Quais são as suas influências musicais?
Nacionais: em relação à letra, pouca coisa. De cantores, eu gosto muito de Clara Nunes, Elis Regina; Rita Lee nos Mutantes era uma coisa incrível, mas tem coisas que me agradam da obra dela solo também. Zé Ramalho, Chico Buarque.
Gringos: de Dead Kennedys a Etta James, assim num pulo só. Bad Brains, Incubus, Faith no More, Ramones, Coltrane, Metallica, coisas diferentes¿ Embora não pareça, também gosto muito de jazz e blues.

O que está tocando no seu aparelho de som atualmente?
O último do Queens of The Stone Age está quase furando (risos). Muse, que é um Radiohead mais nervosinho, mais pesado. Eu fico fuçando na internet, pois gosto de descobrir coisas novas. Eu descobri uma banda chamada Rocket from the Crypt , que é muito legal; peguei umas músicas antigas do Shocking Blue, cuja música Lovebuzz o Nirvana fez cover.

Já que você tocou nesse assunto, qual sua opinião a respeito da polêmica que rola sobre o MP3?
Acho que informação tem que circular mesmo. Mas eu sou contra a pirataria, sacô?, pois isso acaba desempregando muita gente. Sou a favor de uma reformulação do mercado, pois as gravadoras major criaram um monstro que realmente não estão conseguindo alimentar, então sou a favor de uma revisão de valores, mas contra a pirataria.

Principalmente os valores dos CDs, que estão muito caros. Não acha?
Principalmente valores morais e éticos. E dos CDs também.
 

E o que toca sempre no seu cd player?
Nirvana! Eu não enjôo, não canso.

 

Como você caracterizaria o som que você faz?
Rock com rock. Tenho várias influências loucas, mas tudo termina em rock.

 

Como brotou uma amante do rock num oásis de Axé?
Incrível, né?! Mas não existe só eu lá, existem muitas pessoas que gostam de rock, muitas bandas legais¿ É uma pena que o grande público não tenha tido a oportunidade de conhecer.

 

Por que, a seu ver, existe esse estigma de que só existe Axé na Bahia?
Porque é o que veio pro lado de cá, porque foi o que as pessoas conheceram.

 

Fica mais difícil para outros estilos musicais encontrarem espaço?
Não sei. Acho que, aqui no Brasil, é difícil fazer qualquer coisa que não seja clichê. As pessoas têm medo, querem fórmula, querem tudo dentro do molde que já foi experimentado e comprovado que dá certo. Não acho que seja só pro rock, mas para a música experimental também é complicado, para a instrumental, pro jazz, pra qualquer outro estilo que não seja popularesco e não o popular, porque nesse existe muita coisa bacana.

 

Como surgiu sua paixão pela música?
Ao longo da vida¿ Sempre gostei de cantar; era daquelas que ficava fazendo a escova de cabelo e o xampu de microfone na frente do espelho, e um dia eu resolvi levar a sério.

Quando?
Quando eu vi que ou eu viveria disso ou teria que parar de brincar de banda, porque trabalhar de segunda a sexta e tocar nos fins de semana é muito legal, mas não dá pra fazer direito nem um nem outro. Na época eu tinha uns quinze anos.

Você começou a viver da música desde aquela época?
Não, eu comecei a correr atrás. Foi quando eu tive a minha primeira banda mais séria, o Inkoma, e quando eu comecei a compor. Mas como a minha viagem sempre foi rock, é mais difícil viver disso, a batalha é mais complicada. Até hoje ainda não consigo, mas estou na batalha e um dia a coisa dá certo.

Qual é a diferença entre ser uma artista solo e fazer parte de uma banda?
Eu não me sinto uma artista solo, porque eu e os meninos (que compõem sua banda atual) dividimos tudo, desde o processo criativo e tanto as partes boas como as ruins. Acabou ficando o meu nome, porque na hora de bater o martelo do disco eu ainda estava meio confusa, não sabia quem poderia fazer parte da banda, quem não, e os meninos ainda estavam se ajeitando. Enfim, a gente foi se adaptando para poder conseguir realizar a parada do álbum e acabou ficando Pitty mesmo porque todo mundo se referia a ele como o disco de Pitty, mas eu me sinto numa banda. A diferença entre agora e o Inkoma é que estas músicas eu fiz sozinha, no violão, porque eu estava sem banda, estava sozinha. No Inkoma a gente compunha todo mundo junto.


É uma zona compor uma galera junta?
É, é difícil chegar num consenso. Eu sempre fazia as letras, mas as músicas fazíamos todos juntos¿ Mas a gente se entendia.
 

Você escreve a letra primeiro e depois compõe a melodia ou ao contrário?
Depende, não tenho uma regra. Às vezes surge o riff, às vezes surge a letra.

Tanto você quanto os caras da sua banda vieram da cena independente¿
É, todos nós.
 

Seu disco primeiro disco, Admirável Chip Novo é uma analogia clara ao livro do Aldous Huxley Admirável Mundo Novo?
É, total. É um livro que eu me amarro. Eu sempre gostei muito de ler e no momento que estava compondo as músicas para o disco, essa obra estava muito presente no meu dia a dia. Eu tinha acabado de reler o livro e de assistir ¿Clube da Luta - um filme que me impressionou bastante por abordar a temática da robotização humana, da padronização, do que é certo ou errado, de regras e dogmas - e acabaram me influenciando na hora de compor.

Quais são filmes favoritos?
Pô, tem vários. Eu gosto de tudo que Kubrick  fez.

E autores?
Gosto de um escritor que chamava Isaac Assimov , um cara da década de trinta que escreveu sobre ficção científica. Além de Bukowsky  .

Nos seus discos existem várias referências a grandes intelectuais. Como é adaptá-los numa música que atinge milhares de pessoas, sendo que a maioria delas nunca ouviu falar de Rosseau  ou Allan Poe  ?
Isso não foi uma coisa de caso pensado, mas são referências que surgiram naturalmente porque por algum momento as obras desses autores passaram pela minha história. Acho que, de repente, pode até gerar um curiosidade nas pessoas que não conhecem: Pô, qual é desse cara?¿ e pesquisar, ver o que ele fez. Eu não sou uma pessoa tão culta quanto eu gostaria, pelo contrário, tive uma educação mediana a que todo brasileiro tem acesso: aquela coisa básica que a gente tem na escola para poder, depois, arranjar um emprego e sobreviver e olhe lá.

Você prestou vestibular?
Sim, para música. Cursei um ano de faculdade na UFBA e tranquei para poder vir pra cá (São Paulo).

 

Você tenta passar alguma mensagem através de suas músicas?
Não tento, mas acabo passando. Não é uma coisa muito pensada. Realmente, as coisas que escrevo eu escrevo pra mim, é como uma terapia: eu conversando comigo mesma, me dizendo coisas que eu acho que preciso ouvir.


 

 

 

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