Comitê Social do Pan - Seminário: Que Pan nós queremos?

 

 

JOGOS PANAMERICANOS E A CIDADE DO RIO DE JANEIRO: CONTRIBUIÇÕES?

 

Victor Andrade de Melo[1]

 

          Os grandes festivais esportivos (Copa do Mundo de Futebol, Jogos Olímpicos e Jogos Regionais, como os Panamericanos, além dos Campeonatos Internacionais) estão hoje entre os eventos mundiais que envolvem maior número de pessoas. Grandes audiências televisivas são alcançadas com a exibição das competições, cuja organização movimenta ao seu redor uma quantidade incrível de recursos financeiros. As cidades que sediam os Jogos são normalmente invadidas por turistas de muitos países diferentes e é inegável o clima de festa e de alegria que se instaura por suas ruas. Sem medo de errar, podemos afirmar que poucos acontecimentos mobilizam tantas paixões e emoções.

          Esses dados somente evidenciam o espaço social que o esporte vem ocupando no decorrer do século XX. Por certo estamos falando de uma das mais importantes e influentes manifestações culturais da modernidade, eivada das representações de valores e desejos que permeiam o imaginário do século: a superação de limites, o extremo de determinadas situações (comuns em um momento em que a tensão e a violência foram constantes), a valorização da tecnologia, a consolidação de identidades nacionais, a busca de uma emoção controlada, o exaltar de um certo conceito de beleza. Para falar um pouco mais sobre a penetração dessa prática social por todo o mundo, basta lembrar que há mais países filiados à FIFA e ao COI do que à ONU.

          Assim sendo, é claro que de início ninguém pode se posicionar contra a realização de algum desses eventos em sua cidade. Sem dúvida podem trazer enormes ganhos para uma localidade e sua população. Mais do que se ganha com o aumento de movimento de turistas por ocasião dos Jogos, algo que está inclusive relacionado a uma possibilidade de impacto futuro, já que há a difusão da imagem da cidade por todo o mundo (isso pode ser claramente observável em Barcelona, que sediou os Jogos Olímpicos de 1992), espera-se que as mudanças urbanas necessárias para a boa realização das competições também tragam benefícios duradouros para os habitantes dos municípios envolvidos.

          Na verdade, isso é o mínimo que se espera, já que os cidadãos locais “pagam um preço” por tal realização, não só porque há um enorme impacto em seu cotidiano por ocasião da realização dos Jogos, como também no período que antecede ao evento (com as obras, possíveis remoções, etc.), sem falar nos investimentos públicos orçamentários, que podem trazer riscos para o futuro das cidades se não bem administrados. Se a história nos apresenta boas experiências nesse sentido, também nos mostra que algumas cidades tiveram sérios problemas: São Domingo (República Dominicana), sede dos últimos Jogos Panamericanos, tem até hoje problemas financeiros; em Atenas (Grécia), sede dos últimos Jogos Olímpicos, as construções utilizadas se encontram pouco utilizadas; Montreal (sede dos Jogos Olímpicos de 1976) teve problemas orçamentários por muitos anos.

          Assim sendo, penso que, sem negar a importância e as possíveis contribuições que os Jogos Panamericanos de 2007 podem trazer para a cidade do Rio de Janeiro, a sociedade civil deve se organizar para cobrar transparência na execução orçamentária e fiscalizar os reais benefícios que tal evento pode trazer a nosso município. O momento de festa, por certo, será maravilhoso (esperamos!), mas não podemos esquecer que tem um custo (financeiro e social).

          As últimas informações sobre os Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro são motivo de preocupação. O projeto original foi bastante modificado, alguns ganhos inicialmente apregoados já foram abandonados (como o caso da linha de metro), o orçamento cresceu significativamente, comunidades localizadas ao redor da realização das competições têm sido fortemente atingidas e ainda grassa muita desinformação acerca dos números que envolvem os Jogos.

          Precisamos estar prontos para colaborar sim com a realização dessa enorme festa, mas fundamentalmente atentos para enquanto cidadãos cobrarmos a resposta às perguntas: quem paga essa conta? Quem ganha concretamente com isso?

 



[1] . Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Coordenador do Instituto Virtual do Esporte/Faperj.