Trabalhismo e Socialismo por Darcy Ribeiro
Foi a presença dessas grandes lideranças comunistas que possibilitou a ascensão de uma esquerda trabalhista operária, cuja principal figura foi Clodsmith Riani, que derrubou a figura simbólica do pelego Diocleciano de Holanda Cavalcante — que só andava de Cadillac com chofer —, tomando dele a direção da Confederação dos Trabalhadores da Indústria.

Essa aliança fecunda com os trabalhistas não permitiu nunca que os comunistas identificassem no trabalhismo de Jango a via pacífica que eles pregavam.  Consideravam-na um mero desvio histórico, porque tal via só se efetivaria sob a sonhada hegemonia operária.  Isso significa que trabalhavam juntos, cooperavam conosco, mas sempre com a reserva de que sua revolução era outra.  Tinham razão.  De fato era.

Nesse quadro, passei a ver o socialismo como progressão do trabalhismo através da incorporação do campesinato ao sistema econômico e político brasileiro pela reforma agrária e através do controle das multinacionais.  Esse é o caminho brasileiro da revolução social.  Não uma revolução cerebrinamente socialista, mas concretamente socialista, porque pós-capitalista, pela impotência do capitalismo para promover uma prosperidade generalizável.

Tratava-se de levar à frente a Revolução de 1930, criando um governo nacionalista, capaz de enfrentar o estrangulamento imperialista.  Um governo vinculado aos sindicatos, capaz de mobilizá-lo para os grandes atos de massa. (...) Essa era também a visão de Jango, expressa quando ele se permitiu falar de socialismo e revolução e proposta objetivamente em sua última mensagem presidencial como o "caminho brasileiro" para a revolução social. 

Foi com essa visão do mundo e do Brasil que eu assumi a chefia da Casa Civil para administrar o governo e coordenar a campanha pelas reformas de base.  Conseguimos desencadear o mais amplo e profundo movimento reformista da história brasileira, atraindo para ele quase todas as esquerdas não radicais e toda a intelectualidade brasileira. 

Sem um golpe militar articulado em Washington, realizado pelos militares mais reacionários e pelos três governadores hostis, teríamos alcançado as reformas que viabilizariam o Brasil.  Elas aí estão como tarefa do futuro. Nesse movimento pelas reformas, o Partido Trabalhista Brasileiro viveu seu amadurecimento interno em interação constante com Jango, promovido por lideranças políticas vigorosas, como a do "grupo compacto", liderado por Almino Affonso, Sérgio Magalhães, Temperani Pereira, Bocaiúva Cunha, Rubens Paiva, Doutel de Andrade, Benedito Cerqueira, José Gomes Talarico e muitos outros políticos de esquerda.  E, por outro lado, pela liderança combativa de Brizola e seus aliados, que empurravam o partido para os enfrentamentos que se ofereciam, seguros de que só na marra se venceria a direita, o que não correspondia aos pendores de Jango.

Na presidência, Jango sempre se viu colocado entre essas correntes opostas, que o puxavam para a esquerda, e a realidade de seu apoio sindical e popular, que não admitia esquerdismos nem aventureirismos. 

Seu projeto era impor aos antigos donos da máquina política brasileira, extremamente reacionária, um partido de esquerda e de massas que, pelo seu poderio eleitoral, pudesse liderar e impor as reformas de base dentro da democracia, para assegurar uma vida melhor ao povo brasileiro.  Era impor à direita a democracia, a representação eleitoral, o voto popular maciço para transfigurar o Brasil.

Graças à sua extraordinária habilidade política, Jango fez crescer o trabalhismo, atrelando a ele quem pudesse atrair de todos os estados, inclusive reacionários.  Mas manteve firmemente a condução do trabalhismo, ciumentíssimo de quem ousasse desafiá-lo nesse campo com pretensões de comando. 

Sob sua liderança, o trabalhismo alcançou conquistas sociais só comparáveis às que se deve a Getúlio Vargas.  Repeliu, porém, qualquer aventureirismo ou golpismo, mesmo porque seu orgulho maior era impor as reformas sociais indispensáveis ao Brasil, conquistando-as pela ação política e pela persuasão. Essa postura democrática, louvável em tempos comuns, ficava insuficiente quando se pretendia implantar transformações claramente opostas aos interesses internos do latifúndio e aos externos das multinacionais. 
Havia, a certa altura de nossa atuação no governo, dois desafios, que se agudizavam cada vez mais, exigindo ação política e também alguma estruturação para enfrentamentos maiores.  O desafio de ganhar as esquerdas para as reformas de base como projeto próprio da revolução brasileira, apoiado pela população, inclusive pelas esquerdas radicais, que queriam mais.

Uma das dores que mais me doeram naqueles tempos era a de ver a intelectualidade cheia de dúvidas quanto ao programa de reformas que a direita execrava como a revolução sindical comunista, absolutamente inadmissível.  Todos tinham a cabeça feita pela ideologia comunista, que só admitia como revolução social a de forma soviética ou cubana.

O socialismo é a garantia de desenvolvimento econômico, político e social para as maiorias nacionais dos países dependentes, porque é o sistema que garante a eliminação da exploração dos trabalhadores e a conseqüente eliminação da pobreza e miséria.

"O trabalhismo é o caminho brasileiro para a construção de uma sociedade democrática e socialista".

(Darcy Ribeiro, Confissões)
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