Roma ou Rússia - O Contexto Histórico da Bíblia
Roma ou Rússia - O Contexto Histórico da Bíblia
Para os preteristas, o monstro de Apocalipse 13 representa o Imperador Nero; para os historiadores representa o Papa; para os futuristas depende da época: por um tempo foi a Rússia comunista, mais recentemente é o emergente sistema mundial de comunicação e economia. Como devemos entender o significado do Apocalipse e de outras passagens bíblicas similares?
Primeiramente, temos que entender que estas escrituras pertencem a um gênero chamado literatura apocalíptica. É um gênero literário que foi comum entre os judeus durante tempos de crise. A literatura apocalíptica se vale de símbolos para apresentar sua mensagem e, o tema central é a idéia de que, apesar das circunstâncias, Deus há de salvar seu povo. No Antigo Testamento há vários exemplos de literatura apocalíptica, por exemplo, partes do livro de Daniel, de Ezequiel e de Zacarias. No Novo Testamento as encontramos no livro de Apocalipse.
Em segundo lugar, Apocalipse tem um contexto temporal e geográfico. Vejamos o que diz a introdução do livro (Apocalipse 1:1-6). O texto diz que vai revelar "o que acontecerá logo" e que "está perto o tempo". Portanto, qualquer que seja o significado do Apocalipse, havia uma mensagem relevante e acessível para os cristãos da época. Também diz o texto que a mensagem era dirigida às sete igrejas da província da Ásia. Novamente, os eventos descritos devem ter sido relevantes para os cristãos de Ásia, ainda que houvessem aplicações universais. Isto não é surpreendente, os historiadores nos dizem que Éfeso, cidade mais importante da Ásia, era a sede do ministério de João durante os últimos anos de sua vida (Eusebio de Cesarea, História Eclesiástica, Livro III, 23:1-6, Editora CLIE, Barcelona, 1988).
O que nos mostra esta introdução sobre as interpretações? Primeiramente, que o Apocalipse de João não se refere à perseguição por parte de Nero, porque esta já havia ocorrido quando se escreveu o livro e, seu impacto se limitou aos cristãos de Roma e não afetou aos da Ásia. Portanto, desde o princípio se descarta a interpretação preterista. Em segundo lugar, os eventos de Apocalipse deviam ser relevantes para sua "audiência", ou seja os cristãos da Ásia. As interpretações históricas e futuristas situam os eventos do Apocalipse no contexto histórico da Europa Ocidental e de eventos bem posteriores aos do Primeiro Século. É como se João tivesse dito aos cristãos da Ásia, em meio a seus sofrimentos, "Vocês estão sofrendo muito, porém deixe-me contar-lhes o que Deus vai fazer, dentro de 1.000 anos, nestes países que no entanto não irão mais existir…". Tal mensagem teria sido totalmente irrelevante para os cristãos da Ásia do Primeiro Século.
Outra coisa que vemos no texto introdutório é que se fala do Reino como algo já presente (v. 6). O Reino de Deus para os cristãos não era algo futuro mas uma realidade presente em suas vidas: Deus havia cumprido suas promessas através da vida, morte e ressurreição de Cristo. O Reino já estava sobre a terra e sua manifestação visível era a Igreja, o novo povo de Deus, não um Israel delimitado por barreiras étnicas ou de nacionalidade, mas uma comunidade de pessoas de todos os fundos étnicos, culturais e sociais. Este reino, já presente no cenário histórico, enfrentava um poderoso inimigo: o Império Romano em todos seus aspectos (político, cultural, religioso, sensual, materialista, etc.). O conflito entre Cristianismo e o Império Romano é o marco histórico para o Apocalipse de João. Ao invés de impor interpretações baseadas em nossas experiências ou circunstancias históricas, primeiro devemos entender o que se queria comunicar aos cristãos da Ásia no fim do Primeiro Século.
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