Ritos corporais entre os Nacirema


MINER, Horace.

"Ritos corporais entre os Nacirema", in: Romney, A.K. & De Vore, P.L. (eds.) You and others. Readings in: Introductory Anthropology - Cambridge: Winthrop Publishers, 1973, pp. 72-76. Trad. Selma Erlich.

 
O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comportamento que os diferentes povos apresentam em situações semelhantes, que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos.

De fato, embora nem todas as combinações de comportamento logicamente possíveis tenham sido descobertas em alguma parte do mundo, o antropólogo pode suspeitar que elas devam existir em alguma tribo ainda não descoberta. Este aspecto foi expresso, com relação à organização clânica, por Murdock (1949: 71). Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-las como um exemplo dos extremos que pode atingir o comportamento humano.

Foi o professor Linton, há vinte anos (1936: 326), o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para o ritual dos Nacirema, mas a cultura desse povo permanece insuficientemente compreendida até hoje. Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e Tarahumare do México e os Carib e Arwak das Antilhas. Pouco se sabe sobre a sua origem, embora a tradição relate que vieram do Leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem à sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por suas façanhas de força: ter atirado um colar de conchas usado pelos Nacirema como dinheiro através do rio Po-To-Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residia o Espírito da Verdade.

A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evoluiu em um rico habitat natural. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispendidos em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde assomam como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, raro, seus aspectos ceremoniais e a filosofia a ele associada são singulares.

A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso das poderosas influências do ritual do ceremonial. Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas e, de fato, a alusão à opulência de uma casa muito frequentemente é feita em termos do número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira, toscamente pintadas, mas as câmaras de culto têm as mais ricas paredes de pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas aplicando placas de cerâmica às paredes do seu santuário.

Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas cerimônias privadas e secretas. Os ritos, normalmente são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, tão somente durante o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude contudo estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter descrições dos rituais.

O ponto focal do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre são guardados os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem as quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Estes preparados são conseguidos através de uma série de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos-feiticeiros, cujo auxílio deve ser recompensado com dádivas substanciais. Contudo, os médicos-feiticeiros não fornecem aos seus clientes as poções de cura: só decidem quais devem ser seus ingredientes e então os escrevem numa linguagem antiga e secreta. Esta escrita é entendida apenas pelos médicos-feiticeiros e pelos ervatários, os quais, em troca de outra dádiva, providenciam o encantamento necessário.

Os Nacirema não se desfazem do encantamento após o seu uso, mas o colocam na caixa-de-encantamentos do santuário doméstico. Como estas substâncias mágicas são específicas para certas doenças e as doenças do povo, reais ou imaginárias, são muitas, a caixa-de-encantamentos está geralmente a ponto de transbordar. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem quais são as suas finalidades e temem usá-los de novo. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a este aspecto, só podemos concluir que o que os leva a conservar todas as velhas substâncias é a idéia de que sua presença na caixa-de-encantamentos, em frente à qual são efetuados os ritos corporais, irá de alguma forma proteger o adorador.

Abaixo da caixa-de-encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias, cada membro da família, um após o outro, entra no santuário, inclina sua fronte ante a caixa-de-encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal, e procede a um breve rito de abdução. As águas sagradas vêm do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro.

Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por "sagrados-homens-da-boca". Os Nacirema têm um horror quase patológico, e ao mesmo tempo uma fascinação com relação à cavidade bucal, cujo estado acreditam ter uma influência sobrenatural em todas as relações sociais. Acreditam que, se não fosse pelos rituais bucais, seus dentes cairiam, suas gengivas sangrariam, suas mandíbulas se contrairiam, seus amigos os abandonariam e seus namorados os rejeitariam. Acreditam também na existência de uma forte relação entre as características orais e as morais: existe, por exemplo, uma abdução ritual da boca para as crianças, que se supõe que aprimora sua fibra moral.

O ritual do corpo executado por cada Nacirema diariamente inclui o rito bucal. Apesar de serem tão escrupulosos no cuidado bucal, este rito envolve uma prática que choca o estrangeiro não iniciado, que só pode considerá-la como revoltante. Foi-me relatado que o ritual consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca, juntamente com certos pós mágicos, e então em movimentá-lo numa série de gestos altamente formalizados.

Além do ritual bucal privado, as pessoas procuram o mencionado sacerdote-da-boca uma ou duas vezes ao ano. Estes profissionais têm uma impressionante coleção de instrumentos, consistindo de brocas, furadoras, sondas e agulhões. O uso destes objetos no exorcismo dos demônios bucais envolve para o cliente uma tortura ritual quase inacreditável. O sacerdote-da-boca abre a boca do cliente e, usando dos instrumentos acima citados, alarga todas as cavidades que a degeneração possa ter produzido nos dentes. Caso não existam cavidades naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são extirpadas para que, uma substância sobrenatural possa ser aplicada. Do ponto de vista do cliente, o propósito destas aplicações é tolher a degeneração e atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do rito evidencia-se pelo fato de os nativos voltarem ao sacerdote-da-boca ano após ano, não obstante o fato de seus dentes continuarem a degenerar.

Esperamos que quando for realizado um estudo completo dos Nacirema, haja inquérito cuidadoso sobre a estrutura da personalidades destas pessoas. Basta observar o fulror nos olhos de um sacerdote-da-boca quando ele enfia um furador no nervo exposto, para se suspeitar que este rito envolve uma certa dose de sadismo. Se isto pudesse ser comprovado, teremos um modelo muito interessante, pois a maioria da população demonstra tendências masoquistas bem definidas. Foi a estas tendências que o prof. Linton referiu-se na discussão de uma parte específica do rito corporal que é desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em frequência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimônia, as mulheres assam suas cabeças em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante é que um povo que parece ser preponderantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos.

Os médicos-feiticeirostêm um templo imponente ou "latipsoh" em cada comunidade de certo porte. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para tratar de pacientes muito doentes, só podem ser executadas nesse templo. Estas cerimônias envolvem não apenas o taumaturgo, mas um grupo permanente de vestais que, com roupas e toucados específicos, se movimentam serenamente pelas câmaras do templo.

As cerimônias do "latipsoh" são tão cruéis que é de surpreender que uma boa proporção de nativos realmente doentes que entram no templo, se recuperam. Sabe-se que crianças pequenas, com uma doutrinação ainda incompleta, resistem às tentativas de levá-las ao tempo porque "é lá que se vai para morrer". Apesar disto, prolongados rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto. Não importa quão doente esteja o suplicante ou qual seja a emergência, os guardiães de muitos templos não admitirão um cliente se ele não puder dar uma dádiva valiosa para a administração. Mesmo depois de ter-se conseguido a admissão, e sobrevivido às cerimônias, os guardiães não permitirão ao neófito abandonar o local se ele não fizer ainda outra doação.

O suplicante que entra no templo é primeiramente despido de todas as suas roupas. Na vida quotidiana, o Nacirema evita a exposição de seu corpo e de suas funções naturais. As atividades excretoras e o banho, enquanto parte dos ritos corporais, são realizados apenas no segredo do santuário doméstico. Da perda súbita do segredo do corpo quando da entrada no "latipsoh" podem resultar traumas psicológicos. Um homem cuja própria esposa nunca o viu em um ato excretor acha-se subitamente nu e auxiliado por um vestal, enquanto executa suas funções naturais num recipiente sagrado. Este tipo de tratamento ceremonial é necessário porque os excrementos são usados por um adivinho para averiguar o curso e a natureza da enfermidade do cliente. Clientes do sexo feminino, por sua vez, têm seus corpos nus submetidos ao escrutínio, à manipulação e ás agulhoadas dos médicos-feiticeiros.

Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bons para fazer qualquer coisa além de jazer em duros leitos. As cerimônias diárias envolvem, tal como os ritos dos sacerdotes-da-boca, desconforto e tortura. Com precisão ritual, as vestiais despertam seus miseráveis fardos a cada madrugada e os rolam em seus leitos de dor, enquantoexecutam abluções com os movimentos formais em que estas virgens são altamente treinadas. Em outras horas, elas inserem bastões mágicos na boca do suplicante ou o forçam a engolir substâncias que se supõe serem curativas. De tempos em tempos, o médico-feiticeiro vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar e, possam mesmo matar o neófito, não diminui de forma alguma a fé das pessoas no médico-feiticeiro.

Resta ainda um outro tipo de profissional conhecido como um "ouvinte". Este doutor-bruxo tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas enfeitiçadas. Os Nacirema acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos: particularmente, teme-se que as mães lancem uma maldição sobre as crianças enquanto lhes ensinam os ritos corporais secretos. A contra-mágica do doutor-bruxo é inusitada por sua carência de ritual. O paciente simplesmente conta ao "ouvinte" todos os seus problemas e temores, principiando pelas dificuldades iniciais que consegue rememorar. A memória demonstrada pelos Nacirema nestas sessões de exorcismo é verdadeiramente notável. Não é incomum um paciente deplorar a rejeição que sentiu, quando bebê, ao ser desmamado, e uns poucos indivíduos reportam a origem de seus problemas aos efeitos traumáticos de seu próprio nascimento.

Como conclusão, deve-se fazer referências a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão perversa ao corpo natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos, e torná-los menores quando são grandes. A insatisfação geral com o tamanho do seio é simbolizada no fato da forma ideal estar virtualmente além da escala de variação humana. Umas poucas mulheres dotadas com um desenvolvimento hipermamário, são tão idolatradas que podem levar uma boa vida simplesmente indo de cidade em cidade e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, contemplarem-nos.

Já fizemos referências ao fato de que as funções excretoras são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao secredo. As funções naturais de reprodução são, da mesma forma, distorcidas. O intercurso sexual é tabu enquanto assunto, e é programado enquanto ato. São feitos esforços para evitar a gravidez, pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do intercurso sexual acertas fases da lua. A concepção é na realidade pouco frequente. Quando grávidas, as mulheres vestem-se de modo a esconder seu estado. O parto tem lugar em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres não amamenta seus rebentos.

Nossa análise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo sob a carga que impôs a si mesmo. Mas até costumes tão exóticos quanto estes aqui descritos ganham seu real significado quando são encarados sob o ângulo relevado por Malinowski quando escreveu (1948: 70):

"Olhando de longe e de cima, de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder e orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como o fez, suas dificuldades práticas, nem poderia o homem ter avançado aos estádios mais altos da civilização".


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