As parasitoses intestinais constituem um grave problema de saúde em nosso meio, devido às condições socioeconômicas precárias de grande parte da população, o que faz com que as parasitoses intestinais tenham uma alta prevalência em nosso meio. Crianças desnutridas são mais suscetíveis e apresentam quadros clínicos mais graves. Por sua vez, o parasitismo agrava a desnutrição através dos seguintes mecanismos: lesão de mucosa, alteração do metabolismo dos sais biliares, competição alimentar, favorecimento de proliferação bacteriana, sangramento, anorexia, vômitos e diarréia.

DIAGNÓSTICO

Pode ser feito por diferentes métodos, como: provas sorológicas e intradérmicas, exame parasitológico de fezes, biópsia intestinal, avaliação radiológica, sendo que o melhor método é o exame parasitológico de fezes, que visa demonstrar nas fezes a presença de ovos ou larvas de helmintos e formas trofozoíticas ou císticas de protozoários. Dados epidemiológicos podem sugerir o diagnóstico. Por exemplo: o acometimento de várias pessoas da família sugere, depenendo do sintoma, oxiuríase ou giadíase. Pacientes imunossuprimidos são mais suscetíveis de adquirir infecções por Cryptosporidium.

MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

GIARDÍASE

Causada pela Giargia lamblia, protozoário que habita o intestino delgado alto. É a protozoose mais comum entre as cianças de países pobres. É transmitida por água e alimentos contaminados com cistos. Com frequencia as crianças infectadas são assintomáticas. Os principais sintomas são: diarréia, dor abdominal, náuseas, anorexia, vômitos e distençào abdominal. O diagnóstico geralmente é estabelecido pelo encontro de trofozoítos no exame e fezes. Porém a ausência de trofozoítos nas fezes não exclui a parasitose, uma vez que a eliminação desses nas fezes é intermitente.

Tratamento: Derivados do nitroimidazol como: metroniazol, nimorazol, timidazol e ornidazol. A cura é confirmada através dos seguintes critérios: normalização clínica e três exames de fezes negativos colhidos nos 7O , 9O e 11O dias após o término do tratamento.

CRIPTOSPORIDIOSE

Causada pelo Cryptosporidium, associado a diarréias em imunocomprometidos e a diarréias autolimitadas em imunocompetentes. Modo de transmissão fecal-oral. O principal sintoma é a diarréia aquosa com muco e raramente sangue. Outros sintomas são dores abdominais, náuseas, vômitos, distenção abdominal e flatulência. O diagnóstico pode ser feito pela identificação de oocistos no exame e fezes.

Tratamento: Indivíduos imunocompetentes geralmente não necessitam tratamento. Nos pacientes com infecção crônica e grave vêm sendo utilizada a espiramicina, porém sua utilização em crianças ainda está em estudo.

AMEBÍASE

Parasitismo humano pela Entamoeba histolytica. Esse é um parasita do intestino grosso, podendo ocorrer em localizações extra-intestinais. A forma intestinal pode manifestar-se com períodos de diarréia com mucoe, as vezes, raias de sangue nas fezes e períodos de acalmia. Em outras ocasiões apresenta-se sob a forma da chamada disenteria amebiana aguda, com acometimento do estado geral, febre, as vezes desidratação e fezes mucopiossanguinolentas. Sua transmissão se faz pela ingestão de agua ou alimentos crus contaminadoscom cistos da E. histolytica. A amebíase pode apresentar localização extra intestinal, como: hepática, pleural, pulmonar, pericárdica, cerebral, esplênica e cutânea. As formas extra-intestinais são extremamente raras na infância. Odiagnóstico deve ser firmado pelo encontro de E. histolytica no exame de fezes.

Tratamento: Metronidazol é o tratamento de escolha.

BALANTIDÍASE

Causada pelo Balantidium coli, parasita do intestino grosso. Os suínos são o principal reservatório do parasita. A transmissão é feita através de alimentos ou bebidas contaminadas com fezes de suínos que contenham cistos. A sintomatologia mais comum é a diarréia crônica d curso intermitente.

Tratamento: Metronidazol ou tetraciclina.

ISOSPORÍASE

Causada pelo Isospora belli, que é um parasita do intestino delgado. O homem adquire a infecção através da ingestão de água e alimentos contaminados com oocistos fecais. Quadro clínico polimorfo contendo desde sintomas gastrintestinais vagos até quadro de má absorção.

Tratamento: Metronidazol, sulfadiazina.

ASCARIDÍASE

Helmintíase causada por Ascaris lumbricoides, parasita do intestino delgado. O verme adulto atinge até 25 cm de comprimento. É considerada a parasitose mais prevalente no mundo. A transmissão ocorre através da ingestão de alimentos contaminados com ovos do parasita. Os ovos deglutidos eclodem no intestino delgado e liberam as larvas que atravessam as vilosidades intestinais, entram na circulação portal, atravessam o fígado e , através da veia cava superior, vão ao coração direito e capilares pulmonares. Como as larvas são granes, rompem esses capilares, caem na luz alveolar e ascendem pela árvore brônquica até a faringe, onde são eliminadas pela tosse ou deglutidas alcançando o intestino delgado. As larvas que atingem o delgado evoluem para adultos. A fase larvária pulmonar pode manifestar-se como asma brônquica ou pneumonia intersticial com sinais de insuficiência respiratória. O encontro de larvas no escarro ou lavado gástrico confirma o diagnóstico. O diagnóstico é feito pela identificação de parasitas ou seus ovos nas fezes. Quando há uma infecção maciça os vermes podem se emaranhar na luz intestinal produzindo oclusão ou semi oclusão intestinal. Observa-se mais frequentemente em pacientes desnutridos. As principais manifestações são dor abdominal, vômitos e história de eliminação do parasita pelas fezes. O ascaris pode migrar para as vias biliares, causando obstrução biliar, pode migrar para o apêndice causando apendicite.

Tratamento: Drogas usadas, por ordem de escolha: levamisol, mebendazol, albendazol, pirantel e piperazina.

ESTRONGILOIDÍASE

Helmintíase causada pelo Stongyloides stercoralis, parasita do intestino delgado alto. A infecção ocorre pela penetração ativa de larvas filarióides através da pele e, via circulação sistemica, atingem o coração direito e os pulmões, one rompem os capilares, ascendem pela árvore brônquica e são deglutidas na faringe, alcançando o intestino delgado. Em pacientes imunodeprimidos, pode ocorrer a síndrome hiperinfecciosa, que se caracteriza pela disseminação de larvas por todo o organismo. Clinicamente, a estrongiloidíase pode ocorrer de várias formas, desde os casos assintomáticos até a infecção aguda com sintomas de hipersensibilidade como urticária, tosse e eosinofilia. Com relação às manifestações digestivas, predominam a diarréia acompanhada de dor abdominal epigástrica, tipo queimação. O diagnóstico é feito pelo encontro de larvas nas fezes.

Tratamento: Tiabendazol. Mais recentemente tem sido recomendado o uso de albendazol.

ANCILOSTOMÍASE

Helmintíase causada por Ancylostoma duodenale ou Necator americanus. Os vermes adultos vivem na parte superior do intestino delgado. A infecção ocorre através das larvas infectantes, que penetram pela pele do homem e, através da circulação chegam aos pulmões, ascendem pela árvore respiratória até serem deglutias e evoluírem para vermes adultos no duodeno e jejuno. As manifestações clínicas dependem do estado de nutrição do indivíduo infectado e da carga parasitária. Podem ocorrer, desde infecções leves até quadros graves evido à anemia ferropriva. Ocorrem dores abdominais, diarréia com sangue e muco e queixas relacionadas à anemia, como: cansaço fácil, sonolência, anorexia, perda de cor da pele. Geofagia pode ocorrer, devido à carência de ferro.

Tratamento: Mebendazol. Recentemente tem sido recomendado o uso de albendazol.

TENÍASE

Causadapela Taenia solium ou pela Taenia saginata. A T. solium é adquirida pela ingestão de carne de porco contaminada e a T. saginata é adquirida pela ingestão de carne de boi contaminada pelo cisticerco. No parasitismo humano pela T. solium existe a possibilidade de o homem ser o hospedeiro intermediário, desenvolvendo a cisticercose. A primeira possibilidade é pela ingestão de água ou alimentos contaminados com ovos férteis. A Segunda possibilidade é a auto-infecção, quando ocorre refluxo de proglotes grávidas para o estômago e liberação dos ovos. No estômago, o ovo libera o embrião, que penetra pela mucosa gástrica, e atinge a circulação sistêmica. Os sintomas mais comuns da teníase referem-se ao aparelho gastrintestinal e são: náuseas, vômitos e diarréia.

Tratamento: O praziquantel é a droga de escolha. O mebendazol é outra opção terapêutica. O albenazol pode Ter eficácia semelhante à do albendazol.

HIMENOLEPÍASE

Causada por Hymenolepis nana. O parasita se localiza no intestino delgado. O parasita se localiza no intestino delgado. A transmissão é feita pelo contato direto entre pessoas. A infecção pelo H. nana, geralmente, é assintomática.

Tratamento: Praziquantel.

TRICURÍASE

Causada pelo Trichuris trichiura, que é um parasita do ceco. A infecção se dá pela ingestão de água e alimentos contaminados com ovos do parasita. As manifestações clínicas podem variar desde casos assintomáticos até casos graves com diarréia crônica, disenteria, enterirragia, anemia e prolapso retal.

Tratamento: Mebendazol. Albendazol possui eficácia semelhante.

OXIURÍASE OU ENTEROBÍASE

Causada por Enterobius vermicularis, que se localiza a nível do ceco, colo ascendente, apêndice e reto. A transmissão ocorre de pessoa para pessoa e a auto-infecção é frequente. As fêmeas migram até o ânus, depositando seus ovos na região perianal provocando pruridi na região, principalmente à noite. No sexo feminino os vermes podem causar vulvovaginite. O diagnóstico pode ser feito pelo encontro de ovos na região perianal com fita adesiva.

Tratamento: Mebendazol administrado a todas as pessoas infectadas da família.