A HISTÓRIA DOS
"MENUDOS"
O atual fenômeno dos Menudos é caraterizado pela histeria feminina e adolescente a seus ídolos cantores. São ídolos juvenis que fazem um som pop, comercial, com um refrão feito para ser cantado pelas fãs e com uma estrutura melódica calculada de acordo com as tendências do sucesso.
Só que essa tendência não é recente. Ela guarda origem nos cantores solo dos anos 40 do século XX, como Frank Sinatra. Ele foi o primeiro artista classificado pela mídia como um astro pop, em 1943. Seus ingredientes se tornaram típicos. cantor de aparência atraente, músicas sobre amor com refrão e melodias simples calculadas para o sucesso.
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Sinatra, além disso, era um astro de cinema, uma forma considerada complementar ou complementada pela música, fortalecendo o carisma do astro em questão. Depois de Frank Sinatra, vieram outros cantores e atores na busca do mesmo sucesso entre o público jovem, sobretudo feminino. |
Naquela época o cinema norte-americano, sediado em Hollywood (Los Angeles, California, EUA), um dos maiores complexos cinematográficos do mundo, era a modalidade cultural mais popular mundialmente, e a música era um gancho para a popularidade deste cinema comercial. Muitos desses filmes eram musicais e alguns desses atores cantavam e dançavam e até gravaram discos com alguma regularidade.
Nos anos 50, vieram os grupos vocais como fenômenos juvenis. Grupos vocais sempre existiram, com significativo êxito, mas poucos foram os que fizeram sucesso até então. Um dos mais populares entre os jovens foi o grupo The Platters, um dos precursores do atual pop convencional negro dos EUA. Com um estilo baseado numa releitura comercial do jazz e do blues, adaptadas ao gosto médio dos standards hollywoodianos, The Platters tiveram sucessos como "The great pretender", "Smoke gets in your eyes" e "Only you".
Na década de 60, a histeria feminina teria forte ressonância com um grupo de rock inglês, The Beatles. Apesar de ser um grupo vocal (todos cantavam e faziam coro), seus integrantes eram instrumentistas, compositores e arranjadores, o que fez a banda se tornar muito mais importante do que ídolos adolescentes poderiam sugerir.
No final dos anos 60, mais precisamente 1968, apareceu nos EUA um grupo de irmãos negros, cuja estrutura musical inspiraria os menudos atuais. Eram o Jackson Five, cujo caçula, Michael Jackson, se tornaria um grande astro pop e um ícone funk que fazia frente ao precursor do gênero, James Brown, seja como cantor, compositor e dançarino. |
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O Jackson Five (Jackie, Tito, Jermaine, Marlon e Michael), no entanto, ainda era uma banda, pois os irmãos mais velhos eram instrumentistas e estudavam composição (o grupo ainda não compunha suas próprias músicas). Mais tarde, em 1975, desligados da Motown, o grupo assinou com a CBS (hoje Sony) e ganhou a adesão de mais um irmão, Randy (nos anos 80, uma outra irmã, Janet, iniciaria ascendente carreira-solo, aumentando o sucesso da família; outras irmãs, Latoya e Rebbie, tentaram o mesmo, mas caíram no ostracismo). O grupo dos seis rapazes mudou seu nome para The Jacksons e seus integrantes passaram a compor, se tornando uma banda funk para fazer frente aos grupos setentistas KC & The Sunshine Band e Earth Wind & Fire (também norte-americanos e do elenco da CBS) e ao inglês Kool & The Gang.
O funk autêntico - nada a ver com o miami bass, ritmo confundido com funk devido à assimilação equivocada da fusão entre o funk e a eletrônica lançada por Afrika Bambataa - desenvolveu seu estágio atual a partir de 1973, a princípio vinculada à onda da disco music, com Chic e os grupos acima citados, entre muitos outros. Com o hip hop, o funk se evoluiu nos anos 80, e na carona desta fase, o empresário Maurice Starr criou o grupo vocal New Edition, dos sucessos "Is this the end?" e "Candy girl". O grupo revelou cantores como Johnny Gill e Bobby Brown (este marido da cantora Whitney Houston) e era uma forma de reconstituir o sucesso do Jackson Five, já nos idos de 1983 (época do sucesso do álbum solo do caçula Michael, Thriller). Em 1986, Maurice Starr, animado com o sucesso do New Edition, criou outro grupo similar, só que com rapazes brancos, chamado New Kids On The Block.
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Na verdade, com o New Kids (também conhecido como NKOTB), Maurice Starr juntou duas referências. Uma era o Jackson Five, pelo estilo funk do grupo, já imitado pelo New Edition. Outra era o grupo porto-riquenho Menudo (que revelou, entre outros, Ricky Martin), cujos membros nada faziam senão cantar e dançar (o empresário e alguns produtores compunham e arranjavam todas as canções) e a formação mudava quando um membro completava 16 anos. Este saía do grupo imediatamente e um concurso selecionava seu substituto. |
O Menudo, criado em 1977, foi uma "armação" que deu certo durante poucos anos, num sucesso ocorrido de 1983 a 1986. Beneficiado pela tutela política dos EUA em Porto Rico, o Menudo fez relativo sucesso no país de Tio Sam e estrondoso sucesso na América Latina, do México ao Brasil. Anos depois, denúncias envolvendo os empresários e produtores do grupo em acusações como de assédio sexual aos meninos recrutados contribuíram para o fim do Menudo, nos anos 90.
No entanto, sua fórmula propagou. Com o sucesso dos NKOTB, a Inglaterra lançou em 1987 sua resposta, o grupo Take That. O quinteto fez sucesso mais nos EUA e na Europa, sobretudo Reino Unido, do que no resto do mundo. Só na década de 90, após o auge do Take That, que o grupo ganhou notoriedade mundial. |
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No entanto, quando o Take That começou a virar algo próximo de uma banda, com seus membros compondo em grande escala e tocando instrumentos, foi decretado seu fim, em 1995. Robbie Williams rompeu com o empresário e o resto do grupo, insatisfeito com as pressões exercidas sobre ele. Mais tarde, Robbie se tornou um competente e respeitado compositor e cantor pop, tendo sido, discretamente e por pouquíssimo tempo, instrumentista da banda Oasis, na qual saiu com sérios atritos com o vocalista Liam Gallagher.
Outros membros do Take That, Gary Barlow e Mark Owen, não tiveram a mesma repercussão, embora Owen tivesse sido bem intencionado, tocando guitarra na maior parte das músicas gravadas e tendo trabalhado com o produtor de rock new wave, Craig Leon (Ramones, Blondie, Spy Vs. Spy, Eugenius). E nem o boato de um caso com a estrela Madonna favoreceu a ascensão de Gary Barlow.
Depois do Take That, os grupos de menudos só voltariam a acontecer em 1997. Mais próximos da virilidade pós-adolescente do NKOTB do que da ingenuidade cafona e andrógina do Menudo, os novos grupos impuseram novos valores: a musculação, o cultivo ocasional de uma "barba por fazer", um bigode ou uma barbicha, alguns escândalos (como mais tarde o reativado New Edition, com seus integrantes já musculosos e dados a aprontar das suas) e posturas politicamente corretas, daí, por exemplo, a auto-denominação de "bandas", mesmo quando seus membros não tocam um instrumento sequer. Esta é uma estatégia para atribuir a esses conjuntos pop o mesmo universo idólatra dos grupos de rock, famosos pela apreciada concepção de "bandas", o que é apropriado para esses grupos (que são formados por músicos autênticos), mas não para a maioria dos grupos teen, que se autodenominam "bandas" sem qualquer razão.
E aí vieram Backstreet Boys, N'Sync, 98º, Another Level, Westlife, Boyzone, Five, Taxiride, entre outros. Cantores solo como Ricky Martin (ex-Menudo), os Iglesias (Julio Iglesias Jr., Javier e Enrique, todos filhos do famoso cantor romântico espanhol) e Bosson pegaram carona no carisma desses ídolos em grupo. Respostas femininas como os grupos Spice Girls, All Saints e Destiny's Child e cantoras como Britney Spears, Christina Agüilera, Jessica Simpson e tantas outras também vieram. E a histeria adolescente, para a qual nenhum conhecimento sobre música se leva em conta, só se preocupa com a "intimidade" e o "perfil" de cada integrante, enquanto o oportunismo da indústria musical e a burrice da imprensa corrente garantem o título de "bandas" e o crédito de "músicos" a esses grupos que, para tais condições, são meramente ociosos e inoperantes.