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No primeiro dia de aula fui indagado por uma aluna: "Professor, até hoje ninguém conseguiu me explicar o que é filosofia?" Não era surpresa. Respondi que a resposta que ela estava buscando estava dentro dela mesma e em nenhum outro lugar. "Mas como assim?" Voltou-me a indagar.
Observando outras aulas, como de física por exemplo, a professora falava da importância em estudar aquele determinado conteúdo que certamente seria conteúdo de prova de vestibular. Percebi certo interesse e atenção dos alunos, que estavam sendo provocados pelo desejo de passar no vestibular.
Em meio a tudo isso, surgiu o questionamento que certamente está presente constantemente nos alunos de Ensino Médio: "Para que estudar filosofia se não cai no vestibular?" Eles tem razão. Filosofia não cai no vestibular assim como a matemática, o português, a história, a geografia e outras.
Avançando na reflexão, será que Filosofia não aparece no vestibular? Por que então estudar essa disciplina?
Na interpretação da questão de física, na produção da redação, na interpretação do texto de português, na equação matemática, sempre há um toque de filosofia.
Aquele que não consegue seguir o raciocínio lógico da matemática, por exemplo, não teve uma boa aula de filosofia.
Filosofia não se estuda com descobertas cientificas, frases, respostas prontas. A filosofia não se limita às verdades ligadas as condições humanas, ou a ciência, que por sua vez possuem limitações.
A sua preocupação está voltada há uma verdade maior, uma verdade que transcende os limites da razão humana, à qual somos instigados a buscar constantemente. Essa busca e essa verdade não são finitas, por isso enquanto o homem existir, e isso penso ser maravilhoso, ele vai  estar sempre em busca dessa verdade maior.
A nossa vida não se limita ao 2+2=4, pois a verdade, o bem, o belo, não podem ser entendidos e interpretados como simples equações matemáticas.
Eles exigem uma reflexão maior, convidando-nos a olharmos para nós mesmos, para o nosso intimo, onde se encontra a razão de nosso existir.
Quanto mais nos voltarmos para nós mesmos e nos remetermos ao transcendente , tanto mais teremos que caminhar. Essa caminhada é infinita e nos vai abrindo os horizontes  a medida que caminhamos. 
É preciso estudar filosofia para entendermos melhor a vida. Entender e compreender seu real e imenso valor que possui em si.
Sem filosofia nossa vida, seria limitada a simples cálculos, o que nos tornaria calculistas, frios e sem vida.
A filosofia  abre os horizontes e nos guia para uma verdade que transcende todas as verdades da ciência. A verdade de nossa existência, a força que nos move para uma busca infinita.
Parece ser difícil compreender filosofia com tantos dizeres filosóficos, mas para sua compreensão há uma exigência dessa busca.
Só entenderemos o sentido de filosofia quando entendermos que não podemos somar ou subtrair, multiplicar  nem dividir nossa verdade, o bem praticado. Os sentimentos podem ser expressados nas mais diversas formas, mas nunca numa equação matemática, nem numa composição química ou física.
Nossas relações se tornam frias e calculistas porque na sociedade vive-se desta maneira. Pensar é coisa de quem não tem o que fazer, muitos dizem, porém, uma reflexão profunda ajuda na compreensão de muitas coisas  que nenhuma ciência jamais explicou e não explicará.
Hoje, questões ligadas a vidas, a ética, moral, direitos humanos exigem uma profunda reflexão. Falar de vida humana, mexer com direitos humanos, focar em questões éticas é muito complicado e se não há uma profunda reflexão, a qual a filosofia nos convida, caímos no dogmatismo ou não compreendemos de fato como eles mexem profundamente nossa vida.
Hoje consigo perceber um pouco melhor o quanto a filosofia faz parte da nossa vida e nem nos damos conta disso. Muitos usam a filosofia sem nunca terem estudado algo especificamente ligado à ela. É difícil encontrar um termo para definir filosofia, porém, não podemos compreendê-la separada da nossa realidade, do nosso cotidiano. Ela está intrinsecamente ligada a nós e falar de filosofia sem falar da vida é difícil. Não somos nós que escolhemos a Filosofia, mas é ela quem nos escolhe.
A Filosofia nos faz refletir sobre o que é melhor para nós e para o meio em que vivemos. Diante de determinadas situações, uma reflexão filosófica nos ajuda a fazermos uma melhor escolha, uma opção mais eficaz.
Talvez, por sermos calculistas, frios, não gostamos de filosofia, justamente porque ela meche com nosso interior e isso pode doer, pois nos faz refletir sobre decisões tomadas e que muitas vezes, foram feitas sem muita reflexão.
Deve haver um equilíbrio entre razão e emoção. A razão nos torna insensíveis diante de muitas realidades de dor, e pura emoção também não nos favorece na melhor escolha.
Temos preguiça de pensar. Não usamos nossa capacidade de raciocínio e por isso, em tantos casos, nos damos mal. A escola se preocupa muito com o decorar das coisas. Saber regras de cor, mas na vida é preciso refletir diante de fatos, pois não podemos aplicar à tudo as mesmas respostas. A vida não é padronizada e quem a faz assim sofre muito. Há opções a serem feitas; leis a serem cumpridas. Sem a reflexão seremos meros executores, sem sabermos o porque de todas essas coisas.
Em muitos casos somos colocados no mesmo patamar das máquinas, que funcionam com determinados comandos. A vida não é assim. Para quem não reflete, viver assim, pode parecer a melhor forma. Assim muitas pessoas não encontram o sentido da vida, porque não conseguem ver além da beleza externa. Se colocarmos o sentido da vida nas aparências, não demora muito e caímos na decepção, no desespero, na agonia de uma vida mal vivida, porque as aparências podem nos enganar. Se a nossa verdade, o sentido da nossa vida está embasado numa verdade interior e maior que a das aparências, seremos mais felizes e encontraremos a razão do nosso existir.
Existem inúmeros exemplos a esse respeito. Numa relação de Amizade, por exemplo. Se não há um conhecimento maior de ambas as partes, esse sentimento morre logo. Quando nos conhecemos melhor interiormente e conhecemos o outro interiormente, as dificuldades e dúvidas que aparecem serão superadas e entendidas com maior facilidade, pois sabemos que em cada pessoa há um bem maior e que pode, deve e precisa ser conhecido. Uma amizade que fica só nas aparências  é como uma casa construída  sobre a areia. Na primeira tempestade, na primeira ventania desmorono. Cai por terra. Uma amizade alicerçada na verdade, no conhecimento interior do outro e de si, as tempestades vindouras não terão forças suficientes para destruir, pois o que permanece é aquilo que está alicerçado na razão e no coração ao mesmo tempo. O restante é passageiro e ilusório.
As grandes amizades são aquelas que foram estruturadas pela verdade e conhecimento um do outro sem medos e reservas. Elas resistem e permanecem porque seu alicerce é mais firme e melhor construído. A filosofia permite um maior conhecimento da pessoa do outro e da minha. Sabendo e conhecendo minhas limitações eu saberei compreender as limitações do outro que convive comigo. Saberei que todos somos caminhantes e estamos na busca da verdade transcendental e que nunca tem um fim. Ninguém pode dizer: Chega! Basta! Sei tudo o que preciso! Pessoas ignorantes talvez pensam assim. Pensar assim é igual a morrer. Por que continuar vivendo se sei tudo?
Enquanto vivemos somos impulsionados à busca da verdade e isso nos da forças e incentivos para continuarmos vivendo, sendo sedentos e desejosos da vida, por que esta não se limita a nenhuma ciência, mas encontra sua razão de ser na filosofia.
Agora me pergunto se consegui responder a pergunta levantada pela jovem na sala de aula. Se você, que está lendo esta reflexão já fez uma experiência profunda da vida, penso que vais entender. Se você ainda não fez, sinta-se convidado a fazer essa experiência que é única e maravilhosa.
A filosofia acontece no dia-a-dia da nossa vida, basta darmo-nos conta disso. Filosofia é refletir sobre as coisas que acontecem são ditas ou ouvidas. Não se limita apenas à perguntarmos POR QUE?, mas precisamos ir mais adiante. Precisamos nos perguntar do nível de verdade daquilo que a TV apresenta num jornal. Aquilo que muitas revistas trazem em suas páginas. Não podemos nos esquecer que eles tem seu ponto de vista e seus interesses que podem, mas não deveriam, estar acima da verdade. Coloco em xeque tudo o que vemos e ouvimos em muitos jornais, revistas. A interpretação de uma notícia, seu posicionamento crítico e argumentação, é uma forma de fazer filosofia. Aceitar tal e qual tudo o que jornais, TV e revistas nos apresentam é uma forma de ignorância. Precisamos ter cuidado. Isso não que dizer que todos e em todas as ocasiões mentem, ou faltam com a verdade. Porém, sempre, sem exceção precisamos nos perguntar pela verdade dos fatos, das notícias.
Quantas vezes repórteres são induzidos a manipularem noticias sobre acontecimentos. As vezes é importante ler ou assistir mais de um jornal e depois fazer um paralelo entre eles, entre o que fora dita ou escrito. Isso exige tempo e vontade. Podemos discutir com outras pessoas para ouvir seu ponto de vista que ajuda-nos a abrir nossos horizontes. Quanto mais se fecharmos em nós, mais ignorantes nos tornamos. A abertura, a experiência, o dialogo, a leitura nos tornam pessoas abertas e conhecedoras da verdade. Buscar sempre pela verdade dos acontecimentos, dos fatos é uma atitude filosófica.
Se pararmos e pensarmos neste momento o quanto refletimos sobre tudo o que acontece, ouvimos e vemos, nos daremos conta que nem sempre fazemos isso e não fazemos porque simplesmente não queremos, pois todos nós podemos e sabemos.
Se refletíssemos, por exemplo, o nível de verdade de uma novela, não sei se ligaríamos ainda a TV para nossos filhos assistirem e nem para nós assistirmos. Sem nenhum desprezo e sem querer desrespeitar quem gosta e assiste sempre, acredito que as novelas são uma forma de manipulação das pessoas. Mas é clero que assistir de vez em quando e com uma visão critica não faz mal. As vezes vejo justamente para depois comentar e usar como exemplo o alto nível de baixaria de muitas novelas e de muitos programas de TV. Para isso, não podemos deixar de fazer lembrança da necessidade de uma boa educação. Nossas escolas precisam repensar o nível de qualidade daquilo que se ensina e a forma como se ensina. Pessoas esclarecidas, começam pela escola.
Precisamos nos perguntar qual o nível de conhecimento que uma pessoa que escreve novela, filmes, minissérie tem dos fatos e dos acontecimentos históricos. Será que aquilo é a verdade?  Será que é a melhor forme de ver o acontecimento?
Estas e outras questões estão no nosso cotidiano. Viu como não é difícil compreender e praticar filosofia. Mente aberta à reflexão de tudo o que acontece e vemos é um jeito, não único, de fazer filosofia.

Hermes José Novakoski

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