Introdução à Antropologia

Introdução à Antropologia

 


    Etimologicamente, o termo antropologia (anthropos, homem; logos, estudo) significa o estudo do homem. Como ciência da humanidade, ela se preocupa em conhecer cientificamente o ser humano em sua totalidade, o que lhe confere um tríplice aspecto:

a-) Ciência Social - propõe conhecer o homem enquanto elemento integrante de grupos organizados.
b-) Ciência Humana - volta-se especificamente para o homem como um todo: sua história, suas crenças, usos e costumes, iilosofia, linguagem etc.
c-) Ciência Natural - interessa-se pelo conhecimento psicossomático do homem e sua evolução.

    Relaciona-se, assim, com as chamadas ciências biológicas e culturais; as primeiras visando o ser físico e as segundas o ser cultural.

 

1.1 Conceituação

    Hoebel e Frost (1981:3) definem a antropologia como "a ciência da humanidade e da cultura. Como tal, é uma ciência superior social e comportamental, e mais, na sua relação com as artes e no empenho do antropólogo de sentir e comunicar o modo de viver total de povos específicos, é também uma disciplina humanística".

    A Antropologia tem uma dimensão biológica, enquanto antropologia física; uma dimensão sociocultural, enquanto antropologia social e/ou antropologia cultural; e uma dimensão filosófica, enquanto antropologia filosófica, ou seja, quando se empenha em responder à indagação: o que é o homem?

    Apesar da diversidade dos seus campos de interesse, constitui-se em uma ciência polarizadora, que necessita da colaboração de outras áreas do saber, mas conserva sua unidade, uma vez que seu foco de interesse é o homem e a cultura.

    Pode-se afirmar que há puu,:u mais de cem anos a antropologia conquistou seu lugar entre as ciências. Primeiramente, foi considerada como a história natural física do homem e do seu processo evolutivo, no espaço e no tempo. Se por um lado essa concepção vinha satisfazer o significado literal da palavra, por outro restringia o seu campo de estudo às características humanas físicas. Essa postura marcou e limitou os estudos antropológicos por largo tempo, privilegiando a antropometria, ciência que trata das mensurações do homem fóssil e do ser vivo.

    A Antropologia visa ao conhecimento completo do homem, o que torna suas expectativas muito mais abrangentes. Dessa forma, uma conceituação mais ampla a define como a ciência que estuda o homem, suas produções e seu comportamento. O seu interesse está no homem como um todo - ser biológico e ser cultural -, preocupando-se em revelar os fatos da natureza e da cultura. Tenta compreender a existência humana em todos os seus aspectos, no espaço e no tempo, partindo do princípio da estrutura biopsíquica. Busca também a compreensão das manifestações culturais, do comportamento e da vida social.

 

1.2 Objeto de estudo

    A Antropologia como ciência do biológico e do cultural tem seu objeto de estudo definido: o homem e suas obras.

    Segundo Beals e Hoijer (1968:5), "seus problemas se centram, por um lado, no homem como membro do reino animal, e por outro, no comportamento do homem como membro de uma sociedade". O objeto da antropologia engloba as formas físicas primitivas e atuais do homem e suas manifestações culturais. Interessa-se, preferencialmente, pelos grupos simples, culturalmente diferenciados, e também pelo conhecimento de todas as sociedades humanas, letradas ou ágrafas, extintas ou vivas, existentes nas várias regiões da Terra. Atribui-se ao antropólogo a tarefa de proceder a generalizações, formulando princípios explicativos da formação e desenvolvimento das sociedades e culturas humanas.

    Exemplo - O estudo do homem fóssil, ~~zas mudanças evolutivas, sua anatomia e suas produções culturais.

    Toda investigação antropológica vale-se do método comparativo em busca de respostas a uma infinidade de porquês, na tentativa de compreender as semelhanças e as diferenças físicas, psíquicas, culturais e sociais entre os grupos humanos.

    Exemplos - Brancos e negros; línguas diversificadas; a indumentária do índio e do não-índio; o culto ao Sol e a presença da pirâmide no Egito e nas civilizações pré-colombianas, duas regiões muito distanciadas geograficamente.

    Na ausência de um laboratório experimental, o antropólogo lança mão da pesquisa de campo, que lhe fornece os dados desejados e permite testar as hipóteses levantadas na observação de situações peculiares. Daí a importância da contribuição dos antropólogos de campo, fornecendo o maior número possível de estudos sobre grupos humanos, uma vez que cada um deles é o produto de uma experiência cultural particular.

    Exemplos - Os Apinajé, estudados por Curt Nimuendajú; os Guarani, estudados por Egon Schaden; os Esquimós, pesquisados por Franz Boas; e os Samoanos, investigados por Margaret Mead*.

* A grafia dos nomes tribais obedece às Resoluções da 1 Reunião Brasileira de Antropologia, publicada na Revista de Antropologia. São Paulo, 2(3): 150, 1954, e São Paulo, 2(3): 123, 1955, ou seja, devem ser escritos com letra maiúscula e no singular.

 

1.3 Objetivo da Antropologia

    Hoebel e Frost ( 1981:3-4) afirmam que a "antropologia fixa como seu objetivo o estudo da humanidade como um todo..." e nenhuma outra ciência pesquisa sistematicamente todas as manifestações do ser humano e da atividade humana de maneira tão unificada.

    É um objetivo extremamente amplo, visando o homem como expressão global - biopsicocultural -, isto é, o homem como ser biológico pensante, produtor de culturas e participante da sociedade, tentando chegar, assim, à compreensão da existência humana.

 

1.4 Divisões e campo da Antropologia

    A Antropologia, sendo a ciência da humanidade e da cultura, tem um campo de investigação extremamente vasto: abrange, no espaço, toda a terra habitada; no tempo, pelo menos dois milhões de anos e todas as populações socialmente organizadas.

    Divide-se em dois grandes campos de estudo, com objetivos deimidos e interesses teóricos próprios: Antropologia Física ou Biológica e Antropologia Cultural.

 

1.4.1 Antropologia física

    A Antropologia Física ou Biológica estuda a natureza física do homem, procurando conhecer suas origens e evolução, sua estrutura anatômica, seus processos fisiológicos e as diferentes características raciais das populações humanas, antigas e modernas. Vincula-se assim às Ciências Biológicas e Naturais, aproximando-se intimamente da Zoologia, da Anatomia, da Fisiologia, da Serologia, da Medicina etc.

    A Antropologia Física ou Biológica divide-se em:

PALEONTOLOGIA HUMANA. A Paleontologia (palaios, antigo; onto, ser; logos, estudo) Humana ou Paleoantropologia estuda a origem e a evolução humana através do conhecimento das formas fósseis do passado, intermediárias entre os primatas e o homem moderno.

SOMATOLOGIA. A Somatologia (somato, corpo humano; logos, estudo) descreve variedades existentes do homem, diferenças físicas individuais e diferenças sexuais (tipos sangüíneos, metabolismo basal, adaptação etc.).

RACIOLOGIA. A Raciologia (raça, etnia; logos, estudo) interessa-se pela história racial do homem, preocupando-se com a classificação da espécie humana em raças, com a miscigenação (mistura de raças), características físicas etc. ANTROPOMETRIA. A Antropometria (anthropos, homem; metria, medida) usa as técnicas de medição, procedimento quantitativo que fornece medidas do corpo humano (crânio, ossos etc.), elaboradas por instrumentos especiais. Entre eles o antropômetro, largamente utilizado.

ESTUDOS COMPARATIVOS DO CRESCIMENTO. Recentemente, os somatólogos ampliaram seu campo de estudo, no sentido de conhecer as diferenças grupais relacionadas aos índices de crescimento e a outros aspectos correlatos: alimentação, exercícios físicos, maturidade sexual etc.

 

1.4.2 Antropologia cultural

    Campo mais amplo da ciência antropológica. Abrange o estudo do homem como ser cultural, isto é, fazedor de cultura. Investiga as culturas humanas no tempo e no espaço, suas origens e desenvolvimento, suas semelhanças e diferenças. Tem foco de interesse voltado para o conhecimento do comportamento cultural humano, adquirido por aprendizado, analisando-o em todas as suas dimensões.

    Como ciência social, seu objetivo básico consiste no "problema da relação entre modos de comportamento instintivo (hereditário) e adquirido (por aprendizagem), bem como o das bases biológicas gerais que servem de estrutura às capacidades culturais do homem" (Heberer, 1967:28). É o homem (estrutura biológica) criando o seu meio cultural, mediante formas diferenciadas de comportamento, e evidenciando o caráter biocultural do desenvolvimento humano.

    Todas as sociedades humanas passadas, presentes e futuras interessam ao antropólogo cultural. Seu campo de estudo abrange:

ARQUEOLOGIA. A Arqueologia (archaios, antigo; logos, estudo) tem como objeto de estudo as culturas do passado, extintas, que, em épocas remotas, desenvolveram formas culturais, representando fases da humanidade não registradas em documentos escritos. Trata-se da tentativa de reconstrução do passado por meio da busca de vestígios e restos materiais não perecíveis e resistentes à destruição através do tempo. Cabe ao arqueólogo desenvolver técnicas adequadas para o trabalho de escavação e coleta de material que, devidamente interpretado, possibilitará a reconstrução dos fatos do passado.

    A Arqueologia, por sua vez, divide-se em:

a-) Arqueologia Clássica - tenta reconstruir as antigas civilizações letradas (Egito, Grécia, Mesopotâmia, Etrúria etc.).
b-) Antropologia Arqueológica - trata dos primórdios da cultura, relativa às populações extintas (culturas do Paleolítico, Mesolítico e Neolítico).

ETNOGRAFIA. A Etnografia (éthnos, povo; graphein, escrever) consiste em um dos ramos da ciência da cultura que se preocupa com a descrição das sociedades humanas. Lévi-Strauss (1967:14) define-a de modo mais preciso e objetivo. Para ele, a Etnograiia "consiste na observação e análise de grupos humanos considerados em sua particularidade (freqüentemente escolhidos, por razões teóricas e práticas, mas que não se prendem de modo algum à natureza da pesquisa, entre aqueles que mais diferem do nosso), e visando à reconstituição, tão fiel quanto possível, da vida de cada um deles".

    O objeto de estudo da Etnografia centra-se nas culturas simples, conhecidas como "primitivas" ou ágrafas. São as chamadas sociedades de linhagem e segmentárias. São grupos humanos que se opõem às sociedades complexas ou civilizadas. Também estas podem constituir-se em foco de atenção do etnógrafo, como, por exemplo, o interesse no estudo de sociedades rurais. As sociedades simples encontram-se, ainda hoje, espalhadas pela Terra, cada uma desenvolvendo uma cultura específica. Algumas já desapareceram; outras estão em contato com o mundo exterior, em processo de mudança; poucas se conservam isoladas.

Exemplos - "Primitivos" dos Estados Unidos, Canadá, Austrália, África. No Brasil, em 1957, dos 143 grupos tribais existentes, 33 estavam ainda isolados, 276 em contato esporádico, 45 em contato permanente e 38 integrados à sociedade nacional (D. Ribeiro, 1957).

    O etnógrafo é o especialista dedicado ao c~nhecimeuw exaustivo da cultm a material e imaterial dos grupos. Observa e descreve, analisa e reconstitui culturas. Trata-se de um investigador de campo dedicado à coleta do material referente a todos os aspectos culturais passíveis de serem observados e descritos primeiro passo da pesquisa antropológica. Relaciona-se intimamente com a Etnologia, de tal forma que o pesquisador deve ser, ao mesmo tempo, etrógrafo e etnólogo.

ETNOLOGIA. A Etnologia (éthnos, povo; logos, estudo) é outro ramo da ciéncia da cultura, cujos pesquisadores utilizam os dados coletados e oferecidos pelo etnógrafo. Eminentemente comparativa, preocupa-se com a análise, a interpretação e a comparação entre as mais variadas culturas existentes, considerando suas semelhanças e diferenças. Enfatiza as inter-relações de homem e meio ambiente, indivíduo e cultura, na tentativa de compreender a operosidade e mudança das mesmas.

    Segundo Lévi-Strauss ( 1967-396), ` `Etnografia, Etnologia e Antropologia não constituem três disciplinas diferentes ou três concepções diferentes dos mesmos estudos. São, de fato, três etapas ou três momentos de uma mesma pesquisa, e a preferência por este ou aqueles destes termos exprime somente uma atenção predominante voltada para um tipo de pesquisa que não poderia nunca ser exclusivo dos dois outros."

LINGÜÍSTICA. De todos os ramos da Antropologia Cultural, a Lingüística é o mais auto-suficiente, em função da independência que envolve o seu conhecimento. A linguagem é um meio de comunicação e também um instrumento de pensamento. A grande diversidade de línguas acompanha a grande variedade de culturas, cada uma delas com suas formas e estruturas básicas deimidas. Exemplo - Línguas indígenas brasileiras (Curt Nimuendajú, em 1981, relacionou 40 famílias lingüísticas).

FOLCLORE. É um dos campos de investigação da Antropologia Cultural, definindo-se como o estudo da cultura espontânea dos grupos humanos rurais ou urbanizados. É uma ciência socioantropológica, uma vez que se dedica ao estudo de determinados aspectos da cultura humana. Preocupa-se com os fatos da cultura material e espiritual que, originados espontaneamente, permanecem no seio do povo, tendo determinada função.

    O folclore, sendo uma disciplina autônoma, tem seus próprios métodos e técnicas de pesquisa científica. Estuda os fenômenos em sua dimensão espacial e temporal. Mesmo gozando esta autonomia, é considerado ramo da Antropologia, pela identidade de interesses (o homem e a cultural desses dois campos de conhecimento.

Exemplos - Folguedos populares, danças, artesanato, linguagem, alimentação, canções etc.

ANTROPOLOGIA SOCIAL. Estudo dos processos culturais e da estrutura social, seu interesse está centrado na sociedade e nas instituições. O antropólogo social é aquele que, levando em conta as diferenças existentes entre grupos humanos, preocupa-se em conhecer as relações sociais que as regem. Cada aspecto da vida social - o familiar, o econômico, o político, o religioso, o jurídico só pode ser compreendido se estudado em relação aos demais, como parte de um conjunto integrado.

    Lucy Mair (1972:14) afirma que cabe ao antropólogo social "observar a t~talidade das relações que agem entre as pessoas na unidade social que estudamos, não só as diretamente relevantes a determinado problema" . Isto significa que uma sociedade deve ser observada e estudada como um todo, a partir de suas instituições, chegando-se até a sua estrutura e organização.

    As diferenças entre o "social" e o "cultural" não são tão substanciais , mas seu conteúdo implica tendências teóricas próprias. Enquanto os ingleses se acham mais voltados para a Antropologia Social, os americanos dão preferência à Antropologia Cultural.

CULTURA E PERSONALIDADE. As inter-relações entre cultura e personalidade constituem aspecto que abre à análise antropológica um novo campo de investigação. O indivíduo não é visto como um simples receptor e portador de cultura, mas como um agente de mudança cultural; desempenhando papel dinâmico e inovador.

    Ele incorpora, através do processo de endoculturação (veja item 2.5.4), características próprias do grupo em que vive, adquirindo uma personalidade básica. Como participante de uma sociedade e de uma cultura, a pessoa é portadora de caracteres constitucionais (biopsicológicos) e de experiência sociocultural próprios. Isso lhe confere um tipo de personalidade que vai determinar ações e reações, pensamentos e sentimentos, enfim, o seu comportamento na busca de melhor adaptação aos valores socioculturais do grupo.

Indivíduo, sociedade e cultura são três aspectos inter-relacionados, indispensáveis na análise do comportamento humano.


1.5 Ciências afins
A Antropologia, embora autônoma, relaciona-se com outras ciências, trocando experiências e conhecimentos.
Como ciência social, oferece e recebe dados teóricos e metodológicos da Sociologia, da História, da Psicologia, da Geografia, da Economia e da Ciência Política. Como ciência biológica ou natural, liga-se à Biologia, à Genética, à Anatomia, à Fisiologia, à Embriologia, à Medicina. Também a Geologia, a Zoologia, a Botânica, a Química e a Física vêm oferecendo indispensável contribuição aos estudos antropológicos na busca da compreensão dos problemas comuns a todas essas disciplinas.
A Antropologia, considerada a mais jovem das ciências, teve de aguardar o desenvolvimento dos conhecimentos ligados à Geologia, à Genética, à Biolo

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