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Um povo que acredita

Revista VEJA (Edição 1731)

Pesquisa mostra que os brasileiros são
religiosos, crêem em Deus e esperam
passar a eternidade no paraíso

Jaime Klintowitz

No início do século XX, acreditava-se que quanto mais o mundo absorvesse ciência e erudição menor seria o papel da religião. De lá para cá, a tecnologia moderna se tornou parte essencial do cotidiano da maioria dos habitantes do planeta e permitiu que até os mais pobres tenham um grau de informação inimaginável 100 anos atrás. Apesar de todas essas mudanças, no início do século XXI o mundo continua inesperadamente místico. O fenômeno é global e no Brasil atinge patamares impressionantes. Em resposta à pergunta "Você acredita em Deus?", feita em pesquisa encomendada por VEJA ao instituto Vox Populi, 99% dos entrevistados responderam "sim". Trata-se de uma maioria acachapante, de desarmar qualquer ceticismo em relação à religiosidade dos brasileiros. Aqueles que têm por verdadeira a existência do paraíso, onde depois da morte as pessoas desfrutariam a vida eterna ao lado de Deus, são igualmente numerosos: 83%. Ou seja, os brasileiros não apenas crêem em Deus como a maioria conta compartilhar com Ele a eternidade.

O Brasil sempre foi um laboratório fantástico para estudos sobre religião. Maior país católico do mundo, ele ainda concentra dezenas de outras crenças, de origens tão diversas como cultos de raízes africanas e o espiritismo do francês Alan Kardec. Até os anos 50, a fé romana era monolítica e quem admitia não ser católico de certo modo se excluía da sociedade e até da intelectualidade, já que muito da educação estava nas mãos de religiosos. O cenário atual é inteiramente diferente. O rebanho católico ainda desfruta confortável maioria, estimada em 80%, mas vem sendo ceifado pelo crescimento acelerado das igrejas protestantes. Calcula-se que os evangélicos no Brasil, entre protestantes tradicionais e pentecostais, cheguem a 22 milhões, o que representa 13% da população. Quase o dobro dos 13 milhões registrados no censo de 1991.

Há ainda um novo fenômeno que começa a ser captado pelas pesquisas e está chamando a atenção dos estudiosos do assunto no Brasil e no exterior. Boa parte dos fiéis está olhando para a religião como se estivesse diante de uma prateleira de supermercado. Empurrando seu carrinho, a pessoa escolhe os itens que mais lhe agradam entre os oferecidos. Assim, é comum ver alguém que se diz católico fazer três desejos ao colocar uma fitinha do Senhor do Bonfim e ainda freqüentar um centro espírita. Ou um judeu reavaliar sua espiritualidade percorrendo o caminho de Santiago de Compostela, de tradição católica, como fez em 1999 o executivo Herbert Steinberg, vice-presidente de RH do banco Santander. Muitas pessoas dizem ser católicas porque se sentem assim, embora não freqüentem a igreja. Os praticantes do candomblé quase que invariavelmente têm fé nos santos do catolicismo. Nos casos mais extremos desse fenômeno, as pessoas criam a própria religião, através da qual mantêm um contato sem intermediários com o divino. Nas pesquisas, esse grupo dos sem religião definida é um dos que mais crescem no Brasil, ao lado daquele dos pentecostais e do movimento de Renovação Carismática da Igreja Católica.

Segundo o levantamento do Vox Populi, 96% dos evangélicos acreditam que serão recompensados com a vida eterna no paraíso. Entre os católicos, 84% das pessoas têm a mesma expectativa. As proporções são elevadas para um mundo que parece viver só para valores mundanos. Mais surpreendente, no entanto, é que também acreditem na vida eterna ao lado de Deus sete de cada dez dos entrevistados pelo Vox Populi que se declaram sem religião – aqueles que crêem em forças transcendentais, mas não praticam nenhum dos credos formalmente estabelecidos. De modo geral, as religiões cristãs restringem o ingresso no céu àqueles que se mostraram fiéis a seus mandamentos. Apesar de não contar com o aval de uma confissão estabelecida, 18% dos brasileiros sem religião estão confiantes em que ao morrer irão diretamente para o céu. A enquete foi realizada com base em 1.017 entrevistas efetuadas por telefone entre a população adulta de 184 municípios em todas as regiões do país. Além da diversidade regional, a pesquisa reflete a variedade de rendimentos, escolaridade e filiação religiosa dos brasileiros. Essa abrangência permite um mergulho inédito, e um tanto intrigante, num universo que vem sendo estudado com crescente rigor científico.

A religiosidade do brasileiro é cheia de surpresa. A diferença de classe social, por exemplo, tem escasso reflexo sobre algumas crenças. A certeza de que há recompensa ou castigo após a morte é compartilhada na mesma proporção (em torno de 70%) de alto a baixo da pirâmide social. Não há sobressaltos também quando a religiosidade é analisada sob o filtro da idade ou escolaridade. A história muda de figura no que se refere à vida eterna. Seria natural que os mais pobres e menos letrados depositassem maior esperança na outra vida, na qual as diferenças sociais e econômicas perdessem importância. Pois ocorre o inverso. Para 70% dos brasileiros de classe média e escolaridade superior existe, sim, vida após a morte. Entre aqueles com renda até cinco salários mínimos e pouca instrução, o número cai abaixo de 60%.

Os brasileiros estão divididos no que diz respeito ao diabo. Apenas metade da população acredita na existência do demônio e, aqui, os pobres, especialmente os evangélicos, estão mais convencidos de que existe mesmo o Satanás. A explicação está no fato de que no culto evangélico o demônio é tratado como uma realidade concreta, que precisa ser exorcizado pelo pastor. Feitas as contas, a quase totalidade dos brasileiros crê em Deus, enquanto somente a metade da população acredita no diabo. É uma mudança significativa. Apenas meio século atrás, as pessoas acreditavam com a mesma intensidade no Bem e no Mal. Hoje, as pessoas crêem sem vacilar no Bem. Já o Mal por assim dizer perdeu grande parte de sua credibilidade. É interessante que isso ocorra naturalmente entre a população, já que a mesma coisa acontece de maneira muito mais refletida na alta hierarquia católica. Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica retirou discretamente de seus ensinamentos as terríveis histórias de punição após a morte. Há dois anos, o papa João Paulo II decidiu que o inferno não é um lugar físico, onde as pessoas seriam cozidas em fogo eterno, como se apregoou durante séculos, mas um "estado da alma", em que o sofrimento do pecador seria causado não mais pelas chamas, e sim pela ausência de Deus. A edição em português do Catecismo da Igreja Católica, que é o código de conduta e de princípios da Santa Sé, tem 734 páginas. De seus 2.865 parágrafos, só seis são dedicados ao inferno, três ao purgatório e onze ao paraíso.

De onde vem tudo isso? O sentido do sagrado é uma das coisas que diferenciam o homem do animal. Talvez até tenha sido mais importante que o uso da mão e da fala, duas habilidades que nos fazem únicos entre os animais. Em algum momento, ainda na Idade do Gelo, o homem começou a tomar consciência de que vivia e, portanto, morria. Como é o único animal que sabe que vai morrer, teme a morte. Foi o início das religiões. "Ao que parece, criar deuses foi uma coisa que os seres humanos sempre fizeram", escreveu a historiadora inglesa Karen Armstrong, em Uma História de Deus. As manifestações religiosas da pré-história estão por toda parte. As pinturas nas cavernas, algumas ainda visíveis depois de 25.000 anos, foram tentativas de o homem primitivo expressar o encantamento e ligar a própria vida aos mistérios do sobrenatural.

A vida em condições primitivas era obviamente frágil e assombrada pela mortalidade, mas, se homens e mulheres imitassem as ações dos deuses, dividiriam de alguma forma seu poder sobre a natureza. Foram então cunhados os rudimentos da ética. O homem precisou dela para livrar-se dos resquícios do bestialismo, como o incesto e o canibalismo, e poder viver em comunidades maiores. No período entre 800 e 200 a.C., durante uma era de prosperidade, construção de cidades e efervescência intelectual, todas as regiões do mundo civilizado, mesmo as que não tinham contato entre si, como China e Europa, criaram ideologias religiosas que estão na origem das crenças modernas. Apesar da passagem do tempo e da sofisticação da teologia, os fiéis modernos esperam da fé respostas às mesmas perguntas feitas por seus ancestrais das cavernas: qual o sentido da existência humana? O que vem depois da morte? Como devo me comportar para ser aceito pelas forças do sobrenatural?

O desafio de cada denominação religiosa é como se tornar interessante para o fiel na resposta que preparou para as indagações transcendentais que atormentam a humanidade há milênios. Há dois ramos no Brasil que estão fazendo isso de forma espetacular. São eles as seitas pentecostais e o Movimento de Renovação Carismática. Não há fenômeno que se compare à conversão nos últimos dez anos de 9 milhões de brasileiros às mais de 100 denominações pentecostais que existem no país. O sociólogo Ricardo Mariano, da Universidade de São Paulo (USP), que estuda o assunto, calcula que, mantida a taxa de crescimento das últimas duas décadas, os pentecostais conquistem 1 milhão de adeptos a cada ano. O maior país católico é também o terceiro do mundo em número de protestantes, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. No início, o rebanho era recrutado nas periferias, entre os mais pobres. Não é mais. Seitas que misturam glamour e gospel, como a Renascer em Cristo, reúnem endinheirados em bairros chiques.

Dentro da Igreja Católica também há um ramal "evangélico", o Movimento de Renovação Carismática, que pretende "reenergizar" o catolicismo. Inspirada nos televangelistas da televisão americana, a Renovação chegou ao Brasil no início dos anos 70 e na última década se converteu em fenômeno de massa. Embalada na performance eletrizante e nas megamissas do padre Marcelo Rossi, reúne com facilidade multidões com centenas de milhares de pessoas. Há dois meses, na comemoração do dia de Nossa Senhora de Aparecida no Aterro da Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, compareceram 600.000 fiéis. A Igreja Católica estimava o número de carismáticos em 4 milhões em 1994 e hoje acredita que ultrapassem 10 milhões. Os carismáticos cantam, dançam, agitam lenços, cultuam o Espírito Santo e dão muito mais ênfase à cura e ao milagre.

Um dos paradoxos do mundo atual é o sucesso das religiões que apelam às emoções. Por que ocorre isso na época da clonagem e da internet? O antropólogo Otávio Velho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acredita que a religião é um dos únicos terrenos legítimos em que o sujeito pode ter sensações e experiências que destoam de seu cotidiano. Pode gritar, sair de si, chorar, cantar e, em alguns casos, ser exorcizado. "O importante é que a modernidade e esse tipo de religião não são excludentes", diz o antropólogo. "O sujeito pode trabalhar o dia todo em frente ao computador e freqüentar a igreja à noite."

É preciso considerar os números de religiosos no Brasil com certo relativismo. No censo de 1991, 83,3% dos brasileiros se declararam católicos, quando na verdade muitos deles dão pouca atenção à religião formal. Foram batizados no catolicismo e voltaram à Igreja para celebrar o casamento e batizar os próprios filhos. No restante do tempo, deixam-se levar por rituais do candomblé, pelo espiritismo kardecista ou pelo último modismo místico, sejam cristais mágicos, sejam mantras hinduístas. Essa é a realidade brasileira, muito influenciada pelo sincretismo religioso.

Apesar de algumas especificidades brasileiras, o fato de uma alta taxa de religiosidade conviver com certo descaso em relação aos rituais tradicionais não é incomum no mundo. A verdade é que hoje existe um espaço secular muito maior nas sociedades. Antigamente, o cotidiano, as questões sociais e até as de saúde passavam pela religião. Isso mudou. "O brasileiro acredita em céu e inferno mesmo sem ser católico praticante ou saber o que são esses lugares, porque esses conceitos são intrínsecos à cultura brasileira", diz Regina Novaes, antropóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Foram passados de geração em geração." Como mostra a pesquisa do Vox Populi, a crença em Deus é porcentualmente tão absoluta que quase não sobram brasileiros em quantidade suficiente para um plantel de incréus que faça diferença. De qualquer forma, não se pode confundir o comportamento dos que não seguem fielmente os rituais de um credo com a ausência de espiritualidade. "A religiosidade é a relação com o divino, é o modo como a pessoa se conecta com o que acredita serem forças protetoras ou negativas em seu cotidiano", observa Mario Sergio Cortella, professor do departamento de teologia e ciência da religião da Universidade Pontifícia Católica, em São Paulo.

O fato de tantos brasileiros (55%) acreditarem no inferno significa que vão procurar só fazer o bem e evitar cair em tentação? "Não necessariamente", opina o antropólogo Otávio Velho. "Muitos podem contar com a misericórdia divina ou acreditar em outras formas de fugir do inferno. Ajuda de um santo, um jeitinho na última hora." A esse respeito, a pesquisa Vox Populi encontrou uma realidade surpreendente: muitos brasileiros (34%) acreditam que irão para o céu. Uns poucos, 11%, que passarão um período de penitência no purgatório. Mas nem um só admitiu a possibilidade de ir para o inferno. Evangélicos e carismáticos trouxeram de volta para o cotidiano do fiel brasileiro temas que as confissões tradicionais tinham colocado na prateleira das velharias, como a esperança no milagre, o êxtase e o temor ao inferno. Longe de serem modismos, essas questões perenes estão na origem das religiões. A necessidade de acreditar em "alguma coisa" é inerente ao ser humano, segundo a psicóloga Maria Cristina Mariante Guarnieri, mestre em ciência da religião pela PUC de São Paulo. "A religião serve como intermediária entre a razão e as angústias mais profundas das pessoas. Elas precisam de respostas para perguntas cruciais, como qual é o sentido da vida e da morte." Não sem bom motivo, o brasileiro é um povo cheio de fé.

Com reportagem de Daniel Hessel Teich, Eduardo
Salgado, Gabriela Carelli e Luiz Henrique Amaral.

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