A GUERRA DAS TRINCHEIRAS

1914-1918

Luís Dantas

1. A Europa antes da guerra

 

No final do século XIX aumentam os contrastes sociais, o mal-estar dos operários, dos intelectuais, das mulheres marginalizadas. Vivem-se grandes momentos de ansiedade e de desilusão. O Grito de Edvard Munch é a imagem do homem europeu que se move numa paisagem fugidia com as suas cores sombrias e repleta de sons sinistros, de medos pavorosos.

Edvard Munch. O Grito . 1893

 

A guerra é esperada. São colossais os investimentos em material bélico. Os conflitos sucedem-se uns atrás dos outros: a França e a Alemanha disputam Marrocos. A Áustria anexa a Bósnia. Os nacionalistas erguem as suas bandeiras com o grito de "independência ou morte!" A "Europa inteira, cheia de incerteza e perturbação, caminha para uma guerra inevitável cuja causa imediata permanece ainda ignorada, mas que se aproxima com a certeza implacável do destino." (1) As rivalidades comerciais entre as grandes potências continuavam a abrir mais feridas, atravessavam fronteiras longínquas e atroavam no telégrafo, na imprensa, nos documentários cinematográficos, nos aplausos ou nas pateadas do público, nos comícios e nos discursos de quase todos os estadistas. Afonso Costa, o primeiro-ministro português, muito antes do verão de 1914,discursava neste tom: "...vai talvez dar-se uma conflagração europeia, estalar a guerra mais aniquiladora que se tem dado no mundo, nós não sabemos ainda qual terá que ser o nosso papel, porque não está definida verdadeiramente a natureza, a extensão, os efeitos, da nossa aliança com a Inglaterra. As grandes potências preparam-se para a luta e, seja qual for o fim dessa guerra monstruosa, que parece iminente, não podemos nem devemos simplesmente pensar no que poderá suceder-nos quando se tratar da paz final...qualquer que seja a atitude do nosso país, urge defini-la sem demoras, para que não tenhamos dolorosas, horríveis surpresas." (2) As suas preocupações, na conjuntura da época, eram legítimas: as colónias africanas estavam a ser cobiçadas e corriam sérios riscos.

 

(1) A. de Mun, Echo de Paris, 12/02/1913

(2) Afonso Costa, Santarém, 10 de Novembro de 1912

 

2. O início da guerra

  O facto mais próximo relacionado com a eclosão da guerra está aí, dia 28 de Junho de 1914: o arquiduque herdeiro da Áustria-Hungria visita a Bósnia e é assassinado. O plano foi concebido na Sérvia e executado por dois jovens, membros da Mão Preta (3): Gabrinovic e Gavrilo Príncip. Foi por isso que o Chanceler do velho Império, com o apoio da Alemanha, declarou guerra à Sérvia. O seu ultimato, em 23 de Julho, não serviu para nada. Já se sabia que as exigências austríacas só podiam cair em saco roto. Sem tempo para acordos diplomáticos, as declarações de guerra não cessaram entre Julho e Agosto.  

Max Bekmann, Declaração de Guerra , 1914

 Mobilizam-se as tropas no meio de um grande furor e na manhã de 4 de Agosto, 1914, a cavalaria alemã aligeira a sua marcha para pôr em prática parte de um plano elaborado em 1900 pelo chefe do estado maior, Alfred von Schlieffen: invadir a Bélgica para chegar a França. Helmut von Moltke (4) comanda as tropas. Mais atrás escutava-se o rumor de uma marcha de seiscentos mil homens. Vinham ainda a cantar com a esperança de uma guerra curta a brilhar na ponta das baionetas. As aldeias transfronteiriças belgas foram caindo uma a uma no primeiro dia da ofensiva. No dia seguinte dezenas de divisões estão às portas de Liège. A resistência que vem dos fortes surpreende a infantaria alemã. Muitos soldados ficam no caminho. Mas o avanço para França continua apesar de outros percalços criados por atiradores furtivos. As motivações dos soldados alemães são intensas e deixam rastos de crueldade. Vingam-se no povo. "A nossa progressão na Bélgica é inegavelmente brutal", confirma o general, "mas batemo-nos pela nossa sobrevivência, e todos os que se colocam transversalmente no nosso caminho devem suportar as consequências." No início de Agosto os alemães estavam a três léguas de Paris. Depois da batalha do Yser (Outubro, Novembro) a ideia de uma guerra rápida tinha caído redondamente e assiste-se a uma guerra de posições: os exércitos vão ficando estancados ao longo de uma linha de oitocentos quilómetros. Cavam-se "buracos, a que se chamam trincheiras, de passagens estreitas" (5) e erguem-se barreiras de arame farpado.

Félix Vallotton, O arame farpado , 1916

3) Mão Preta: braço armado de uma organização nacionalista denominada "União ou Morte".

(4) Helmut von Moltke.General. Nasceu a 23 de Maio de 1848 em Gersdorf (Mecklenburs) e morreu a 18 de Junho de 1916 em Berlim.

(5) Florent Fels, in Voilà

 

3. A guerra das trincheiras

  A vida quotidiana nas trincheiras foi dramática. Um vazio enorme. As saudades da casa, dos pais, das mulheres, dos filhos, das namoradas, das fontes, dos pássaros, do aroma das flores, da comida, das festas, do tempo vivido em paz. Foram estes os quadros lentos, suaves e repetidos que se iluminaram nas sombras, nos momentos de pausa ou de conversa. E também os do vocabulário jocoso, das expressões de calão, das palmadas nas costas, da partilha de alimentos, água, cachaça e cigarros. Os outros mostram a vida às avessas, o sofrimento, a amargura, o queixume dos magalas: "falta-nos praticamente tudo. Aprendi cedo a dependurar o pão num arame para o pôr fora do alcance dos ratos, a dormir com os sapatos apertados, porque tentar calçá-los depois de os tirar era uma ilusão, a dormir enrolado num capote molhado, dormir 4 horas no meio de algazarra, de gritos humanos, de cheiros pestilentos, mas a dormir." (6) E a cada hora que passa tudo se torna mais turvo: os dias de combate, o fogo de artilharia, a morte. "A alguns passos de nós, no fundo da trincheira, jaz um corpo. É de um oficial subalterno; está semi-enterrado; só se vê a cabeça, um ombro e um braço com a mão em gancho. Está ali desde a véspera, o braço retesou e ergueu-se, e naquela mão, naquele braço, se engancham e tropeçam todos os que vão e vêm por aquela passagem estreita. Era preciso cortar aquele braço ou afastar o corpo. Ninguém teve coragem para tal" (7) Mais além, noutro lugar, "o bombardeamento com gases tornou-se mais intenso. (...) Daí a pouco não se via senão gente sufocando, tossindo, com o nariz e as goelas queimadas e os olhos irritados lacrimejando.

- Ponham as máscaras – gritava-se." (8)

Não era possível aguentar. Vieram os motins. As deserções. As canções proibidas, como essa enigmática "canção de Craonne", que tem a música da noite, do silêncio e da chuva para dar o timbre às emoções de soldados exaustos, sem réstia de esperança no fim de uma guerra infame, numa dolorosa despedida à vida, ao amor e às mulheres.

Ao longo da guerra, caíram em combate dez milhões de homens. Muitos ficaram mutilados e doentes. Outros desapareceram no meio de lamaçais. "Era terrivelmente óbvio que dezenas de homens com ferimentos sérios se tinham arrastado até outros buracos provocados por granadas, para conseguirem alguma segurança, e agora a água que caía em volta deles, imóveis, estava a afogá-los lentamente. Não podíamos fazer nada para os ajudar». (9) Os seus corpos ficaram enterrados nesses campos calcinados, como o da Flandres. Mas ainda hoje, não sei bem porquê, florescem lá as papoilas...

Soldados portugueses nas trincheiras

(6) Florent Fels, in Voilà

(7) R.Cazals, Cl Marquié, R. Piniès, Années cruelles 1914-1918, in História da vida privada, direcção de Philippe Ariès e Georges Duby, vol.5,

(8) Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra

(9) E.C. Vaughan, Regimento Real de Warwickshire, Agosto de 1917

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