Ana Catarina

 

Fig.1. Abstracto

 

 

Fig.2. Primavera

 

Fig.3. Festa.1999

 

A MAGIA DA ARTE INFANTIL

  «Antes eu desenhava como Rafael,mas precisei de toda uma existência para aprender a desenhar como as crianças.»

Picasso

"Fiquei em certa ocasião encantado com uma visão inesperada no meu ateliê. Era àquela hora em que o crepúsculo avança. Regressava a casa com a minha caixa de tintas...e subitamente vi um quadro incrivelmente belo, banhado por cores interiores. Primeiro, fiquei parado, mas depois aproximei-me rapidamente deste quadro misterioso, no qual apenas discernia formas e cores e cujo conteúdo me era incompreensível. Logo encontrei a chave do enigma: era um quadro meu, encostado de lado contra a parede."

Kandinsky

 

«Ao final do seu primeiro ano de vida, a criança já é capaz de manter ritmos regulares e produzir seus primeiros traços gráficos, fase conhecida como dos rabiscos ou garatujas ( termo utilizado por Viktor Lowenfeld para nomear os rabiscos produzidos pela criança).» (1) Os primeiros rabiscos da criança, estão aí: as varredura rítmicas (fig.1).Durante muito tempo estes traços em vaivém, não figurativos ou pré-figurativos(quando se desdobram em algumas formas) encontravam-se desviados da produção plástica. Faltava o objecto, o tema concreto: as mãos, o pássaro, a árvore, a flor, a lua, o sol, o rio, a serra, a casa, a nuvem, o pai, a mãe. Mas a revolução na arte verificada no início do século XX veio pôr em cena a liberdade de composição. A criança através dos seus impulsos interiores produz arte, aventura-se num acto criador: a pressão da mão sobre o suporte (dura ou macia), a expressão do rosto (alegre ou triste) e a escolha das cores deixam transparecer emoções e representam cenas vividas e fechadas numa linguagem mágica e primitiva. Mais tarde, aos sete anos, a Catarina não hesitou em dar o título a um desses quadros de garatujas: raios solares. Seria o deslumbramento pela luz, a sua grande motivação? O brilho dos olhos e a leveza do traço só nos podem revelar um instante de harmonia. O mistério só permanece porque não é possível sondar e estabelecer a relação íntima do objecto com o sujeito.

«Na evolução da garatuja para o desenho de formas mais estruturadas (fig.2 e 3) a criança desenvolve a intenção de elaborar imagens no fazer artístico. Começando com símbolos muito simples, ela passa a articulá-los no espaço bidimensional do papel, na areia, na parede ou em qualquer outra superfície. Passa também a constatar a regularidade nos desenhos presentes no meio ambiente e nos trabalhos aos quais ela tem acesso, incorporando esse conhecimento em suas próprias produções. No início, a criança trabalha sobre a hipótese de que o desenho serve para imprimir tudo o que ela sabe sobre o mundo. No decorrer da simbolização, a criança incorpora progressivamente regularidades ou códigos de representação das imagens do entorno, passando a considerar a hipótese de que o desenho serve para imprimir o que se vê.É assim que, por meio do desenho, a criança cria e recria individualmente formas expressivas, integrando percepção, imaginação, reflexão e sensibilidade, que podem então ser apropriadas pelas leituras simbólicas de outras crianças e adultos.» (2)

Luís Dantas

(1) Thereza Bordoni.

(2) Thereza Bordoni.

Teresa Bordoni é Mestre em Políticas Educacionais, consultora e palestrante em Educação. Directora da A&B Consultoria e Desenvolvimento.
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