-------------------

Principal

Histórico no mundo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em sua passagem meteórica pela terra, Jesus, o fundador da empresa cristã, utilizou muito bem as ferramentas de comunicação disponíveis, como analisa Kater Filho, consultor de marketing utilizado por instituições católicas.

Para falar às multidões, ele subia às montanhas e usava o eco de sua voz para que um maior número de pessoas pudesse ouvi-la. Também escolhia o local em que praticaria os milagres. Fazia suas curas estrategicamente em cidades onde havia uma grande fluxo de viajantes. As pessoas que iam até as cidades para trocar produtos ou participar de festas voltavam para suas regiões levavam a notícia de que a boa nova estava acontecendo.

Sabia despertar em seus colaboradores ou discípulos o ardor missionário, ou, como diriam os homens de marketing de hoje, sabia motivar seus colaboradores para que fossem “por todo o mundo e pregassem o Evangelho a toda criatura”. De forma simples, introduziu o conceito do Marketing boca a boca, presente nas diversas religiões até hoje.

Se o marketing preocupa-se com as necessidades das pessoas, Jesus mostrava preocupação não só com as físicas, com a multiplicação dos pães e cura dos doentes. Demonstrava interesse também com as necessidades espirituais, quando apresentava um Deus menos punitivo como o do judaísmo, mas de uma maneira que tocava as pessoas. Ele fez um reposicionamento do Divino no mercado, adotando uma nova estratégia de marketing.

Os primeiros cristãos continuaram na tradição embasados nos novos conceitos de caridade e divisão dos bens entre os fiéis. Como diz a Bíblia: “Perseveraram eles na doutrina dos apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão e nas orações (...). Todos os fiéis viviam unidos e tinha tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um.”[1]. “O americano Rodney Stark (...) explica o fenômeno do crescimento vertiginoso do cristianismo, que passou de 1.000 devotos no ano 40 para mais de 30 milhões três séculos depois. De acordo com Stark, uma epidemia, provavelmente de varíola, que matou um terço da população do Império Romano por volta do ano 165, foi a tábua de salvação do cristianismo. Entregues à própria sorte diante da calamidade, sem poder contar com o Estado que não se ocupava dessas coisas, os romanos pagãos ficaram maravilhados com a atitude dos cristãos que se encarregaram de cuidar das vítimas sem espera de recompensa. ‘A nova fé deu melhores explicações à sociedade, os valores de amor e caridade serviram melhor na atenção aos desvalidos’, escreveu Stark num outro livro, The Rise of Christianity (O Crescimento da Cristandade). Foi a revolucionária atitude de solidariedade do cristianismo primitivo que lhe arrebanhou seguidores”.[2]

O boca-a-boca atraia cada vez mais clientes fieis, e a força com que os comunicadores discípulos divulgavam o produto boa nova fazia com que todos tivessem atitudes que iam de encontro às necessidades do povo. Foram eleitos representantes internacionais que partiram para divulgar e “pregar o evangelho a toda criatura”, como dizia o fundador desse império divino. Não foram poucas as dificuldades. Muitos não tiveram sucesso, outros morreram por sua causa, mas sabendo que lutavam por algo maior, e chegar a morte era como chegar a um ideal de vida, muito mais do que conquistar um sonho de consumo.

O império cresceu e tornou-se multinacional. Um líder de mercado. O maior do mundo. Passou a ter maus administradores, que já não trabalhavam seguindo os objetivos primitivos da pequena empresa embrionária. Alguns trabalhavam em benefício próprio. Mas ainda atraiam as multidões.

"É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no reino dos céus", disse o Cristo dos Evangelhos, que não pregou para reis e rainhas, mas para os marginalizados e despossuídos. Representação mágica de um povo oprimido por um império descomunal, dez séculos depois ele havia-se transformado no rei de reis e rainhas. Os templos erguidos em sua honra forravam-se de ouro, e para os pobres restava só o consolo da misteriosa negação cristã: “Meu reino não é deste mundo”.

Possuíam, como possuem ainda, um logotipo tão bom quanto simples: a cruz, que diz tudo, e é muito fácil de ser reproduzido, sendo facilmente identificável por qualquer cultura. A Igreja criou um dos primeiros veículos de comunicação de massa da história, que é o sino, em uma época em não havia sequer um megafone. Os padres, nomeados pelos discípulos, mandavam erguer torres e criavam códigos. Três badaladas rápidas significavam que o padre estava chamando para uma reunião religiosa, ou a missa. Badaladas lentas avisavam as mortes. Essa comunicação se estendia por um raio de vários quilômetros. Os primeiros outdoors foram as torres das igrejas. Quando se entrava em uma cidade, o que se via primeiro era a torre, que virava um ponto de referência para a população.

Tudo isso sem contar que nas artes e na música a Igreja, nos séculos passados, foi a instituição de vanguarda que atraía para si, no intuito de servir a seus propósitos de Evangelização, os renomados pintores, os bons compositores, os músicos imortais, enfim todos os grandes artistas que nos legaram um vasto e incomensurável patrimônio artístico cultural.

Segundo Kater Filho, a confissão funcionava como uma ótima pesquisa qualitativa. O padre conhecia os problemas e os anseios dos seus fiéis e oferecia soluções durante as missas dos domingos, com passagens retiradas do Evangelho. “Não era a toda que dizia-se que os padres tocavam o coração das pessoas”, diz Kater, eles realmente sabiam o se passava dentro deles.

Crises e difusão da fé

As pesquisas das últimas décadas mostram como a pequena seita judaica criada por Jesus conseguiu sobreviver de maneira surpreendente à guerra de 66-70 d.C., em que os romanos praticamente massacraram os judeus. Isso ocorreu por obra de um homem que havia sido um implacável perseguidor desse povo convertido: o apóstolo Paulo, nascido em uma família israelita de Tarso, na atual Turquia, com o nome de Saulo. Segundo os Atos dos Apóstolos, após presenciar de forma cúmplice o apedrejamento de Estevão em Jerusalém, Saulo "devastou a Igreja: entrando pelas casas arrancava homens e mulheres e metia-os na prisão".

Isso ocorreu até que, em uma viagem a Damasco, Jesus teria aparecido após uma luz intensa vinda do céu tê-lo cegado, fazendo-o cair no chão. Depois da visão, ele deixa de lado o nome judaico e passa a se chamar Paulo, da língua do Império Romano, o latim. E começa sua missão com os gentios (não-judeus) em viagens a Chipre, à Ásia Menor e à Grécia.

Ruptura entre facções

No ano 48 d.C. , realiza-se o Concílio de Jerusalém. Nessa reunião, Paulo conseguiu convencer Tiago, irmão de Jesus e líder da seita que continuou na Palestina após a crucificação, a permitir que pagãos convertidos fossem dispensados de seguir a Lei judaica, que estabelecia, entre outras obrigações, a circuncisão e os princípios de seleção e preparação de alimentos. Paulo prossegue com sua missão, mas a doutrina pregada por ele já não era a mesma da Igreja de Jerusalém.

Para Tiago e seus seguidores, Jesus era o Messias, que teria vindo ao mundo para livrar o povo judeu da opressão. Era o escolhido para implantar o Reino de Deus, isto é, governar Israel conforme a Lei. Paulo, porém, apresentava Jesus sob o nome grego Cristo, cujo significado era o mesmo de Messias em hebraico: "Ungido". O Cristo anunciado por ele era o Filho de Deus. Tiago e os outros apóstolos o tinham conhecido em vida, mas Paulo alegava ter visto o Cristo celestial. Em sua Primeira Epístola aos Coríntios (15,8), ele se declara como o último dos que viram o Filho de Deus ressuscitado. Paulo ensina que o cristão é livre do pecado pelo seu amor a Cristo e que a Lei era obsoleta. "Vamos pecar porque não estamos mais debaixo da Lei mas sob a graça? De modo algum!" (Romanos, 6,15).

As desconfianças se agravam. Paulo faz uma violenta acusação na Epístola aos Gálatas (2,4) aos "falsos irmãos que se infiltraram para espiar a liberdade que temos em Cristo Jesus, a fim de nos reduzir à escravidão". Ele segue para um encontro com Tiago em Jerusalém, possivelmente no ano 58. Reconhecido no Templo como aquele que pregava o abandono da Lei, é ameaçado de morte, apela para sua cidadania romana e escapa do linchamento ao ser preso pelos soldados. Tiago é morto por apedrejamento quatro anos depois. Paulo é decapitado em Roma depois por ordem de Nero. Mas o mundo conhecerá somente o Cristo de Paulo.

O Cristo celestial de Paulo obscurece o Jesus histórico, cresce com o Império Romano e se expande para o mundo

Segundo o que se conhece sobre aqueles tempos turbulentos, a Igreja cristã de Jerusalém praticamente morreu com o massacre comandado por Tito no ano 70. Tiago e seus seguidores teriam sido judeus de origem humilde, talvez com modesta formação intelectual, afirma Robert Eisenman, diretor do Instituto de Estudos das Origens Judaico-Cristãs, da Universidade do Sul da Califórnia, em Long Beach, nos EUA. O sofisticado Paulo, ao contrário, tivera sólida formação na cultura greco-romana e preparou o caminho para que a expansão cristã pudesse prosseguir após sua morte. "Além de fazer uma peregrinação missionária original, criando vínculos em cidades importantes, ele soube escolher pessoas para multiplicar seu trabalho", afirma o teólogo Fernando Altemeyer Júnior. "Se fosse nos dias de hoje, ele usaria a internet." Paulo permaneceu 18 meses em Corinto, na Grécia, pregando aos trabalhadores do porto e marinheiros, que passaram a difundir sua mensagem. "Paulo enxergava a direção que tomava o mundo e agiu para fazer o cristianismo crescer no futuro", diz o teólogo Hermínio Andrés Torices.

A intuição do apóstolo faz com que ele apresente a fé cristã com uma dramatização comovente e arrebatadora para os homens de um mundo sob domínio político opressivo. Paulo, que conhecera os filósofos estóicos, como o romano Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.), cria uma doutrina semelhante em alguns aspectos ao pensamento deles. O estoicismo, que esvaziava da filosofia o conteúdo político em favor da moral e da realização subjetiva, surgira a partir da perda da liberdade política das cidades-estado gregas para os conquistadores macedônios no século 4 a.C. A liberdade do cristão, diz Paulo, é a salvação obtida somente por meio da fé e do amor em Cristo.

Traição aos judeus

Para os judeus seguidores de Jesus, no entanto, política e religião eram uma coisa só. Diante da ameaça de serem massacrados pelos romanos, eles consideravam o cristianismo de Paulo como uma traição. Entre os círculos judaicos mais radicais a Roma, ele chegou a ser apontado em sua época como um herodiano, segundo Robert Eisenman em seu artigo "Paul as a Herodian", publicado em 1996 no Journal of Higher Critical Studies. Eram assim chamados, em alusão a Herodes e sua família, todos aqueles considerados cúmplices da dominação romana e de seus governantes fantoches por usufruírem benefícios ou simplesmente por não adotarem uma atitude contrária, de acordo com Eisenman.

Além de não se opor aos dominadores, o cristianismo teria desvirtuado a imagem de facções judaicas, como o farisaísmo, que apregoava a rigorosa observação da Lei, e criticava tanto os saduceus, cúmplices dos romanos, como os zelotas, que pegavam em armas contra eles. "Na tradição cristã, a palavra ‘fariseu’ tornou-se sinônimo de ‘hipócrita’, ou se aplica àqueles que se atêm a minúcias sem atender ao que importa", diz Winter.

Outros pesquisadores, como Geza Vermes, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, vão mais além na crítica às origens cristãs. "No relato de João da vida de Jesus, eles (os judeus) são um bando sedento de sangue que desde o início procurou matá-lo e não desistiu até ter sucesso em seus planos nefandos", diz Vermes no livro A Religião de Jesus, o Judeu. "Eis a origem da tendência cristã de demonizar os judeus, a origem do antijudaísmo religioso, tanto moderno quanto medieval, que direta ou indiretamente conduz ao Holocausto."

Exageros nas críticas

Embora não discordem dessas afirmações, muitos estudiosos esclarecem que é preciso cautela para evitar uma injusta redução da obra de Paulo. Alguns historiadores, como Hyam Maccoby, da Universidade de Leeds, na Inglaterra, afirmam em várias obras que ele fez um trabalho sistemático de construir uma religião conveniente para o momento, e o responsabiliza pelos evangelhos oficiais. "Isso é um exagero. Paulo é quem mais fala da cruz romana como uma garantia histórica do personagem que foi o filho de José", diz Altemeyer. "Em cada uma de suas cartas ele tratou de assuntos específicos, sendo sempre muito enfático com o tema central", afirma Ana Flora Anderson, professora da Escola Dominicana de Teologia, em São Paulo. "Por isso, não é justo fazer conclusões gerais e sintéticas da obra paulina."

Apesar de todas essas críticas, o Novo Testamento continua sendo a fonte mais rica e mais detalhada das origens cristãs. Mas, felizmente, o cristianismo passou nos últimos 50 anos, a partir de João 23, a rever seus procedimentos no dia-a-dia. "As barreiras de desconfiança mútua se dissolveram. Nunca houve tantos encontros oficiais de católicos com a comunidade judaica visando caminhar para uma verdadeira fraternidade", diz o rabino Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, em São Paulo. "Esse é um caminho para valer, sem volta."

A Igreja passou por várias crises, onde mostrou seu poder, por vezes, pela força, pela tentativa de controle de difusão de idéias e valores coerentes com o ideário secular da instituição. Passou a ensaiar o controle moral sobre a opinião pública e, finalmente, à elaboração de doutrinas específicas sobre o relacionamento que tinha com seu públuico, já em meados do século XX. Isto pode ser observado inclusive, na expansão da Igreja Católica no Brasil, como veremos na seqüência.

Topo

[1] Bíblia Sagrada - (At.2, 42-46)

[2] Revista Veja, 15 de Dezembro de 1999.

CONVERSANDO ::::: INTRODUÇÃO ::::: MUNDO ::::: BRASIL ::::: LIBERTAÇÃO ::::: CARISMÁTICOS

PAPA ::::: INTERNET ::::: CONCLUSÃO ::::: EMPRESA ::::: BIBLIOGRAFIA ::::: CURRÍCULO

marketingfe@uol.com.br