Comitê Social do Pan - Seminário: Que Pan nós queremos?

 

Os Jogos Pan-Americanos 2007 e o Direito à Cidade

 

Maria Luiza Tambellini[1] e Virgínia Murad[2]

 

É evidente que cada vez mais vem crescendo a mobilização em torno da realização dos Jogos Pan Americanos na cidade do Rio de Janeiro. Não é a toa que a imprensa brasileira já reservou um lugar especial para a divulgação do grande evento que vai ter lugar na cidade do Rio de Janeiro em 2007.

Esse seminário servirá à proposta de se discutir quais serão os impactos sociais sobre a população da cidade, em especial, aquela dos locais mais atingidos.

O COB - Comitê Olímpico Brasileiro, solidário ao COI – Comitê Olímpico Internacional, órgãos normatizadores desses tipos de eventos, os três níveis de governo estão comprometidos com a realização dos jogos, portanto, nessa divisão de responsabilidades, será necessário analisar e entender o papel da cada um deles.

Pode-se dizer que o Poder Municipal da cidade do Rio de Janeiro, tanto o Executivo quanto o Legislativo são atores importantes no processo, dada suas atribuições locais.

Atualmente, a proposta do governo, considera que a chave das atuais políticas urbanas é a realização de grandes projetos estratégicos, que no seu entender, são a resposta aos problemas da cidade.  A realização do PAN se encontra dentro dessa perspectiva. Assim, a Prefeitura desde 2003, vem aprovando leis que modificam usos e ocupações de bairros inteiros, para viabilizar a implantação dos equipamentos necessários à realização do evento.

Neste exato momento, o território da cidade está sendo modificado e reorganizando para possibilitar a realização dos Jogos Pan Americanos em 2007. Olhando-se o mapa da cidade, é possível perceber que as competições programadas estão espalhadas por vários bairros do Rio, mas, em especial, naqueles que a Prefeitura pretende atingir com o que chama de requalificação urbana. O que é uma requalificação urbana no entender do poder público municipal? É um processo em que a cidade vista como uma mercadoria, está colocada à venda no mercado. A cidade assim planejada fica orientada para as grandes intervenções, para os grandes projetos. Até os Jogos Pan Americanos, que já compartilharam com a tradição de irmanar os povos das Américas, na atualidade percebe-se que se enquadram nessa lógica. 

O evento do PAN está perfeitamente dentro dessa lógica cada vez mais excludente. A mobilização no entorno dos locais onde estão acontecendo intervenções do PAN são necessárias, pois vai-se descobrindo que no seu caminho, o PAN vem trazendo inúmeros problemas: remoções de comunidades, desapropriações de moradores de bairros tradicionais da cidade, desestruturações urbanas, descaracterização de antigos bairros cariocas, bem como de áreas esportivas  importantes da cidade, que parecem estar sendo prejudicadas, tais como o Estádio de Remo da Lagoa, e do Autódromo Nelson Piquet, onde ainda se realizam diversas competições automobilísticas.

Essas situações demonstram que a chamada requalificação de áreas, tais como aquelas do entorno do Engenhão e/ou do Autódromo, de onde se pretende remover comunidades inteiras, para dar lugar aos projetos previstos, não levam à construção da cidade-cidadã, pois esquece a história da cidade e de seus moradores.  Mas o que sobra, nesse novo tipo de ocupação para a população local que está sendo removida ou tem seu imóvel desapropriado?  Esses processos de exclusão e desigualdade estão se repetindo sempre, porque a cidade é injusta e cria essas desigualdades.

Um exemplo é a valorização das terras na Barra da Tijuca e Jacarepaguá, que aguça interesses relativos à especulação, ligados aos lucros imediatos, onde qualquer intervenção visa à movimentação financeira do grande capital imobiliário. Em função da realização dos Jogos, o Poder Executivo vem realizando modificações importantes na cidade:

      - mudanças institucionais: criação da Secretaria Especial do PAN, e a Subprefeitura do PAN;

      - projetos de lei modificando o gabarito e de zoneamento das regiões no entorno do Autódromo e do “Engenhão”, permitindo gabaritos de até 18 andares e mudanças de uso locais, permitindo, por exemplo, a construções de hotéis com até 22 andares e a Vila Panamericana;

      - Criação de Áreas Especiais de Interesse Urbanístico;

      - Proposta do Projeto de Estruturação Urbana de Vargem Grande e Vargem Pequena, áreas próximas às intervenções relativas ao PAN.

Todos os projetos de Lei foram votados e aprovados na Câmara de Vereadores.

Com o PAN, a Prefeitura busca vender mais ilusões. E essas ilusões servem também para mascarar a falta de transparência com que essas intervenções têm sido apresentadas à população, bem como a maneira de como decorre todo o processo, pois a população precisa saber sobre estes gastos e demais intervenções institucionais. Do modo como está evoluindo o processo, somente as pessoas privilegiadas e diretamente envolvidas estão permanentemente informadas, ficando a opinião pública à mercê somente das noticias publicadas e das informações constantes de “sites” institucionais.

Ao mesmo tempo em que as intervenções do PAN estão em toda cidade, está acontecendo a revisão do Plano Diretor da Cidade do Rio de Janeiro, onde um novo substitutivo está sendo elaborado pela Prefeitura para ser encaminhado ao Legislativo.

E, desde 10 de julho de 2001, o Estatuto da Cidade (Lei Federal no 10.257/01) propicia um novo marco legal urbano, amparado na Constituição Brasileira de 88, que dá diretrizes a uma nova maneira de realizar o planejamento das cidades brasileiras, de forma a garantir a função social da cidade e da propriedade urbana. Segundo o Estatuto da Cidade, a propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais expressas no Plano Diretor, respaldado na Lei, devendo ser participativo. Assim, o Plano Diretor Participativo passa a ser o instrumento básico da política urbana.

O que é um Plano Diretor Participativo? É a regra do jogo que define os rumos que devem ser tomados para intervir na cidade de forma comunitária, gerando uma cidade pactuada, mais harmoniosa, justa e igualitária: propõe um modelo de cidade compatível com as diretrizes do Estatuto da Cidade: priorizando o interesse coletivo e a demanda por uma melhor distribuição de bens coletivos de cidadania e convivência.

Nessa linha de raciocínio, o Direito à Cidade deve ser compreendido como um direito coletivo, por meio da participação popular e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação, execução e acompanhamento de grandes eventos na cidade, ou qualquer obra que venha a provocar algum tipo de impacto para a população ou parte dela. É por isso que a população tem de ser consultada sempre. No entanto, o organismo municipal que deveria estar assumindo o compromisso, fortalecendo a sociedade como protagonista dessa discussão, está assumindo, como já vimos antes, a posição contrária, aquela do decidir e depois informar à população. O Pan não poderia ser então, neste sentido o começo de uma nova era?

Felizmente, a estrutura social não é passiva. A cidade é um espaço de luta. Embates e discussões são travados, no espaço urbano, por seus atores sociais. São os cidadãos que participam desses embates e discussões que vão ajudar a decidir o futuro da cidade. Assim, a função social do território tem de ser decidida dentro deste processo participativo.

 

Para pensar:

ü     Terra e Moradia são direitos humanos. Ninguém tem o direito de ignorar esses direitos fundamentais do homem.

ü     Não se pode abrir mão daquilo que já foi conquistado. 

ü     Ainda existem 2 anos pela frente, como aproveitar esse tempo para reverter o processo?

ü      O que se pode fazer para que as diferentes demandas espalhadas pela cidade sejam atendidas, na preparação, durante e após a realização dos jogos?

ü     Os equipamentos que estão sendo construídos e adaptados serão utilizados, futuramente, em benefício da população, em especial aquela mais carente?

ü     É possível planejar a cidade priorizando a função social da propriedade e construída em parceria com toda a população?

ü     Esse é o Pan que queremos? Essa é a cidade que queremos?



[1] Professora da Faculdade de Serviço Social da UERJ. Membro do Fórum Popular do Acompanhamento do Plano Diretor do Rio de Janeiro e do Comitê Social do Pan.

[2] Arquiteta e Urbanista. Membro do Fórum Popular do Acompanhamento do Plano Diretor do Rio de Janeiro e do Comitê Social do Pan.