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  Segundo Caderno - O Globo - 20 de abril de 2003  
   

Maria Rita Aprendendo A Jogar.

   
   

Maria Rita não aceita insinuações de que tenha se tornado cantora para ocupar o lugar que a mãe, Elis Regina, deixou na música popular brasileira: "Tem gente que vem com esta conversa errada de 'tomar o lugar'. As coisas não são assim.".

Maria Rita Mariano sabe que é parecida com a mãe. Até aí nada demais. Não fosse Maria Rita cantora e a mãe, Elis Regina. Ela sabe que tem a voz parecida, os gestos parecidos, o sorriso, o rosto. É inevitável ouvir comparações. Mas, aos 25 anos, Maria Rita usa outras semelhanças com a Elis para se firmar como a grande promessa feminina da música brasileira: a personalidade forte e a emoção. A primeira ficou evidente quando veio ao Rio fazer uma participação no show do violonista Chico Pinheiro, em julho do ano passado, e se recusou a falar da sua estréia profissional, preferindo exaltar a obra do músico.

Mesmo agora, em temporada solo que se prolonga por mais duas semanas, às terças e às quartas, no Mistura Fina, ela não quis antecipar nada do disco que começa a gravar em duas semanas. Já a emoção se expressa no palco e faz com que todos saiam da casa de shows na Lagoa conscientes de que, se muita coisa em Maria Rita lembra a mãe, quem está em cena, inteira, não é a cópia, ou o clone, ou a filha de Elis. É Maria Rita.

- Tem gente que vem com essa conversa errada de 'tomar o lugar'. Qualquer cantora que surge vai tomar o lugar da Elis, da Marisa Monte, da Zélia Duncan. As coisas não são assim. Ninguém resolve cantar para substituir ninguém - imagina.Na estréia do show, na terça-feira passada, para uma platéia de celebridades como Milton Nascimento, Marcos Palmeiras, Luana Piovani, Zelito Viana, Miéle e Cláudio Cande, presidente da Warner, gravadora com a qual fechou contrato, Maria Rita misturou no repertório novos compositores com gente consagrada como Lenine, Rita Lee e Djavan.
Quem viu Maria Rita no mesmo Mistura Fina há seis meses, no tal show com o Chico Pinheiro, toma um susto ao revê-la. A moça perdeu alguns quilos, ajeitou o cabelo e, principalmente, teve uma evolução, vocal e corporal impressionante.

- Ela gravou três músicas em meu disco e, a cada dia que passa está melhor. Ela é cem - disse Milton Nascimento, que se emocionou ao ouvi-la interpretando "Tristesse", música que gravaram juntos no disco "Pietá".A certa altura, Maria Rita canta "Lavadeira do rio", de Lenine e Braulio Tavares. Esfrega a saia como se estivesse lavando roupa, acompanha o piano com um sorriso, encara o público e marca a última nota da música com um pequeno movimento de rosto. Mas ganha a platéia, definitivamente, ao contar a história de "Menina da lua", de Renato Motha:

- A primeira vez que ouvi esta música, eu a achei muito bonita. Na segunda, chorei. Quando cantei no palco chorei de novo. Só depois fui entender. Revi muitas vezes na minha vida uma entrevista que a minha mãe deu quando era recém-nascida e ao ser perguntada sobre o que desejava para mim, disse que talvez eu não cantasse, que o que era legal para ela poderia não ser legal pra mim. (Nisso ela estava errada.) Mas o que mais me emocionou foi o fato de ela ter dito que me queria leve. Sempre dedico esta música a ela para dizer que eu entendi.
E entendeu mesmo. A cantora no palco não parece carregar o peso de ser filha de Elis e César Camargo Mariano. Pelo contrário. Do meio do show em diante, ninguém que entrasse no Mistura Fina desavisado acreditaria esta diante de uma cantora que há um ano sequer pensava em encarar um palco.

- Ela tem uma timidez que vai se perdendo durante o show. É muito interessante e ainda vai soltar maia a franga - elogiou Zelito Viana.

- Conheço a Maria Rita há algum tempo, mais nunca a tinha visto em show. Era fã da pessoa e agora sou também da cantora - emendou Luana Piovani.
Parceiro de Elis, com quem se apresentou no Teatro da Praia por nove meses nos anos 70. Miéle lembra-se da amiga pra falar da filha:

- Nunca teve outra igual a Elis e nem vai ter - disse. - O mais bonito é que Maria Rita sabe disso. Por isso faz algo legítimo, até anticomercial. Esta se impondo pelo caminho certo, porém mais difícil. Tem talento, é afinada e canta um repertório ousado.
Após o show, Maria Rita parece deixar toda a segurança no palco para voltar a ser apenas mais uma cantora em busca do sonho.

- Quando eu saí do palco, pensei comigo: "Nasceu." Eu sempre me surpreendo pensando nessas coisas. É tudo muito novo e, ao mesmo tempo, familiar para mim.

Em seu primeiro vôo solo no Rio, cantora se firma como promessa.

"Estou tentando refazer o elo perdido."

A filha caçula de Elis Regina e do pianista e arranjador César Camargo Mariano. Maria Rita custou para ser cantora. Criada nos Estados Unidos, onde o pai se radicou, só agora está dando os primeiros passos no meio musical brasileiro.

O GLOBO: Você diz que este show é um laboratório. Como foi a escolha do repertório e o que você pretende usar no seu primeiro show?

MARIA RITA: Eu não tenho pretensão nenhuma com este show. É apenas uma amostra do que eu sou e a continuação de um trabalho de ambientação. Não quero lançar um disco sem que ninguém me conheça. Eu digo que é um show "jeans e camiseta", sem cenário, com uma luz simples. Tenho algumas idéias do que quero para o disco mas são muito incipientes. Não adianta falar uma coisa que pode mudar depois.

O GLOBO: No show, você apresenta alguns compositores desconhecidos e interpreta canções antigas da MPB. O disco deve ser por aí?

MARIA RITA: Creio que sim. Mais nada está definido mesmo. Gosto muito das músicas que canto do Daniel Calomargo, de São Paulo, e do Renato Motha, de Minas Gerais. Um dos meus compositores prediletos, o Chico Pinheiro, por exemplo, não teve nenhuma música incluída no show, já que passei quatro meses interpretando suas canções no Rio e em São Paulo. Mais ele, com certeza estará no disco. Mesmo as canções antigas são incertas. Tenho ouvido Gonzaguinha, Guilherme Arantes, Simonal... Estou tentando refazer o elo rompido quando saí daqui ainda menina.

O GLOBO: Como está sendo para você subir em um palco tradicional da música brasileira e encarar de frente tudo aquilo que você sempre adiou?

MARIA RITA: Eu estava fazendo show no Supremo, em São Paulo, para 80 pessoas. De repente, passei a fazer shows em teatros para 150 pessoas e até numa estação de trem em Campinas. É importante ter estrada para entender que tem dias que são ruins, em que as coisas não funcionam, e dias que são muito bons. Mas, no fim das contas, cada show lava a minha alma de maneira impressionante.

O GLOBO: Para você, e um tabu regravar canções interpretadas por Elis Regina?

MARIA RITA: Não me interessa cantar o que minha mãe cantou. Não é tabu, mais eu não quero que as pessoas confundam as coisas. A minha voz e meus gestos lembram Elis. Sou parecida afinal ela é minha mãe. Mas não sou ela e nem poderia ter esta pretensão. Não sofro com isto. Sei que por muito tempo as pessoas farão comparações. É claro que muitas pessoas vêm me ver por curiosidade, pensando em matar as saudades de Elis Regina.

 
         
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