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ANALISANDO VELTA E NOVA Velta e Nova,as personagens que mais aprecio no Universo criativo de Emir Ribeiro, merecem uma análise mais apurada do que uma simples rotulagem do tipo "é heroína" ou "é vilã". Primeiramente porque esses dois conceitos são essencialmente maniqueístas e só conseguem refletir algo das insossas e pobres historinhas americanas de super-heróis, que são destinadas a um público de mentalidade infanto-juvenil e despreocupada com questões mais profundas e complexas.
Ribeiro admitiu em entrevistas concedidas ou escritos espalhados pela rede de computadores que se inspirou na estampa da personagem belga Pravda, para conferir a Velta a preferência por se locomover em motocicletas e pela loira ser aderida ao uso das roupas com pouco pano. Mas que foi buscar nas histórias de super-heróis americanos as fórmulas para produção das tramas enredadas para a personagem. Eu penso que não foi e não é bem assim, e Emir Ribeiro peca por excesso de honestidade.
Velta é diferente desde longe, quando optou por um visual mais sensual e sua inquietação exibicionista. A loira tem uma compulsão a viver se mostrando para arrebatar elogios e olhares admirados, da mesma maneira como se comportam as belas mulatas que desfilam no Carnaval da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro.
Outro ponto que penso ser bem distinto é a ausência daquelas repetições melo-dramáticas de tragédias pessoais. Quase todos os heróis e heroínas dos Estados Unidos entraram para a vida de atiramentos arriscados por motivações fundamentadas em tragédias. E quase sempre são pessoas de psique soturna, sofredoras, casmurras e repletas de problemas existenciais e dificuldades de relacionamento com o sexo oposto. Velta não tem nada disso, a não ser, a que eu saiba, do falecimento da mãe durante sua infância. Mas isso não é fator utilizado para mover-lhe a escolha pelas aventuras ou pelo castigo altruístico aos criminosos. A loira adentra nessa vida movida pela busca de bens pecuniários, e também pela atração sentida pelo investigador particular Gilberto Gomes. Velta se mostra, assim, uma personagem alegre como o brasileiro típico costuma ser, e como não pertence à classe mais abastada, sua motivação é a fama e o dinheiro advindo dela.
Um dos poucos elementos mantidos da inspiração americana é o fato dela possuir uma identidade escondida na pessoa da jovem Kátia Lins. Mas até nisto, ela se distingue do padrão, pois Kátia não é boba, atrapalhada e nem tímida. Ela é a mesma Velta, apenas tiranizada por um pai arcaico e conservador. Porém, suas aspirações, pensamentos e ações são os mesmos de Velta. Outra face que merece menção é a forma como são abordados os temas das historietas. A complexidade e ambiguidade de algumas situações do seu universo adulto são evidentes demais para olhos mais experientes. Daí ela não ser compreendida pelos fanáticos por heróis americanos. Está realmente aquém do entendimento infanto-juvenil ou dos que apreciam essa leitura mais simplista.
Nova, minha 2º colocada entre as personagens prediletas, também é uma criação soberba, que até pode também ter bebido inicialmente do caldo dos super-heróis, mas que se apartou deles rapidamente. Assim como Velta, Nova não faz uso de máscaras e acessórios tolos e dispensáveis da padronização dos heróis fantasiados. Esta usa roupas comuns desde o início, e faz questão de ser politicamente incorreta. Nova é impiedosa com os meliantes, chegando a assassinar muitos deles de forma furiosa. De forma diferente de Velta, que busca ganhos monetários, Nova apenas opera quando vê que pode fazê-lo. E suas execuções levantam questões seminais, como a pena de morte, da qual a personagem ruiva é adepta. A despeito de ser uma personagem de semblante casmurro, Nova teve apenas um princípio de tragédia, que foi a doença que a levou a se tornar um organismo robótico. Mas não é um fato que conduz suas ações. De novo, Emir Ribeiro escapa da padronização da indústria americana da banda desenhada. São personagens, portanto, com elementos vários para serem sucessos absolutos e ganharem milhões de fãs, mas são detidos pela poderosa e milionária máquina publicitária dos Estados Unidos, que consegue muito bem dirigir os apreciadores da BD a consumirem unicamente os seus e não conseguirem enxergar outras produções muito mais ricas, diferentes e bem construídas.
São as
injustiças do mercado, onde vencem os que possuem mais dinheiro, e
nem sempre mais competência. Paulo S. Campos
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