Colunas 2007


"Coluna do Hyder" - Fabio "Hyder" Azevedo

O exemplo de Gil de Ferran

 

Gil de Ferran: prova de que podemos aprender com os nossos erros.


Estive acompanhando o noticiário da Champ Car e, pela primeira vez, confesso que fiquei assustado com o atual cenário do certame. Se as contas estão em dia e, por conta dos acordos em andamento com os parceiros, poderia estar melhor se as perspectivas do campeonato em si, não estivessem tão nebulosas. Sempre deixei evidente meu entusiasmo pela categoria, por acompanhá-la há 20 anos (lembro que a primeira corrida foi em Toronto em 1987 e depois disso, fiquei "viciado" na Champ Car). Mas a saída da Ford Motor Company, assim como surgem incertezas nos bastidores e o crescimento vertiginoso da ALMS (American Le Mans Series) em decorrência da retração da IRL e da própria Champ Car trás muito pessimismo quanto ao futuro do monoposto estadunidense. Creio que este ano será decisivo, pois do jeito que as coisas estão em ambos os lados, se uma reunificação não sair e as vaidades e egos não forem deixados de lado, vamos ter de visitar muito os sites de vídeos antigos na Internet assim como recorrer a DVDs e VHSs de corridas gravadas para relembrar da época de ouro.

Também estou preocupado com a ausência de pilotos brasileiros na Champ Car que, diferentemente da IRL, não tem nenhum nome confirmado até o momento. No caso do Bruno Junqueira, isso já era mais do que esperado por conta da mentalidade das empresas brasileiras, que centralizaram todos os seus patrocínios na Stock Car, devido ao pacote televisivo da TV Globo. Enquanto isso, as categorias de monoposto do país estão sendo sufocadas. A F-3 agoniza há anos, já a F-Renault, F-Chevrolet e F-Ford foram estão extintas. Resta a F-São Paulo, mas esta é um torneio regional, e os custos são altos para quem não mora no estado. Volto a citar o antigo representante das Alterosas na Champ Car, pois suas atuações pífias anteriores ao seu acidente de Indianápolis, em 2005, deram mostra que Junqueira não era o piloto combativo e guerreiro que a equipe Newman Haas buscava para ser o rival do tricampeão Sebastien Bourdais. Teve momentos de brilho, mas não sabia manter uma constância e nem usar todo o equipamento que dispunha, pois sempre chegava ao final das corridas com muito "push-to-pass" não utilizado, em detrimento de outros pilotos que utilizava totalmente o dispositivo para chegar aos resultados.

Ele deveria se espelhar em um piloto que no início de sua carreira na Champ Car, vivia tendo muitos altos e baixos, mas soube dar a volta por cima, se tornando o campeão de dois campeonatos altamente competitivos, os últimos da história recente: o brasileiro Gil de Ferran, bicampeão pela equipe Penske. Gil ingressou na Champ Car por uma indicação de Adrian Reynard (fabricante do melhor chassi da categoria naqueles tempos) sendo bancado pela Mercedes, indo parar na equipe do legendário engenheiro Jim Hall. Posso dizer que convivi com o Gil desde a época da Walker era evidente que ele se sentia muito pressionado, pois cobravam resultados em um momento onde não poderia ter um desempenho melhor devido a restrições do equipamento.

A equipe Walker possuía o mesmo pacote Reynard Honda da Ganassi e da Green, porém tinha a desvantagem de utilizar a borracha (pneus) da Goodyear. Por causa disso, ele alternava ser um bestial para, em poucos instantes, tornava-se uma besta por ser obrigado a anda sempre acima do limite do carro. Entre tantos momentos críticos, um que resume bem aquela situação, ocorreu durante a Rio 200 de 1999, quando Gil ultrapassou o escocês Dario Franchitti numa manobra de genialidade e precisão antes da curva 1 aproveitando do vácuo e da pressão máxima no motor Honda turbo mas, poucas voltas depois, tentou repetir a mesma manobra em cima de Paul Tracy. O canadense não costuma ceder sem dificultar ao máximo, é difícil conseguir uma ultrapassagem limpa, pois ele sempre joga seu carro no do oponente para defender sua posição, não pensou duas vezes e aconteceu o enrosco entre os dois. Isso é normal em corridas, mas não logo no início de uma prova. Seria mais recomendável esperar um momento melhor ao invés de arriscar em um ponto cego da pista ainda mais tendo um adversário que não tinha um carro bom naquele momento.

Já os momentos inesquecíveis foram muitos, como o que aconteceu no GP de Vancouver em 1995, ano de sua estréia, quando levou um "chega pra lá" de Al Unser Jr. na largada. Com a corrida paralisada, o brasileiro pôde pegar seu carro reserva e voltar para a corrida. Graças à boa estratégia de corrida da equipe do Jim Hall, que trabalhou com maestria e conseguiram contorna o problema, o piloto fazer uma boa corrida e terminou a prova em um excelente segundo lugar, seu primeiro pódio e melhor colocação na Champ Car até então. Ou mesmo na corrida de abertura no mesmo ano de 1995 em Miami onde estreou muito bem, chegando a colocar pressão no vencedor Jacques Villeneuve ou ainda, na corrida de Laguna Seca onde venceu e levou o título de estreante do ano, roubando-o de Christian Fittipaldi.

Na Walker, especialmente em 1997, quando foi vice-campeão sem conseguir uma única vitória, envolveu-se em acidentes com Gualter Salles e no mais sério acidente da carreira de Christian Fittipaldi, entre outras barbeiragens. Mas tudo isso tinha uma explicação. Ele nunca teve um equipamento de qualidade assim como pessoal de suporte no pit da equipe. Quando da época da rápida negociação com a equipe Penske, me lembro de tentar saber com ele como andava as negociações, foi quando sorriu e disse marotamente... "Nos vemos por lá..." depois de algumas risadas percebi que se tratava da confirmação do anúncio, mesmo que em código. Ali Gil conseguiu ter um ambiente tranqüilo para ser campeão, e poder mostrar que não era um piloto apenas mediano, mas que era um lutador. Ele provou que tinha muito mais talento do que tentava exibir nos carros da Hall e da Walker. Uma vez a Kika Conschetto (assessora de imprensa dele e depois da Penske) disse que ele havia recebido uma bela proposta para assumir o cockpit da Stewart na F-1, na época da fundação da equipe. Como ele não quis arriscar o prestígio conquistado nos Estados Unidos, mesmo sendo muito amigo de Jackie e Paul Stewart, preferiu ficar na Champ Car, abrindo o espaço para a chegada de Rubens Barrichello à equipe escocesa.

Gil de Ferran chegou a ser cogitado para correr na Jordan em 2004, após abandonar a IRL vencendo a sua última corrida pela Penske em sua despedida. Mas depois do terrível e fatal acidente de Tonny Renna no seu primeiro teste com a Ganassi e dos muitos pedidos de Roger Penske para que ficasse fora dos carros, fizeram com que o bicampeão da Champ Car se aposentasse em definitivo. Após uma breve experiência como comentarista de TV, finalmente ingressou na F-1 como diretor esportivo da Honda, vencendo a desconfiança dos membros da antiga equipe BAR, já que foi indicado pela matriz e pela filial estadunidense da montadora japonesa.

Pois é pessoal, Gil de Ferran foi um piloto que errou muito, mas que soube crescer com os erros e vencer...

 

Um grande abraço fiquem com Deus e até a próxima.

 

Fabio "Hyder" Azevedo
http://blogdohyder.blogspot.com                                                                             

 

 

Torcedor do Vasco da Gama e da Associação Atlética Anapolina, fã da Penske, atualmente sou Analista de Tecnologia da Informação mas continuo apaixonado pelas corridas como nunca. Todas as semanas, falarei sobre as minhas experiências na categoria, além de contar histórias dos bastidores que poucos conhecem.

 

 

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