Comitê Social do Pan - Seminário: Que Pan nós queremos?

 

A Acessibilidade Olímpica e a Mobilidade Urbana

Ricardo Esteves[1]

 

É sabido que qualquer que seja a política urbana ou o projeto de intervenção na Cidade, seu grau de sucesso será diretamente proporcional aos níveis de acessibilidade conferidos aos locais, prédios e às atividades, e de mobilidade oferecidos aos seus diversos atores sociais e participantes, além da logística de cargas e outros produtos. Neste sentido, ganha bastante relevância, um sistema de transporte, provedor destas mobilidades e acessibilidades, sistema este que deverá ser o resultado da implantação de uma política de circulação e deslocamentos, através do ambiente urbano onde os locais, prédios e atividades se inserem. Além disso, ao se definir esta política, algumas diretrizes devem ser seguidas, incluindo aí a priorização da circulação a pé e não motorizada no uso dos espaços públicos, e de meios públicos e coletivos sobre os automóveis particulares, no que se refere aos modos motorizados. Adicionalmente, ações voltadas para a integração física, operacional e tarifária representam aspectos fundamentais para que estes sistemas sejam mais eficientes, atrativos e com custos operacionais menores, oferecendo maiores possibilidades de circulação para todos os usuários, com necessidade de uma frota de veículos bem menor do que a encontrada em circulação hoje nas grandes cidades, como o Rio de Janeiro. Ressalte-se também a necessidade de que esta política seja estrategicamente inclusiva, permitindo o acesso de todos, incluindo as pessoas com mobilidade reduzida (gestantes, obesos, pessoas portadoras de deficiências e necessidades especiais, crianças, idosos, mães com carrinhos de bebê ou crianças de colo, pessoas com pequenas cargas urbanas, etc).

Esta panacéia não é uma receita particular para esta ou aquela Cidade. Trata-se de uma política de circulação e transporte que tem sido adotada por cidades, no Brasil e no Mundo, interessadas em recuperar e preservar a qualidade dos ambientes urbanos, especialmente das áreas públicas das Cidades, aumentando, em igual proporção, as possibilidades de circulação através do tecido urbano, melhorando o acesso de todos às oportunidades, atraindo novos negócios e atividades, criando novos postos de trabalho, aumentando as receitas da Gestão Pública e a Prosperidade e Qualidade de Vida de todos os seus Cidadãos. Assim sendo, este conjunto de diretrizes, com suas respectivas ações, deveria estar sendo seguido por todas as Cidades, especialmente o Rio de Janeiro que se encontra bastante atrasado na definição e implantação de uma Política de Transportes, capaz de distribuir melhor a mobilidade e a acessibilidade a todos os cidadãos, e não apenas aqueles possuidores e usuários de carros particulares.

Além do cotidiano das Cidades, das necessidades de circulação diária entre residências, locais de trabalho, escolas, comércio, etc, alguns equipamentos prediais e atividades, concentram a necessidade de viagens e deslocamentos urbanos, configurando-se nos PGTs - Pólos Geradores de Tráfego, que requerem necessidades especiais de acesso e um cuidadoso estudo e solução para os seus impactos sobre as vizinhanças. Algumas destas atividades são permanentes, como Shopping Centers, por exemplo, enquanto outras ocorrem em determinados momentos da vida de uma Cidade. Nestes casos incluem-se os shows ocasionais e eventos esportivos, das mais diversas escalas e freqüências.

A ocorrência de Mega Eventos, como os Jogos Panamericanos (incluindo os Jogos Parapanamericanos) que irão ocorrer na Cidade do Rio de Janeiro em 2007, se configuram como casos críticos, requerendo, por parte das Gestões das Cidades onde ocorrem, investimentos substantivos para que situações como congestionamentos, entraves, mobilidade restrita, obstáculos e retenções não comprometam o seu sucesso. Afinal, uma nova demanda por circulação na Cidade, de escala bastante significativa, se soma às necessidades diárias, de dimensões já metropolitanas. Como estes eventos, normalmente, atingem outros países e sociedades, através do planeta, existe ainda o risco de, não tomadas as devidas providências, arranhar a imagem de um país e a capacidade de uma nação, de resolver este tipo de problema e de organizar esta escala de eventos.

Normalmente, esta busca por minimizar os transtornos sobre a Cidade da realização do Pan, ao mesmo tempo em que requere fortes investimentos para garantir o seu sucesso, se materializa em ações que, uma vez concluídos os Jogos, configura o seu legado à Cidade. Este legado, estrategicamente levado em consideração pela Confederação Panamericana na hora de escolher a Cidade Sede dos Jogos, possui normalmente uma dimensão negativa, sob a forma de uma dívida que deve ser paga em um prazo de tempo alongado, mas também uma dimensão positiva, no formato de novos serviços urbanos e ações voltadas para a requalificação de áreas. Todavia, para que isto efetivamente aconteça, é fundamental que a ocorrência de tais eventos se alinhe fortemente com o Planejamento da Cidade e também com o seu cotidiano. As estratégias especiais de circulação, ao longo da ocorrência de um mega evento, deverão estar coerentes com as estratégias de desenvolvimento da Cidade, pós-realização do evento. A observação de quase todos os últimos Jogos Olímpicos e Panamericanos, permite constatar tanto o legado negativo, a dívida, quanto o legado positivo, com novos sistemas de transportes, novos marcos urbanos, novos equipamentos esportivos, inseridos em uma política de educação esportiva, e processos de requalificação de áreas urbanas anteriormente deterioradas.

Os Jogos Panamericanos de 2007, que irão ocorrer no Rio de Janeiro, não configuram uma exceção. Assim, desde sua gestação, alguns projetos foram apresentados com o objetivo de materializar este legado positivo no que se refere à circulação urbana. Neste contexto, a proposição, por parte da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, do sistema sobre trilhos chamado TransPan, ligando os dois principais aeroportos do Rio entre si e com a Barra da Tijuca, ou o investimento na Linha 4 do Metrô, ou nas Linhas 5 e 6 que formariam, de modo genérico, um equivalente ao TransPan, ou mesmo ainda de um sistema local de bondes na área da Barra, poderiam se configurar neste legado positivo. È bem verdade que nenhuma destas iniciativas anunciadas foram decididas através de processos participativos, nem se alinham, algumas delas, a um Plano Geral da Cidade e até, no caso da Linha 4, pretendia-se apenas a implantação de um trecho, desconectado e integrado apenas parcialmente e inadequadamente. Entretanto, mesmo assim, destaque-se a tentativa de se deixar sistemas públicos coletivos, após a realização do Pan, que pudessem melhorar as condições de circulação no dia a dia do Rio de Janeiro, retirando uma quantidade de veículos particulares das ruas, melhorando com isto a qualidade ambiental da Cidade.

Contudo, a observação da atual estrutura apresentada aponta para um estado de frustração da Cidade e de seus Cidadãos, após a realização dos Jogos. Teremos, provavelmente o legado negativo e assim, comprometeremos uma parte da nossa receita e dos impostos que pagamos por um horizonte de tempo que deverá girar em torno dos 10 anos. Já o legado positivo, no aspecto circulação, mobilidade e transporte será frustrantemente nenhum. As soluções apresentadas são essencialmente rodoviaristas e configuram um cenário onde a Cidade e suas necessidades parecem representar um transtorno para a realização do Pan. Assim pretende-se criar, até onde se saiba, uma faixa exclusiva ao longo da Linha Amarela, apenas para as pessoas e a logística de cargas envolvidas na realização do Pan, estando excluídos os moradores desta Cidade, mesmo que trafegando no sistema público coletivo por ônibus. Além disso, parece que os moradores de alguns bairros serão convidados a se retirar da Cidade, oferecendo-se a eles pacotes turísticos para outras Cidades, durante a realização do Pan, como se os moradores da Cidade, intrusos e penetras nesta festa, com suas necessidades de deslocamentos, fossem atrapalhar o sucesso de sua realização.

Longe, entretanto, de surpreender, este tipo de ação se alinha perfeitamente com uma Gestão Municipal, especialmente no que se refere às suas articulações urbanísticas, completamente descolada e descomprometida com algum tipo de Planejamento e com o futuro desta Cidade e de seus Cidadãos. Ao adotar este tipo de solução (se é que isto soluciona alguma coisa) esta Gestão paradoxalmente compromete o sucesso do evento que buscou, junto com outras forças, trazer para esta Cidade. Trata-se, aliás, de mais uma contradição da atual Gestão que cada mais se distancia da responsabilidade com esta Cidade, com os recursos públicos aqui gerados, com o seu Desenvolvimento e com as Perspectivas Futuras e a Qualidade de Vida de seus Cidadãos.



[1]  Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ.