FORAFRO – FÓRUM AFRO DA AMAZÔNIA

Nota de Repúdio pelas afirmações da Ministra MATILDE RIBEIRO

 

O FÓRUM AFRO DA AMAZÔNIA - FORAFRO expressa, por meio desta nota, repúdio e indignação com relação aos comentários da Ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), noticiadas pela BBC Brasil no dia 27 de março deste ano. Informamos à sociedade em geral que tais idéias não expressam o modo de pensar da população afrodescendente brasileira e a tradição dos movimentos negros. Os afrodescendentes do país e os movimentos negros brasileiros tradicionalmente têm rejeitado idéias revanchistas, de isolamento racial ou de discriminação contra brancos ou qualquer outra população. Tais idéias são reflexo de uma corrente revisionista e isolacionista, que muitas vezes é apresentada como sendo “o” movimento negro, cujas demandas e posicionamentos vão frontalmente contra os ideais de Zumbi de Palmares, José do Patrocínio, Dom Oba II d´África, Luiz Gama e de tantos outros que dedicaram suas vidas à busca da integração e não do isolamento entre afrodescendentes e demais brasileiros. Realçamos que defender as idéias lamentáveis expostas pela ministra na citada entrevista é ir contra a luta de Zumbi, o qual morreu exatamente por não concordar com o fechamento do quilombo de Palmares a todos aqueles que nele buscassem abrigo, fossem eles de que cor fossem. Os quilombos foram centros de mestiçagem entre nossos antepassados de diversas etnias africanas, tanto entre si como também com etnias indígenas e brancas, de modo que a mestiçagem não é um detalhe, mas um elemento fundamental sem a qual não haveria uma identidade negra ou afrodescendente. Se nossos ancestrais pensassem como os atuais revisionistas que gestam a política governamental e que se apresentam como sendo “o” movimento negro, não haveria identidade negra ou afrodescendente, mas ainda iorubá, haussá, quimbunda e outras. Alertamos, assim, sobre a existência de grupos interessados em usar e subordinar os afrodescendentes ao atendimento de interesses partidários e políticos que muitas vezes não são do interesse do Brasil nem da sua população afrodescendente. Lembrando da antiga África, onde interesses imperialistas europeus e de lideranças corruptas africanas uniram-se para promover conflitos étnicos e escravização de cativos de guerra, hoje é necessário evitar que populações afrodescendentes carentes sejam tribalizadas e transformadas em moeda de troca de verbas públicas e de apoio político. É preciso impedir a construção de uma “indústria da diversidade”. É necessário um acompanhamento e intervenção mais rigorosos pela sociedade em geral e por seus representantes nos três níveis de governo, no executivo e no legislativo, das políticas voltadas para grupos populacionais específicos a fim de evitar o desperdício e mau uso das verbas públicas e manipulações políticas partidárias. É necessário relembrar o que foram os quilombos que, de fortificações onde nossos ancestrais fugiam da escravidão, está recebendo hoje qualquer conceito que seja conveniente ao poder. Tais manipulações estão fomentando um novo perigo, além da gestão do ódio racial: o conflito religioso. Os povos africanos do passado e os quilombolas pertenciam a um diversificado leque de religiões, no que não se diferenciam dos afrodescendentes de hoje nem das populações de remanescentes de quilombos. A política atual, porém, está caminhando para transformar comunidades de determinadas religiões de origem africana em comunidades quilombolas. Isto significa criar territórios religiosos, “microteocracias”, que, considerando o histórico de autoritarismo, intolerância e discriminação da política nessa área, traz a real possibilidade de constrangimentos e perseguições contra moradores dessas comunidades por motivos de fé religiosa. É fundamental, assim, estar atento à atuação de grupos interessados em beneficiar-se econômica e politicamente da fragmentação e feudalização dos afrodescendentes. É preciso ouvir as três esferas de governo sobre questões populacionais, a fim de permitir que tais assuntos não fiquem a cargo de grupos restritos e de intelectuais ligados, muitas vezes, a grupos e interesses partidários. Entendemos, também, que medidas de ação afirmativa, como as políticas de cotas no ensino superior, devem orientar-se por critérios sociais, e não ser instrumento de fragmentação étnica do povo brasileiro e de imposição autoritária de identidades raciais. Entendemos, assim, que as afirmações da ministra não favorecem a promoção da igualdade, nem racial, nem cidadã, nem à isonomia que deve orientar as sociedades democráticas. Entendemos também que a SEPPIR é um órgão cuja política tem sido prejudicial tanto à unidade dos afrodescendentes quanto ao fortalecimento de sua cidadania dentro da nação brasileira, e, considerando a reação às declarações de sua titular, uma fonte de atritos raciais e étnicos. Informamos que de modo algum este órgão deve ser visto como uma conquista da comunidade afrodescendente ou como expressão das diversas correntes de pensamento dentro desta, mas sim como um órgão profundamente ligado e compromissado com o poder partidário que lhe deu origem.   

 

Manaus, Amazonas, 31 de março de 2007.

 

 

A Coordenação

 

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