Atualidades da Dra. Carla de J. Rodrigues, 25 de novembro de 2001:

Tecnologia desenvolvida para pilotos pode ser aplicada aos Deficientes

 

Segundo matéria publicada pela Folha de São Paulo, 17 de junho de 2001, baseada no texto de Mark Schrope da New Scientist, um macacão especial que exerce pontos de pressão na pele vem sendo usado por pilotos para ajudá-los na orientação espacial de céu e chão. Tal dispositivo pode ser estendido não só aos pilotos, mas às pessoas com diminuição da eficiência física como alterações da visão e audição.

Angus Rupert, cirurgião de vôo da Nasa e da Marinha dos EUA produziu o primeiro macacão táctil de pilotagem.

O macacão é um aplicativos que explora a reação ao tato. Pesquisadores demonstraram que a linha direta que liga pele e cérebro - a que permite tentar matar um mosquito com um golpe, sem parar para pensar na mira - pode abrir uma série de possibilidades.

Geldard e Sherrick são pesquisadores que passaram anos explorando os aspectos do toque. Mas, no geral, permaneceram praticamente sozinhos nesse campo. No mundo todo, apenas cerca de cem pessoas se dedicam a pesquisar o tato, em comparação aos milhares de cientistas que estudam a visão e a audição.
O macacão dispõe de 32 tatores pneumáticos, cada um dos quais com cerca de um centímetro e meio de diâmetro e alguns milímetros de espessura. Eles ficam dispostos em torno do torso, com intervalos de cerca de dois centímetros entre cada um. De acordo com Cholewiak, essa é a menor distância a que podem ser instalados e ainda manter a utilidade. 'A pele não trabalha bem com vibrações em alta densidade', explica.


Os tatores são acionados por um pequeno motor que bombeia os jatos de ar de acordo com determinações eletrônicas dos instrumentos da cabine do piloto. Dessa maneira, o piloto pode receber informação tátil sobre a altitude, inclinação, atitude e velocidade relativa do aparelho. Mas a principal função do macacão é ajudar a distinguir entre as sensações de 'em cima' e 'embaixo'. 'A maioria dos pilotos mortos na guerra do Golfo, morreu por não saber qual era o lado de cima', afirma Cholewiak. Cerca de 30% das colisões aéreas civis - incluindo, acreditam investigadores, a que matou John Kennedy Jr. - foram atribuídas à desorientação espacial.


Saber onde está o chão envolve informações complexas e, o mais importante, contínuas, recebidas por nossos sentidos. Normalmente, usamos nossos olhos e nosso sistema vestibular, que passam as sensações de equilíbrio e orientação. Mas, em certas situações, essas informações podem ser enganosas. Os pilotos podem se convencer de que estão com o aparelho nivelado quando, na verdade, estão mergulhando em direção ao chão ou -de forma ainda mais enganosa - ao mar.


Assim, quando o helicóptero se inclina para a frente, fortes vibrações na frente do traje praticamente forçam o piloto a corrigir a posição. Derivar para um lado causa vibração na lateral do macacão. Se o aparelho estiver se inclinando lateralmente para a direita, as vibrações se movem da cintura para a região da axila direita do traje. Se o nariz da aeronave estiver empinado demais, haverá vibrações na parte posterior do pescoço. A resposta instintiva a cada um desses estímulos é a correta: a reação automática é a de corrigir movimentos involuntários.


Arrepios na espinha - O sistema é tão eficiente na transmissão de informações geradas pelos instrumentos da cabine de pilotagem que permite até mesmo fazer 'loopings', sabendo exatamente em que ponto do círculo nivelar - durante um 'looping' executado para trás, o macacão tátil lhes causa um arrepio na espinha, que passa pelos ombros e desce pela frente do corpo, para mantê-los orientados.


Outras aplicações dos macacões tácteis estão sendo desenvolvidas. Mergulhadores militares estão testando uma versão do sistema que permitirá a orientação e a comunicação em mares muito escuros. E os trajes estão até chegando ao espaço.


Um objetivo mais distante da pesquisa táctil seria ajudar pessoas com problemas auditivos, especialmente os desenvolvidos na infância. Kimbrough Oller, da Universidade do Maine em Orono, acredita que o cérebro de uma criança pequena possa ser treinado e reorganizado de modo a receber sons pela pele. 'O plano neurológico não é inato e fixado cedo na vida', afirma.


Charlotte Reed, pesquisadora de fonologia e audição no MIT, acredita que a idéia de Oller poderia ser colocada em prática com um sistema, usando uns poucos tatores. Variar os tipos e texturas das vibrações - como mudar as freqüências em um aparelho de som - poderia permitir que informação complexa fosse transmitida. Isso manteria baixo o custo do sistema de audição tátil, talvez tornando-o dezenas de milhares de dólares mais barato do que os implantes cocleares.

Fonte: O novo sentido do tato Folha de S. Paulo Flórida, 09/08/2001
Comentário SACI: Matéria publicada em 17 de junho de 2001 no jornal Folha de S. Paulo.

 

Dra. Carla de J. Rodrigues; Fisiopediatria - Pesquisa em Saúde Infantil, São Paulo/SP, Brasil.
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