só teórico!Como teriam sido as broncas, os castigos, os carinhos, os abraços, as risadas, os presentes, as conversas. É difícil ser uma mulher e não ter lembranças da mãe, com a mãe. Mas ela conversa comigo através de sua arte...

M: Na sua opinião, Elis ainda é a melhor cantora que o Brasil já teve?
MR: Ai ! mas que pergunta mais cruel... Eu, como filha, acho a minha mãe a mais linda, a mais inteligente, a mais esperta, engraçada e talentosa, sim" - do Brasil e do mundo. Mas, sem "corujar", eu acho, sinceramente, que ela ainda é a maior cantora que o Brasil já teve. Eu sou acadêmica e não olho evento algum sem consideras o ambiente onde ocorreu. A mamãe falava o que pensava, sentia muito e não tinha medo, o que a fazia feliz. E ser daquela maneira durante a fase em que o Brasil estava não era fácil. Ela era nua e crua com a vida. E isso não se vê mais. Nem pode se ver mais, com tanta apatia por aí. Ninguém mais fala, ninguém mais faz nada. O que fazia a minha mãe tão especial era a combinação única de técnica com o emocional. Ela era mais um músico na banda. Sei lá.
Ela sabia o que estava fazendo.

M: Você cresceu ouvindo as canções de sua mãe?
MR: A gente ouvia, sim, mas esporadicamente. Hoje em dia, porém, eu a escuto muito mais. É um lance de conforto para mim. Ela está sempre presente, e eu tenho uma sorte deste tamanho de ter tido uma mãe cantora.
Ela fala comigo através de suas músicas.

M: Qual música cantada por sua mãe é a sua predileta?
MR: Eu me sinto meio traidora em ter que escolher uma música apenas... Porém, "Como Nossos Pais", "O QUe Foi Feito de Vera" e "Se Eu Quiser Falar com Deus" são algumas.
As mensagens dessas letras são lindas, fortes, inteligentes. Não gosto de música burra. Tem também os discos "Essa Mulher" e "Elis e Tom", que são obras-de-arte. Mas "Aos Nossos Filhos" toca fundo, fundo... Tá tudo ali.

M: Pelas suas lembranças e a dos seus irmãos, além , é claro, de tudo o que já foi divulgado sobre Elis Regina, qual a descrição que você faz da sua mãe?
MR: Mamãe era maravilhosa!
Mas acho que ela teria puxado a minha orelha ao me ouvir dizer isso. A mãe era humana, com defeitos mil, com qualidades aos milhões. Uma mulher forte ao mesmo tempo que era insegura, alegre e triste, apaixonada e fechada, sem a menor preocupação com o que diziam dela, mas supersensível. Minha mãe era mulher. Não tenho muito mais o que dizer.

M: Você se parece com ela em algum aspecto? Algum parente ou conhecido já comentou alguma coisa a respeito?
MR: Sim, várias vezes. Mas as pessoas têm opiniões diferentes. Alguns acham que sou xerox autenticado, outros nem tanto, outros me acham mais parecida com o meu pai. Eu acho que sou bem misturada.
Do pescoço para baixo, eu sou minha mãe (ainda bem, não?). Papai e Pedro me dizem que eu tenho o jeito dela de falar, de mexer as mãos, de andar. Não entendo, porque não convivi muito com ela. Genética não explica esse tipo de coisa.

M: Sabemos que a fama de sua mãe percorreu o mundo. Em todos estes anos nos EUA, você presenciou algo que demonstrasse como Elis é querida também por aí?
MR: Talvez a coisa mais emocionante tenha ocorrido em meu terceiro ano de faculdade. Eu era vice-presidente do corpo estudantil, e tínhamos organizado um café da manhã para os alunos novos do prédio onde eu morava. Como vice-presidente, tive que "borboletar" pela sala, me apresentando dando as boas-vindas...
Dali a pouco, um rapaz do primeiro ano corre até mim, visivelmente abalado, me perguntando, em inglês, se eu era mesmo a filha da Elis. Quando confirmei, ele se ajoelhou na minha frente e ,chorando beijou minhas mãos.
Ele disse que a minha mãe tinha mudado a vida dele, que estava ali estudando música por causa dela.
Fiquei abobalhada com essa reação, com a influência da minha mãe na vida de uma pessoas que nem mesmo entendia o que ela cantava.

M:O canal E!, da HBO, ia transmitir para toda a América Latina no final de agosto um programa especial sobre sua mãe: com o título Um Furacão Chamado Elis. Mas não foi ao ar. A Globo também está preparando uma minissérie para ser transmitida em janeiro de 2002. O que você acha dessas iniciativas?
MR: Eu sou a favor das iniciativas da mídia, contanto que respeitem a imagem e o legado dela, assim como a sua família. Nós, como herdeiros, temos uma responsabilidade muito grande em manter seu legado vivo. Mas, acima de tudo, de sermos justos e fiéis à carreira dela, como achamos que ela a teria conduzido. Não é nada fácil, somos suscetíveis a muita crítica, mas é isso ai: ninguém falou que seria fácil.

M: Nossa revista considera Elis um ícone feminino - não só pelo que representou para a MPB, mas pela mulher que foi. E, para você, como mulher - e não apenas como filha, Elis é um exemplo?
MR: Sem a menos sombra de dúvidas.Aliás, essa é a única razão pela qual concordei em dar este depoimento.
Elis é um exemplo de mulher que batalhou para seguir seus sonhos, conseguir o que queria e ser feliz. Uma mulher forte, bonita, sem medo. Ser mulher não é fácil, especialmente numa sociedade tão masculina e patriarcal como a do Brasil (não existem tantas diferenças aqui, não). Precisamos de mais mulheres como ela.

M: Toda mãe, de uma maneira ou de outra, acaba nos ensinando algo. O que você acha que aprendeu com sua mãe?
MR: Por incrível que pareça, aprendo com ela diariamente. Mas a coisa mais importante que minha mãe me ensinou foi ser honesta comigo e com os outros. Não sei mentir e não gosto de mentir. Digo o que sinto, quando sinto. Seria irresponsável viver de outra maneira. Muitas vezes, me machuco e outras machuco aqueles ao meu redor. Mas, sabendo que fui honesta, é isso aí. Aprendi também que o amor é legal. Brega, mas legal.
Só aprendo coisas boas.

 

 
         
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