Sermões em Verso
 

Deixai que se ofusque o olhar;
Deixai que o coração desfaleça;
Deixai falhar a amizade, o amor atraiçoar,
E que do destino um cento de horror apareça.

Que a escuridão coagulada bloqueie tua senda,
E ponha cara zangada e inteira natureza.
Deixai que tudo esteja par destruir-te. E pensa,
E sabe, entretanto, minha alma, com certeza.

Que tu és Divina. Marcha pois! Adiante!
Sem para esquerda, ou direita desviar.
Para a frente, buscando a meta alcançar!


Aquele que a miséria atreve-se amar,
E a forma tétrica da Morte pode abraçar,
Dançando, na Destruição, a dança bela,
A Ele, a Mãe Se revela.


Se do sol a nuvem esconde apenas a fração,
E o firmamento triste está.
Mantém-te firme, no entanto, bravo coração,
A vitória certamente chegará.

Não vem depois do inverno, o cálido verão?
Cada vazio despede gigantesca vaga,
E misturam-se ambos em luz e escuridão.
Sê firme, pois, e deixa a mágoa.

Os deveres da vida amargos são,
E seu prazer fugaz e pobre.
A meta, coberta está de escuridão,
Prossegue até ela, alma nobre.
 

Caminha com força, com sofreguidão,
Sê ousada! Une-te a ela. Que passe
A momentânea e rápida visão.
Ou, se não, sonha sonhos de maior talho,
Sonhos de Amor Eterno e Livre Trabalho.


Quebra teus grilhões! Os laços opressores rompa.
De brilhante ouro ou de minério impuro,
Amor e ódio - bem e mal - toda a coorte dual.
Sabe, escravo é escravo sempre, amado ou de destino duro,
E cadeias, de ouro embora, prendem igual


Diz: “A todos paz. De mim
Nenhum perigo, a toda criatura,
por menor que seja”.


A verdade jamais deve ser esperada
Ali onde a luxúria, a fama
E a avidez de ganho têm sua morada.


Esvaia-se tua vã submissão ao Conhecimento.
Diluam-se tuas prece e oferendas
E tua capaz firmeza, num momento.
Pois só o Amor inegoísta é refúgio e senda.
Ó inseto, ensina, abraçando a chama.

Fórmulas de adoração, controle do alento,
Ciência, sistemas vários, filosofia,
Requinte de gosto e tudo e ouro
São delusões fatais da mente, tão vazia.
Amor, Amor - é só a força, o único tesouro.