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Artefato, Artemáquina

 

Alckmar Luiz dos Santos, UFSC/CNPq

Artigo publicado no Suplemento Cultural do Diário de Pernambuco


Na literatura, entre o facto e o fato (tomo o vernáculo aos portugueses, para uso que se justificará logo a seguir), há muito mais tecido do que se pode supor à primeira vista. Há no texto um deleite que se dá à fruição, leitura construída no imediato do evento - no calor do facto literário -, como prazer ou gozo (ou, nos casos extremos, aversão também extrema, ou ainda, o pior dos males, a indiferença). Há também, no texto, prazeres outros, escondidos nos hábitos com que vestimos o despudor da leitura prazerosa, no sistema que sobrepomos à busca desinteressada e interessante do literário. Ao facto da arte, artefato evidente dado à leitura imediata, sobrepõe-se o fato da arte, o discurso com que o leitor (o crítico que todos somos) busca organizar sua razão do texto.

E com que roupa vestiremos o artefato literário, numa época em que ele desfila em roupagens outras, nessa época em que o texto literário se despe das pompas de outrora - arco-íris feito do preto-da-tinta-no-branco-do-papel -, para ressurgir ainda mais pleno no plano da tela do computador (artefato insinuando artemáquina)?

A tecnologia, essa que planifica o texto na tela, nos dá a ver novos pensares e novos criares, adornando a arte literária de originais vestes. Todavia, que não se suspenda o tempero inevitável do receio: na tela, vamos encontrar escrínio onde riquezas outras e várias se mostram, ou vamos enfrentar desagradável Caixa de Pândora com seus recheios inesperados?

A entronização da tecnologia, com seu séquito de máquinas e códigos, parece estabelecer uma fratura intransponível entre a antiga forma de veiculação da literatura - hábitos aos quais já estávamos habituados - e essa expressão contemporânea, criação maquinal que nos bafeja no rosto o hálito do absolutamente novo. Hálito que pode nos entorpecer a lembrança e os valores de antes, nos fazer esquecer o gosto do passado: Le Roi est mort ! Vive le Roi !

No lado do criador - aquele que gera e lustra sua escrita -, a artemáquina parece impor uma objetivação total do texto: máquina de criar linguagens, mathesis universalis na ponta dos dedos e na conta da programação, criatividade que abre mão do útero virtual que se dava em cada espírito artístico, para brotar de útero lógico-automático: logomática arte. E na criação, não mais o dedo de deus, nem o dedo do homem, mas o dígito da máquina, insone e liberto, autônomo e ousado, castrador das últimas libertinagens onde se encastelava a subjetividade sitiada do escritor.

Porém (e sempre tem um porém, como dizia Plínio Marcos, em tempos idos), no lado do pensador - aquele que busca coser suas impressões à vestimenta de sua razão -, a logomáquina se traduz na construção de uma nova heurística. Longe de se impor ao pensamento como maquinário já pronto e acabado, como esquema e percurso de raciocínios já otimizados pelo crivo da produtividade imediatista, o computador está nos dando novas formas de pensar. E nesses novos pensares, não se inaugura um novo homem, mas se dá voz e curso a latências lógicas que se sedimentaram nestes últimos milênios, latências que sempre fizeram do humano não uma espécie natural, mas uma construção histórica (Merleau-Ponty).

É assim que a máquina digital, artefato tecnologicizado, dá ao escritor a possibilidade de apreciar, na concretude da tela e na virtualidade do texto interativo-iterativo aí produzido, qualidades e estados literários que antes não passavam de insinuação ou desejo. A obra aberta, suspeita teórica, surge como realização imediata, nos poemas que se oferecem ao toque do mouse, em arquivos *.dll chamados à ação a partir de arquivos outros, *.bat ou *.com, e que parecem brotar, irreverentes, de diretórios sempre tão sisudos.

O maquinário digital nos permite, ademais, perpretar uma aproximação antes apenas entrevista: a máquina gera seus eventos - maternidade do acaso -, que são retomados por nossa intuição geradora: duas maternidades que se ecoam mutuamente no espaço da tela - geratriz técnico-intuitiva de eventos mais ou menos casuais, dando origem a outras formas de expressão artística, alargando ou inaugurando novo campo de textualidade literária -.

Por outro lado, a artemáquina nos faz também recuperar possibilidades antigas, olvidadas pela tecnologização que já se intrometera na fruição do literário (ou será que a invenção da escrita e da imprensa já não contribuíra para um certo adormecimento de possibilidades estéticas da oralidade?). Ao propor realizações iterativamente recorrentes e diferentes de um mesmo (será o mesmo?) poema, a artemáquina surge como concretização imediata e condensada de percursos que se alongavam e se alteravam na voz de jograis e menestréis.

A questão que se coloca, então, pode ser justamente a da literariedade dessa produção. Dito de outro modo, será que estamos inaugurando nova literatura ou outra forma do literário? Testemunhamos o surgimento de uma nova expressão - totalmente nova, surgida do grau zero da invenção -, ou acompanhamos a apropriação, pelo literário, de nova superfície significante?

Sem carregar a pretensão de avançar na resposta (limite imposto pela exigüidade do artigo e aceito com alívio por este escriba), direi apenas que, até o momento, boa parte das diferenças que se apontam entre o livro de papel e a tela do computador não implicam uma diferença de substância entre artefato impresso e artemáquina digitalizada.

Diferenças, essenciais ao menos, não parecem existir na maneira como se produzem e jorram significações: do mesmo modo que na tela real do computador, a leitura de um texto impresso implica um ato performativo, uma interatividade imediata com a intencionalidade do leitor, interatividade que é feita, nos dois casos, por uma castração da arbitrariedade máxima possível do leitor, pela coerência própria e dinâmica do objeto literário que se desenvolve diante de nós (seja na tela real do computador, seja no espaço virtual de nossa linguagem).

Do mesmo modo, diz-se que a artemáquina literária implicaria inevitavelmente uma irreprodutibilidade da experiência individual de leitura: a cada performance da máquina, a iteratividade levaria essa textualidade lítero-lógica a posicionar-se numa outra região do espaço multi-significativo, tornando irrecuperáveis as posições ocupadas em performances anteriores. Ora, nenhuma leitura que fazemos (esteja ela em tela, esteja isso impresso em papel) se dá totalmente, em absoluta transparência, a outros leitores. Ao contrário, é justamente por fundar-se na diferença, na alteridade, que cada leitura pode dialogar com as outras e instalar-se, com elas, no espaço comum da linguagem: é marcando sua diferença mutualmente irredutível que o espaço das diferentes leituras pode reduzir-se a um diálogo.

No caso das leituras lógico-digitais, será necessário discutir como saem do circuito eletrônico para se inserirem no circuito produtivo das formas culturais. Trata-se de investigar como essa possívelmente nova textualidade artemaquínica dá voz e imagem (sentido, portanto) ao espaço das construções intersubjetivas, intertextuais, inter(intra)disciplinares, retomando e/ou reforçando procedimentos e processos arcaicos (literatura na voz) e antigos (literatura no papel). No caso, o que está em jogo é a virtualidade desse objeto: seria tal virtualidade logimaquínica essencial e substantiva, ao contrário do mero texto papelizado? Na tela, as etapas de concretização do objeto se apagam, de maneira que ele se dê a ver como percurso sempre virtual, apoiado em instantes concretos, mas que se deletam ao longo da construção. Ora, pondo de lado as ilusões de alguns estudiosos manuscribas, não é nenhum exagero propor que o texto impresso carrega também uma virtualidade essencial e substantiva, não do mesmo grau, não do mesmo instante - talvez -, mas do mesmo gênero que aquela da tela imágica do computador.

Daí segue, de imediato, que, mesmo a figura do autor, imagem contestada e discutida quando se trata da textualidade informática, mais aproxima que separa as duas formas de textualidade: se a instabilidade do texto i(n)terativo da artemáquina coloca em suspenso (ou multiplica indefinidamente) a sua autoralidade, a autoria do texto no papel, também ela, não se confunde nunca com a singularidade do escritor empírico, e se derrama em perspectivas várias, geradas a partir das leituras várias que nos permite o texto. Em ambos os casos, em suma, trata-se de conclamar o leitor a dialogar com uma perspectiva outra, que não a sua, chamada então a interferir na organização do espaço de sentidos do texto, perspectiva que, ao ser chamada de autor, deve virtualizar (dinamizar) ainda mais as significações que se outorga a leitura.

Todavia, entre a textualidade da artemáquina e o artefato literário lido no papel, diferenças há, e, se não tratei aqui delas, foi por voluntária escolha. Para que sejam lidas (também elas) a partir dessas aproximações inaugurais. Ao menos, pela simples constatação de que ao campo do literário é dado não se apequenar dentro da máquina. Não necessariamente.

Saliente-se, ainda, que a barroquidade de meu texto - todo ele feito em computador - foi expressividade assumida de-propósito: manifesta-se aí que o prazer, advindo da artemáquina, é possível, sem ser maquinal.