ALGO SOBRE O MUNICÍPIO DE ITAJAÍ*

De Gustavo Konder

 

     Nos primórdios da formação do município de Itajaí, emancipado da tutela de Porto Belo em 17 de junho de 1860, muitos imigrantes alemães aí radicados ingressaram logo na política administrativa e nas fontes produtivas. Em primeiro lugar relatarei algo sobre a política administrativa.

 

     No ano de 1861, o senhor José Vicente Haendchen, originário da fracassada colônia de São Pedro, foi o primeiro alemão a ser eleito vereador.

     Os seus descendentes, mais tarde, modificaram o nome para Guerreiro, que era o apelido. Outro alemão, Sr. Nicolau Malburg (o velho) tornou-se de 1865 até 1891, político crônico, como vereador e diversas vezes presidente do Conselho. Foi utilíssimo! O alemão Sr. Rudolph Herbst, viúvo, de uma filha do Sr. Hoepcke elegeu-se conselheiro no período de 1877/1880 e, em 1893, foi estupidamente fuzilado, no lugar denominado Cordeiros, pelos remanescentes federalistas, apelidados de maragatos. No mesmo ano, ingressou na política, como vereador e presidente, o Sr. Guilherme Asseburg que emigrou em 1870, juntamente com o seu primo Luiz Abry (este mais tarde militou na política no município de Blumenau como vereador e depois deputado estadual). O Sr. Asseburg era um homem bastante culto e de larga visão, proprietário de alguns navios à vela, com 3 ou 4 mastros, entre eles o “Dom Guilherme”, o “Wulff” e o “Fidelidade”.

     Ao alvorecer do regime republicano, foi nomeado intendente, em 26 de julho de 1890, o antigo imigrante Guilherme Müller (não era parente do lojista Sr. Pedro Müller, progenitor do grande itajaiense General Lauro Müller). No quadriênio de 1903/7 o mesmo conquistou a vereança. Era arquiteto e construtor e, durante dezenas de anos, edificou quase todas as casas de material de Itajaí. Eu tive a honra de conhecê-lo quando tinha nove anos. Possuía uma estatura avantajada, com belas barbas a moda do rei Francisco José da Áustria.

     Em 1877, até fins de 1915, figurou como político perpetuo, o Sr. Samuel Heusi, suíço-alemão, vindo da colônia de Joinville. Ocupou vários cargos como vereador, presidente, superintendente (em 1894), Juiz de Paz e finalmente negociante. Foi ele quem presidiu o casamento dos meus pais, em 14 de maio de 1903. O incansável batalhador Sr. Samuel foi casado com D. Ana, filha do Sr. Pedro José Werner, alemão e primeiro habitante da região de Brusque, antes de ser colonizada. Deixou uma prole numerosa de nove filhos, entre eles o saudoso Senhor Marcos Gustavo Heusi, o maior amigo e colaborador dedicado do meu pai, quer na administração quer na indústria. O velho Samuel era avô do Sr. Nestor Heusi atualmente um dos diretores da Companhia Hering, do Sr. Nelson Heusi e outros.

     Também era avô materno do Sr. Carlos Seara (Lito) que foi duas vezes prefeito de Itajaí na época atual. Em 1911, o tcheco-eslovaco Sr. Jorge Frederico Tzaschel elegeu-se prefeito para completar o quadriênio do Sr. Pedro Ferreira, que faleceu naquele ano. O meu avô paterno, Marcos Konder Sênior, emigrado em 1873, vinte e três anos depois da colonização de Blumenau, não entrou na política porque não tinha vocação e assim mesmo algumas vezes ocupou o cargo de substituto do Juiz de Direito.

     Na navegação, alguns alemães radicados também se salientaram, entre eles o velho comandante sr. Joaquim Rauert, que trouxe da Alemanha diversos navios a vela, encomendados pelo grande armador Asseburg e de outras. Era casado com Melanie Wandal, de origem belga, que residia em Blumenau. Também era avô materno do Sr. Ewaldo Willerding, ex-deputado estadual por Itajaí. Outro capitão de longo curso, Sr. Alberto Stein sênior, marinhou muitos anos na costa brasileira. A sua numerosa família morava na Barra do Rio, sobressaindo-se o saudoso Sr. Alberto Stein, que mais tarde foi prefeito de Blumenau (1936/38). O velho Stein também era avô paterno da minha segunda esposa.

     Na indústria e no comércio, o Sr. Ernesto Schneider erigiu, no Bairro da fazenda, um grande curtume que foi o primeiro do Estado. Exportou todo o couro curtido para São Paulo e muitos veleiros alemães, ancorados no porto de Itajaí, levavam o seu produto para a velha pátria de Goethe, segundo me contou o sempre lembrado pai. Havia duas cervejarias Treder e Kormann, sendo a primeira estabelecida no bairro da Barra do Rio e a segunda no da Fazenda. O Sr. Rudolph Winterberg era proprietário de uma fábrica de sabão e de velas, situada ao lado do antigo cemitério. A sua esposa Dona Lina era massagista formada e praticava tratamentos pelo sistema do famoso padre e sábio Sebastian Kneipp. Também e digno de menção o casal Bernardo e Anna Konopka que militaram: ele como guarda-livros e professor de alemão e Lea como parteira diplomada, pois mais de 3.000 itajaienses vieram ao mundo com a ajuda da bondosa e competente D. Anna. Ambos prestaram inestimáveis serviços à comunidade. Foram, os pais do Sr. Leopoldo Konopka, alto funcionário da CELESC em Blumenau e que foi seu único filho.

      Na Rua Hercílio Luz se estabeleceram algumas prósperas sapatarias, pois naquele tempo não existia sapatos pré-fabricados. A mais importante era a do Sr. João Kracik. Quando eu e meus irmãos éramos pequenos, calçávamos sapatos feitos pelo aludido artesão.

     Na mesma rua havia um ótimo empório de ferragens pertencente ao Sr. Pedro Bauer que  também fora vereador eleito em 1891, porém não conseguiu tomar posse por causa da revolução federalista. O Sr. Pedro Müller, pai de Lauro Müller, foi o primeiro alemão a estabelecer-se com loja de fazendas, na rua Municipal, depois Conde d`Eu e hoje Lauro Müller. No início da era republicana apareceram duas novas lojas de tecidos e de armarinhos, do Sr. Jorge Tzachel e do Sr. Kersanach, na atual rua Hercílio Luz.

     Além das três principais firmas - Malburg, Asseburg e Konder - existiam pequenas casas comerciais, porém já pertencentes aos teutos, e entre elas, a do Sr. João Bauer, filho do Sr. Jacob Bauer, pioneiro da colonização de Brusque e padrinho de batismo do meu pai. Muitos anos depois, esta firma se transformou na atual Bauer S.A. O fundador desta casa era pai do saudoso sr. Arno Bauer, ex- prefeito de Itajaí. As outras casas eram dos Srs. Jacob Bauer Júnior, o alemão Nicolau Burghardt e, o mais novo, Sr. Paulo Kleis. O primeiro era progenitor do Sr. Paulo Bauer, também ex-prefeito e o segundo era casado com a viúva D. Mathilde Hundt (nata Bauer). Esta senhora era prestimosa e conversadeira. Por causa do sobrenome do primeiro marido (Hund, era apelidada pelo povo de D. cachorrinha).

     Na Barra do Rio havia uma padaria, pertencente ao Sr. Wilhelm Willert. No tempo da grande corrente imigratória, para as colônias do Vale, este ativo padeiro fornecia pão fresco para os imigrantes alojados no barracão de recepção e hospedagem, construído pelo grande Dr. Blumenau. Mais tarde o pioneiro Gottlieb Reif, vindo de Blumenau, comprou a serraria., também situada na Barra do Rio, e que pertencia ao meu avô. Alguns anos depois vendeu-a para o Sr. João Bauer, para fundar, no antigo alojamento dos imigrantes, a fábrica de papel, que somente começou a funcionar em 1912.

     A famosa estrada dos alemães, que liga a rua Barra do Rio à Itaipava (Alberto Werner), bem como a estrada para Brusque, muitos camponeses alemães e poloneses instalaram aí sítios prósperos com boas casas de alvenaria.

     Na esquina entre as ruas Uruguai e Brusque, havia uma grande casa, hoje demolida, do velho Gabriel Heil, proprietário de muitos cavalos, carroças e carros de mola. Nos grandes dias de festa da Sociedade dos Atiradores, o Sr. Gabriel Heil era o supremo comandante dos atiradores. Quando eu era bem pequeno, muitas vezes espiava da janela a passagem dos atiradores, garbosos e compenetrados e tendo a frente, o velho bigodudo com uma grande espada ao ombro.

     Infelizmente, por falta de dados concretos, deixo de mencionar os inúmeros artesãos alemães, tais como pedreiros, carpinteiros, ferreiros, etc.,  que também contribuíram para engrandecer meu torrão natal.

     Seria interessante anotar que as abastadas famílias dos primeiros imigrantes alemães que, em vez de assimilar as tradições de algumas ricas famílias luso-brasileiras, não adotaram a escravidão dos negros. Por exemplo, o meu bisavô, Cel. José Henrique Flores, donatário de toda a zona de Ilhota, possuía muitos escravos. Em 1845, o Cel. Flores vendeu a toda a propriedade aos colonizadores belgas Van Lede e irmãos Lebon, abandonando assim, a mercê do destino, os seus escravos, retendo apenas alguns para os serviços caseiros na sua nova residência em Itajaí. Ele nunca trabalhou, pois viveu sempre como "baronete", à custa do suor dos pobres escravos. Residindo em Itajaí, logo tornou-se chefe político crônico (mais de 20 anos). Quando veio a abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888 (abençoada data), a família Flores, já bastante empobrecida, desfalcada com o falecimento do seu chefe, dispensou o restante dos escravos. O meu avô, o alemão Marcos Konder Sênior, como bom cristão, recolheu três velhos ex-escravos chamados Manoel, Catharina, Domingos Silva e Honorata para trabalharem na sua firma com salários semanais, religiosamente pagos. Quando eu trabalhava na Usina de Açúcar Adelaide, estabelecida em Pedra d`Amolar, perto de Ilhota, alguns pretos, plantadores de cana, me revelaram orgulhosamente que seus avós ou bisavós foram escravos do meu bisavô Flores. Naturalmente fiquei chocado! Por esta e outras razões, talvez, o meu saudoso pai deixou de biografar a família dos meus avós maternos...

     Aqui termina a minha descrição sobre a influencia alemã em Itajaí. Todos os alemães aí radicados, sem exceção, foram verdadeiros brasileiros, pois amaram e honraram a segunda pátria - O BRASIL.

 

 *Blumenau em Cadernos, Tomo XI, páginas 84 a 86, Blumenau, 1970.   

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