Reportagens 2007


Como Sebastien Bourdais se tornou piloto da Champ Car

 

Por Wallace Michel

 

Bourdais não era a primeira opção da Newman Haas, porém provou ser um fora de série desde o início.

 

Depois de uma temporada vitoriosa em 2002, quando conquistou o título de pilotos com o brasileiro Cristiano da Matta após nove anos, além de dar a única conquista para os motores Toyota na Champ Car, obtendo 7 vitórias, 7 poles, 7 melhores voltas e liderar 637 voltas, a equipe Newman Haas, sediada em Lincolnshire, Illinois, vivia um momento de incerteza sobre o futuro: de uma vez só o time perdia a sua dupla de pilotos. Cristiano foi para a Fórmula 1, para correr pela equipe oficial da Toyota, enquanto o outro brasileiro, o experiente e grande acertador de carros Christian Fittipaldi, rumava para a Nascar.

Sem outra opção, a equipe comandada por Carl Haas e Paul Newman, se viu obrigada a procurar por substitutos que estivessem no nível esperado por um time que desde a sua fundação em 1984 estava acostumado a disputar vitórias e campeonatos. A primeira vaga foi preenchida antes mesmo o final da temporada. O escolhido foi a então jovem revelação brasileira Bruno Junqueira que acabava de ser vice-campeão e chegava com status de primeiro piloto e principal favorito em vencer a temporada de 2003, juntamente com o canadense Paul Tracy. Mas a escolha do outro piloto foi bem mais complexa.

A Newman Haas começou uma seleção que reuniu em uma sessão de testes de três dias no circuito de Sebring, além de seu novo piloto, Bruno Junqueira, mais quatro pretendentes oriundos de categorias de acesso; Jon Fogarty (campeão da Fórmula Atlantic), Sebastien Bourdais (campeão de Fórmula 3000), Ricardo Zonta (campeão de World Series) e Bryan Sellers (campeão de Fórmula Ford 2000 nos Estados Unidos). No total, cumpriram mais de 1000 milhas no traçado da Flórida.

Testando com o carro ainda equipado com o motor Toyota e o regulamento de 2002, o objetivo era focalizar os testes nos pilotos, concentrando no resultado de cada um, já que eles tinham conhecimento do pacote que estavam usando. Os quatro pilotos tiveram um bom desempenho em condições meteorológicas muito instáveis, e mostraram serem merecedores de um lugar na equipe. Não seria fácil escolher o companheiro de Bruno. O grande favorito era Ricardo Zonta, por conta de suas passagens vitoriosas na Fórmula 3 Sul americana, Fia GT, Fórmula 3000 e World Series, além da experiência na Fórmula 1.

No primeiro dia de testes, numa segunda-feira, o brasileiro Zonta completou 110 voltas com pista seca. Ele terminou o dia com o tempo de 51s9. O piloto utilizou três jogos de pneus novos, mas no último deles já estava escurecendo e o treino foi encerrado depois de 10 voltas.

No segundo dia, Zonta só andou na parte da tarde e completou cerca de 40 voltas e andou por 1h30. Pela manhã, o teste foi comandado pelo norte-americano Jon Fogarty. Zonta foi um segundo mais rápido que o campeão da Atlantic, que já conhecia o circuito e testava pela terceira vez com um carro da Champ Car. Com pneus novos, Zonta marcou o tempo de 51s2, considerado muito bom pela equipe. O brasileiro simulou algumas paradas nos boxes, voltando rápido para a pista. Depois, a equipe pediu para que ele andasse num ritmo forte e ao mesmo tempo economizasse combustível.

Na quarta-feira, a equipe seguiu os testes com Sebastien Bourdais. Então o francês impressionou os integrantes da Newman Haas com o seu excelente desempenho. Sebastien completou 150 voltas e fez o tempo de 51s2, repetindo a melhor marca estabelecida por Zonta, um piloto com muito mais experiência do que ele. Assim Bourdais foi convidado para testar novamente com a equipe no mês seguinte.

Foram mais dois dias de testes novamente em Sebring. Bourdais conduziu o Lola-Ford e conseguiu cumprir 320 quilômetros na sua adaptação ao bólido sob condições de tempo ideais. "Só pudemos proporcionar a Sebastien um dia de testes em dezembro, porque tinha outros compromissos, por isso consentimos em dar-lhe uma segunda sessão de testes. Rapidamente retomou o ponto em que havia deixado esses ensaios", disse na época Brian Lisles, chefe de equipe da Newman Haas impressionado com a habilidade técnica do piloto.

"Andei com as especificações de 2003, e a sensação foi ligeiramente diferente, devido à redução de potência, mas o desempenho é muito semelhante. Com mais tempo, penso que poderia ter rodado muito perto do tempo conseguido em dezembro. A equipe e eu trabalhamos bem em conjunto", afirmou Sebastien, esperançado em ser o escolhido para a vaga.

Então o jovem francês, na época com 23 anos, teve de enfrentar a última e mais difícil avaliação: participar dos testes coletivos da Champ Car em Laguna Seca, no fim daquele mês de janeiro, em meio a pilotos muito experientes e talentosos como Bruno Junqueira, Patrick Carpentier, Michel Jourdain Jr., Oriol Servia, Roberto Moreno, Paul Tracy e Adrian Fernandez. Agora teria de provar que merecia estar no meio deles e garantir seu ingresso na categoria.

Bourdais surpreendeu outra vez, pois além de chegar a superar o companheiro Junqueira, foi o mais segundo rápido na somatória dos dois dias nos testes coletivos com uma volta em 1min09s709. "Como estreante, certamente não esperava andar tão rápido. Porém isso é apenas um teste. O equilíbrio da Champ Car é incrível, e isso é o que me faz querer correr aqui", declarava o francês, que sentia estar perto de assinar um contrato com o time.

Finalmente o anúncio oficial da Newman Haas ocorreu dias antes do Spring Training em Sebring. "No primeiro teste, o Sebastien já mostrou que pode trabalhar bem em nosso ambiente. Acreditamos que o Bruno e o Sebastien tenham a habilidade para vencerem muitas corridas e lutarem por outro campeonato", disse um dos donos da equipe, Carl Haas naquela ocasião.

"A mudança para um novo campeonato é muito emocionante e fazer isso com uma equipe que conquistou o último título é a melhor oportunidade para se conseguir o sucesso", declarava Bourdais, que desde então passou a morar em Tampa Bay, nos Estados Unidos.

Realmente foi o que aconteceu depois de 73 corridas, 28 poles, 44 pódios, 31 vitórias e 4 campeonatos. Agora o novo desafio desse francês nascido em Le Mans é se descartar também na Fórmula 1, e se tornar o primeiro campeão da Champ Car desde o canadense Jacques Villeneuve, a se destacar na categoria máxima do automobilismo mundial. Coragem e talento ele tem de sobra.

 

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