Colunas 2007


"Coluna do Hyder" - Fabio "Hyder" Azevedo

Unser vs. Andretti

 

Um dos duelos mais famosos e comentados da Champ Car pode ter tido o seu epílogo esse ano.

 

O final da última Indy 500 foi totalmente imprevisível, mesmo para uma corrida em que existem muitas variáveis envolvidas para vencê-la, mais do que em qualquer outra prova. Azar de Tony Kanaan, o melhor piloto nessa 91ª edição, culpa da chuva, que em um oval, impede a continuidade de uma corrida. Sobre a cobertura desta prova pela televisão não tenho muito a acrescentar ao que já foi comentado pela imprensa. Acredito que está na hora de respeitarem o espectador, pois tanto amadorismo afugenta a audiência e os possíveis patrocinadores.

O que poucos devem ter notado, é que um dos duelos mais famosos e comentados no início dos anos 1980 e no final dos anos 1990 pode ter tido o seu epílogo esse ano. Naquele período Al Unser Jr. e Michael Andretti eram as revelações, grandes talentos e herdeiros de duas legendárias dinastias do automobilismo norte-americano. Antes que os alguns venham insinuar que se tratava de mais um caso de nepotismo, tão comum nas instituições públicas do nosso país, digo que nesse caso ocorreu um fato bem diferente. Antes de eles serem filhos de grandes campeões, Al Jr. e Michael tiveram brilho próprio, garantido por força de muito trabalho, grande determinação e inúmeras poles, vitórias e um total de três títulos de pilotos e duas edições das mais famosas 500 milhas do mundo.

O ano era 1988. Al Unser Jr., então piloto da Galles e Michael Andretti, na Kraco, prestes a se transferir para a poderosa Newman Haas, travavam um equilibrado e brilhante duelo para ver quem seria o principal desafiante do imbatível Penske PC17 pilotado por Rick Mears e Danny Sullivan, que seria o campeão da temporada. Os chassis Lola eram levados ao limite nas disputas entre esses ases da Champ Car. Era comum saírem algumas "faíscas" em alguns desses encontros. O amadurecimento de ambos veio com o tempo. Al Jr. despontou para categoria um pouco antes, sendo mais constante e detalhista. Já Michael parecia de início sentir o peso da sombra de Mario. Somente em 1989, após seis temporadas, o jovem Andretti estava preparado para correr ao lado do seu querido pai.

Um momento marcante na carreira desses dois gênios ocorreu em 1989, no circuito de Indianápolis. Michael estava impossível ao volante do Lola Chevy em sua estréia em 500 milhas na equipe de Carl Haas e Paul Newman quando um problema mecânico encerrou com suas chances de vencer. Enquanto Al Jr. esteve envolvido na maior disputa por uma vitória na história do automobilismo que foi finalizado com aquela manobra arriscada executada por Emmo nas últimas voltas.

Unser Jr. conquistou magistralmente o título de 1990, sempre com Michael seu encalço. A equipe Penske vinha de um ano vencedor em 1989, só que na temporada seguinte, o fracasso instaurou-se por conta do sistema de amortecedores e câmbio do PC 19. Foi um campeonato de muito trabalho e desenvolvimento para os lados de Reading. Em 1991 o equipamento estava competitivo, mas o grande do ano foi o jovem Andretti. Até mesmo na boataria que envolveu o nome dos dois na Fórmula 1 no início dos anos 1990, existia a rivalidade. Al Jr. havia sido cogitado na Benetton para 1992, tendo como companheiro Michael Schumacher enquanto Andretti, contrariando os conselhos de Émerson Fittipaldi, seria simplesmente o companheiro de Ayrton Senna em 1993.

Para as temporadas seguintes houve mudanças consideráveis: Michael havia retornado da fracassada temporada na Europa assinando com a Ganassi já Al Jr. deixou a decadente Galles e transferiu-se para a poderosa Penske, quando em 1994 obteve mais um troféu campeonato e da Indy para a sua estante. Nos anos seguintes começou lentamente o processo de decadência para Unser devido à queda de rendimento da Penske com o péssimo motor Mercedes e Michael Andretti passava de estrela a coadjuvante de Christian Fittipaldi nos anos de 1999 e 2000. O ano de 1999 marcaria a saída de Al Jr. da Penske e o fim de sua carreira na Champ Car, indo parar novamente na Galles, que agora estava na IRL. A experiência na nova categoria foi um grande fracasso, com apenas alguns poucos bons resultados, em especial, a vitória em 2003, quando voltou de um tratamento para desintoxicação alcoólica.

Enquanto isso, Michael Andretti foi demitido da Newman Haas, migrando para a equipe Green, que depois se tornou a atual Andretti Green. Hoje Michael administra uma operação com quatro carros e, nos últimos dois anos na Indy 500, utilizou um quinto carro pilotado por ele na tentativa de conquistar a sonhada vitória que, como piloto, nunca conseguiu, já que como dirigente possui duas vitórias. Uma época bastante dura para Michael foi ao tempo da grande disputa entre ele e Paul Tracy em querer ser o maior "braço duro" do grid.

Era comum ambos estarem envolvidos em uma mesmo confusão durante as corridas. Em 1996, alguns pilotos (mas precisamente Maurício Gulgelmin, Paul Tracy e Robby Gordon) que haviam sido vítimas de Andretti nas primeiras corridas daquele ano, mandaram confeccionar uma camiseta com um desenho dele com bengala, óculos escuros e a seguinte inscrição: "Michael Andretti - Escola de Pilotagem Para Cegos". Evidente que o clima ficou pesado e a Cart, através do Tim Meyer, teve de intervir para a que a situação não piorasse ainda mais.

A carreira destas duas feras começou de maneira distinta e o final de cada uma também foi assim. Al Unser Jr. enfrentou problemas com a polícia, com a bebida e o e o cigarro, vício que carregava de longa data. Lamentável que um herói de tantas gerações de norte-americanos e um vencedor nato esteja em um momento tão delicado em sua vida particular. Michael Andretti, ao contrário, é um empresário bem-sucedido, que possui equipes competitivas na IRL e ALMS, uma empresa de marketing, além de uma rede de concessionárias de automóveis.

Algo que poucos lembram era da atitude superior dos dois em relação à imprensa esportiva norte-americana que tentava jogar um contra o outro, sempre disposta a colocar lenha na fogueira, só que uma coisa que eles tinham em comum: nunca foram vaidosos e com ego inflado. Não eram os melhores amigos um do outro, só que existia um respeito muito forte entre eles, por tudo que experimentaram e suas carreiras, desde a infância acompanhando os pais nas pistas, e depois convivendo com a glória e o ostracismo. Dois grandes mitos, e que para quem teve a oportunidade de acompanhá-los, jamais esquecerá da forma como competiam. Com muita determinação, garra e qualidade de pilotagem. As vitórias falam por si mesmas.

 

Um grande abraço fiquem com Deus e até a próxima.

 

Fabio "Hyder" Azevedo
http://blogdohyder.blogspot.com                                                                             

 

 

Torcedor do Vasco da Gama e da Associação Atlética Anapolina, fã da Penske, atualmente sou Analista de Tecnologia da Informação mas continuo apaixonado pelas corridas como nunca. Todas as semanas, falarei sobre as minhas experiências na categoria, além de contar histórias dos bastidores que poucos conhecem.

 

 

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