A Reforma Protestante

Autores: Olga Maria A. Fonseca Coulon e Fábio Costa Pedro
Apostila: Dos Estados Nacionais à Primeira Guerra Mundial, 1995, CP1-UFMG

 

 

No decorrer da Idade Média, a Igreja Católica Apostólica Romena conheceu muitas dificuldades, envolvendo contestadores de sua doutrina, abusos financeiros e despreparo do clero. No início do século XVI teve início a Reforma Protestante, movimento religioso liderado pelo monge alemão MARTINHO Lutero que acabou com a unidade da Igreja Católica na Europa. Em conseqüência, várias Igrejas reformadas surgiram na Alemanha, Suíça, França e Inglaterra com milhares de seguidores entre todas as camadas da sociedade européia.

OS ANTECEDENTES DA REFORMA

Durante a Idade Média, apareceram na Europa algumas doutrinas religiosas que divergiam dos ensinamentos oficiais da Igreja Romana: Denominadas de "heresias", essas doutrinas foram sempre rigorosamente combatidas, com perseguições e massacres de seus seguidores, por serem consideradas incompatíveis com a fé católica.

No século XIV, a Igreja Romana enfrentou as "heresias" difundidas por João Wyclif (1324/1384) na Inglaterra e por João Huss (1369/1415), na Boêmia, Wyclif condenava o culto dos santos e a venda de indulgências pela Igreja, isto 4, a concessão do perdão dos pecados mediante pagamento. Huss também negava as indulgências, condenava o luxo excessivo em que vivia o alto clero católico e pregava a livre interpretação da Bíblia pelos cristãos. Ambos foram perseguidos e mor tos na fogueira, mas suas idéias deixaram adeptos. De 1378 a 1418, a cristandade encontrou-se dividida pelo "Cisma do ocidente", provocado pela eleição simultânea de dois papas, devido a um desentendimento entre os cardeais, fato que abalou profundamente o prestígio da Igreja,

João Huss conduzido a fogueiraA Igreja Católica enfrentou problemas também com os abusos financeiros, a vida escandalosa e o despreparo religioso de alto clero, Papas, cardeais e bispos viviam cercados de luxo interessados mais em questões políticas e financeiras do que em valores espirituais. 0 papa Inocêncio VIII (1484/1492) criou novos cargos de secretário apostólico para arrecadar dois mil ducados; casou seu filho com a filha de Lourenço de Médicis, governante de Florença, que em recompensa teve 1 seu filho de 13 atos nomeado cardeal. 0 papa Leão X (1513/1521) dedicava seu tempo às artes, festas, caças e teatro.

Enquanto isso, o baixo clero, formado pelos curas e vigários das paróquias, pouco instruído e muito pobre, sobrevivia às custas dó aumento das taxas para a celebração de batizados, casamentos, funerais etc. Muitos trabalhavam administrando lojas ou albergues; não raro, e ram dados aos jogos e %à bebida, vivendo também em concubinato. 0 número de padres e bispos que não sabia ministrar os sacramentos, rezar a missa e apresentar aos fiéis a mensagem do evangelho era cada vez maior.

Por outro lado, as guerras, a peste, a fome nos campos e nas cidades, a perda dos antigos direitos por parte dos camponeses, a crença no fim dos tempos, o medo da morte súbita sem as bênçãos da Igreja aumentaram as peregrinações, as procissões, as festas religiosas e a crença no poder salvador das relíquias sagradas. 0 crescimento da "devoção popular" encontrou uma Igreja despreparada, com o clero tão supersticioso como os seus fiéis, na maioria, pessoas rudes.

0 desnível existente entre as necessidades religiosas dos cristãos e a deficiente instrução religiosa da maioria do clero era reconhecido por membros e adeptos da própria Igreja. 0 padre dominicano Jerônimo Savonarola, que dominou Florença entre os anos de 1491 e 1498, em seus sermões apontava os abusos da Igreja: "Vede esses prelados dos nossos dias, só pensam na terra e nas coisas terrenas; a preocupação 1 pelas almas não lhes fala mais ao coração. Nos primeiros tempos da Igreja, os cálices eram de madeira e os prelados de ouro; hoje a Igreja tem cálices de ouro e prelados de madeira".

0 humanista cristão, Erasmo de Roterdã, recomendava aos fiéis 1 que não procurassem "os monges, homens supersticiosos, tirânicos, iras cíveis, odientos, maldizentes e querelantes". Para reviver o espírito cristão, Erasmo aconselhava que se recorresse ao próprio Cristo; para auxiliar a sua salvação, o católico deveria orar e procurar conhecer a lei divina.

Depois de enfrentar cismas e heresias, num ambiente de fieis atormentados pelo medo da morte e do inferno, de padres sem vocação ou preparo espiritual, de comércio indiscriminado de indulgências e sacramentos, a Igreja Católica encarou nas piores condições possíveis as idéias de Martim, Lutero, que deram origem à Reforma Protestante.

MARTINHO LUTERO: CONTRA 0 PAPA E 0 IMPERADOR

Martinho Lutero (1483/1546), monge agostiniano, vivia na cidade de Wittenberg, na Alemanha, onde conquistou o título de doutor em filosofia, tornando-se professor da Universidade e pregador oficial de seu convento, Reconhecia as deformações religiosas de sua época e não aceitava a salvação alcançada através da compra de indulgências. Não sabia, porém, qual seria o remédio para os males da Igreja.

Atormentado na busca do verdadeiro caminho para se encontrar a vida eterna, Lutero, ao estudar as Epístolas de São Paulo, encontrou 1 finalmente uma resposta às suas indagações: a doutrina da salvação alcançada unicamente pela fé em Deus, tema central de sua futura teologia.

A venda de indulgênciasEm 1517, o papa Leão X, desejando terminar a construção da Basílica de São Pedro, em Roma, determinou nova venda de indulgências, principalmente na Alemanha, onde a Igreja era possuidora de imensos Territórios. Em protesto a essa falsa "segurança" religiosa proporcionada pelas indulgências, Lutero fixou suas 195 Teses na porta da Igreja de Wittenberg, a 31 de outubro do mesmo ano.

"As rendas de todo o reino cristão estão sendo sugadas nessa insaciável Basílica Nós, germanos, não podemos nos ocupar de São Pedro. Melhor seria que ela não fosse construída do que ver nossas Igrejas paroquiais espoliadas Por que o papa não constrói sozinho São Pedro? Ele é mais rico do que Creso (...), Paria melhor se vendesse São Pedro e desse o dinheiro aos pobres". (LUTERO, GRANDES PERSONAGENS DA História UNIVERSAL. São Paulo, Abril S/A, Cultural e Industrial, 1971, v. 3, p. 531/532.)

Em 1518 e 1519, o papa Leão X exigiu que Lutero se retratasse e reconhecesse o valor das indulgências, mas não foi obedecido. Nesse período, Lutero escreveu os livros que serviriam de base para a sua nova doutrina: "0 Papado de Roma", "0 Apelo à Nobreza Cristã da Nação Alemão", "0 Cativeiro Babilônico da Igreja" e "Da Liberdade do Cristão".

Em 1520, o monge queimou publicamente a bula papal que declarava herético os seus escritos. Em resposta, foi excomungado pelo papa. Carlos V, imperador do Sacro Império Romano Germânico, do qual faziam parte os territórios da Alemanha da Áustria da Hungria, dos Países Baixos, parte da Espanha e da Itália, procurou preservar a unidade da Igreja Católica, mas enfrentou a oposição da nobreza e da burguesia alemãs, que apoiavam as idéias de Lutero por interesse nas propriedades e rendas da Igreja católica e para se livrarem dos impostos e taxas pagos a Roma.

Em 1521, pelo Edito de Worms, Carlos V baniu Lutero do Sacro Império e ordenou a queima de seus livros. Lutero conseguiu abrigo no castelo de Warlburg, do príncipe Frederico da Saxônia, de onde traduziu a Bíblia para o alemão, tornando-a acessível ao povo. Cidades como Constança, Nurenberg, Erfurt, Magdeburgo, Bremen se recusaram a aplicar o Edito de Worms. 0 ex-monge transformava-se no líder espiritual de um número cada vez maior de alemães, entre humanistas, artistas, burgueses, príncipes, pequenos nobres e camponeses.

Em 15261 a cidade de Espira não aceitou empregar o Edito de Worms contra Lutero. Carlos V tentou forçá-la, provocando o protesto de 6 príncipes e de 14 cidades (donde se originou a palavra protestante). Em 1529, as cidades protestantes se reuniram na Liga de Smaikalde contra Carlos V que, em guerra contra a França e contra o Império o otomano, nada pode fazer para impedir o avanço do Luteranismo.

AS DOUTRINAS DE LUTERO.

Em 15309 em Augsburgo, foi apresentada a doutrina de Lutero, redigida por Felipe Melanchton, seu principal colaborador. Baseava-se nos seguintes princípios:

1. A única fonte de fé é a Bíblia, livremente interpretada pelos cristãos;

2.0 único meio de salvação é a fé em Cristão Os sacramentos e as boas obras não são válidos como meio de se obter a salvação;

3.A Igreja é a simples reunião dos crentes, que têm todos os mesmos direitos;

4.0 culto consiste na pregação feita pelos pastores ou "ministros de Deus".

Alem disso, Lutero aboliu o celibato dos padres, o culto de Nossa Senhora e dos Santos, o uso do latim, acabou com os sacramentos, a exceção do batismo e da comunhão, que entretanto sofreram modificações; negou a autoridade do papa e colocou a Igreja sob o poder do Estado.

AS REVOLTAS SOCIAIS NA ALEMANHA

0 Luteranismo ganhou adeptos, canalizando insatisfações existentes na sociedade alemã. Nobres e camponeses, descontentes com a situação de empobrecimento em que viviam, face às transformações econômicas que varriam a Europa, viram em Lutero, que ousara enfrentar Roma e Carlos V, um ponto de apoio para a sua luta.

Em 1529 a pequena nobreza alemã se revoltou contra o Papado e contra o Sacro Império Queria, basicamente, acabar com os privilégios e as riquezas territoriais da Igreja e dos grandes príncipes alemães. Inutilmente, os revoltosos buscaram o apoio de Lutero que, entre tanto, o recusou dizendo que toda autoridade, boa ou má, deveria ser reconhecida e respeitada, A rebelião da pequena nobreza alemã fracassou por falta de apoio. Mas, os grandes príncipes do Império realizaram, em seu próprio proveito, o objetivo da revolta da pequena nobreza: apropriaram-se de grande parte das terras da Igreja, tomando a Reforma o caráter nacionalista de luta contra o Papado e contra o poder centralizado do Império.

Em 1524, foi a vez dos camponeses alemães se sublevarem para se verem livres de seus senhores. A crise do sistema feudal modificara na Alemanha, assim como em outras regiões, a situação da população rural. Ao invés dos impostos em espécie e da prestação de serviços dos servos passaram a pagar taxas em dinheiro pelo uso das terras dos nobres. Para isso, vendiam, nas feiras e nas cidades, a sua produção.

Se por um lado, o dinheiro trouxe novas esperanças para o camponês, por outro, acabou com o uso comum e gratuito das terras das aldeias, Os pastos, as florestas, os moinhos se transformaram em propriedade privada do senhor, que cobrava em moeda pelo seu uso". Os camponeses continuavam em situação miserável, muito explorados e entregues a própria sorte.

Liderada por Thomas Müntzer, um pastor da Saxônia, a revolta camponesa alastrou-se pelos campos e cidades da Alemanha. Os revoltosos afirmavam que os camponeses, conforme dizia a Sagrada Escritura, nasceram livres, e reivindicavam a livre escolha dos chefes espirituais, a abolição da servidão, a diminuição dos impostos sobre a terra e a liberdade para caçar nas florestas pertencentes à nobreza:

"Temos agora, em quinto lugar, de protestar contra a questão da lenha. De fato, nossos senhores apossaram-se de todos os bosques. E quando o camponês precisa de lenha, não tem outro remédio senão comprá-la ao preço de dois florins. Protestamos, em décimo lugar, contra o fato de certos homens se terem apropriado dos prados e dos campos pertencentes à comunidade. Queremos que esses campos e prados voltem a ser, novamente, bens da comunidade, salvo quando legitimamente adquiridos," (BEER, Max. História do Socialismo e das lutas Sociais. Rio de Janeiro, Laennert S/A, 19689 p. 283/284.)

Lutero condenou o movimento dos camponeses apoiando os príncipes e nobres do Império. A continuidade da revolta levou-o a afirmar que os camponeses eram cães furiosos que precisavam ser degolados. "Vivemos em tempos tão extraordinários que um príncipe pode merecer o Céu derramando sangue, muito mais facilmente do que aqueles que rezam." (Lutero, GRANDES PERSONAGENS DA História UNIVERSAL, op. cit. p. 538.)

Em 1525, na batalha de Frankenhausen, os camponeses foram derrotados e mais de 5 000 morreram. Os vencidos permaneceram sob o jugo dos senhores feudais, mantidos na condição de servos reforçada pelo princípio luterano da passiva submissão à autoridade. Thomas Müntzer capturado morreu sob terríveis torturas. Seus seguidores passaram a ser conhecidos como "anabatistas".

As hostilidades entre Carlos V e as cidades da Liga de Smalkalde prolongaram-se até 1555, quando foi proclamada a "liberdade religiosa" na Alemanha. Pela paz de Augsburgo, 2/3 do país se tornaram protestantes. Os príncipes alemães passaram a ter o direito de impor a sua religião aos habitantes de seus domínios. As tentativas de Carlos V de transformar o Império numa monarquia absoluta fracassaram, favorecendo a luta dos pequenos Estados pela sua soberania; reforçou-se também a exploração dos camponeses pelos senhores feudais.

A Reforma Protestante ultrapassou largamente as fronteiras da Alemanha; atingiu a Dinamarca, a Noruega, a Suécia, a Suíça, os Países Baixos, a Inglaterra e parte da França, Favorecidas pelos princípios de livre interpretação da Bíblia, nova seitas surgiram e se propagaram pela Europa. As razões iam desde o verdadeiro intuito de reformar a Igreja e atender melhor 'à devoção dos fiéis, até os motivos políticos como os que levaram Henrique VIII da Inglaterra a romper com o Papa, criando a Igreja Anglicana, da qual se tornou chefe, em 1534.

0 Concílio manteve o latim como a língua oficial da Igreja e decidiu pela criação de um catecismo e de seminários em cada diocese, para a formação de sacerdotes, Os padres e os bispos ficaram sujeitos a regras disciplinares e foram obrigados a pregar os ensinamentos da Bíblia aos fiéis. A Igreja conscientizou-se de seus deveres morais e espirituais e centralizou-se mais no papado.

As doutrinas, os dogmas e os ritos contestados pelos protestantes foram rigorosamente mantidos e reafirmados, como os sete sacramentos, o pecado original, a crença no purgatório, a devoção aos santos, a legitimidade das boas ações e das indulgências para se alcançar à salvação, a proibição da livre interpretação da Bíblia, a autoridade do papa e a regra do celibato dos padres.

As ordens religiosas constituíram um importante instrumento de apoio à Contra-Reforma. Principalmente a "Companhia de Jesus", ordem dos jesuítas fundada por Santo Inácio de Loyola, em 1534, muito contribuiu para a disciplina do clero, para o combate às heresias e para a propagação do Catolicismo em terras da América, da África e da Ásia.

0 Concilio de Trento classificou definitivamente os protestantes como "heréticos" e instituiu o "ïndex", lista de livros proibidos e considerados impróprios aos católicos, no qual figuraram humanistas como Erasmo de Roterdã, Camões, Descartes, Locke, que tiveram suas obras censuradas ou mutiladas.

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Autores: Olga Maria A. Fonseca Coulon e Fábio Costa Pedro
Apostila: Dos Estados Nacionais à Primeira Guerra Mundial, 1995, CP1-UFMG