| Fragmentos de Aurora | ||||||||||||
Fragmentos de Aurora 1 Revelo-me amplamente, sem rodeios. Espero-me ainda. Talvez a morte seja a única saída: um grande encontro entre ansiedade e prazer. Minha intuição restabelece meus contornos e satisfeita aqui estou eu. Algum tempo se passou e Aurora nasceu, hoje mulher crescida carrega em si ela toda, pesada como uma grávida pronta a parir. Aurora descrente, atenta nada espera, pois tudo é. Fixa vive. Agora; agora; agora; que é; que é; que é. Por fora Aurora; por dentro Aurora. Que um dia partiu a procurar-se num mundo fragmentado como o seu próprio ser. Aqui, nestas páginas, alguns desses fragmentos surgem numa procura desesperada de encontro. Numa tentativa de vida... Aurora. Decora. Está na hora 2 Pedaços de mulher jogados ao acaso. Múltiplas direções. Segmentos rompidos. Medrosos partos de vida. Alma tímida, que um dia nasceu Mulher. Aurora 3 Eu, subjugada à sua mórbida vontade de não me amar, à sua falsa modéstia. Devo a você meu desencanto pela vida. Devo a você minhas convulsões de solidão. Devo a você meus passos, meus atos, meu eu. Aurora. 4 Escrava da sorte. E eu aqui dentro de um banheiro minúsculo, mal cheiroso, pensando na vida, dançando a vida, sentindo a vida, sendo feliz. E eu aqui e em todos os lugares. Sentindo o prazer de sentir. Só sei que tudo é claro, tudo é muito vivo. Isso é ser? O que é isso? Se procurar saber, entender; sofro. Perco as coordenadas, o sabor de sentir e caio na antevida. Na vida sem gosto, no mar sem sal. E aqui as horas não passam. Porque todos os minutos, segundos são vividos. Um quarto espelhado, infinito: meu banheiro. Às vezes me perco, não sei mais viver. Então escrevo o que vivo, então assim retorno a viver. É à procura de vida, a procura de água; ou tenho sede ou quero você, quero sentir você todos os segundos, quero ter você em mim e eu quero estar em você. E eu aqui no banheiro, pensando, sentindo, sendo você. O que é isso? Isso é ser? Então não sou sem você. Meus cabelos, gosto deles; gosto também de dançar, cantar e gosto de amar você. O resto é compromisso. Viver sinônimo de amar. Quem diria. Algo tão bom de sentir. Então a vida é boa, viver é bom. Bom demais pra eu querer parar de viver; bom demais pra eu poder parar de te amar. E assim vivo, vou vivendo feliz. Tudo é claro, espelhado, infinito... Minha toalha caída, meu perdão. Minhas desculpas aos vizinhos. Deixar cair? Voltar a ser natureza? Ou não; qualquer outra coisa qualquer? O que? Minha dúvida. Meu desafio. Desafio do medo. Desafiar o inimigo e combater. Pra que? Quem grita? O desejo. Esconder pra que? De quem? Mas porque vou enudecer; pra emudecer, tornar-me mais, diferente? E o desejo sem descanso, sem pensar combate o inimigo. E o medo pensa, mas não é tão inteligente. Perde da sensualidade do sentir. O sentir ganha em charme. E de charme vou vivendo. Entre dúvidas e lágrimas medrosas. Mas o querer ter nas mãos? Ainda chego lá. É o enterro do medo festejado pelo desejo. Mas o “desejo medroso”, não o “desejo instinto”. Um desejo, um instinto que já foi pensante e que nele se fez parte ou que dele abocanhou parte. Mas o fantasma do medo? O que será feito dele? Atiçará o “desejo medroso” vivo? Mas amanhã é tempo de pensar, de encontrar soluções, por hoje durmo e sonho bons sonhos. Mas quando o sono acabar; acabará de vez, nem mais as belas estrelas me seduzirão, e nem os travesseiros gostosos, macios que a vovó fazia. E meus anjos não deixarão de me tocar nem um instante. E eu aqui a contar meus anseios. 5 Porque? A quem? Pela Esperança, por seus verdes olhos sedutores que me mostram o caminho da felicidade, do estar vivo e pisar fundo na terra. São os detalhes da vida, procurá-los e aos poucos encontrá-los. E a cada nova descoberta mais convidativos tornam-se os olhos da Esperança, Madame Dona que esconde os segredos da verdade feliz. E mamãe sempre entrando na estória e meus filhos correndo o risco. E eu aqui no banheiro a pensar na vida, e a contar, a descrever. Pra que? A quem? Minha mãe é Dona Esperança Madame Dona, sabe ela é boa de papo, gosta de dançar, cantar, amar, e escrever, gosta de sol e também de seus cabelos; sedutora e amiga da sorte que espanta o azar; amiga da terra e do mar, minha mãe é teimosa e dengosa e gosta de gozar a vida. Mamãe! Cadê você? E a menina chora e procura a boneca para amar, a mãe. Mas às vezes o sol quente, acoberta o frio dos pobres e a criança ri e aconchega a boneca em seus braços. Esquece da mãe e não chora mais. Cresce e aprende a dançar e cantar e amar e também a cuidar bem de suas bonecas. E a Maria foi embora, deixando-me na desordem. Na desordem libertadora. E a Maria quer ordem e eu quero a desordem juntamente com a ordem da Maria. Que dilema. Minha ordem, minha desordem. Qual delas, Maria Eu, Eu Maria; qual, qual delas é a minha ordem? Quem sou? E eu aqui no banheiro pensando na vida, escrevendo a vida. Com os pés na terra e o coração no sol. Algo bem diferente do amor sentido; algo bem diferente da vida. Será a morte? Quererei a morte? E as mãos esfriarem, e me sentir viva. Como viver melhor? Viva ou morta? Quem é? O que é? E a rádio cidade, e eu aqui no banheiro. É de rir. Prefiro mudar a rádio e levantar, fumar, dançar, cantar e sentir você. O sentimento revive e com ele a vida viva, que cria linguagem, expressão. É uma opção desejar, gostar ou não de uma música. O desejo do agrado; o excessivo amor a si. O egoísmo maior, e por isso, bondoso. E as recaídas. As idas e vindas. Sol ou terra? Terra ou sol? Ou algo diferente, até religioso, até sacana? São decaídas da vida moral. Que importância tem? É a lógica escorregando, esbarrando nos seus últimos destroços. É o pensamento voando. O “louco” pensamento, ou o pensamento dos loucos. É um louco pensante, amante da razão mesmo em seus maiores devaneios. Assim como uma música pensante. É a vitória do pensamento rebelde. O guarda-chuva das grandes torrentes, mas também sou corpo; incontinência do pensamento. E chega de filosofia. Chega de ser parcial, de ser pensamento. Quero a arte, a criação, à vida inventada. O pensamento amoralizado e relaxado. A razão desejando sem medo. E eu aqui no banheiro, hoje não tão feliz, meu banheiro sem espelhos. Um banheiro bem pequeno e o chão está gelado. Não é tão bom ficar aqui no meu banheiro. O que falta hoje? Ou será a realidade, o banheiro mostrando-se a mim, como ele nuamente é, sem adornos espelhados? Ou será minha gripe? Ou a noite de ontem não me deixou boas lembranças ou ainda impressões? 6 Porque hoje meu banheiro está diferente? Mas escrever me faz bem. Então escrevo e relaxo até sentir-me espelhada, ensolarada. E é bom viver. A vida morta ganhando em vida da vida viva. E viver é bom. Viver aqui no meu banheiro é muito bom. Aqui me amo te amando. E te esqueço vivendo. E o meu banheiro é o meu melhor brinquedo. Sensações que viciam, que nos transformam em deuses doentes, carentes. E o trapezista corajoso cai do trapézio e as vezes se machuca. Perdeu o pé. Perdeu o sentido do trapézio. Por segundos morreu. Esqueceu da atenção da vida. Viver, ser todo o tempo pro tempo parar de ser. E me convenço; me aceito te aceitando e amando todos e nenhum. E me revivo e repito a minha sombra sombria. Pra lá, de lá, quase acima de qualquer coisa. E o mar cobre meus pés e o sol minha cabeça. E o “Sem-pé-nem-cabeça” encarou a vida e caiu com força, de suas férias de vida, com os pés na terra. E o seu maior cuidado foi o de não afunda-lo demais, contrariando novamente a gravidade. E minha filha cresce sadia. Quem diria, eu escrava da sorte. Que sorte. O que seria dos meus filhos se assim não fosse? Por isso sou esperta e desperta, mais e menos. Qual será minha estrela? Mas toda vida tem um sentido, então quem vive tem sorte. O gostar de viver é a estrela. A minha “Grande Estrela” que me faz ser escrava da sorte. A própria vida atribuindo-me o seu sentido, o seu ser. Eu e ela juntas. Corpo e alma. Algo tão velho e tão discutido que parece estar se tornando uma teoria praticante, ou um sonho vivido. Um Platão marxista, já pensou? Um Platão que sente suas teorias, não como idéias, mas como corpo vivido. O que seria de Marx sem Platão? E o que seríamos sem os dois? Dois errados que juntos tornaram-se certos. A herança cultivada que matou e reviveu o homem. Mas isso ainda está nas mãos da Esperança: Dona Madame. E hoje a gripe aumentou e com ela o meu entusiasmo pela vida. Pelo meu quarto bagunçado, livre da Maria, pelo meu esquecimento nietzschiano e pelo novo livro que estou lendo da Clarice Lispector. E se esqueci de dizer a Maria foi uma boa empregada que tive durante cinco anos. Cinco anos de mordomia pobre, de encosto sufocante. E o tempo passou sem passar, e minha gripe aumentou meu mal estar e meu mal estar o desejo pela vida. As vezes me assusto com a comodidade do sentir fácil, do "viver" todas as situações, com a liberdade com que corre o rio. Mas são agitos naturais, como os raios das chuvas pesadas. E um dia me falaram que para ser uma boa atriz era necessário ter uma técnica. A técnica de saber ser atriz, como por exemplo, Fernanda Montenegro que sabe "ser" todos seus personagens. Agora ser o que se é, exige uma técnica bem mais apurada. Ser atriz de si própria exige mais que astúcia e compreensão; exige ingenuidade e passividade frente aos grandes “perigos”, exige o olhar limpo que só os sinceros têm. 7 Só aqueles que se reconheceram no espelho sorrindo, chorando, se amando e se odiando. Só aqueles que se sabem como algo compacto, recheado; os que conhecem a ilimitação dos seus limites. Só eles possuem a técnica para viver bem. Então a vida é técnica. É uma questão de saber aplicá-la melhor ou pior. Assim como os melhores ou piores profissionais. Cada um ganha o retorno de sua boa ou má prática. Então me pego escrevendo coisas tão distantes das paredes do meu quarto. E por instantes contraio-me, sinto meu corpo, minha gripe e sinto-me viva. Não importam as idas e vindas do dia e da noite. Todos os dias, noites e dias acontecem, assim como agora escrevo ou fumo um cigarro. E os acasos são os guias do tempo parado. Os acasos necessários que nos pegam pelos pés. Lembro-me de Clarice Lispector e meu coração aperta. Quem diria? Eu não a conhecia a não ser de leves lances de atenção. Agora a admiro por achar companhia. Sinto-me uma amiga que agradece aliviada, ter tido ela a vida que teve. E escrevo mais livre, mais eu, mais ela. O encontro que não despede, mas acumula. A agregação de vidas sentidas. Os encaixes dos contornos superpostos e entrelaçados a vontade. O sem forma formado. E me desculpo por agradecer. E me desculpo por pedir desculpas; sem me desculpar, sem agradecer. E assim apreendo o aprender, acumulo em mim o conhecimento vivido. Então lavar a louça, arrumar as camas, varrer o chão já não é tão ruim. São acasos necessários que me fazem ser. E se não fossem eles agora, o que seria de mim senão a abstração do momento eterno? E viva a falta. O querer mais. O sentido ou a vida ocasional. Então vivo como sei viver; como posso. E de repente percebo-me no céu, no mar, no vento sem direção. O que estou fazendo? Estarei vivendo? Isso é viver? Não sei. Vivo como posso. Dona Esperança, mulher ambiciosa que é, grita e me acorda e então eu desperto e vivo bem. Pois então sei viver; se vivo bem, feliz, tanto na vida morta como na vida viva, sei viver, serei feliz. E nestas dúvidas, entre banheiros ou quartos pequenos e bagunçados, vivo eu podendo ser o que sou. E escrever é bom e ler o que se escreveu é melhor. Como se a expressão da alma tivesse se cumprido dando forma. De como algo ocorreu em direção à. Dar sentido a vida como algo buscado e sentir que se está buscando “realmente”. É a loucura atenciosa que se percebe. Sei atender ao telefone e o interfone de uma forma social pra avisar meus bons amigos que hoje não poderei sair; que estou gripada e que telefonarei outro dia. Isso me fortalece. Já pensou se eu me transformasse num animal assustador, incomunicável? Poriam-me no hospício ou sei lá aonde. E como então buscar? Então quando escrevo ou ainda quando atendo ao telefone sinto-me uma viva sã ou uma louca sã incorporada por uma sã loucura. E meu amor por você hoje diminuiu. Isso me lembra que quando te amo estou também viva. Amanhã lembrarei de você. Disso faço questão. E te lembrando e te esquecendo vou vivendo. E às vezes me assusto com seu susto. E o estranhamento passa e não gosto de falar sobre você. 8 Prefiro falar de mim. E essa música que não me inspira você, que transforma seus olhos em espiadores, terapêuticos. Então me sinto um bicho interessante por ser bonito e por tudo isso sinto medo de você, de mim. E a música acaba, e descubro que quando te realizo sonhando, paro de te amar. Então sou a maior das doentes. E o avesso se torna aceso. Têm coisas que não se misturam. Aprendi também isso com James Taylor. Na época em que amava o menino. Alto e forte, lindo, amor ingênuo e real. E seus braços fortes me apertavam dentro do carro pequeno, tão grande dentro de nós. Suados. Amor, que vivi com você e disso posso e sei falar. Nossas infantilidades, nossos vícios e até nossos filhos. James Taylor, menino, meu único e maior amante. E o passado às vezes também vive, então se torna presente. E assim os passados e presentes misturam-se até tornarem-se futuro presente. E o tempo perde o espaço garantido na consciência. Assim o menino é meu grande e vivido amor passado, mas vivo o passado então ele se torna um passado presente na ausência do tempo. E o avesso continua comandando. E a gripe melhora, meu mal estar diminui e eu aqui no meu quarto esperando o tempo passar. E a vontade que inspira diminui e quero parar de escrever. Minha expressão acaba. Torno-me inerte, paralisada pelo cansaço do entusiasmo que a vida proporciona. Mas se escrevo vivo, então quero escrever. E escrevo. A ansiedade maior, que anseia dando tempo pra ansiedade menor ansiar. As sutilezas da vida, assim como meu amor por você. Mas a ansiedade esgotada, com sono de vida torna-se trágica e faz o despertador tocar pra me acordar; pra eu escrever. Então escrevo acontecendo. E os acasos da vida, e o rádio tocando Elba Ramalho e eu aqui no meu quarto medroso. E a vontade esquece que vive e o despertador para de tocar e eu consigo dormir. E eu durmo rezando acordada. E a gripe melhora e aumenta a minha fome. Quero viver pra comer e matar a fome. E também pra escrever e viver. E a ansiedade parada traz prazer pra vida. E eu vivo. E eu aqui no meu quarto sendo tragédia grega. E o Platão marxista pende pra direita. Mas as oposições tomam a frente de ataque e eu levanto e vou comer bolachas com geléia. Assim me defino e acho sentido na vida e no sabor salgado com sol. E me expressando vou eu vivendo aqui na minha cama cômoda e aconchegante que me faz lembrar você. E pensando nas bolachas vou escrevendo e vivendo redundantemente. Cheia de vidas. Cheia de mim. E o fim torna-se o começo de algo que ainda não aconteceu. Mas tudo acontece e sucede. E o tempo passa com mordomia. E minha gripe. A gripe que faz eu me sentir e saber que eu sou eu. A minha individualidade, as minhas diferenças. A minha gripe, o meu mal estar. E as coisas não deixam de ser e o ser delas se agrega ao meu eu gripado. O mundo sentido pelo filtro do meu corpo doente. O que seria da minha gripe se não pudesse sentir-se? O que seria da minha gripe se não fosse meu sofá, minha televisão etc. O que seriam dos brinquedos? 9 Seriam brinquedos esquecidos. O esquecimento da vida simples que se percebe percebendo tudo, até a migalha de pão que me incomoda, por me arranhar o assento. E eu aqui na sala pensando possuir o mundo, possuindo o retorno de ser possuída. É minha extensão contornada pelos acasos. Meu corpo acariciando e sendo acariciado pelo mundo que toca. E minha liberdade se refaz se libertando. E o desejo livre respira e liberta mais e mais a liberdade. E me torno alada, humana. E a vida voa e vive. E cria. Reinventando-se sempre e sempre. Lembro-me que alguém me disse que o homem cresceu. Um dia se tornará alto e magro, com narinas largas. O sentir esguio que respira profundo. E torno-me dona da verdade, uma deusa martirizada pela honra de ser deusa. Mas a esperança surge e torna-me uma deusa humilde, que sabe que peca porque vive. A deusa louca, que só sabe perder-se na confusão da vida pensante. Então enxuga a testa e se livra do peso de ser grande e torna-se tão pequena que se assusta com sua própria respiração. Então escrevo e olho por vezes a televisão. Eu, escrava da sorte, do sentido otimista, da procura feliz. Que de pernas cruzadas sinto-me uma bela mulher gripada com um belo par de pernas. E querer mostrá-la, senti-las! Pois eu as sinto e as mostro a quem eu mesma queira mostrá-las. E eu só ou com meus anjos. Que diferença faz? Se o meu corpo tem febre por estar gripado. E o sentido de amar você? Amor que me deu a liberdade de ser só, que me impulsionou para a vida livre. E eu aqui quente, de febre e do teu amor. Escrevendo e gostando de viver. Será realidade ou um sonho inventado e vivido? Mas tudo que se sente não é? E eu sinto tudo isso. E a loucura aumenta e pede socorro pro deusa. Mas a deusa cansada se recusa a ajudar. E a louca dorme escrevendo tentando viver. E a vida passa alegre entre deuses loucos ou loucos deuses. E a escrava da sorte encontra boas saídas pra vida feliz. E a redundância aumenta e a roda gigante não para de rodar entre gritos felizes e choros de crianças vivas e mortas. Mas a sensualidade da sorte sensibiliza a escravidão e a escrava da sorte está otimista, se esbarrando nos acasos perdidos. E Alice se perdeu no país das maravilhas. Tantos espelhos a confundiram. Eu escrava da sorte, que às vezes se pega com medo. Medo de que as torradas queimem no forno. Medo que o céu caia e torne a terra um paraíso. Que vida seria? Seria vida? e as perguntas me questionam e não me deixam dormir. O amor torna-se amoral e sobrevive na moral revolucionária da América e faz a vida nascer. E o país das maravilhas de Alice enegrece. E Alice perde os seus reflexos. E a chuva cai e eu fumo, e ajeito-me na cadeira tentando me inspirar, viver. Luz do sol! Traga a luz pro país de Alice! Queremos Sol! Sol! Murmuravam os adeptos da morte. E Alice perdida na escuridão imaginava uma luzinha que brilhava e trazia esperança de vida. Que vida Alice? Não seja ingênua. A escuridão é a vida dos vivos. Nós mortas devemos aprender a viver no escuro. E Alice gritou assustada e mudou de assunto, dizendo que sua luzinha crescia e por isso estava feliz. E eu nasci inspirada por Alice. 10 A menina Alice que sabe das coisas. Alice buscava o seu ritmo e a medida que o encontrava, sua luzinha brilhava mais forte. Luz e ritmo não se diferenciavam. O sentido de estar viva meio a escuridão. Procurar-se para encontrar-se. Era esse o seu guia. E tocando-se no escuro via claro. O toque suave que desperta sem assustar. E Alice renasceu num país pleno que ela inventou e tornou-se a dançarina da vida. A vida dançada numa cadência natural. E os acasos faziam Alice dançar esquecida de si, emanada pelo ritmo da natureza. Sabia-se por intuição divina, pelo vício de viver plena. Situada num mundo sem planícies, nem montanhas, de clima quente e úmido, sentido por sua visão clara. E Dona Esperança acomodou-se e Alice largou suas bonecas. E a escrava da sorte pensou ser Alice. 11 Um dia. Foi assim. Era uma tarde de sol, um dia claro e triste e de repente algo aconteceu. Minhas fantasias voaram pro outro lado do mundo. E eu senti, e a tarde ensolarada tornou-se histórica para minha vida. Uma metamorfose. Uma mistura de dor e alegria. Sinto-me diferente, penso deferente. Talvez dê passos mais largos e abaixe mais vezes a cabeça. Não sei. Momentos ofegantes e ofendidos. Mas a vida cresce e aparece, surgindo em mim, no meu pulsar. A vida intensa que dói e mata. E não mais o meu canto de amor, mas meu canto de vida que também sabe amar. E tudo corre e decorre como o Rio Tietê, cheio de impurezas humanas. E um clima diferente rodeia a sala de estar. Uma inocente malícia ou um grito sonoro. Uma moral amoralizada. Um novo homem velho. O discípulo amestrado como a noite ensolarada. Uma idéia sentida. As bandeiras perdidas. O poder do relaxamento do poder podendo. Os meus braços soltos. Meus ouvidos atentos e um canto sinistro. O sentimento morto e a sensibilidade do artista viva. Limites livres em longitude e latitude. E corpos se amando e gerando. O amor erotizado. O equilíbrio sentido. A neutralidade viva da razão emocionada. O jogo que não acaba. A vida se transformando. E o homem sendo. O presente morrendo no passado e o futuro surgindo a cada presente. E Hilke encontrando seus anjos na terra. E a natureza aparecendo sem sombras com contornos fortes e vivos. A linguagem se desdobrando e se simplificando. Hoje me dou à liberdade completa. Teoricamente já sei ser livre. Um passo ao desconhecido. Meus pés alcançam mais firme o chão. Piso forte e sinto-me forte. Tento esclarecer-me. Sei-me além, porém só. Desejo a solidão para saber-me. Nela não me sinto só, apesar de estar só. Sinto o mundo, todos em mim. Amo a vida e sou estupidamente feliz. Entretanto, nos momentos de tristeza refugio-me na solidão só, sem mim e procuro-me com asfixia até apaziguar meus distúrbios. Sinto-me então pronta a recomeçar, porém sem entusiasmo. Mas o sol, o céu, a lua acompanham-me por todo dia e noite. Não sou só. A natureza me abraça e me acalenta. Nos meus dias mais tristes, o céu parece compartilhar comigo, mostra-se mais azul, o sol mais quente; amenizam meus dias tristes. Então os sinto em meu peito e agradeço-lhes profunda e sinceramente. 12 Grandes amigos que me iluminam. Sinto-me iluminada e feliz, pronta a dar, esbanjando eu que estou de plenitude. Mas por nada disso sinto-me poderosa, ao contrário, sinto-me sempre ansiosa de poder, um poder que se confunde com a morte. Um poder cósmico, de êxtase disperso, que abrange o mundo. Cada momento uma vida que se esquece. Passos deixados pra traz sem rastros. Um mundo sem voltas nem lembranças. Sem esperanças. O tempo presente me resta. Um saber intuído que aponta direções sem futuro. E dentro da vida passeio devagar. Num ritmo que me esqueço. Numa sintonia que aquece. Quando não, carinhosamente me abraço e por vezes choro. Jogo a alguém um grande amor que supera medidas e a esse alguém faço pertencer minhas irresponsabilidades. Na sua presença obscureço, apago e nem mais a natureza consegue me iluminar. Então choro. Descrente de mim. Mas o sol vai então aos poucos, brilhando na janela do meu quarto sombrio e por segundos esqueço a dor. Dor que se confunde com uma carência que é original do ser humano. Por isso às vezes duvido desse grande amor. Reconsidero minhas lágrimas e tento encontrar-me inteira, sem carência e dor. Atribuo a mim mesma esse grande amor e tento amar-me, superar-me. Fragmentos meus, deixados aqui, já, perdidos no tempo. Já duvidei dos meus pés. Já duvidei da minha cabeça. Hoje duvido da vida. Lembrança herdada da morte. Solstício de verão. Lua cheia de algodão. Merecimentos à parte. Nós, inquilinos naturais. Poderosos homens sórdidos e temerosos. Meu estômago satisfeito, abundantemente alimentado participa de mim. Claramente pareço destituir a claridade das palavras. Palavras obscuras que soltas me fazem pertencer a um mundo claro. Correntes pesadas. Caretas de dor. Abolição dos escravos. Liberdade conquistada pela história que agita homens impacientes de descendência selvagem. Hoje falsos argutos, escondem-se de si. De portas fechadas saboreiam a ferocidade aprisionada. Acreditam-se livres e nem ao menos conhecem seus próprios nomes. Absortos em sua esperteza racional saem de Ítaca rumo à destruição anímica. São Homeros por falta de vontade e amor. Guerreiros por profissão não escolhem seus inimigos. Sempre prontos a combater, protegem-se de suas próprias almas. Matam-nas e tornam-se sós buscadores de si. Nós, descendentes de Homero, carregamos por toda vida sua crença arguta. Nossa carência original herdada por uma cultura arguta. Fomos culpados por nascimento de algo que não tínhamos culpa. Rebelo-me contra qualquer tipo de acusação original. Nasci livre e inocente. Que me perdoem os acusadores. Transgrido regras originais por opção da minha própria liberdade. Desafino no coro, mas afino-me a mim. 13 Minha voz lânguida e grave intui minha essência aparente. Minha essência inocente, cuja culpa foi formulada por homens fracos, escravos da argúcia de homens enganados de si. Características? Homens de falso caráter. Ídolos quebrados, conservados por outros tantos homens fracos de fé. Titubeio. Porque não? Na minha fé titubeio no asfalto gelado. Meu pé procura a terra fofa e quente. E em meu peito uma paixão ardente como o fogo. Escândalo de vida. Discorrendo o presente satisfaço-me sem abusos. O controle de um infinito sentir rege a vida equilibrada. Por muitas vezes perdi-me num sentimento sem fim. A cada presente mais um impulso na vontade de sentir o desejo pulsando em meu peito. Desfaleci. Perdi-me da vida. O controle é fundamental. O sentimento não deve ir além de um ponto x senão caímos no dramático da vida. No presente momento anseio eliminar o sentimento, que é o caminho e não o fim. O fim é livre de sentimento. E não cheguei no fim porque o sentir vicia. É bem isso, tenho que lutar contra um vício. Regro-me. É necessário para que eu não caia no caos. Intuitivamente respondo-me. Sobre o fim ou sobre o começo não falo, falando a não ser para expressar alguma situação como, por exemplo, a do sentimento. Foi uma maneira de situá-lo. Porque o fim não é, assim como o começo. O meio é o presente, sempre o meio que se modifica porque é móvel. E móvel no sentido descrito e não no vivido, porque no vivido o presente é fixo. Sempre um ponto fixo. Comodamente um ponto fixo. Meu corpo completamente situado em si. Tudo me é percebido, desde a ponta dos meus dedos, passando pelos meus ouvidos até os fios dos meus cabelos, sem falar dos meus acessórios como anéis, brincos, roupas; sem falar do ambiente onde agora me participa uma experiência cômoda e natural. Se imaginarmos um prego enterrado numa parede, grotescamente estaremos fazendo uma analogia com uma situação cômoda e natural. O prego perfeitamente ajustado na parede sólida. Assim me situo na vida. Comodamente sinto meus passos, que sentem o chão, cujo chão também parece sentir meus pés. Uma situação fechada e por isso livre. Uma liberdade fechada. A interação dos opostos. Uma teoria que ameniza o duelo entre corpo e alma. Por isso apresenta-se diferente. Reflete em sua linguagem uma unidade circular que é própria do pensamento ocasional, intuído. Um saber que é originado pelo interesse de autoconhecimento. Um saber experimentado, bem diferente do conhecimento histórico, político, que é um saber que vem de fora para dentro, calcado sobre interesses econômicos egocêntricos, que visam um poder de possessão. 14 Hoje, porque hoje? Hoje me sinto ofegante de amor e ofendida por te amar tanto. Dramaticamente sinto esse amor que me enfraquece ou me fortalece. Às vezes duvido de tudo, perco-me nas minhas intuições. Destruo minhas alternativas. Racionalizo e vivo erradamente no que é mais importante pra mim. Pois eu me conheço na medida do meio e me surpreendo por não poder me satisfazer no que mais quero. Quero você, não quero tê-lo possessivamente. Quando digo quero, digo a mim que devo ser livre. Minha liberdade completa me oferece você. Acho sinceramente que agora estou mais próxima de mim, tão próxima a ponto de sentir você. Esqueço: adormeço de amor. E por momentos sinto-me uma deusa. Meu peito queima me fortalecendo inteira. Não sei viver sem uma grande paixão. Por isso vivo escandalosamente, no sentido de sentir profundamente a vida. Sabe, acho que me aceito hoje bem mais que ontem. E para dizer isso: vivo um presente fora de mim que vê o tempo. A liberdade com a ajuda da imaginação de viver o presente como se quer. Com você por enquanto só em fantasias. Fantasias absurdas e deliciosas. São momentos sublimes de infinito êxtase. Sou paciente e te espero. Minha atenção sem descanso ultrapassa o tempo perdido. Agora tento me situar. Vou vivendo fora do trilho, às vezes para a direita, às vezes pra esquerda. Meu peito já não tem mais esperanças. Hoje, porque hoje? Um presente adormecido pela minha impotência anônima. E dito por não dito, já disse de algum modo minhas incoerências. Apresentei-me durante todo o tempo de maneira conivente. Hoje, porém digo sem dizer, recatada que estou de mim. Um pra dentro que se despede do pra fora. Recusa-se a falar. Espectro. Relato sombrio. Perdido da vida. E apesar do desânimo forço-me a continuar, como se fosse necessário lutar; guerreira faminta. Falo de mim, fora de mim. Tento encontrar-me, à medida que escrevo tento aproximar-me. Em vão, tudo é em vão. Meus pés me chamam. Vejo-os distante, como se não me pertencessem. Meu coração acelera, estico-me preguiçosa, longe de mim. Por que hoje? Presente amorfo, desconexo. 15 Mas mesmo assim relato. Tudo é. Hoje é. Ouço uma bela música. Minha alma tímida parece sorrir. Uma singela suavidade em meu ser. Esperança solta dispersa no tempo. Falo com você que não me refuta. Deixe estar. É bom falar só, é bom ouvir só. Minha atividade me acompanha, meu ânimo ressurge. Minhas pretensões sem descanso. Meus gritos abafados. Até quando? O drama recobre meu ser de sentimentos exagerados. Meu ânimo sem fé, descrente de ti. Sem exageros percebo exagerar. Contrariada percebo que estou a me contrariar. Meu desamor por mim me instiga ansiedade. A música toca e eu a acompanho, dou-me a ela, um pouco dela em mim. Escolhi por pura vontade minha solidão, minha liberdade que às vezes me sufoca. Muita liberdade pra um pássaro sem asas. Meu Deus! Ganharei asas? Dúvidas que me atormentam e me dão dores de cabeça. Pensamentos tristes. Luzes apagadas, cigarros acesos. Minha imaginação aguçada inventa novas situações felizes. Quem sou? Sem voltas. Eu, mulher. Lembranças inoportunas. Luto em vão. Meu sangue quente palpita. Eu, uma mulher poderosa, imune de ti. Novos amores passados. Fazem-me tremer e meu corpo deseja, lateja. Refugio-me na dor, na falta, meu peito só. Vôo em direção ao meu Menino herói. Hoje um homem cheio de heróis. Parte de mim roubada de mim por mim. Tudo em vão. Você? Acabou. A música toca, minha liberdade cala-se e escandalosamente vivo. Aqui. Com meu passado, presente e futuro. Minha respiração ofendida recente e eu choramos. Meu sentir, minha felicidade translúcida. Momentos traiçoeiros que aspiram sempre mais. Nunca parar. Ansiedade infinita. Momentos íngremes, sem soluções plausíveis; loucos momentos que desfiguram o figurado e trazem à superfície novas figuras. Sempre novas figuras. Conflitos superados, imagens livres. Confesso: apaixonei-me profundamente pelo mar, por sua suavidade surpreendente e inigualável. Um dia vi um homem loiro corpo dourado refestelando-se ao aroma do mar calmo: braços soltos cabeça altiva. Estaria ele sentindo o mar como eu o sentia? Sua ousadia me enrubesceu e eu o odiei. O mar em mim, pensei... E amei o mar. Afoguei-me em seus braços e meu ódio esqueceu-se, minha possessão infantil destronou-me. Por segundos sofri e agora percebo que não há posse. O mar é de todos aqueles que o queiram. O homem loiro nem me notou absorto ele que estava. Olhei-o com admiração. Coincidências paralelas, transversais. Todas situações trançadas ocasionalmente. E novas alusões coordenam novas situações trançadas também aleatoriamente. Situações que do profundo emergem, simplificando-se. Mas o superficial que não submergiu não conhece o simples da superfície, perde-se no profundo que emerge. 16 Uma poesia em mim Uma vida confessada. Uma sinceridade que anestesia meus pecados. Levito em meu corpo, feliz, uma felicidade que não é plena porque quer mais. Ou caí da linha do meio ou estou preste a situar-me em uma nova linha do meio. Um meio móvel. Cada vez mais situada. Sem fim. Já falei sobre isso, no entanto repito sem repetir, porque nada é um em si duas vezes. Estar completamente sintonizada, harmonizada. Poder cantar, dançar, pintar e amar. Ser artista. Deixar de vez de pensar. Esquecer as situações trançadas. Simplesmente um verso, como uma respiração profunda. Um minuto sentido, uma poesia em mim. Tudo bem. Hoje recomeço minha vida. Medidas irreversíveis. Meu bem estar proíbe-me de falar. Desisto de mim. Satisfeita. 17 Faz de conta Faz de conta que eu sei viver. Faz de conta que eu sou feliz. Faz de conta. Tudo faz de conta. Ontem eu cresci e me arrependi. Hoje sou grande e penso no amanhã. Realizo meus atos, meus passos. Não esqueço da noite porque é escura. Nem do dia que é claro. Nunca esqueço daquilo que posso perceber. Meus atos, meus passos. Ontem cantei bem alto uma música que havia escutado há muito tempo. Acho que hoje esqueci. Nada permanece. Tanto faz, sei levar. Meus saltos altos, minha boca pintada. Sei levar. Perdida na noite escura eu sei levar: olho o céu, as estrelas, sinto-me em casa. Faz de conta que estou presente. Num cômodo qualquer, sinto-me no útero da vida. Eu sei levar. Penso em Caetano, luz acesa, ultra-acesa, atrás do pano; sei te levar. Desconfio, aprimoro, repito e nada sei. Só sei levar. Tanto faz. Meu corpo quente de vida. Meus olhos tristes ou alegres. Perdida em mim eu sei levar. Uma música bonita como a de Chopin eu sei levar. Gosto de viver, amo a vida mais que a mim mesma. Atenta. Incompleta. Tento levar; meu desejo que aspira vida. Sentido intuitivo que reclama e faz levar. Blusas desabotoadas. Mulheres. Eu. Enigmaticamente sei me levar. Uma mulher entre tantas. Acaso me ouviu? Responda, agora. Sem respostas eu sei levar. Perguntando eu sei levar. Devagar. E minha jovem existência duela com o ar. De espada na mão, rasgando o ar compacto eu sei levar. Obsessivamente eu sei levar. Na noite que chove, eu molhada, feliz; chuva pesada eu sei te levar. Sobre uma árvore alta pego nuvens no céu, entre meus dedos gotas de orvalho, olho-me faceira, sei-me levar. E lá em cima um azul forte me atiça, posso voar, eu sei voar. De asas brancas eu sei levar. E cansada tombo no mar e nadando, boiando sei-me levar. E já na praia, areia quente,;sei-me levar. No sol quente teseio o ar. Tiro a roupa e nua reclamo vida. Sei-me levar. Em campos abertos, vacas pastando eu cheiro o ar, cheiro o ar. Volto pra casa perdida em mim. Sei-me levar. Eu, tanto, tudo, todos. Sei me levar. E você me ouviu? Viu-me? Eu sei levar. Respostas que respondem meus anseios; me animam. Eu sou romântica, eu sei levar. E lá em algum lugar, já não sei falar. Lá onde nada acontece, onde tudo é, eu sou. E aqui meu corpo quente repete, repete, diz sim. Atenta, incompleta, mulher. Teu corpo em mim. Anseio assim, assim, devagar; sei me levar. Sintonia: atônita te percebo. Perco-te. Sei te levar. E nessa grande brincadeira; metamorfoseando-me eu sei levar. Percebendo-me. Sonhando, aqui, agora, eu sei levar. Bem devagar. Ouviu-me? Eu sei levar. Digo-me: vacas, cabras, zebras, tigres, porcos, ratos eu sei levar. Perdida. Eu 18 Um louco Fazia calor, o mormaço quente esquentava e dissolvia minha pele; além do mais escutava Lobão: Decadance avec elegance... Perdi-me no espaço; eu era o próprio calor, a própria música. E um êxtase calmo tomou-me todo. Não me pensava, sentia-me, mas sem contornos e sem preenchimento. Sentia-me algo, simplesmente algo que é sem se dar conta. Foi bom, mas mais do que bom foi penoso quando casualmente dei por mim, por meu corpo queimado e suado e por minha saliva seca. Com desespero tentei viver e sem fôlego, assustado, aspirei em mim o mundo. Eu era um louco. De pé, cambaleante, fugi de mim em direção ao mar. Meu corpo quente esfriou e minha cabeça cresceu. Um homem cujas pernas não se sustentavam e cuja cabeça tombava hora para direita, hora para esquerda tentando equilibrar-se sobre o corpo esquecido. Eu era um louco, um louco ávido de entendimento. Não mais me suportava sem contornos e nesse afã de vida bebi a água salgada até saturar-me de sal e o sal fez-se carne e eu renasci. Saí então do mar, inteiro; pernas firmes. Sentei na areia quente e pensei ser Deus. Um pensamento louco. Então eu era um louco e olhei, tentei enxergar o fora eu e vi outros deuses, outros loucos. Todos eram loucos. Ninguém me percebera. Eu era livre de mim, dos outros. Mulheres, homens, crianças. Todos loucos e deuses. O sentido de viver é louco. A própria vida é uma grande loucura. Maior ou menor não se pode dizer. Tanto faz sentir minha cabeça abranger o mundo como sentir meu pé queimando na areia quente. Tanto faz a criança brincar na areia ou no mar. Tudo é sentir; sentido de vida. E aqueles jovens jogando vôlei tentando viver? São jovens loucos que procuram um sentido de vida, assim como procuro por meus contornos. É uma questão de opção meio a tantas alternativas. Poderia estar jogando vôlei, nadando ou ainda correndo e nem por isso deixaria de ser louco, de estar fazendo algo. O fazer algo é louco. Todos poderiam se quisessem estar agora procurando por seus contornos. Não estão não querem; nem por isso deixam de ansiar a vida. O homem são não existe, o que não mais anseia porque é. E por isso sinto-me um louco aliviado; identifico-me com meus companheiros de espécie e vou jogar vôlei, e jogo sabendo que sou um louco jogador assim como todos os jovens que me cercam. E os amo quase mais que a mim mesmo. Sorrio pra garota da direita, pro garoto meu adversário e acho simpático vê-lo me chamar de filho da puta porque consegui com extrema loucura rebater com sucesso uma bola. Sou um louco feliz. Talvez minha única diferença. E paro agora em mim e me paraliso. O ontem é agora. O agora, já não existe. E percebo que posso reviver sempre. Mas quando revivo, vivo o ontem e o já acontece pleno, sem ansiedade, tranqüilo de vida porque é a própria vida. E por segundos parados sinto a vida parada. E é bom demais pra eu esquecer que ontem existiu. E não é um final feliz; é um agora, um momento feliz. Um acontecimento acontecendo. E hoje posso ver. E modéstia à parte, meus lindos olhos pretos podem enxergar, assim como meus largos ombros ou meus belos pés. Todo meu ser enxerga amando, sentido. E hoje é dia de festa. O andarilho anda. Todos tornam-se andarilhos. E a festa explode a vida e vira rotina. E amo a loucura do padeiro entregando pão ou da criança chorando ou do meu mundo acontecendo. Então ontem aprendi que todos são loucos e que posso ser o que sou e também melhorei o meu vôlei e minha aparência. Minha pele queimada atrai as belas mulheres. E mais, aprendi também que posso dirigir minha loucura. É uma questão de saber optar e ir em frente. Por vezes, rápidos momentos surpreendem-me. Momentos plenos. Minha ansiedade acalma-se. São situações de êxtase passivo como e sede saciada. Se não fosse o meu medo de ser seria sempre, porque a morte perderia o sentido. Recuso-me, no entanto a continuar. Quero ser louco como meus companheiros de vôlei. Não suportaria nascer só, ou talvez... E isso me faz pensar em Deus. Poderia eu viver num mundo solitário, desinteressado de anseios, desejos, que são por sua vez sentidos de vida, loucura? Talvez, às vezes penso, encontrasse homens sãos quando realmente tivesse-me tornado um iniciado. Mas quem pode dizer? Eu? Um louco que tenta obter a plenitude de ser? Nós que aprendemos a viver alinhados; sair da fila da classe sem que a professora nos chame a atenção e nos dê um castigo. E mais, poder correr pra onde quiser. Pra onde ir? A liberdade que a sanidade completa dá. Eu a desejo medrosamente, e por medo deixei escapá-la, como um pássaro que opta pela comodidade de sua gaiola. A escolha é difícil; é bem mais fácil ter uma geladeira farta, mas a fartura engorda os gulosos. E por isso reclamo-me na minha apresentação. Apresentação que se representa e acalma meu íntimo, torna-me transparente e minha pele queimada reflete minha vida. Então me lembro do mar, do sol. Mar, musa inspirada e torna-se mulher. Retrato sentido. E subitamente lamento e deixo acontecer. Laços desfeitos, abraços abraçados. E eu aqui no mar, perto do sol, perto de mim, ofegante e vivo. Porque o mar é minha mulher. Todas as noites nos encontramos clandestinamente. Ela, amante de todos. Seu abraço frio e salgado desperta-me pra vida, pra mim. Então eu vivo pelas noites, pelos meus banhos marítimos. E aqui eu, cansado de mim da vida. Numa rede esperando anoitecer, esperando o mar, me esperando. Mas hoje longe da minha musa, do sol, olho-me vaidoso no espelho. Meus cabelos loiros minha pele morena lembram-me de ontem, de hoje e da noite que virá. E sentado espero. 19 Hiperbólicos movimentos situam-se na esfera do conteúdo humano pessoal e universal. Uma linguagem aparente, por isso estranha e redundante como a própria natureza. Uma superfície que extingue detalhes. Acumula-os em si. Uma linguagem genérica que abrange o múltiplo. Mas é una. Por isso direta e simples. Estranho é também me supor cavernosa. Repleta de precipícios. De quedas bruscas. Desconfortáveis surpresas. Eloqüentes passagens subterrâneas das quais tento desvencilhar-me procurando novos caminhos. Superando abusos. Preferia já ter nascido leve. No entanto não dispenso a levitude que as profundezas me proporcionam. Como dizer? Sofisticadamente viva. Talvez diga melhor de outra forma. Não importa. Importa sim, meu peito que rege meu destino. E meu destino que há por vir. Minhas realizações. Isso realmente importa. Simpáticos momentos. Próximos. Eu, eles: Nós. Revitalizantes. Pacíficos. Incongruentes situações que escapam no tempo infinito. E solta no ar me delimito como uma efêmera, entre tantos efêmeros. Num êxtase rotineiro que aquiesce. Sobretudo: inteiros, pessoais. Momentos simpáticos como a própria existência, como o próprio “dar-me conta” que estou viva. Um novo capítulo desinteressado. Surpreendente. Asfixiante. Intolerável como a própria existência. Meu credo. Teu medo. Várias proposições desarticuladas tentando finalizar. Mas cada final empreendido super objetivado. Uma queda que dói e surpreende a comodidade de ser homem. A grande transformação que incita a vida radiosamente vivida é pega de surpresa pela vida histórica que é acadêmica, que puxa pra trás. Porque não ir ter que necessariamente ir e vir. Não atribuo-me responsabilidades deixo na mão do acaso tal peso. Submeto-me simplesmente. Meus grandes objetivos que se perdem no seu próprio caminho traçado. Reconsidero, reconsiderando-me. 20 Meus capítulos inacabados. Sobre o ritmo adequado. O momento sentido. Uma presença que sente o presente. A lucidez autêntica. Sem resíduos passados, nem acúmulos futuros. Tudo muito simples. Uma corrida sem tempo que faz o tempo passar. Dia, noite. Saudação de mim. Um canto contente, dois, três cantos contentes. Imaginados, vividos. Realidade a postos, sem depósitos. Desejo fluente sem fim. Ouvidos atentos, sentidos alertas, descobertos. Um modo de ser. Casulos abertos sem continências, sem esguios. Absortos pensamentos vivos, sem histórias a contar. Comedidos. Interminavelmente comedidos. Sólidos. Acometida por mim devaneio sólida e livre. Triunfante. Finalmente. Você. A integridade da dispersão. Tudo ocupa um lugar no espaço. O preenchimento absurdo que esclarece dúvidas. Meu ser ouvindo o universo. A ansiedade exposta com respostas. Respostas que me imprimem e me fazem ser expressa. O homem genérico, sua individualidade como espécie. O cosmos livre e Deus podendo viver. A integridade da dispersão. Um mundo lilás. Os véus retirados e as noivas sem padres e os padres sem noivas, novos homens poderosos sem bata. Todos sem fé, sendo a fé. O vento, o destino apontando. Os relógios guardados, sentados na história. És uma gueixa oriental. Tímida e serena. Deusa do amor. Bela tu és. Amor darás. Receberás. Que bom viver. Rezo por ti. Sem me esquecer. Que dimensão. Meu coração. Sou mesmo eu. Vou explodir. Minhas alcoolices. Minhas disfunções. Meus apetrechos. Minhas distrações. Tudo maior. Sentir o quê? Tô sim. Tô não. Adoeço. Esmoreço. Meu bem, meu mal justificado. Desconfio. Aprimoro e nada sei. To desconfiada. To quase parada. Ser todo ser. Desperta. Alerta. Ta bom. To nessa. Despeça. Atesta. Seqüestra. Sem valorar. Emoldurar. 21 Cantos Um canto, dois, três cantos e um conjunto encantado que relembra e aspira. Cantos que sugerem, que mobilizam o pensamento; cantos imóveis que participam passivamente do meu ser. E inesperadamente um verme se arrasta asqueroso e cinzento aos meus pés. Um intruso. Eu grito tentando expurgá-lo de mim, do meu conjunto encantado. E uma vassoura assassina ansiosamente o mata e o varre para o lixo. E eu mudo e decoro tentando esquecê-lo. A beleza reflui. Aspiro um, dois, três cantos encantados; cantos imóveis que me mobilizam, e que me fazem ser. Cantos que se repetem, que se encaixam como quebra cabeças me refazendo. E minha vida esquecida dos vermes foge deles sem saber, aguça meus olhos e eu brinco mudando e decorando. 22 Uma janela aberta. Sem descrever. Observando e vivendo. Uma janela aberta que respira escutando e encontrando o mundo; sendo. O sentido da vida invadindo-me através de uma janela. E as árvores sacodem ao ritmo do vento e de Vivaldi que toca na vitrola. Vento? Vivaldi? Qual a diferença? Sensações que me fazem ser. Algo antigo: o homem. Algo novo: uma janela aberta. Sem invadir. Sem repetir; sendo. E o vento pára, Vivaldi continua e as árvores sacodem sem se sacudirem. E eu vivo fantasticamente num mundo que é também seu. Meu mundo, seu mundo. Quantos mundos existirão? Uma janela aberta mostra minha vida que é diferente e igual a de todos os homens. E eu respiro e deliro sem limites, delimitando-me a cada momento. E minha alma em silêncio vive. Uma janela aberta. O mundo em mim. Uma janela que escurece pela noite que amortece a vida. Penumbras. Somente silhuetas que retratam uma janela aberta, que no escuro da noite transborda de luz. Eu apareço e cresço. Meus olhos cansados e meu corpo transparente sugerem-me que feche a janela. 23 Nada escrevo. Porém escrevo. Palavras que não dizem. Eu digo. Sem dizer. Os momentos desaparecem. Agora, porém sou. Aconteço. Escrevo. Incrível poder ser sem se ater. Deixar de analisar. O acaso sem escolha. Porém discorrido. Talvez sem sentido. Mas sendo. E agora escolho para deixar os acasos acontecerem. Quero escrever sobre o esquecimento. E me lembro de esquecer e esqueço acontecendo. Sem medo. Sou sem ser. E tudo é ou não é. Nenhuma angústia. Nenhum desejo. Algo por si. Agora os acasos casualmente são a própria direção. E tudo corre devagar. Sem esperanças. E posso dizer porque posso dizer. E digo. Talvez sem dizer. Esqueço tudo e tudo é. Um tudo que se resume no agora que é. Um sentido claro e louco. Já passou. Já chegou. Presente. Poucas questões que não perguntam, não esperam respostas. E a vida flui. Meus sintomas dogmáticos. A carência adormecida pelo amor. Um grande amor criado e sentido. Um sonho? Talvez. Um contato real. Um ponto fixo que me faz andar firme e situar qualquer um que por mim passar. Uma presença descansada, sabidamente humana e por isso viva. Vivacidade ou vitalidade. Coração quente e pés frios que pisam e sentem o solo. Um solo que alerta meu ser. Tudo isso e mais um pouco. Palavras que não dizem. Sufocam a liberdade de expressão. Uma vida inspirada. É isso. Poderia assim talvez dizer. Ou ainda um silêncio concreto. Poderia talvez, também assim dizer. Porque o medo de ser levanta filosofias inteiras. A sanidade se torna doença. A doença se torna normalidade. Os estereótipos que ausentam a felicidade. Tornam-nos descrentes de nós. Poderosos estereótipos fracos de vida. Ser-se leal, digo. E confesso minha suposta direção. Porque tudo é suposto. E nas suposições andamos e tentamos nos encontrar. Pois é assim que deve ser. Digo eu, supostamente. 24 Preguiça lúdica. Vulgarmente chamada de ociosidade do pensamento brincalhão, ou seja, do pensamento infantil; Sem compromissos. O pensamento livre, desejoso, criativo. Uma preguiça de gravata, que sabe resumir e imprimir. Quando quer. Ou um homem sem sapatos. Ou um cavalo disparado. Ou um espelho quebrado. Uma inauguração que despede. Qualquer coisa que satisfaça, estenda e acha graça. Que procura discernir. Que vira adulto sem pai nem mãe. Que exclui o que é teso. Que teseia o mundo inteiro. Que se arredonda. Salta como bola. Desenrosca. Saculeja. Que separa e mistura modelos. Que não sabe copiar. Que não sabe dar fim. Preguiça lúdica. Inspiração otimista. Lânguidas retóricas lingüísticas. Presunçosas vertentes da vida. Românticas, semânticas traduzidas. Inconseqüência que pretende e desmente. Sobretudo anda e fareja o chão. Repudiada pela história estática que dispensa movimentos cíclicos, que reclama atenção. Sânscritos perdidos, esquecidos que adormecem no tempo parado. 25 Sequer saber por onde iniciar. Procurar um fio. Cadê o fio? E a procura torna-se o próprio fio. A procura de direção. Direções. Tudo. Nada. A abstração completa, real. Um mundo paralelo que complementa. Uma existência tranqüila. E o meio inicia. Sempre o meio que é falho porque não gosta de falar. Esquece a linguagem. Pontos. Cantos. Tantos. Santos. Tudo. E o som sobrevive fazendo a existência cantar. Um nome qualquer que soe o som da existência. Uma invenção intuída. Uma filosofia cansada. Talvez a filosofia do artista. E sem querer tudo acontece e sucede. O corpo expressado. E as figuras, metáforas, dizem mais salgadas; menos picantes. A agressividade estéril e as mariposas invadindo meus sonhos e me fazendo ser suposta. Minha suposta vontade que supõe já, novas vontades. E eu a vontade podendo amar o andarilho e a prostituta. Escrevendo a minha preguiça com preguiça. E mesmo assim agindo, vivendo. Meus pés doem, minha cabeça reclama. E me enrolando e me enroscando na superfície vou penetrando vagarosamente no meio. A estabilidade ainda é ficção, mas já é suposta e viva no mundo das mariposas. Serei mariposa? Não sei. Penso e suponho. 26 Arriscar implica no risco explícito do próprio arrisco. Arriscar significa praticar uma teoria. Arriscar conota coragem e vontade. Arrisco, pensamento positivo que afirma o talvez. Arriscar, sinônimo de desejar. E quando o arrisco se torna o próprio sentido da vida, transforma o homem em animal poético. A realidade arriscante é diferente da realidade cômoda. Da passividade do desejo. Ele reprimido desconhece-se. Falar sobre desejo é falar sobre amor. Sentindo universal que propõe um pessoal mais definido. 27 O que é fora eu? Não sei. Sei-me apenas. Até onde eu projeto. Tudo que me é, é impresso por mim. Meus guardanapos de papel. Não sei o que sinto agora. Sinto frio e me encolho buscando calor, aqueço. Sobrevivo na luz. E minhas mãos frias escrevem quentes. Eu em mim. É bom. Sou sã. Tão sã a ponto de me amar. Me amo, sou só. Eu com todos. O calor de todos em mim. Meus encontros. Minhas mil vidas. Com todos e comigo. E meu pé levanta e eu escrevo com frio. E assim falo com o corpo. Meu corpo me é. Eu que penso. Abstrata e viva. Só corpo. Sinto o mundo aquecendo meu corpo e por isso vivo quente. Sem perdas. Sem histórias a contar. Um sem passado. Vivo. Minhas ficções, meu eu. A irresponsabilidade sobre a minha responsabilidade de me ser. Falo estranho. Penso. Sou-me estranha. E corro em vida pela vida. Pelo verdadeiro sentido dela. E tento filosofar e fico feliz porque penso estar conseguindo. Minha filosofia, minha vida que me ensina a ser. E sou até não poder mais. Respiro profundamente e seguro a respiração para deter-me no meu próprio sentido. E caindo sempre em mim: um passo em direção, sempre um passo em direção. O que é fora eu? Àquilo que percebo. Você pode perceber-me. Fazer-me parte de você, mas nunca me será. Nossas intersecções. Nossos eus aumentando. Agora quero amar, então amo. E torno-me redonda. Sem início e fim. Sendo. Fortemente sendo. E o silêncio é bom. Muito bom. Então silencio e o silêncio toma forma compacta e é. Expressa-se. Tudo em mim. E não adianta mentir sinceramente. Não levanto bandeiras simplesmente me assumo. Canto a vida com paixão. Anseio-me e abaixo bandeiras suspendidas. Acredito-me. Sem religiosidade, mas com uma fé apaixonada. Pra que falar delas ou deles, se eles já me são, sem deixar de serem-se. E lembro de Nietzsche e amo Nietzsche. O narcisista maior que virou artista. Às vezes me possuo e sou transparente. Sei andar tão leve que contrario a gravidade. E um final feliz pra não contrariar a direção do vento que bate forte e me arrasta, me levita e me faz rir. E nas entrelinhas ando tentando me equilibrar, tentando me expressar. E as palavras repetem-se. Sinônimos. O sentir verdadeiro não fala. A palavra perde o sentido, não comunica. A palavra só serve pro canto como fundo. A voz importa: o som da voz. Um homem atento, desperto. Os sentidos sabendo, porque a razão ilude, nos exporta pro mundo dos resignados. E Platão levanta e abaixa a cabeça humildemente e Nietzsche sentado aperta freneticamente as mãos quentes, rindo e chorando. Um assassinado por sua lógica doente e outro pelo corpo cansado e viciado de lógica. Faltaram-lhes direção e pés. Dois sem pés. Dois aleijados que hoje curam aleijados. Dois sem charme. E a cozinheira bota tempero no feijão aguçando minha fome. E eu caio das entrelinhas pra um lugar qualquer. A aversão dos opostos que fazem o meio se desequilibrar. Nem tão perto do norte, nem tão perto do sul, senão o lugar sonhado vira fantasia e a realidade passa desapercebida, e passamos pela vida de raspão. Somos café com leite nesta grande brincadeira. E a vida rir da gente porque não soubemos seduzí-la. E eu choro por incapacidade. Apenas momentos. Então aspiro vida e reclamo vida. 28 Justificativas. Abordar e perceber os outros me justificando me encobrindo. Meus medos. Minhas justificativas. Meu olhar de esguio. Minha lentidão ansiosa, indiscriminada. Minhas questões. Desconfio de mim. Percebo que estou viva, pois sei errar; e o erro torna-se eficaz. Perco o pé. O que é? O que não é? Nada sei. Um novo sopro de ar. E viva a falta de ar que descobre tudo isso e mais um pouco. Sentada, dois pés, uma cabeça. Algo. O que é? Quem sou? E a música toca. E eu sou. Tudo é. Sem pensar escrevo e respiro. Sou. Obscureço-me. Apareço. Simplesmente sou. Um canto, dois, três cantos encantados que relembram e aspiram. Uma máquina, duas mãos, minhas mãos. Meu coração. E a máquina de escrever bate no ritmo do meu coração. Uma boca, dentes, unhas, garras. E lembro-me do leão feroz que corre atrás da presa. Seu alvo. Sem medo. Meu alvo. Eu. O mundo a meus pés. o mundo sobre mim. Encontros. Hoje você. Palavras aflitas. Poucas palavras aflitas. minhas unhas e meus dentes têm fome. Meus olhos brilham e procuram. Ansiedade. Vida. Hoje é dia de guerra. A guerreira prepara-se para atacar. Aqueço e esqueço. Sou-me. Já então preparada. Pronta. E agora posso sorrir e amar. 29 O semi-círculo A corrida inicia-se às 13 horas. Homens e mulheres saltam freneticamente em seus bancos duros. Pretendem a vitória. O relógio bate em seus ouvidos, 17 horas e a corrida tem que parar. Não há vencidos, nem vencedores; apenas alguns homens amarrotados e cansados tentam respirar. Ofegantes homens que procuram a autenticidade da vida. Descontínuos relances de paz parecem pairar sobre seus corações eufóricos. Somente aplausos podem acomodar os andarilhos que correm. Por seus espectadores almejam o fim. 30 Talvez eu vá. Talvez não. Parei. Nem fui, nem fiquei. Estou, sem estar, em algum lugar. Vivo nesse lugar que não é. E nele coloco regras. Tudo é percebido agora. Falta-me coragem. Só isso. Percebo o grande desencontro de mim comigo. Já é um passo. Faltam-me impulsos de vontade. Falta-me eu. Sou um tu perdido num mundo de eus. Procuro por meu ego, procuro em vão. Solidifico o inefável. Procuro cúmplices. Anseio a morte. Transbordo de mim sem mim. Quase pronta, sinto-me a cada dia mais fixa, concentrada e madura. Pronta a cair como o fruto maduro. Mas sei que para estar pronta necessito de paciência e otimismo. E por isso saboreio todos os meus momentos de vida, por mais cruéis que eles possam parecer. Tudo que o destino me oferece é absorvido por meu ser. Sou-lhe receptiva. Se isso lhe vale? Só ele poderá responder. Se me extravio da vida? Se perco-me em futilidades? Percebo agora que estou a criticar. Não estou pronta realmente. Espero com tranqüilidade o próximo acaso que o destino me proporcionará, ou talvez ainda algum impulso por ordem da razão, das poucas regras a que me submeto. E lembro-me de Nietzsche. Não digo, nem pretendo apoiar estruturas subalternas que se enrijecem às custas de homens passivos e dominados. Não falo sobre escravos, falo sobre homens livres que adquiriram a passividade de ser. E também não faço distinções, com isso pretendendo-me superior ou inferior. Sobre o que falo não existe domínio de alguns poucos valores. Pois é justamente a falta, ou melhor, a superação deles que ocasionam o nascimento da verdadeira liberdade. Quantos homens sobre isso escreveram e viveram. Sim; viveram, pois só quem vive pode falar. Agora me acredito, compartilho meu ser por própria convicção e vontade. 31 A verdade é natural. É orgânica. É o sol, o mar, a lua. É tudo o que carece de maiores explicações. É apreendido e manifesta-se através de qualquer expressão sincera. 32 Palavras; Símbolos desconexos; anexados pelos acasos. Com rima. Anima-me. Dizer o impossível plausivelmente. Sem pausa, atrasados versos. Canudos. Cautela. Desvela. Assimila. Visão. 33 Um pouco de tudo Uma árvore singela. Uma janela aberta. Um recurso sem discursos. Um vaso florido. Um peito que gema. Uma moça que ria. Tudo que faça. Uma faca que corte. Um pente largo prum cabelo crespo. Uma semente que dê frutos. Um esconderijo que esconda. Tudo isso e mais ainda. É a vida. 34 Do nada, o livro. Um livro. Que é. Sem ser. Sua falta lhe diz sim. Por isso não é sendo. Representa-se representando seu conteúdo que nada é senão um nada possível e delimitado. Inventa recursos e tenta representar o nada que não é vazio porque o vazio é também nada. Situa-se acima do nível do mar sem sair do seu próprio recurso. Dá sentido ao nada, tirando do nada sua originalidade preenchida. Desprega pregos. Reboca buracos. Levanta paredes. Preenche com o nada o nada. E do nada saem nomes que nada são. Forma o desconexo, retira do nada a superficialidade que nada simboliza. E dos nadas, o livro surpreende. Enfatiza o nada, realizando um nada cheio de nadas que complicam a pureza do próprio nada. Que é. Simplesmente é. Sem adornos nadísticos. Complementa o nada, materializando o nada de nada. Redescobre em cima do descoberto o descobrido que já é descoberto. E redesdobra; e redesdobra Aprofunda o sem profundidade. Então o nada camuflado, escondido de si por si próprio empola-se orgulhoso como um pavão sem penas. E supondo-se complicado, confundido, ele que está de si, regurgita seus nadas, seu próprio si e assim destempera-se, sufoca-se e desatando-se inescrupulosamente ressurge empoeirado e infantil, procura o seio da mãe e quer leite. Um livro. Anedoticamente: um livro que nada é. 35 Carolina Carolina, mil perdões. Sempre alheia, sonhadora Carolina que não te vi crescer. Carolina que tateia, me perdoa. Ser cruel me perdoa. Aqui te peço. Soletro. De escanteio te vejo passar, me ateio e jogo lá. Sem falar em Pedro e Paulo, protetor dos poderosos. Perdoa-me Carolina, já cansei de desmentir, sacudir e dizer sim. Vejo agora e amanhã verei também. De manso sempre de manso vejo passar. Me perdoa Carolina, linda, que te vejo mulher. Sonhadora Carolina que esqueceu de andar, falar. Então te peço de antemão, no meu sono colorido, sem medo. Vamos. Só desejo. Ensino-te a viver. 36 Diário Aconteceu a maior experiência da minha vida: uma certeza de mim. Canto. Desconto. Escondo. Atravesso desertos. Atrozes sem trás. 37 Será? Inicia-se a guerra dos deuses. A linguagem mitológica parece começar a ser novamente entendida. Deuses vivos que comandam a ordem natural da vida. A loucura sã. Um amigo fiel: um cachorro. O sol entrando pela janela. Dois olhos enxergando pela consciência. Sem dessecar, acumulando sem pensar. A onda do mar. O galope do cavalo selvagem. O pulsar do coração. Um ritmo natural que remete à vida. Os espelhos revelando luzes misteriosas e extasiantes. Todos nus de alma. - Encontros. Fortuitos encontros. Luzes lilases e roxas. As trovoadas mostram a ira dos deuses. Deuses impiedosos que esquecem seus poderes. Brigam pelo amor e pelo ódio. E a Vênus vaidosa olha-se no espelho. Atribui a si a responsabilidade de acalmar os raios. Pesados raios que indicam a direção do fim. Poucos homens piedosos e ardentes que fazem a Vênus nascer. 38 A luta pelo poder se trava sempre; instantes importantes, perdidos. Mas surgem luzes que ultrapassam o entendimento poderoso; surgem os avatares. Não mais os poderosos, mas os avatarosos. Eu avataro, tu avataras, ele avatara, nós avataramos,... Mais perto de Deus, mais perto da vida, e lembro-me de Clarissa, minha irmã que sempre me ensinou a amar. Agora penso nela e a percebo aqui, ao meu lado. Tenho a certeza disso e me sinto bem. Só me entristece é a vozinha chata de Carolina que brinca presunçosa no quarto ao lado. Minha filha. Apresento-a. Dramaticamente apresento minha dramática família. Carolina; abaixe a televisão, grita meus sentidos e ela os repele, os dispensa dramaticamente. Dou-me por meus atos. Tranqüilizo-me O Romantismo acabou, minha linguagem dramática se envergonha da vida: Carente, perdida. Reflete sentimentos. Silencia . 39 Fé. Sem refrões, orações. Fé. Sé. Praça da Sé. Sinônimo de desejo. Sem dor nos joelhos. Sem calo nos pés. Fé. Ferida que dói. Carência perdida. Escondida no âmago. Que desafoga o alemão, o francês e preenche as horas de lazer do brasileiro. Sem dinheiro. Rapadura. Queimadura. Que arde no peito. Sem jeito. Que anda nas ruas. Que bate no peito. Que diz com lamento: não ou senão; e o talvez do francês sustenta a fé. Fora os desastres horizontais do gênero homicida: Droga que mata o caos e que faz reviver a peste celeste. No céu. Fé. Ardente. Diz crente: - Tem fé. Diz não o alemão de origem prosaica. Repugnante em sua frieza, desconhece a tristeza da fé. Aqui jaz com jazz um brasileiro ardente de fé. Desejo até, não sei mais dizer, que dói. Olho largo de saber. De desdém sobreviver. De intuição inspirar, inspirar ar rarefeito que fugiu da poluição. Sem abrir mão do coração, abrindo mão da oração, descansa pensativo; aludido brasileiro derradeiro de antemão. Sofreguidão. Falta de pão. Fé. 40 De pé. Um pé, dois ou três ou quatro. Não importa. Pés que sustentam um corpo. Apoiam-se na terra que puxa pra baixo. E um corpo que cai seduzido pela gravidade. De pé. Dois pés, três ou quatro. Não importa. Uma cabeça que puxa pra cima e um corpo que fica no meio. É pra cima. Não, é pra baixo. É pra cima. É pra baixo. E nesse vaivém, um corpo esticado, alongado, ereto. Sem pé, De pé. Com cabeça. sem capeça, com bés? Não importa. Situado então. Firmemente situado como o vagão no trilho. Anda um pé, dois pés; três ou quatro Não importa. Sem pé. Com pé. Nada importa. De pé. Um ponto fixo que se acha e se perde. Tensiona e libera, repele e absorve. Sem dissolver. Gratuitamente achado. Que isola e dispersa. Consola e transgride, intermediário, inquilino das paixões. Absorto no si. De pé. Com pé e pernas que sustentam um tronco com braços e uma cabeça. Destrona os sentidos. Reflete amigos. Simboliza o representado. E o corpo dói e os braços cansam e a cabeça destronada balança pra direita e pra esquerda. De pé. Com pernas, sem pernas. Com tronco ou sem. Não importa. Os pés que pulam e pulam fazendo o tronco nascer e a cabeça se estabelece bem acima do pescoço. E freia pra frente e freia pra trás. De pé. Com pernas e tronco e braços. Com cabeça. Sem cabeça. Não importa. Que no desequilíbrio das direções se refugia no próprio desequilíbrio. Recorda dos pés. De pé. Concorda sem pés. Transforma-se em pés. Elasticamente tenta atenuar-se. E realiza-se no pé, de pé. E o pé na cabeça. E a cabeça nos pés. Não importa. De pé. Com pé. Sem pé. Sem cabeça, com cabeça. Não importa. De pé. 41 Sol. Se por acaso te entristeço, me perdoa. Quem sou eu perto de ti. Tanta grandeza! Tanto amor! Choro por ti, reclamo por ti. Querer-te: Me perdoa, eu ignorante de ti. Meu maior pecado : possuir-te. Um desejo lateja em meu peito, te chama, reclama sucumbe. Me perdoa. Audazes momentos de felicidade junto de ti. Momentos de vida. Meus poucos momentos de vida junto de ti. Lindos momentos vividos. Sorrateiros momentos espertos. Atrevo-me, porém, a te dizer sentindo, intuindo teu aroma que enternece meu ser. Sol clandestino que brinca comigo e me aquece: meu destino. Tuas mãos. A ti concedo. Com fé e paixão. Meu ser palpitante. Só tu. todos. tudo. Sol. 42 Cadê o doce? Cadê o doce? O mel... O céu aberto hoje ? O doce hoje está salgado. Conflitos: perda de significados, perda de sabores. 43 A linguagem incompleta, repleta do que é supérfluo. A confusão dos detalhes supérfluos que distancia o genérico e confunde a vida. A visão impregnada do que é supérfluo. A compatibilidade dos opostos. Recursos da natureza descontente. O indizível procurando saídas. E enquanto não as encontra, surpreende o ser asfixiado, que respira lento. Subitamente: respostas articuladas que aliviam o entendimento. Sustenidos de vida, responsáveis sustenidos aspirantes que fazem os olhos ver sem véus. 44 A Discreta A discreta hoje não consegue pensar sonha em algum dia ser uma indiscreta discretamente. Por enquanto é discreta indiscriminadamente. 45 Agora de lá de dentro de mim falo do fora eu, sem ser, sendo "você" ou qualquer um. Aprendo que devo dar vida à morte. Acordo no sono sem deixar de dormir. Agora não te amo porque não tenho sexo. Sou de fora. Sou sem ser, sendo. Mas você me incentiva a continuar. A cada dia morrer. E depois aprender novamente com você que devo tornar essa morte viva. Você quer me transformar numa deusa. E me torno uma claridade que dá luz mas dá medo. Pois sou morta meio aos vivos. Transito nos meus próprios limites. E agora sinto-me crescida e mulher. Amo a vida simplesmente porque ela é vida. Acho que aprendi a negar a negação. Acredito no sim, somente nele. Este é o meu sentido. Minha extrema profundidade me encobre de mim, mas é também ela que me incita a mim. E neste vai e vem tento me delimitar até sumir, tornando o tudo nada. Hoje aprendo e ganho a vida. Neste momento sei absolutamente que posso ser. Porém, num ser longínquo, perdido no êxtase da morte. Mas volto tranqüilamente quando o frio sugere. Talvez diga algo, talvez não. 46 O que é o limpo? Falando claramente: como falar? O que é o limpo? Dizer o que se quer, na hora que se quer como se quiser. Como ser transparente de alma? A prática facilita. A teoria esfumaça o simples. Mas linguagem é teoria. Falar que te amo quando na verdade te amo. Amanhã deixo de te amar e amo outro. Como falar se posteriormente virei a te amar, como se amanhã pudesse ser previsível? Te encontrar algumas vezes, te amar algumas vezes, outras outros. Sem rodeios o que sou? Somente momentos. Sou agora e agora e agora e assim por diante, a cada momento. Sei que sou, mas como ser? Num mundo que tenho que escolher, sempre escolher. E assim dividir-me entre meus desejos e o discernimento. A escolha precisa de direção e objetividade. É isso. Uma objetividade que me é exterior, na qual situei-me por mero acaso e que sou obrigada a aceitá-la. Mas meu íntimo não aceita, poderia ser tudo bem diferente. Como? Também não sei. Vivo tateando e intuindo. Tentando coordenar. Talvez se tivesse nascido entre animais selvagens fosse mais objetiva." |
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| Sobre Fragmentos de Aurora escrito em 1984: | ||||||||||||
| Celso Favaretto | ||||||||||||
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