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Percorro sua singularidade - sua verdade. Quantas pessoas já participaram de nossa verdade? Certamente poucas. E que perigo. Enquanto João não tiver testemunhas de suas recordações (e de seus projetos) pode esquece-los; depois, isso já não é possível. Muda de posição, fica pouco à vontade. Acha graça em "estar falando todas essas coisas para um estranho". Sorri, fica novamente calado durante alguns segundos. Também fico quieto. A intimidade entre duas pessoas muitas vezes se expressa nessas pausas. A confiança que João vai depositar em mim nasce nesses episódios. Ele espera que eu percorra seu roteiro, interessado e solidário. Algumas vezes tem medo. Medo da traição, que é tanto mais terrível quanto maior for o contexto da confiança. Pesquisa meus sentimentos. Eu também estava lá, e poderei estar sempre a lembra-lo. João me conferiu um poder enorme, e espera que eu não abuse dele. Como? - Esse ponto lhe sugere alguma coisa? Percebo que você sentiu algo, nessa parte... Muitas coisas, então, podem acontecer. De repente, certo dia, a magia se dá, e o encontro se enche de um significado maior. Um lapso é apontado, um jeito denunciado, um reparo é feito. Configura-se um estado tenso, emocionado. Aparece o sofrimento, não se atina de onde ele surgiu. João está engasgado. Fico quieto. Na desorientação instaurada, João pode vislumbrar aspectos originais de sua vida, talvez como nunca. Mas eu fui testemunha de um lacuna em seu velho jeito. E isto está, agora, definitivamente impresso em sua - em nossa - historia. Pois isso fazemos ali: construímos uma historia. João na minha frente, o mundo de cabeça para baixo. O tempo encurta - mas parece uma eternidade. Mais tarde me dirá: - Pensei que ia desmaiar. Outros caminhos se abriram. A intimidade construída pelo tempo, pela procura do projeto comum. E num dado momento, a percepção de João mudou. Magia? Algo deu-se; e - acrescentemos - deu-se por não ter sido ansiosamente buscado. Se avidamente procuramos, esvai-se. Se pacientemente urdimos as condições para sua manifestação, pode aparecer. João se queixa. Busca algo, ansiosamente. Fala de muitas coisas, mas não se demora em nada. No momento em que chegar lá, fantasia, tudo estará resolvido. Como se a vida dependesse de um momento! João passa em revista fatos e fatos, procurando a causa determinante de si mesmo. Vai às brincadeiras sexuais de meninice, onde (ouviu falar) em geral se localiza o começo de tudo. Hoje aparece forte e humilhante. Como foi, realmente? E se frustra, continuamente. Ele suplica, e espera que eu corresponda às suas suplicas. Vou percorrer uma zona perigosa, na fronteira de sua existência. Preciso confiar na relação até então estabelecida entre nós, abusando novamente dessa confiança. Cultiva-lo, penetrar em sua intimidade, eis nossa tarefa de agora. Agora vou testemunhar uma descoberta. Talvez mesmo descobrir junto com ele muita coisa. Se acabo de conhecer alguém com quem percebo grande afinidade, os mesmos gestos, uma maneira de ser parecida, esse encontro se torna vivo, significativo. Em pouco tempo a intimidade se constela. Não parece que já nos conhecemos há tanto tempo? Não é que o nosso amor mais recente parece sempre o maior deles? João par, e se altera. Está visivelmente incomodado, preocupado, na vizinhança do susto. Está perplexo. Cuidado aqui. Fomos a uma descoberta. Pois descobre: tira o véu de algo antes coberto. E revela: dando sentido ao vivido, cobre os outros sentidos possíveis. João suplicante, João irônico, João agressivo; nessa ordem. A agressão é o ultimo recurso que alguém tem para atingir o outro, e através da reação dele perceber o próprio significado; o único jeito de tocar a experiência do outro, e só há a certeza de tê-lo tocado se ele expressar isto de algum modo, nem que seja por um berro de dor. . - Mas você me ama mesmo? - Amo, já disse. - Meeeesmo? Não sei porque ele acaba sempre brigando comigo. Será que ele não gosta mais de mim? A sensação do contado total, se acontecer, vai se dar no silencio subsequente, e não durará mais que um momento. Já ia muito distante o contato pleno, a emoção compartilhada, o sinal mínimo indicando aproximação máxima, como a intimidade permite. O rapaz vivia a situação com intensidade, a imaginação tecendo a realidade. Comprazia-se com as cenas. E que fez João? Nada. Agora João prolonga o silencio. O sentimento deslizou da barriga para o peito, da duvida para o abandono, da indagação para a vontade de ser acolhido. Pergunto se a mesma idéia lhe ocorre quando ele está com uma mulher. João reage com surpresa, e responde que não. Na presença viva do outro sexo, a idéia é inconcebível. Mas é tão intenso, em João! O eterno aconchego suprime as decisões; as escolhas perdem a razão de ser. O espirito, entorpecido, tem a ilusão do gozo continuo, como se o desejo pudesse ser paralisado no momento mesmo da sua mais radical satisfação. Estar surdo ao chamado do mundo. - Estar completo. Sugiro. João se assusta, volta a olhar para mim, certificando-se da realidade da nossa presença. Sorri, constrangido. Silencia ainda uma vez, embaraçado, sem saber a direção a tomar. Súbito, a seqüência de imagens de um sonho se impõe. O sonho, como uma expressão do inconsciente, põe a mostra os desejos proibidos. Vejamos o que fez João. Curioso! Falou-se de amor e ódio, os afetos mais fortes do homem. Tenho ate vontade de dizer... Mas não posso dize-lo! Pois talvez tivesse de responder a pergunta de João: "Bom, e se não é assim, como é que se faz?" Chega o momento em que ele se volta e pergunta: - Mas por que você está tão quieto? Respondi num tom de brincadeira seria: - Estou contemplando a sua quietude. João cruzou e descruzou as pernas, fez menção de pegar um cigarro, cruzou os braços, desfez a posição e ficou parado, olhado para um pequeno arranhão em seu dedo mínimo. De repente, falou sem tirar os olhos do dedo: - Você não disse nada sobre o meu sonho. Fiz uma pequena pausa. Um curto silencio, para deixa-lo na atmosfera do sonho. Prossigo. Peço a ele para me descrever os sentimentos do sonho. Mantendo o clima, espero que os afetos se apresentem de forma vivida. Era descansado, tranquilo, até um certo desconforto, um impressão estranha insinuar-se. Lembro-me de um filme japonês genial a que assisti há alguns anos atras, "O Império dos Sentidos", de Nagiza Oshima. Os dois protagonistas se envolvem numa intensa paixão sexual. João anseia por uma paixão assim, incondicional, isolada de tudo, caída do céu. Agora o sonho o põe nu, ampliando as direções em que o desejo se ramifica. Os dois pólos, afetivos, tão próximos - amor e ódio - mostram a face. E a João parecem tão distantes, que um deles assume o status de realidade, enquanto ao outro se reserva a fantasia. Assim o sonho pareceu a mim. João está confuso. Agora vou correr um risco calculado. Arrisco. Sei que sexo e agressão sugerem muitas coisas. A sexualidade percorre desde as vilezas até as formas mais sublimes dos encontros humanos; a cada passo dessa extensão tem um colorido diferente. Mas não digo a João as coisas desse modo! Explica-las extensamente poria a perder a atmosfera do momento. A expressão de João vai se alterando aos poucos. A expectativa ansiosa se desvanece. Agora está claramente angustiado. Espero e estimulo. João se sente estranho. No entanto, continuo mantendo a abertura, estimulando o fluxo. Vou cuidando disso, na expectativa de recuperar uma intimidade perdida, a possibilidade de uma aproximação superadora da distancia que atormenta João. Em meio a emoção intensa, a proximidade vai se desenhando. Carinho, ternura, magoa, indiferença, raiva e condescendência vão desfilando, compondo o cenário multicolorido de uma relação humana intensa. As brigas, em si mesmas desagradáveis, perdem sua força terrível. Ele vai lamentar muitas vezes os conflitos de sua época de convivência com um ser, agora, querido. Não é possível saber os significados que João dará, no futuro, à sua própria vida. Confiar nele é que se pode fazer. Frase curiosa! Uma alteração da voz, um silencio antes ou depois da fala, um olhar mais insistente quando usa determinada palavra. E um fenômeno curioso começa a se mostrar. Posso descreve-lo com certa dose de metáfora: João está enfeitiçado. A palavra bem dita faz surgir a intimidade há tanto tempo preparada. Dura talvez alguns segundos, mas permanecerá sempre como possibilidade a ser experimentada. - Você teme que sua namorada também o abandone? João está serio: - Nunca imaginei isso. Pensar nisso é bom, mas também é triste, não é mais possível. . Está agora menos serio. Sorri de um jeito característico, meio triste, introspectivo. Despede-se e sai da sala. Mas não vamos deixar João escapar de nós tão facilmente. Voltaremos a encontra-lo ainda muitas vezes. Foram movimentos feitos num espaço densamente afetivo. Duas pessoas só chegam juntas a tal região numa relação de confiança estabelecida com solidez. E a única via para isso é um relacionamento intimo e prolongado. |
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