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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes.

Poeta, compositor, escritor, cantor. Tantos adjetivos não bastam para descrever o que na verdade é a grandeza de

Vinicius, e todas suas marcas artísticas deixadas, imortais, para nós, infinitas enquanto durarem.

Só ele é capaz de tratar a tristeza com carinho,

de ser constante na sua inconstância...

É único, e espero um dia poder o encontrar.

 

Aqui coloquei algumas poesias dele, mas quem quiser o conhecer na íntegra deve simplesmente viver a vida e amar ao máximo...

E no amor verá Vinicius...

 

 

 

Auto-retrato

 

Nome: Vinicius. Por quê?

O Quo Vadis, saído em 13

Ano em que também nasci.

Sobrenome: de Moraes

De Pernambuco, Alagoas

E Bahia (que guardo em mim).

Sou carioca da Gávea

Bairro amado, de onde nunca

Deveria ter saído.

Fui, sou e serei casado

E apesar do que se diz

Não me acho tão mau marido.

Filhos: três e um a caminho

Altura: um metro e setenta

Meão, pois. O colarinho

Trinta e nove e o pé quarenta.

Peso: uns bons setenta e três

(precisam ser reduzidos...)

Dizem-me poeta; diplomata

Eu o sou, e por concurso

Jornalista por prazer

Nisso tenho um grande orgulho

Breve serei cineasta

(Ativo). Sou materialista.

Deito mais tarde que devo

E acordo antes do que gosto.

Fui auxiliar de cartório

Censor cinematográfico

Funcionário (incompetente)

Do Instituto dos Bancários.

Atualmente sou segundo

Secretário de Embaixada.

Formei-me em Direito, mas

Sem nunca ter feito prática.

Infância: pobre mas linda

Tão linda que mesmo longe

Continua em mim ainda.

Prefiro vitrola a rádio

Automóvel a trem, trem

A navio, navio a avião

(De que já tive um desastre).

Se voltasse a vida atrás

Gostaria de ser médico

Pois sou um médico nato.

Minhas frutas prediletas

Por ordem de preferência:

Caju, manga e abacaxi.

Foi com meu pai, Clodoaldo

de Moraes, poeta inédito

Que aprendi a fazer versos

(Um dia furtei-lhe um

Para dar à namorada).

Tinha dezenove anos

Quando estreei com meu livro

"O Caminho para a Distância"

Meu preferido é o último:

"Poemas, Sonetos e Baladas".

Toco violão, de ouvido

E faço sambas de bossa

Garoto, lutei "jiu-jitsu"

Razoavelmente. No tiro

Sobretudo em carabinas

Sou quase perfeito. As coisas

Que mais detesto: viagens

Gente fiteira, facistas,

Racistas, homem avarento

Ou grosseiro com mulher.

As coisas que mais gosto:

Mulher, mulher e mulher

(com prioridade da minha)

Meus filhos e meus amigos.

Ajudo bastante em casa

Pois sou um bom cozinheiro

Moro em Paris, mas não há nada

Como o Rio de Janeiro

Para me fazer feliz

(E infeliz). Desde os 7 anos

Venho fazendo versinhos

Gosto muito de beber

E bebo bem (hoje menos

Do que há dez anos atrás).

Minha bebida é o uísque

Com pouca água e muito gelo.

Gosto também de dançar

E creio ser essa coisa

A que chamam de boêmio.

Em Oxford, na Inglaterra

Estudei literatura

Inglesa, que foi

Para mim fundamental.

Gostaria de morrer

De repente, não mais que

De repente, e se possível

De morte bem natural.

E depois disso, ao amigo

João Condé nada mais digo.

 

 

 

Se todos fossem iguais a você

Vai tua vida

Teu caminho é de paz e amor

A tua vida

É uma linda canção de amor

Abre os teus braços e canta a última esperança

A esperança divina

De amar em paz...

 

Se todos fossem iguais a você

Que maravilha viver!

Uma canção pelo ar

Uma mulher a cantar

Uma cidade a cantar

A sorrir, a cantar, a pedir

A beleza de amar...

Como o sol, como a flor, como a luz

Amar sem mentir nem sofrer

Existiria a verdade

Verdade que ninguém vê

Se todos fossem no mundo iguais a você

 

 

 

Amor

 

Vamos brincar, amor? Vamos jogar peteca

Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo

Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?

Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos

Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo

Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto

Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos

Fingir que hoje é domingo, vamos ver

O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?

Vamos, Amor, tomar thé na Café com madame Sevignée

Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar

Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?

Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos

Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol

Vamos, amor?

Porque excessivamente grave é a Vida.

 

 

 

Eu sei que vou te amar

 

Eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida eu vou te amar

Em cada despedida eu vou te amar

Desesperadamente

Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será

Prá te dizer

Que eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar

A cada ausência tua eu vou chorar

Mas cada volta tua há de apagar

O que esta ausência tua me causou

Eu sei que vou sofrer

A eterna desventura de viver

À espera de viver ao lado teu

Por toda a minha vida.

 

 

 

Desalento

 

Sim,vai e diz

diz assim

Que eu chorei

Que eu morri

De arrependimento

Que o meu desalento

Já não tem mais fim

Vai e diz

Diz assim

Como sou

Infeliz

No meu descaminho

Diz que estou sozinho

E sem saber de mim

 

Diz que eu estive por pouco

Diz a ela que estou louco

Pra perdoar

Que seja lá; como for

Por amor

Por favor

É pra ela voltar

 

Sim, vai e diz

Diz assim

Que eu rodei

Que eu bebi

Que eu caí

Que eu não sei

Que eu ó sei

Que cansei, enfim

Dos meus desencontros

Corre e diz a ela

Que eu entrego os pontos

 

 

 

Garota de Ipanema

 

Vinicius de Moraes / Tom Jobim

 

Olha que coisa mais linda

Mais cheia de graça

É ela menina, que vem e que passa

Num doce balanço a caminho do mar

 

Moça do corpo dourado

Do sol de Ipanema

O seu balançado é mais que um poema

É a coisa mais linda que já vi passar

 

Ai! Como estou tão sozinho

Ai! Como tudo é tão triste

Ai! A beleza que existe

A beleza que não é só minha

E também passa sozinha

 

Ai! Se ela soubesse que quando ela passa

O mundo interinho se enche de graça

E fica mais lindo por causa do amor

 

Só por causa do amor ...

 

 

 

Soneto da Fidelidade

 

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que e chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

 

 

 

Tarde em Itapuã

 

Vinicius de Moraes / Toquinho

 

Um velho calão de banho

O dia pra vadiar

Um mar que não tem tamanho

E um arco-iris no ar

Depois na praia Caymmi

Sentir preguiça no corpo

E uma esteira de vime

Beber uma água de côco

 

É bom

Passar uma tarde em Itapuã

Ao sol que arde em Itapuã

Ouvindo o mar de Itapuã

Falar de amor em Itapuã

 

Enquanto o mar inaugura

Um verde novinho em folha

Argumentar com doura

Com uma cacha de rolha

E com olhar esquecido

No encontro de céu e mar

Bem devagar ir sentindo

A terra toda a rodar

 

É bom

Passar uma tarde em Itapuã

Ao sol que arde em Itapuã

Ouvindo o mar de Itapuã

Falar de amor em Itapuã

 

Depois sentir o arrepio

Do vento que a noite traz

É o diz-que-diz-que macio

Que brota dos coqueirais

E nos espaços serenos

Sem ontem nem amanhã

Dormir nos braços morenos

Da lua de Itapuã

 

É bom

Passar uma tarde em Itapuã

Ao sol que arde em Itapuã

Ouvindo o mar de Itapuã

Falar de amor em Itapuã

 

 

 

A Mulher que Passa

 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa

Seu dorso frio é um campo de lírios

Tem sete cores nos seus cabelos

Sete esperanças na boca fresca!

 

Oh! como és linda, mulher que passas

Que me sacias e suplicias

Dentro das noites, dentro dos dias!

 

Teus sentimentos são poesia

Teus sofrimentos, melancolia.

Teus pelos leves são relva boa

Fresca e macia.

Teus belos braços são cisnes mansos

Longe das vozes da ventania.

 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

 

Como te adoro, mulher que passas

Que vens e passas, que me sacias

Dentro das noites, dentro dos dias!

Por que me faltas, se te procuro?

Por que me odeias quando te juro

Que te perdia se me encontravas

E me concontrava se te perdias?

 

Por que não voltas, mulher que passas?

Por que não enches a minha vida?

Por que não voltas, mulher querida

Sempre perdida, nunca encontrada?

Por que não voltas à minha vida

Para o que sofro não ser desgraça?

 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Eu quero-a agora, sem mais demora

A minha amada mulher que passa!

 

Que fica e passa, que pacífica

Que é tanto pura como devassa

Que bóia leve como a cortiça

E tem raízes como a fumaça.

 

 

 

Procura-se um Amigo

 

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.

Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.

Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa.

Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor..

Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.

Deve guardar segredo sem se sacrificar.

 

 

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.

Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.

Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar.

Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.

Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo.

Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.

Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

 

 

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo.

Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância.

Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.

Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

 

 

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.

Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.

Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

 

 

 

Receita de Mulher

 

As muito feias que me perdoem

Mas beleza é fundamental. É preciso

Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture

Em tudo isso (ou então

Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).

Não há meio-termo possível. É preciso

Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito

Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto

Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.

É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche

No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso

Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas

Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços

Alguma coisa além da carne: que se os toque

Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai e dizer-vos

Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro

Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e

Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem

Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então

Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca

Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.

É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos

Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas

No enlaçar de uma cintura semovente.

Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras

É como um rio sem pontes. Indispensável

Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida

A mulher se alteie em cálice, e que seus seios

Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca

E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.

Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral

Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!

Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas

E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem

No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.

É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio

Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)

Preferíveis sem dúvida os pescoços longos

De forma que a cabeça dê por vezes a impressão

De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre

Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos

Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face

Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior

A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras

Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes

E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e

Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão

Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta

Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.

Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos

Ao abri-los ela não mais estará presente

Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá

E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber

O fel da dúvida. Oh, sobretudo

Que ele não perca nunca, não importa em que mundo

Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade

De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma

Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre

O impossível perfume; e destile sempre

O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto

Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina

Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição

Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

 

 

 

Soneto da Separação

 

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

 

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.

 

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.

 

O VERBO NO INFINITO

Vinícius de Moraes

 

Ser criado, gerar-se, transformar

O amor em carne e a carne em amor; nascer

Respira, e chorar, e adormecer

E se nutrir para poder chorar

 

Para poder nutri-se; e despertar

Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir

E começar a amar e então sorrir

E então sorrir para poder chorar.

 

E crescer, e saber, e ser, e haver

E perder, e sofrer, e Ter horror

De ser e amar, e se sentir maldito

 

E esquecer tudo ao vir um novo amor

E viver esse amor até morrer

E ir conjugar o verbo no infinito...

 

 

 

A MULHER QUE PASSA

Vinícius de Moraes

 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa

Seu dorso frio é um campo de lírios

Tem sete cores nos seus cabelos

Sete esperanças na boca fresca!

 

Oh! como és linda, mulher que passas

Que me sacias e suplicias

Dentro das noites, dentro dos dias!

 

Teus sentimentos são poesia

Teus sofrimentos, melancolia.

Teus pelos leves são relva boa

Fresca e macia.

Teus belos braços são cisnes mansos

Longe das vozes da ventania.

 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

 

Como te adoro, mulher que passas

Que vens e passas, que me sacias

Dentro das noites, dentro dos dias!

Por que me faltas, se te procuro?

Por que me odeias quando te juro

Que te perdia se me encontravas

E me concontrava se te perdias?

 

Por que não voltas, mulher que passas?

Por que não enches a minha vida?

Por que não voltas, mulher querida

Sempre perdida, nunca encontrada?

Por que não voltas à minha vida

Para o que sofro não ser desgraça?

 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Eu quero-a agora, sem mais demora

A minha amada mulher que passa!

 

Que fica e passa, que pacífica

Que é tanto pura como devassa

Que bóia leve como a cortiça

E tem raízes como a fumaça.

 

 

 

SONETO DO AMOR TOTAL

Vinícius de Moraes

 

Amo-te tanto, meu amor...não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade

 

Amo-te enfim, de um calmo amor presente,

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e cada instante

 

Amo-te como um bicho, simplismente

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

 

E de te amar assim muito e amiúde

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

 

 

 

Soneto do amor como um rio

 

Este infinito amor de um ano faz

Que é maior do que o tempo e do que tudo

Este amor que é real, e que, contudo

Eu já não cria que existisse mais.

 

Este amor que surgiu insuspeitado

E que dentro do drama fez-se em paz

Este amor que é o túmulo onde jaz

Meu corpo para sempre sepultado.

 

Este amor meu é como um rio; um rio

Noturno, interminável e tardio

A deslizar macio pelo ermo...

 

E que em seu curso sideral me leva

Iluminado de paixão na treva

Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

 

 

 

Soneto da Mulher ao Sol

 

Uma mulher ao sol - eis todo o meu desejo

Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz

A flor dos lábios entreaberta para o beijo

A pele a fulgurar todo o pólen da luz.

 

Uma linda mulher com os seios em repouso

Nua e quente de sol - eis tudo o que eu preciso

O ventre terso, o pêlo úmido, e um sorriso

À flor dos lábios entreabertos para o gozo.

 

Uma mulher ao sol sobre quem me debruce

Em quem beba e a quem morda, com quem me lamente

E que ao se submeter se enfureça e soluce

 

E tente me expelir, e ao me sentir ausente

Me busque novamente - e se deixes a dormir

Quando, pacificado, eu tiver de partir...

 

 

 

Poema de Natal

 

Para isso fomos feitos:

Para lembrar e ser lembrados

Para chorar e fazer chorar

Para enterrar os nossos mortos

Por isso temos braços longos para os adeuses

Mãos para colher o que foi dado

Dedos para cavar a terra.

 

Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer

Uma estrela a se apagar na treva

Um caminho entre dois túmulos -

Por isso precisamos velar

Falar baixo, pisar leve, ver

A noite dormir em silêncio.

 

Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre o berço

Um verso, talvez, de amor

Uma prece por quem se vai -

Mas que essa hora não esqueça

E por ela os nossos corações

Se deixem, graves e simples.

 

Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança do milagre

Para a participação da poesia

Para ver a face da morte -

De repente nunca mais esperaremos..

Hoje a noite é jovem; na morte, apenas

Nascemos, imensamente.

 

 

 

Soneto de devoção

 

Essa mulher que se arremessa, fria

E lúbrica em meus braços, e nos seios

Me arrebata e me beija e balbucia

Versos, votos de amor e nomes feios.

 

Essa mulher, flor de melancolia

Que se ri dos meus pálidos receios

A única entre todas a quem dei

Os carinhos que a nenhuma outra daria.

 

Essa mulher que a cada amor proclama

A miséria e a grandeza de quem ama

E guarda a marca de meus dentes nela.

 

Essa mulher é um mundo! - uma cadela

Talvez... - mas na moldura de uma cama

Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

 

 

 

 

Marcus Vinícius da Cruz de Melo Moraes nasceu em 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro foi um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Formou-se em Direito em 1933, mas não suportou o Fórum por mais de um mês.

Além de poeta, foi músico e diplomata - três carreiras de respeito, três ideais suficientes para ocupar a existência de um homem, mas sempre que se perguntava a Vinícius de Moraes "Quais as três coisas mais importantes da sua vida?, ele respondia tranqüilamente mas com um imperceptível gesto (nas mãos, no olhar) de permanente inquietação:

"Primeiro, mulher; segundo, mulher; e por fim mulher!"

E assim será o poeta para sempre, um eterno apaixonado à procura do "Supremo Impossível, o amor absoluto e a mulher ideal ansiosamente busca-dos em todas as mulheres.

 

OBRAS DO AUTOR:

RESUMO BIOGRÁFICO

DISPONÍVEIS:

O CAMINHO PARA A DISTÂNCIA (Poemas) - 1933

Soneto da Fidelidade

FORMA E EXEGESE (Poemas) - 1935

Amor

ARIANA, A MULHER (Poemas) - 1936

Revolta

NOVOS POEMAS - 1938

Soneto de Separação

CINCO ELEGIAS (Poemas) - 1943

Tarde

POEMAS, SONETOS E BALADAS - 1943

Soneto do Maior Amor

ANTOLOGIA POÉTICA - 1954

Samba em Prelúdio

ORFEU DA CONCEIÇÃO (Teatro) - 1956

Se todos fossem iguais a você

LIVROS DE SONETOS - 1957

NOVOS POEMAS (II) - 1959

PROCURA-SE UMA ROSA (Teatro, em colaboração com Pedro e Gláucio Gil) - 1961

PARA VIVER UM GRANDE AMOR (Crônicas e poemas) - 1978

CORDÉLIA E O PEREGRINO (Teatro) - 1965

PARA UMA MENINA COM UMA FLOR (Crônicas) - 1966

OBRA POÉTICA - 1968

POESIA COMPLETA E PROSA – 1974

Algumas fotos do mestre:

 

 

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