O mais novo filme de Cacá Diegues, baseado em conto de João Ubaldo Ribeiro, tem um enredo bastante divertido, e consegue, através do humor, criticar a mania que os homens têm de colocar a culpa de suas desgraças em Deus. O “Todo-poderoso” é retratado, por Antônio Fagundes, como uma figura rabugenta, algumas vezes debochada, irritada de ver o ser humano cometer tantos erros. Deus vem ao Brasil à procura de um santo para substituí-lo, pois está cansado e quer tirar férias. Ao chegar, encontra o borracheiro Taoca (Wagner Moura), que o ajuda a chegar até o continente. O malandro – para fugir de um agiota (Stepan Nercessian) – acaba se tornando guia nas viagens de Deus pelo norte e nordeste brasileiro, em busca de Quinca das Mulas (Bruce Gomlevsky), seu escolhido para ser santo. Ao longo dessa viagem, por diversas localidades de Alagoas, Pernambuco e Tocantins, o diretor nos mostra personagens muito interessantes – exatamente por serem tipos comuns às cidades nordestinas tornam os ambientes muito reais. Além disso, os ambientes são muito bem caracterizados, que chegam a impressionar. Um dos que mais impressionam é a aldeia no Tocantins, onde há índios muito velhos, doentes deitados em redes, ou mulheres amamentando. Mas uma coisa acaba se destacando ainda mais que a caracterização de ambientes e personagens: as belíssimas locações. Em cada lugar que passa na sua jornada, Deus admira a beleza dos cenários que criou. E pra nós, espectadores, também torna-se impossível não apreciá-las. Affonso Beato – responsável pela fotografia do filme – soube selecionar muito bem cada paisagem. Em alguns momentos elas chegam a roubar a cena. Até Antônio Fagundes se apaga, diante de tão belas localidades. Mas o filme não é apenas um cartão postal do Brasil, para ser exibido como propaganda. Os roteiristas souberam trabalhar muito bem o contraste entre tão belas paisagens e seus personagens. Numa visão bem realista, mostram que quem vive neste Brasil são pessoas humildes, que lutam de diversas formas para sobreviver – isso torna cada personagem único. Há os que são capazes de vender seus próprios filhos para conseguir o que comer; os que matam por dinheiro; os que se prostituem em busca de seus sonhos; e aqueles que (como Taoca) sempre acabam dando um jeitinho pra se dar bem. Esse contraste é ainda mais ressaltado pelo personagem de Fagundes, pois, ao mesmo tempo em que Deus admira seus belos feitos, suas paisagens, se entristece ao ver tanta confusão, mentira e sofrimento na vida dos homens. Talvez, o que falte no filme seja uma conclusão para o enredo, pois no final fica a dúvida se Deus conseguiu encontrar seu substituto para tirar suas férias – motivo que o trouxe ao Brasil. Mesmo assim vale a pena assistir ao filme por diversos motivos: pela comédia, pelo visual, pela boa interpretação, principalmente de Wagner Moura – que nos tira muitas risadas –, ou pelo simples prazer de assistir a um filme leve, descontraído, mas muito interessante. |