A crise do sistema oligárquico.

As divergências intra-oligárquicas

Em 1922, ano do centenário da Independência, o Brasil possuía uma população de 37 milhões de habitantes, dos quais 70% viviam na zona rural. As cidades do Rio de Janeiro(Capital Federal) e São Paulo(metrópole do café) as mais importantes, passavam por grandes reformas urbanas com abertura de avenidas, cinemas, teatros, confeitarias e grandes edifícios.

Os investimentos estrangeiros, principalmente ingleses, eram dirigidos à infra-estrutura urbana: fornecimento de energia elétrica, serviço de transporte coletivo, água encanada e gás. A modernização, no entanto, não alcançava a multidão de "deserdados da fortuna" formada por operários, imigrantes, desempregados, ex-camponeses, artesãos que viviam em situação precária, formando 70% da população urbana e tratada como o "zé povinho", sem direitos e sem perspectivas.  

O principal problema das oligarquias não era a pressão por participação popular, mas as divergências inter-oligárquicas. Essa divergência ficou evidenciada na campanha presidencial de 1921, quando as oligarquias gaúcha, baiana, pernambucana e fluminense lançaram o nome de Nilo Peçanha para disputar com o candidato Artur Bernardes, representante da política do Café-com-Leite. A "oposição" oligárquica percorre o país denunciando o domínio dos grandes Estados e exigindo a extensão da proteção dada ao cafeicultores aos demais produtos agrícolas brasileiros. A vitória foi do candidato oficial, o mineiro Artur Bernardes, e como de hábito a oposição silenciou-se.  

No campo estavam os colonos, parceiros, e posseiros que continuavam a depender dos coronéis e eram muito explorados. A classe média e o operariado sofriam com a elevação do custo de vida, reflexo da política de desvalorização da moeda nacional  para assegurar os lucros do setor cafeeiro. A queda nas exportações de café levou o governo a constantes desvalorizações da moeda nacional e conseqüente aumento do custo de vida.

 

Partido comunista, modernismo e tenentismo.

Nos centros urbanos mais importantes, uma nova situação quebrava a antiga paz: são as greves operárias, duramente reprimidas e consideradas pelo governo como caso de polícia.  A insatisfação contra o sistema oligárquico manifestou-se com maior intensidade em 1922, ano do Centenário da Independência. Nesse ano apareceram o Partido Comunista,  o Tenentismo e a Semana de Arte Moderna. 

O Partido Comunista fundado em 1922, inspirado na Revolução Russa,  seria colocado na ilegalidade em 1927.  A Semana de Arte Moderna que deu origem ao modernismo brasileiro (refletindo a corrente estética modernista européia) defendia a criação de uma arte genuinamente brasileira traduzida nos movimentos Pau-Brasil, Verde-Amarelo e Antropofágico. Os modernistas brasileiros denunciavam a existência de um Brasil arcaico, regido por uma política ineficaz, cercada por fraudes eleitorais e pactos entre as oligarquias.

O pensamento modernista pode ser melhor compreendido através das palavras de Menotti del Pichia que afirmava: "Queremos luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindicações obreiras, idealismos, motores, chaminés de fábricas, sangue, velocidade, sonho, na nossa Arte. E que o rufo de um automóvel, nos trilhos de dois versos, espante da poesia o último deus homérico, que ficou anacronicamente a dormir e a sonhar, na era do Jazz-band e do cinema, com a flauta dos pastores da Arcádia."  

A mais direta oposição ao sistema oligárquico foi o movimento tenentista.  Os tenentes inauguraram a oposição armada contra o governo  as revoltas  do Forte de Copacabana em 1922a Revolução Paulista de 1924 a Coluna Prestes de 1927. O Tenentismo, defendia  reformas políticas no país com  adoção do voto secreto, justiça eleitoral e um projeto industrializante com a participação do Estado.

Para os tenentes a função dos militares não restringia-se apenas ao controle das fronteiras mas abrangia também a defesa nacional portanto, todos os aspectos interessavam desde a preparação militar até o desenvolvimento de indústrias de base como a siderurgia. "É importante salientar que o movimento tenentista permaneceu isolado, desprezado pelas oligarquias regionais, visto com reservas pela burguesia e sem apoio do proletariado e do campesinato.

Os militares rebeldes, dentro de um espírito corporativo, apresentavam-se com árbitros e salvadores do regime republicano. Desprezando a participação dos demais setores da sociedade, entendiam que tinham o direito de intervir nos rumos da vida política brasileira, tomando o poder pela força e, dessa maneira, pretendiam assegurar aos militares o papel preponderante no "novo" Brasil que deveria nascer".

O movimento tenentista manifestou-se com mais força na: Revolta do Forte de Copacabana, levante contra a posse de Arthur Bernardes e que terminou com a morte de vários militares nas areias de Copacabana enfrentado os batalhões do I Exército. Em 1924, no aniversário do Levante de Copacabana, eclodiu outro levante agora em São Paulo, chefiada por Isidoro Dias Lopes.

Após um mês de lutas, os tenentes revolucionários retiraram-se para o sul, onde fundiram-se aos tenentes rebelados no Rio Grande do Sul surgindo a Coluna Prestes que percorreu o interior do país denunciado as oligarquias, mas sem êxito. Em 1927, isolados sem penetração popular o movimento perdeu sua força.

Em 1926, setores da elite organizam em São Paulo o Partido Democrático que reunia filhos de fazendeiros e profissionais liberais interessados em reformas políticas liberais: direito de voto limitado a determinados cidadãos (censo alto), independência dos poderes executivo, legislativo e judiciário, justiça eleitoral. No campo econômico o partido paulista colocava-se contra a industrialização sob o argumento de ser ela a responsável pelos movimentos operários, despertando a luta de classes no país. O Partido Democrático era um partido de elite interessada em algumas reformas políticas que, entretanto, continuavam marginalizando o povo.

 

Texto de: Fábio Costa Pedro.

 

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