**((||Lâmia||))**

Olá pessoal, esse texto é sobre uma Lâmia, encontrei em uma página na internet há anos! Bom, não faz tantos anos assim, acho que há uns 2 anos mais ou menos.
Algumas partes do texto são muito interessantes.Outras bem fortes. É preciso muita atenção para a interpretação do que o autor tenta passar a seus leitores. Acredito ser os conflitos do interior do autor com o mundo exterior ao qual vive!
Eu fiz uma análise sobre cada parágrafo, essa análise não está aqui! Tenho em meus arquivos pessoais.
Em muitas partes do texto encontro coisas que já sonhei, e fiquei muito surpresa quando li esse texto, por esse motivo estou expondo aqui, em minha HP, para que vocês leiam se tiverem curiosidade. Enfim, o texto fala sobre uma Lâmia.
Porém não se assustem, o texto contém muitos palavrões, mas a essência, a busca do ser interior e a convivência com o mundo exterior é bastante interessante!
E Lâmia Thalassa é meu nome pagão.Coincidências?Não sei!!!!rsrsrsrs
Lâmia é assim! Uma surpresa, uma presa, uma correnteza de emoções!
Beijos para todos,
Rose Terra
“Lâmia Thalassa” ©

Texto:

"Rastejando elegantemente por aí."

Eu morri. Quando pararem de me olhar curiosos e assustados, enojados até, vão começar a me dissecar. Primeiro de longe, com cuidado, sabe lá o que tem dentro dessa coisa. Vão ficar horas e horas cortando devagarinho, tirando gordurinha daqui e dali, e também escamas, imaginando o que eu sou e, após alguns dias, quando já estiverem acostumados comigo e já estiverem me chamando por apelido carinhoso, vão ir mais fundo e vão encontrar um rato morto no meu estômago. Só que na verdade eu nunca vou deixar de assustá-los e intrigá-los, mas foda-se que daí já é clichê.

Um rato morto, sabe?Dos brancos, tá, que seja, não chega a ser um rato, é um, sei lá, um camundongo, mas e daí, o que importa o que é? É tudo igual, não é? Rato é rato.
Na minha mão.
É, eu que matei, claro, fez um barulho estranho que não sei como descrever, ele se mexeu nojento, morreu e agora corto o rabo dele, não gosto do formato de rabo de rato. Não, não com os dentes, com a minha faca que não é grande coisa, nenhuma faca ginsu, é só uma dessas facas vagabundas de cozinha, isso, de cortar carne. Tem que cortar o pescoço no lugar certo, também não vou comer a cabeça. Não por ser dura ou que vá fazer mal, porque nada mais vai fazer mal, é os olhos, entende? Aquelas bolinhas, o jeito que me olham, parecem assustadas. Sangra um pouco, sabe? O rabo também. Não muito. Não, não matei ele com a faca, foi com a mão, minha mão tá arranhada, furada. Ele veio me morder enquanto eu dormia. Não na mão, no rosto, subiu em cima de mim e tava me roendo, o filho da puta achou que eu fizesse parte desse lixo todo onde tava dormindo, sei lá, tô com cheiro de coisas velhas e carne estragada, se bem que já dormi em lugares piores do que essa sacada. Agarrei bem rápido e torci quase sem pensar, é, foi com a mão, não com os dentes, eu sei que devia matar com os dentes, ou melhor, com as “presas” que é o modo mais elegante de dizer e tudo, mas isso de injetar meu veneno é um saco, ele se mexendo feito doido na boca, deixando a língua cheia de pêlo, não curto essas coisas. E ele já tava envenenado, nem notou o que aconteceu. O arranhão da minha mão é de hoje de manhã, eu mesma me machuquei sem querer. É, o rato já tava envenenado, dá pra notar pelo jeito dele, e também pelo gosto, veneno de rato, sei lá onde ele comeu, alguma cozinha por aí. A tua, quem sabe?
Guardo a faca no bolso do, sobretudo e engulo o rato sem cabeça, é bom, bom, tô com fome, desce pelo meu pescoço devagarinho, sinto ele descendo, muita muita fome. E frio. Bom, bom, ele vai pra minha barriga, vai encher a pança larga da menina-cobra. Minha mão tá tremendo um monte, acho que o frio é do veneno. Uhu. Foi burrice, sabe? Eu mesma me envenenei, baita burrice, acho que foi a coisa mais burra que já fiz, tô com medo. De morrer, tá muito frio. Não, não o rato, não é o veneno do rato, é o meu próprio. Deixa só eu acender essa merda desse cigarro que eu roubei não lembro de onde, peraí. Não tô boa, toco nele, as imagens passam pelos olhos, vão pra minha cabeça, mas param num muro de ar no meio do caminho, às vezes se perdem e não chegam em lugar nenhum. Sabe quanto tempo levei pra notar que isso que tava na minha mão era um cigarro? É os miolos, o cérebro, parece que virou uma bolha de ar. Ou água. É, água, por causa do peso. Tá na minha cabeça o veneno, não dá pra pensar direito, eu demoro pra reconhecer as coisas, preciso tocar nelas com as duas mãos e me esforçar pra saber o que são, até as coisas mais simples, principalmente as coisas mais simples, tá tudo perdido aqui dentro, embaralhado. Não vou tirar mais da boca, pra não deixar cair. Não o rato, o cigarro, o rato eu comi. Tá frio mesmo, sabe? Parece que cortaram meus braços e eu só sinto uma ardência, alguma coisa latejando no lugar onde eles tavam, a dor fantasma. O veneno, o veneno. Tá, ó, mordi a minha língua pontuda e bifurcada. Até parece, né? Não foi assim, eu não posso morder a língua nem que queira, é coisa da natureza, sabe? Dizem que a natureza é perfeita e tal, então eu tenho que enfiar meus dentes pra soltar o veneno, sabe como é, injetar e essas coisas. Se ela é perfeita mesmo então eu não vou morrer fodida pelo meu próprio veneno. Só que não é, não é perfeita, você sabe, quantas vezes teu corpo já não falhou? Sabe o que quero dizer, né? Sei lá, quantas doenças você já não teve? Tipo, tem criança que já nasce morta e tudo, ou então hidrocefalia ou hemofilia e essas coisas nem um pouco perfeitas, sem um dedo, malformação e tal, por isso que tenho medo. Sei lá, eu tinha esperança - ‘Qualé, você é imune ao próprio veneno, deve ter anti-toxinas e essas coisas pra isso no teu sangue’, eu fiquei dizendo - mas é que tá ficando pior mesmo, a dor, tô com muito medo. Não é perfeito. E ela tá morrendo. A esperança. Asfixiada. A parte cobra tá matando a parte mulher. No fim parece que a parte mulher não era imune à parte cobra, então. Eu sou duas coisas. Por falar em sem um dedo, eu não tenho perna, nenhuma. Mas é normal, sou uma lâmia, isso, uma porra duma lâmia. Não, não tô doida nem nada disso, é a minha cabeça, sabe? O cérebro, foi o veneno, sabe aquele negócio que eu disse do braço, de ser como se tivesse um bagulho dormente no lugar dele? Pois é, é a mesma coisa com o cérebro, é como se tivessem me tirado uns pedaços dele. E eu sinto um monte de dor nuns lugares do meu corpo que não existem. Saca lâmia, né? Mulher-cobra e tal. Assim, a metade de cima é mulher e a de baixo é outra coisa, um quadrúpede, uma cabra, cervo, um leão, essas coisas. Mas isso se for lâmia normal, porque o certo na verdade pra mim é lâmia nobre, então a minha metade de baixo é uma cobra. Hum rum, não tenho pernas, da cintura pra baixo é um rabo de cobra gigante, essas coisas. Tá, de serpente, não é cobra, porque sou venenosa, mas é isso aí, com escamas brilhantes e essas coisas, super sexy. Tá, que merda, onde já se viu, não existe isso de lâmia, que que é isso? Da onde saiu essa? Mas olha, se pensar bem você também não sabe daonde saiu, tá? Quer dizer, eu não sou religiosa nem nada, não tô falando nada disso, é só que eu sou uma lâmia, de verdade. É o truque mais velho do mundo, ó, melhor que ter sido amputada, melhor que ter ficado horas presa nas ferragens e ter perdido as pernas, com certeza. É só uma coisa que não devia existir. Melhor isso do que escutar o barulho deles serrando as tuas pernas enquanto falam besteira como se isso fosse a coisa mais normal do mundo, melhor do que ser aleijada, não poder andar e sentir dor em membros que não existem. Eu tô te vendo, sabe? Eu pulei e deitei aqui na tua sacada quando começou a chover, o chão de pedra molhado é quentinho, faz tempo que ninguém limpa isso. Deixei o sobretudo pra trás, tinha feito ele com o meu próprio corpo quando troquei de pele pela ultima vez. A sujeira da tua sacada é como o colo da minha mãe, eu me grudo nela buscando calor e os pensamentos tão cada vez mais difíceis, os olhos tão muito pesados, é difícil ficar acordada, tem uma coisa apertando dentro da minha cabeça e também tá difícil respirar. É hora da bolha de ar ou de água explodir e me matar. A sujeira canta pra mim, uma música pra dormir e acalma meu medo. Te vi jantando sozinho. Não me notou, tá escuro aqui e essa chuva tá tão forte e você nunca olha pra fora porque tem televisão e tudo aí e o mundo não te interessa e a cortina tá meio fechada. Mas te vejo pelas frestas, comendo coisas que parecem boas e bebendo coca light. Eu podia entrar aí, sabe? Já fiz isso antes. E te matar, eu sou mais forte. Talvez não seja mais, o veneno e tal, mas podia fazer meus truques, te hipnotizar, essas coisas todas, e então eu ia te engolir, ficar horas te digerindo. E ia beber a tua coca light. Porque lâmias são meninas barrigudas. Eu podia te matar mesmo sem fome, só de raiva. Ou só por crueldade, porque sou uma criatura maligna e tal, como num livro que li numa das vezes em que andei pela cidade, com a cauda escondida sob as roupas, rastejando elegantemente. Dá pra fazer pensar que sou uma mulher comum, mas dá trabalho, acho que não consigo mais. Sei lá, eu podia sair por aí rasgando a barriga de todo mundo que aparecesse na minha frente. Que medão, hm? Cara, que merda. Então tá. Esse monstro solitário aqui mordeu a mão, sabe? Foi reflexo, um acidente. Outro rato, um cinza e bem mais vivo. Pois é, devo ter algum problema com ratos. Talvez no inferno ponham dezenas deles pra me roer as tripas. Eu tava dormindo, ele tava na minha mão. Acordei e minha cauda me impulsionou pra frente, instinto, as presas vieram rápido e nhect. Só que eu não fechei os dedos, sabe? Foi mal, sei lá, eu tava meio que dormindo, foi bem rápido, quando vi tava com os dentes cravados na minha mão. E o rato esborrachado na parede feito um saco de tinta escura. É pra se rir mesmo. E eu ri um monte. E chorei também. Tá muito difícil continuar falando, acho que vou morrer e te deixar em paz agora. Não que eu queira, é que tá difícil mesmo, tô tremendo e tá tudo fechando, não tô vendo direito. E me dá dor quando levanto a cabeça, tá tão pesada que eu só quero dormir, só preciso dormir um pouco. Não te entrega, sua burra. No final dá um desespero, sabe? Não é uma coisa fácil assim, não é só agora acho que vou morrer e pronto. No final é sua lâmia puta e burra, olha o que você fez, eu não quero morrer. Levanta e rasteja e sobe pela sacada, faz força, mexe esses músculos doloridos, geme, sente toda essa dor e desespero, cai de cara no meio dos sacos de lixo, faz barulho e levanta de novo, as mãos escorrem pelo barro e pelas pedrinhas e os braços se arranham, quebra as unhas, a cauda serpenteia, joga lixo pra todo lado, bate na parede. No fim fica quieta, exausta, mas leva muito tempo pra chegar no fim. E o fim é tão previsível que não dá pra fugir dele. Sentada no meio do lixo, os cabelos cheios de areia cobrindo os seios, a cauda dobrada, nua e sangrando, sem sentir mais nada. De manhã eu tô quase morta. Vem um menino pequeno e bonito, um anjo. Vem pra perto de mim. Vou engolir ele, vou enrolar minha cauda e esmagar os ossos dele, vou comer ele. Mas não consigo me mexer. Só olho pra ele, tô muito fraca. Minhas mãos tremem e ele tem olhos claros que me examinam e eu tô com medo. “Você é muito bonita, tem cheiro de flores” - ele diz, então a mãe dele vem e o puxa pelo braço, fala alguma coisa e eles vão embora sem notar a minha cauda. E eu morro perplexa. Mais cedo ou mais tarde alguém nota, então eles me levam. E agora eles me abrem e tal. Mas essa parte é dispensável.

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