Quem é an actress no show da vida?
"Quem é an actress no show da vida" é a última parte de Fragmentos de Aurora, no entanto é uma peça e por isso apresenta-se fora do seu contexto original.




1º Ato


Minhas desculpas venerável público ou honorável público.
Desculpas!  
Porque?
Ora, já disse viver num palco iluminado; que me desculpem os desbotados.
Bem...Não que os esteja chamando de desbotados, na verdade não os vejo...
Obrigada pela atenção. É agora. É um, é dois e já.
Viva a vida!
Vamos lá: gritem comigo! Viva a vida!
Sem simulações, por favor. Por favor, abram bem a boca para gritar.
Mais alto. Viva a vida!
Gritem.
Gritem.
Gritem!
Muito obrigada. Agora se acalmem.Respirem fundo e sintam a vida.
O show vai começar.
Dispenso as palmas, por favor; por favor. Não as mereço, ora...
Agora luzes! Ação!
Desço do palco e segurem-se os bonitões: eu  an actress sensual e formosa
procuro um par; que me faça voar lá pra torre de Babel.
Você quer ser meu par?
E você? Não também?
Porque, porque, meu Deus?
Sem dramas lamento a vida que me agita, me enfeitiça e me faz se uma “actress”.
Dilema, fonema, Lezama Lima, mar.
Profundo, arguto, defunto, assunto, sentado no pé.
Agora eu digo, tu dizes, ele diz. Vamos, juntos. Agora. Decora. Não cora. Ta na hora. Sem demora. Alegoria de mim! Vamos gente. Alegoria de mim! Ta mal; sem sal. Alegoria de mim!
Todos tolos. Vão embora vão.
Acabou o chão, quer dizer o show.
Eu, an actress, estou de saco cheio de gente sem fôlego.
Vamos, estou mandando. Acabou o show.
Suas estátuas tatuadas de gente.
Por acaso me ouviram? Sequer me ouviram.
Eu, uma estrela iluminada, recatada.

Esqueçamos o assunto vá...Continuemos o show sem mágoas.
Agora quem vai inventar algo interessante?
Eu é que não vou: estou cansada, assada, suada.
Ta bom vá. Luzes, ação! A vida vai começar, ou melhor, o show vai continuar.
Por favor, senhor. É o senhor mesmo aí, da iluminação; senão me engano é o Seu Pedro, não? Como vai? E os filhos? O caçula já sarou da catapora? Não? Oh! Que pena, ele é tão bonitinho. Lembranças a todos de casa.
Então Seu Pedro por acaso tem horas? Como? Faltam apenas 40 minutos pro show acabar?
Quem disse? Quem disse uma vida? Vamos levante-se, eu ouvi  alguém dizer, ouvi sim. Foi por acaso o senhor? Ou O senhor? Não?
Ninguém diz que disse, ninguém assume uma frase sequer?  Isso me deixa prestes a morrer. Ah...Você diz que disse. Você? Um jovem que espera apenas 40 minutos de vida? Ou talvez tenha querido dizer, ou melhor, preencher esses 40 minutos com vida? Sente-se jovem, por favor. Descanse.
Vamos então todos juntos compartilhando, respirando profundamente, esperando o show terminar. Respirando, respirando...
Sente-se melhor garotinho? Eu heim, que esperava  que fosse um senhor  com mais de meia idade, mas um garoto! Por sinal um belo garoto; acredito que tenha pela frente um belo futuro. Menino maduro, não? Quem acha que ele é maduro levante a mão. Quem acha que ele não é? Então ninguém acha nada? Será que eu posso fumar? Alguém tem algo contra?
Tudo bem assim fica mais fácil.
Começou a chover ou é impressão minha? Nossa que tempestade!
Vocês me escutam?
Abaixe o som Zezinho, não precisava exagerar.
Nossa um apagão! E as luzes Seu Pedro?

Por favor, quem tem vela? Uma vela, por favor, eu não estou enxergando nada.

Não deu certo Seu Pedro, acenda as luzes!
Capricha na luz verde.
Isto. Sinto-me em Marte. Sou uma marciana. Vocês nem desconfiavam, hem? Posso garantir...Claro que sim. Acredito nos meus sentidos, e mais do que tudo no meu coração. Olhem aqui no meu peito, vejam como ele bate forte, olhem só!...Eu estou em Marte sim,
Ou melhor, sou uma marciana sim.
Seu Pedro!... O que é essa luz vermelha fora de hora? O que? Pra eu cair na real? O Sr. tem a bárbara coragem de me falar isso? Quem o Sr. pensa que é? Está acabando com o meu show, arrasando mesmo com ele. O que o público vai pensar de mim? Que eu sou uma louca? Pois snif...Eu fui uma marciana sim, pode perguntar pra minha mãe, pro meu pai e pros meus irmãozinhos. Não! Pra eles não, eles são muito pequenininhos ainda pra saber o que é ser uma marciana...Seu Pedro...Snif,snif...
Pois tire essa luz vermelha já de cima de mim!

Agora quero a luz azul, a luz do amor Seu Pedro. Isso, assim...Assim...
Sabe gente, to quietinha...Sabem por que? Porque meu peito está cheio de amor.
Tenho até preguiça de falar. Acho que até vou deitar um pouquinho. Ai que soninho. Só vou dormir um pouquinho ta. Já, já vocês me chamam...Ta bom?...

O que? O que? Onde estou?
O que? Acabou o show?
Então vulnerável público, obrigada, obrigada.

2º Ato

Foi apenas um mero engano.
O show continua agora com mais força, mais vivacidade e sem luzes coloridas.
Por favor, Seu Pedro seja maneiro, segure seus ímpetos.
De falar em ímpetos, eu a impetuosa actress resolvi me apaixonar.
Meu peito queima. Ai! Como dói, ai, ai!
Amo profunda e dramaticamente. O que? Ora, o mar. A lua. O sol. Enfim a
Natureza. Amo as estrelas. Amo, amo, amo, nem sei mais o que.
Estão vendo, sei dançar. Quando amo, danço. Olhem, olhem, eu sei dançar .
Sei dançar. Tcha, tcha, tcha...Não consigo mais parar.
Vá Seu Pedro: acenda as luzes. Ação.
Zezinho o som!
Liguem os ventiladores!
Seu Pedro! Seu Pedro!
É uma bosta mesmo. Todos uns incapazes.
Que azar, eu a grande actress meio a isso. E vocês querem conhecer pessoalmente o isso?
Desçam rapazes: e entrando no palco, Zezinho do som! Palmas, palmas vulnerável público.
E agora Seu Pedro! Vamos, Seu Pedro coragem. Palmas, palmas e palmas para a nossa maravilhosa equipe!

Podem voltar aos seus respectivos lugares rapazes. Seu Pedro! Não esqueça de botar cores, muitas cores pro NOSSO SHOW DA VIDA!
E o show vai continuar...

Simulando, simulando vou cantando, ando, ando, sapateando. Tra ra ra, tra ra ra , ta ta, sem parar. Gritando, gritando tcha, tcha, tcha. Neste palco iluminado, animado que é a vida, dívida, dividida.
Sofismando, anarquizando, ziguezagueando sem parar. Tra ra ra ra ra ta ta. Aqui agora, que demora pra passar. Ta acabando, quase parando. Vou chorar, ra ra ra ra. Snif, snif, buá, buá.
Tá na hora  vai terminar. Vai terminar...Vai terminar...
                        

  3º Ato


Boi, boi, boi...Boi da cara preta pega essa menina que tem medo de careta.
Boi, boi, boi...Boi da cara preta vem aqui pertinho me assustar. De mansinho, devagar.
Sabe vulnerável público, por poucos momentos esqueci de vocês...

Acenda as luzes da galera Seu Pedro, vai rápido pra não esfriar.
O que houve Seu Pedro? Seu Pedro?





4º Ato

Plausível.
Tudo é plausível.
Vocês são plausíveis.
Eu sou plausível.
Seu Pedro é plausível.
Quem me dera amar.
O amor é plausível, uma abstração, sobretudo apta à vida.
Todas as abstrações são plausíveis.
Os monumentos fantásticos são plausíveis.
Os ritmos compassados, entrelaçados são plausíveis.
Casemiro de Abreu é plausível, Machado de Assis é plausível.
Tudo na mesma proporção é plausível.
Meu cansaço é plausível.
Seu desinteresse é plausível.
O sem esmero é plausível.
A esmeralda é verde.
Acabo de me conter.
Cato meus pedaços e os reúno sem medo.
E me torno torta.

Olhem como estou torta.
O torto é plausível!
Rio de mim. Riam também.
Ra, ra, ra, ra, ra. Ra, ra, ra, ra, ra.
Ma, ma, ma.
O equilíbrio rama clama, chama, flama em meu ser.
Quero desentortar.

E aqui estou, a famosa actress inteira!
Palmas para o plausível que o show vai continuar.
Sabe Seu Pedro, às vezes penso que ele não vai nunca acabar.
Deixo então ao seu encargo apagar as luzes, me derrotar.
Tra, ra ra, ta ta ta.
A metralhadora assustadora, já sem fôlego, fogo, vai me matar.
Força de expressão.
Sensação.
Coleção de selos secos, serenos, amenos, amantes do mar.
E a censura pede passagem.
Devaneio. Falta e dinheiro.
Seu Pedro!





Epílogo

Agradecimentos à parte, ta tarde. Eu em ritmo de luar vou embora. Tchau heim. Olhem. Como dizia? Ah...Obrigada por tudo! Jamais os esquecerei... Desculpe mesmo sobre os desbotados, foi só pra me colorir um pouco, afinal sou eu a actress.Não esqueceram né. Sabem não é por nada não, mas vocês apesar de tudo, quer dizer, do desbotamento, levam jeito também. Juro! Pensam que eu não reparei em vocês né? Pois eu vi o senhor de vermelho, é o senhor mesmo. Garanto que se daria bem aqui no palco. Quer tentar? Não? E a senhora da direita, loira, bem maquiada, bem enfeitada, ta bonita. De nada. Leva jeito, garanto. Quer subir? Concorda? Sim? Respeitável público o show vai começar, nunca vai acabar. Vocês nem desconfiavam não é? Pois é, o garotinho tinha razão, ele previu com lucidez e precisão o tempo exato da duração do show.
Cara colega sente-se aqui, fique à vontade.
Dar-te-ei 30 minutos de vida depois tu te darás por si a vida inteira.
Dona Ra ou Dona Mariposa desafogue os laços, tire os sapatos, braços soltos, nós desatados.
Vamos despentei-se mais e mais.
Pra direita, pra esquerda.
Já.
Agora esquerda direita
Direita, esquerda.
Esquerda, direita.
Frente, trás, trás, frente.
Parada.
Sentada.
Correndo.
Pode tirar a roupa Dona Mariposa, fique a vontade pra voar.
Voe alto, vá, vá, vá.
Pés no chão, pés no chão... Dona Ra. Saltitando, sal ti tan do, titã, titã.
Pode parar, descansar quanto tempo quiser, não tenha pressa, o show acaba de começar.
Seu coração transborda? Eu sei.
Tudo eu sei, sem saber.
Prazer Dona Mariposa acabas de nascer.
Serás então batizada pela falta de modéstia, pela expressão viva, pelo desejo de morrer!
Seu Pedro! Vem aqui vem trazer um balde cheio d’água para batizarmos a Dona Ra. Vem logo, estão terminando os 30 minutos.
Água morna em pedra dura tanto bate até que fura, água morna em pedra dura tanto bate até que fura.
Ula lá Dona Ra, agora serás an actress, juntamente comigo é claro...

Tchau galera!
Seu Pedro apague as luzes.
Seu Pedro!




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