O Trabalho na República Velha.

 

 

O imigrante 

A necessidade de mão-de-obra para a lavoura, a busca de novas oportunidades de trabalho explicam  a grande migração ocorrida para o Brasil entre 1887 e 1930, onde estima-se cerca de 3,8 milhões de estrangeiros entraram no Brasil.

Os italianos formavam o grupo mais numeroso, seguido de portugueses e espanhóis. Outros grupos de imigrantes chegaram ao país como os japoneses,  os sírios-libaneses e os judeus.  Boris Fausto comentando  o papel dos imigrantes no Brasil ressalta que "os imigrantes mudaram a paisagem social do Centro-Sul do país, com sua presença nas atividades econômicas, seus costumes, seus hábitos alimentares, contribuindo também para valorizar uma ética do trabalho (...) Os imigrantes em sua maioria pobres, tiveram êxito na nova terra. Quando pensamos no seu papel no desenvolvimento do comércio e da industria, em Estados como São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, a resposta afirmativa é quase espontânea.  

No caso do campo é mais complicado. No Estado de São Paulo, por exemplo, nos primeiros anos de imigração em massa, os imigrantes foram submetidos a duras condições de existência, resultantes das condições gerais de tratamento dos trabalhadores no país, onde quase equivaliam aos escravos".  A imigração, e a urbanização geraram  um mercado consumidor  e o abastecimento da população ensejou a "substituição de importações", ou seja, passou-se a produzir no país artigos de consumo de massa que exigiam pouca tecnologia e capitais.

 

A industrialização tardia.

A indústria brasileira começou no setor de bens de consumo  produzindo tecidos de algodão, chapéus, bebidas, produtos químicos: fósforo, cosméticos, produtos farmacêuticos. No setor de alimentos desenvolveu-se a indústria de carne, e açúcar e no setor metal- mecânico produzia-se pregos, parafusos, porcas e latas.
O país importava de tudo: máquinas, ferrovias, artigos de ferro como cobre, folha de flandres, foices, pregos, parafusos, tesouras, canivetes; vidros de todos os tipos, papel, tintas, artigos de alimentação como: salames, batatas, água mineral, rum, queijos londrinos, manteiga, mostarda, vinagre, cerveja, ervilhas, biscoitos além de outros produtos ingleses como: botas, toalhas, meias, lãs, móveis, pianos, relógios, chapéus, conservas, chá, rapé, brinquedos, faqueiros, agulhas, alfinetes, cornetas, flautas e inúmeros outros produtos.

O governo republicano brasileiro adotou uma política econômica  voltada para os interesses agro-exportadores, principalmente o café, sem preocupação com o setor industrial, considerado secundário e desnecessário num país de tradição agrícola.

Essa política econômica do governo republicano oligárquico estava de acordo com os interesses  do capitalismo internacional.  Em São Paulo desenvolveu-se a grande indústria, "estabelecimentos que empregam um capital igual ou superior a 1.000 contos", com capital disponível acumulado pela cafeicultura. Os primeiros industriais - os "capitães de indústria" - eram grandes fazendeiros e alguns poucos imigrantes que dispunham de  algum capital e ou conhecimento técnico.

Esses imigrantes começavam como representantes comerciais de fábricas européias  no país para posteriormente criar seu pequeno negócio montando ou adaptando componentes para o Brasil. Ao contrário dos países capitalistas europeus, essa "burguesia industrial"  ligada diretamente ao setor agrícola não defendeu uma política de industrialização do país, pois, a indústria era considerada "artificial".

Nos Estados onde a atividade exportadora não se desenvolveu, como em Minas Gerais, onde predomina uma economia de subsistência (exceção das zonas da Mata e do Sul de Minas),  o aparecimento de indústrias ocorreu no setor têxtil, artigo de uso popular e fácil de obter a matéria prima o algodão.

A 1a Guerra Mundial que deu um impulso a industrialização brasileira devido a dificuldade da importação de manufaturados. Após a 1a Guerra Mundial ocorreu uma maior sofisticação da indústria brasileira com o funcionamento de fábricas de cimento, papel e celulose, máquinas agrícolas e ferro.  

O Operariado.  

Os primeiros operários eram imigrantes italianos, que insatisfeitos com a exploração nas fazendas de café, transferiam-se para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, os principais pólos econômicos do país. Em 1900, 92% dos trabalhadores da indústria em São Paulo eram constituídos de italianos, o que ocorria em outras capitais. Em Minas Gerais onde a imigração não teve a importância de S.P., recrutavam-se trabalhadores entre órfãos, crianças abandonadas e indicação de políticos que ofereciam famílias inteiras para trabalhar nas fábricas do interior de Minas.  

As condições de trabalho nas fábricas eram duras: jornadas diárias que estendiam-se a 15 horas, salários sempre baixos, ausência de um sistema de previdência social ou indenização em caso de acidente ou invalidez. Nas fábricas, trabalhava um grande número de mulheres e crianças, pois recebiam salários menores, e eram mais fáceis de controlar. Durante a grande greve de 1917 em São Paulo entre as reivindicações dos operários estavam: o fim do trabalho de menores de 14 anos; a proibição de trabalho noturno para os menores de 18 anos e mulheres.  

Os trabalhadores inicialmente defendiam-se através de organizações operárias assistencialistas, cujo objetivo era amparar o trabalhador em caso de doença e morte.  A primeira organização operária de luta foi a corrente anarquista cujo objetivo era a formação de uma sociedade " sem governo e sem leis, constituída por federações de trabalhadores que produzam segundo sua capacidade e consumam segundo sua necessidade; uma sociedade onde a terra e suas riquezas sejam de todos os trabalhadores"; enfim uma sociedade sem opressão e miséria.

Os anarquistas defendiam a organização dos trabalhadores em sindicatos e a "ação direta"  do povo contra a opressão e miséria recorrendo até a atos de violência contra autoridades do Estado.  As greves constituíram-se em outro instrumento de luta dos operários, que foram freqüentes mesmo com a repressão policial. O governo da República Velha considerava as reivindicações operárias como desordem e portanto, caso de polícia.  

Com o advento do comunismo na Rússia, liderado por Lenin e seu partido bolchevista de  estrutura centralizada e disciplinada, a corrente anarquista cedeu terreno. Em 1922, fundou-se no Brasil o Partido Comunista, que procurou unir todos os operários especializados para dar mais força ao movimento dos trabalhadores. O Partido, mesmo pequeno, foi duramente perseguido pelo governo de Arthur Bernardes e lançado poucos meses depois na ilegalidade.  

O movimento operário conseguiu, mesmo com grande resistência dos empresários, algumas leis de proteção ao trabalho, principalmente após a participação do Brasil  na Conferência de Paz de 1919, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. Nesse encontro das potências vitoriosas 10 pontos foram considerados fundamentais: 8 horas por dia, 48 horas por semana; proibição do trabalho de menores; auxílio a maternidade; serviço de saúde etc. De todos esses direitos fundamentais, apenas as 8 horas de trabalho foram aplicados no país principalmente em São Paulo.  

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