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Poesia Romântica
texto do trabalho Romantismo

No período de quase meio século em que predominou entre nós a estética romântica, se destacam três gerações bastante distintas de poetas.

 

1. Primeira geração: os indianistas.

À oposição declarada aos antigos colonizadores e ao autoritarismo do imperador durante o Primeiro Reinado seguiram-se rebeliões de forte coloração popular no período regencial.

O povo brasileiro, embora constituído por diferentes etnias, está em busca de uma identidade como nação.

Na Europa, entre outros, o inglês Walter Scott em Ivanhoe e o português Alexandre Herculano com Eurico, o Presbítero buscam na idade feudo-clerical a trama de seus romances históricos. Em nosso país, no tempo que corresponde à Idade Média, fizeram história as culturas indígenas. Assim, era de se esperar que os cavaleiros e os castelos europeus fossem substituídos, em nossa literatura, por aborígenes e matas tropicais. A visão romântica do índio como herói da nação brasileira em formação estava longe de corresponder à marginalização da qual viviam as nações indígenas. A nossa primeira geração de românticos, com destaque para Gonçalves Dias, idealizou o índio, ficando conhecida por isso como indianista.

 

2. Segunda geração: os ultra-românticos.

A influência dos autores ingleses e franceses, especialmente de Byron e de Musset se divulgou entre os estudantes de direito da época, sobressaindo os do Largo São Francisco em São Paulo. No rastro de Byron, os autores dessa fase deixaram-se impregnar pelo chamado mal do século: eram boêmios, egocêntricos e pessimistas, cheios de desilusões e dúvidas. Viviam intensamente. Sonhavam muito. Às vezes se viam até rezando. Geralmente ironizavam a vida. Morriam cedo. A esta segunda geração costumamos chamar ultra-romântica.

Sobressaíram nela: Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Junqueira Freire e Laurindo Rabelo.

 

3. Terceira geração: os condoreiros.

Sob a influência de Victor Hugo, romancista social e humanitário da França, quando começa a decadência do Segundo Reinado e do regime monárquico, aparecem escritores com preocupações sociais e políticas. O sentimento patriótico, os temas sociais, em especial a abolição, marcam a poesia do século XIX.

Ao negativismo da segunda geração de românticos brasileiros segue-se uma produção literária cheia de luz e otimismo, cujos autores escolheram o condor como símbolo libertário. Altos vôos eram seu ideal. Essa terceira geração de poetas românticos tem em Castro Alves, Tobias Barreto e Sousândrade seu maiores representantes...

 

1. Indianistas

O romantismo brasileiro começou pela poesia. Os caracteres românticos europeus transplantados para o Brasil fizeram surgir um enorme orgulho pela variante brasileira da língua portuguesa. Com a poética romântica nasceu, pois, o desejo de nacionalizar as artes, a literatura em especial, pretendendo que à independência política se seguisse a independência cultural.

Na apresentação dos poetas, seguiremos a ordem em que as gerações românticas surgiram, conforme foi descrito no capítulo anterior. Aqui trataremos apenas dos poetas indianistas:

Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882) teve o grande mérito de ser o lançador do movimento no Brasil. Foi ele o autor do manifesto romântico. Suspiros Poéticos e Saudades e A Confederação dos Tamoios são suas principais composições. Não conseguiu, entretanto, se desfazer das influências neoclássicas que ele mesmo havia atacado com tanta convicção.

Eis como Magalhães se expressa no ideário do Romantismo com que faz a apresentação de sua obra:

"Seja qual for o lugar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua bela, embalado pelos prazeres; no cárcere, como no palácio; na paz, como sobre o campo da batalha; se ele é verdadeiro poeta, jamais deve esquecer-se de sua missão, e acha sempre o segredo de encantar os sentidos, vibrar as cordas do coração, e levar o pensamento nas asas da harmonia até às idéias arquétipas".

(Gonçalves de Magalhães)

Antônio Gonçalves Dias nos deixou, através do indianismo, sua contribuição mais autêntica. Seus assuntos são o índio, a natureza e o amor. Mestiço, buscou o convívio com os indígenas, com a intenção de conhecer melhor os povos que lhe serviam de tema e dos quais descendia. Mesmo assim, é o índio-ficção, recriado, quem aparece em sua poética. Descreveu nossa natureza, interferindo e modificando, provocando em nós o espanto diante da imensidão e exuberância da selva brasileira. Um amor carregado de sentimentalismo e de sofrimento, torturado pela falta de correspondência e de esperança, é o que vemos em sua lírica amorosa.

Não conseguiu terminar seu poema épico Os Timbiras. Entre suas peças de teatro, sobressai Leonor de Mendonça. Mas é na lírica que ele se impõe com toda a pujança.

Ao apresentar Primeiros Cantos, confessa, feliz: "Dei o nome de Primeiros Cantos às poesias que agora publico, porque espero que não serão as últimas... Escrevi-as para mim, e não para os outros; contentar-me-ei, se agradarem; e se não... é sempre certo que tive o prazer de as ter escrito".

E como agradaram! Na segunda edição podemos ler a integra de um artigo Futuro literário de Portugal e do Brasil, escrito pelo famoso Alexandre Herculano! Nela figuram conhecidos poemas seus, como Canção do exílio, O canto do guerreiro, O canto do piaga, A leviana, Seus olhos... e mais 50 outros poemas aos quais Herculano se referiu como "inspirações de um grande poeta". E Gonçalves Dias tinha apenas 23 anos de idade!

Novos Cantos (Segundos Cantos, na edição Saraiva de 1957) e Últimos Cantos são a coroação de um início grandioso. Neles estão suas linhas mais inspiradas: Ainda uma vez - Adeus!, Se morre de amor!, I-Juca-Pirama, Canção do Tamoio.

Há poemas autobiográficos em meio a peças de arte pura: Quadras de minha vida é a principal delas.

Leia alguns fragmentos apenas:

Quadras de minha vida

I

Houve tempo em que os meus olhos
      Gostavam do sol brilhante,
E do negro véu da noite,
      E da aurora cintilante.

IV

Houve tempo em que os meus olhos
      Gostavam de lindo infante,
Com a candura e sorriso
      Que adorna infantil semblante.

Gostavam do grave aspecto
      De majestoso ancião,
Tendo nos lábios conselhos,
      Tendo amor no coração.

Um representa a inocência,
      Outro a verdade sem véu;
Ambos tão puros, tão graves,
      Ambos tão perto do céu!

VI

Houve tempo em que eu pedia
      Uma mulher ao meu Deus,
Uma mulher que eu amasse,
      Um dos belos anjos seus.

VII

Houve tempo em que eu sentia
      Grave e solene aflição,
Quando ouvia junto ao morto
      Cantar-se a triste oração.

Quando ouvia o sino escuro
      Em sons pesados dobrar,
E os cantos do sacerdote
      Erguidos junto do altar.

Quando via sobre um corpo
      A fria lousa cair;
Silêncio debaixo dela,
      Sonhos talvez - e dormir.

(Gonçalves Dias)

O refrão "Houve tempo..." é retomado quatro vezes, mostrando toda a esperança de amar e ser amado que palpitava em seu jovem coração. A cada um deles seguem versos melancólicos e sem esperança, culminando no desejo da morte:

Oh! Laje dos sepulcros! Quem me desse
No teu silêncio fundo asilo eterno!
Aí não pulsa o coração nem sente
Martírios de viver quem já não vive.

(Gonçalves Dias)

O que conta em sua obra é mais a valorização do nativo e da natureza tropical, cujo exotismo era por demais evidente para quem, como ele, conhecia a fundo a Europa. Sua poética focaliza a formação da nação brasileira. É, em tudo o que escreveu, o poeta perfeito.

O poema I-Juca-Pirama conta a história de um índio tupi, cuja tribo havia sido dizimada, sobrando apenas ele e o pai cego a quem servia de guia. Saindo para caçar, cai prisioneiro dos Timbiras e vai ser sacrificado. No seu canto de morte, pede que seja solto, pois é o único arrimo de seu velho pai. Promete voltar e se entregar aos que o aprisionaram. O cacique manda soltá-lo. Após algum tempo, o valente tupi volta, junto com seu pai. O velho tupi oferece o jovem guerreiro aos Timbiras, para o sacrifício final. O cacique timbira rejeita a oferta, por considerá-lo alguém que chorou em presença da morte. No final do poema, o guerreiro tupi consegue provar sua coragem enfrentando os guerreiros timbiras sozinho e provando que era digno de morrer em sacrifício.

Leia estes versos de Gonçalves Dias, que constituem a parte IV do seu poema I-Juca-Pirama (forma verbal tupi: o que há de ser morto). A este trecho, podemos chamar:

Canto de morte

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.

Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por aldo inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.

Já via cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.

 

Andei longes terras,
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimorés;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes - escravos!
De estranhos ignavos
Calçados aos pés.

 

E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas doitados
Já sem maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz.

 

Aos golpes do imigo
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.

 

Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d'espinhos
Chegamos aqui!

 

O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu'iria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.

Então, forasteiro,
Caí prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossego
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego,
Qual seja, - dizei!

 

Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava.
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.

 

Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? - Morrer.
Enquanto descreve
O giro tão breve
Da vida que teve,
Deixai-me viver!

Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro;
Se a vida deploro,
Também sei morrer.

(Gonçalves Dias)

Regressando de Portugal em 1845, Gonçalves Dias conhece Ana Amélia Ferreira do Vale, por quem se apaixona. Os pais dela impedem o casamento, por ser ele filho de uma mestiça. Esse amor contrariado trouxe uma nota de extrema sensibilidade e emoção à sua lírica amorosa, como se pode ver neste poema que ela lhe inspirou de que seguem as dez primeiras estrofes:

Ainda uma vez - Adeus !

I

Enfim te vejo! - enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!

II

Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!

III

Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp'rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!

IV

Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.

V

Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!

VI

Nenhuma voz me diriges!..
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que ma darias - bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!

VII

Oh! se lutei!... mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?

VIII

Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t'esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T'esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu quinhão de dor!

IX

Que me enganei, ora ao vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!

X

Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
"Ela é feliz (me dizia),
"Seu descanso é obra minha."
Negou-me a sorte mesquinha...
Perdoa, que me enganei!
........................

XVII

Adeus qu'eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Solução um breve Adeus!

XVIII

Lerás porém algum dia
Meus versos, d'alma arrancados,
D'amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; - e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade,
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, - de compaixão.

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida.
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Coimbra, julho de 1841.
(Gonçalves Dias)

 

Byronianos

O segundo momento romântico se modela em Byron e Musset.

Lord Byron (1788-1824), nobre e aventureiro ao mesmo tempo - coisa incomum na Inglaterra vitoriana - se identificou com suas personagens: boêmio, idealista, extravagante e rebelde, não se limitou a escrever; participou efetivamente de lutas nacionalistas na Itália e na Grécia, onde morreu em conseqüência da guerra. Deixou-nos obras cheias de conflitos, impetuosas, violentas como seu temperamento e sua própria vida. Seu espírito satírico e incomparável.

Alfred de Musset (1810-1858) é o gênio romântico que, ao falar de sua vida amorosa, caracteriza a quantos sofrem de amor. Seu passado imediato - a França arrasada pela Revolução e pelas lutas que ela ocasionou - fazia antever um futuro incerto. O ceticismo e o deboche plasmaram a sua alma sensível de artista da palavra. Amar e sofrer foi sua vida. E também sua obra, repassada de paixão, sensualidade e ironia. Em A Confissão de um Filho do Século, pinta o mal de que sua geração sofreu.

Inspirados pela realidade histórica, conflitante também no Brasil, e pelos seus ídolos europeus, muitos jovens intelectuais brasileiros resolveram encerar a vida como algo passageiro. Tempo breve que devia ser intensamente vivido. De um modo bem individualista, para dele se tirar o máximo. Dessa geração nasceram peças literárias que também correspondiam ao estilo de fida ultra-romântico que seus autores abraçaram. Seus temas são o amor e a morte, a dúvida e o tédio, a tristeza e a angústia diante da vida que levavam, comparada à que desejavam ter. Esse conjunto todo ficou conhecido como mal do século. Sua conseqüência era a excessiva boêmia, evasão que provocava geralmente um suicídio lento pela bebida e pela tuberculose.

Álvares de Azevedo é o maior nesse grupo de poetas. Lira dos Vinte Anos nos revela um jovem triste que sonha com um amor que tarda em se realizar. Além disso, nem tem esperança que chegue a acontecer, pois o poeta pressente que morrerá cedo. Esse sentimento está gritante em Lembrança dos quinze anos e no soneto Perdoa-me, visão dos meus amores. Um lado menos pessimista e não menos lírico de sua obra são os versos que revelam seu profundo apego à família. Está bem claro em A minha mãe e no soneto Oh! Páginas da vida que eu amava.

Poema do frade, precedido de longo tratado sobre o belo e a poesia, é sua segunda coletânea de pequenas e grandes obras-primas. Fez ainda Macário para o teatro, e em prosa escreveu o livro de contos Noites na Taverna.

Se eu morresse amanhã!

Se eu morresse amanhã viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria,
       Se eu morresse amanhã!

Quanto glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas,
       Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louça!
Não me batera tanto amor no peito,
       Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos,
       Se eu morresse amanhã!

(Álvares de Azevedo)

Fagundes Varela, além de acadêmico nos dois centros propulsores do byronismo de então - São Paulo e Recife - refugiava-se no interior para melhor viver sua evasão. Após o golpe da morte do filho, entregou-se ainda mais ao alcoolismo. Sua produção é vasta: Noturnas, O Estandarte Auriverde, Pensão, Livro das Sombras, Cantos Meridionais, Anchieta ou O Evangelho nas Selvas, Cantos do Ermo e da Cidade, Cantos Religiosos, Diário de Lázaro...

Ressaltamos Cântico do calvário, no Livro das Sombras, que ele dedica ao filho. Sua religiosidade, aqui, é notória, bem como em grande parte de sua produção. O tema de escravidão igualmente está presente em vários de seus poemas, o que também ocorre com a natureza, escolhida para se evadir.

O cântico do calvário, dedicado ao filho morto pouco depois do nascimento, é uma de suas poesias mais apreciadas pela intensidade do sentimento de dor que manifesta.

Cântico do calvário (fragmento)

      À memória de meu filho
      morto a 11 de dezembro
      de1863.

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. - Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho do pegureiro.
Eras a messe de um dourado estilo.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, - a inspiração, - a pátria,
O porvir de teu pai! - Ah! no entanto,
Pomba, - varou-te a flecha do destino!
Astro, - engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! - Crença, já não vives!

Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta;
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
...........................
Oh! filho de minh'alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!
Quando as garças vierem do ocidente
Buscando um novo clima onde pousarem,
Não mais te embalarei sobre os joelhos,
Nem de teus olhos no cerúleo brilho
Acharei um consolo a meus tormentos!

(Fagundes Varela)

Casimiro de Abreu, desaparecido aos vinte um anos de idade, não chegou a se libertar das figuras da mãe e da irmã. Seu amor é todo idealizado. A criança e o adolescente, nele ainda presentes, são os autores de sua obra. Obra simples, fluente, de um lirismo saudosista de tudo o que representa a primavera da vida que ele não quer perder. Tudo parece ser feito para recitar: é direto, sem abstrações e segundas intenções. Quem não leu ainda Meus oito anos ou sua Canção do exílio? Seu livro mais marcante - Primaveras - reúne toda a sua lírica. Ele o apresenta assim: "As lágrimas correram e fiz os primeiros versos da minha primeira musa... Mais tarde, tive saudades de meu ninho de florestas e cantei... Rico ou pobre, contraditório ou não, este livro fez-se por si, naturalmente, sem esforço, e os cantos saíram conforme as circunstâncias e os lugares iam despertando".

Meus oito anos

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é - lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria.
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
........................
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjas!

(Casimiro de Abreu)

 

A esta geração pertenceram também Junqueira Freire (1832-1855), outro grande poeta obcecado pela morte, Laurindo Rabelo (1826-1864) e José Bonifácio, o Moço (1827-1886). De Junqueira Freire, conservamos reflexões poéticas de grande originalidade sobre sua vida e sua formação religiosa de monge beneditino. Estão todas em Inspirações do Claustro. O desejo de morrer é uma constante nos seus versos.

Morte
(hora de delírio)

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dois fantasmas que a existência formam,
- Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das noções da vida,
Do prazer que nos custa a dor passada.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és apenas
A visão mais real das que nos cercam,
Que nos extingues as visões terrenas.
.................................
Amei-te sempre: - e pertencer-te quero
Para sempre também, amiga morte.
Quero o chão, quero a terra, - esse elemento
Que não se sente dos vaivéns da sorte.
................................
E depois nada mais. Já não há tempo,
Nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.
Agora o nada, - esse real tão belo
Só nas terrenas vísceras deposto.

Facho que a morte ao lumiar apaga,
Foi essa alma fatal que nos aterra.
Consciência, razão, que nos afligem,
Deram em nada ao baquear em terra.

Única idéia mais real dos homens,
Morte feliz, - eu quero-te comigo.
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.

(Junqueira Freire)

 

Condoreiros

O romântico é sempre um individualista.

A sociedade, porém, mudara. Os problemas de grande parcela do povo brasileiro começaram a comover toda a sociedade, chegando a sensibilizar também os escritores. Começavam, entrelaçados, o movimento abolicionista e o republicano. A estas tendências se amolda a estética romântica. Nasce a poesia romântica social, caracterizada por uma linguagem ardente e bombástica, cheia de grandes metáforas e audazes comparações. Chamou-se condoreira a essa poesia que, numa linguagem elevada, voa alto, como o condor.

República!... Vôo ousado
Do homem feito condor!
Raio de aurora inda oculta,
Que beija a fronte ao Tabor!

(Castro Alves)

Victor Hugo, o poeta francês que cantou a humanidade, que nos ensinou a ficar do lado de quem sofre, autor de Os Miseráveis, foi o ídolo dessa geração.

Foram poucos os poetas brasileiros desse período que deixaram seu nome na História. O filósofo que também fez poesia foi Tobias Barreto (1839-1889). O que todos conhecemos é Castro Alves, o extraordinário Castro Alves. Um não menor, mas tardiamente divulgado, é Sousândrade.

Castro Alves, enquanto romântico, se compara apenas a Gonçalves Dias. Grande lírico, não foi menor como cantor da grande questão social na época: o abolicionismo. Seu lirismo já não sofre de todo o individualismo que caracterizou o surgimento do Romantismo e dos ultra-românticos. Mostra-se preocupado com o mundo exterior, com o povo, com sua terra. E, ao falar desses temas, não deixa de ser extremamente lírico. Seu amor, porém, já não é idealizado como o dos poetas anteriores. Tem forte carga sensual, antecipando a estética realista.

Para um poeta que morreu com 24 anos, deixou-nos uma produção volumosa, esteticamente madura, com um estilo rico em figuras que empolgam o leitor. Vozes d'África e O navio negreiro são seus mais divulgados poemas abolicionistas, ambos em sua obra Os Escravos, dentro da qual alguns críticos colocam 33 poemas publicados depois da morte do poeta. Neles é patente a veia romântica de endeusamento da natureza. É nesta poesia que ele se mostra realmente condoreiro.

Espumas Flutuantes e Hinos do Equador são coletâneas nascidas de amores vividos e não apenas sonhados: Idalina e Eugênia Câmara.

Engajado nas lutas do momento, incluindo o fim do Império, muitas vezes declamou seus próprios poemas em teatros e praças públicas, empolgando platéias de Recife, Salvador, São Paulo e Rio. Aí conheceu Alencar e Machado, a quem apresentou sua peça Gonzaga ou A Revolução de Minas. A ela se referiu Machado elogiosamente no Correio Mercantil.

Por menos que se conheça do grande poeta pré-republicano, qualquer brasileiro já se empolgou com versos como os do poema O povo ao poder:

A praça! A praça é do Povo
Como o céu é do Condor.
É o antro onde a liberdade
Cria águia ao seu calor!

(Castro Alves)

Leia esse trecho do poema O navio negreiro, assim datado pelo autor: "São Paulo, 18 de abril de 1868. "Ele é longo, feito para empolgar. O autor o divide em seis partes: a majestade do mar, o destino dos marinheiros, o espanto com a triste cena que ocorre no navio, a descrição detalhada da violência que lá está instalada, um longo apelo a Deus para que acabe com toda essa barbárie e um grito ao Brasil que é co-autor desse crime.

O navio negreiro (Tragédia no mar) (fragmento)

..........

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... O porão negro fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer...
Prende-os a mesma corrente
- Férrea, lúgubre serpente -
Nas roscas da escravidão,
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia de mais!... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

(Castro Alves)

 

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Sobre o Trabalho (Apresentação, Conclusão e Bibliografia)
Breve análise dos autores e dos períodos da Poesia Romantica
Breve análise dos autores e dos períodos da Prosa Romantica.

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