Fotos e Textos extraídos da publicação "Pemba as duas Cidades" de autoria de Sandro Bruschi, Júlio Carrilho e Luis  Lage.
Edição FAPF (Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane - Maputo:
http://www.architecture.uem.mz/.
Agradecemos aos autores e a Z.N.C.

l
(Estes textos e imagens também poderão ser vistos no blogue "ForEver PEMBA". Divulgue-nos entre Amigos e amantes de PEMBA !!!)
lll

As origens e o crescimento da cidade.

A transformação da povoação de Porto Amélia nos primeiros anos do século XX.
A primeira imagem de 1904 (postal reproduzido em Loureiro, op. cit., pág. 174, pormenor) mostra os sinais do desenvolvimento de armazéns e casas comerciais à volta do porto, mas a parte abaixo do promontório é ainda coberta por uma luxuriante vegetação, que só em poucos sítios é interrompida pelas raras construções.

A segunda imagem (postal reproduzido em Loureiro, op. cit., página 177, pormenor) provávelmente remonta a poucos anos depois (talvez antes de 1912), mas já aparece bem demarcada a rede de estradas que ainda caracteriza o assentamento mais antigo.

A formação da avenida Conselheiro Vilaça (mais tarde rua Jerónimo Romero).
Na primeira imagem (talvez antes de 1912), que é um outro pormenor da fotografia precedente (postal reproduzido em Loureiro, op. cit., pág. 175), notam-se claramente demarcadas a estrada principal e o seu cruzamento com a que vem do porto e uma outra que vai a norte, na direção do assentamento de Paquitequete.

A segunda (postal, AHM 2224, pormenor) é datada de 1912 e já aparece o edíficio com telhado de quatro águas, mais tarde destinado ao Tribunal e que ainda existe.

Na terceira (postal, AHM 148, pormenor), não datada, mas certamente do fim dos anos Vinte, é evidente o alinhamento dos edifícios e a realização de passeios.

 

A primeira imagem (localizada do lado direito da página, em miniatura) de 1912 (postal AHM 2224), da qual já foram apresentados pormenores, evidencia a consolidação do assentamento.

Na segunda (Rufino, vol. 8, pag. 35) e na terceira imagem (postal AHM 148),(localizadas do lado direito da página, em miniaturas) ambas do fim dos anos Vinte, pode-se apreciar o crecimento da edificação na direcção da meia encosta do planalto, que na altura já era acessível através de estradas.

Clique nas mini-imagens para ampliar:

A avenida Conselheiro Vilaça ontem e hoje (Rua Jerónimo Romero) - Depois de quase um século, o desenho urbano se mantém substancialmente igual embora com várias substituições de edifícios.
Por exemplo, na fotografia dos anos Vinte, (Rufino, vol. 8, pág. 40) assim como na fotografia contemporânea (clicar nas imagens em miniatura), aparece a mesma rua flanqueada de edíficios baixos e o primeiro edífício, colocado no lado esquerdo da estrada, ainda existe. Pelo contrário, o talhão livre contíguo foi edificado nos anos Quarenta e a casa de colmo a seguir foi demolida e seu talhão ainda está livre.

A nova ponte-cais - A primeira ponte-cais em madeira foi construida em 1899 e restou tal, como aparece na fotografia (postal, AHM 2224) datada 1912, até 1957, quando foi inaugurada a nova ponte-cais de cimento armado que permitia a atracagem de navios maiores (lima, vol. 3).

O porto no apogeu do seu desenvolvimento - Na metade dos anos Sessenta a ponte-cais é terminada e a zona portuária já possue sua completa funcionalidade (fotografia aérea conservada no DCU - localizada à esquerda).
Poucos anos depois (ínicio dos anos Setenta), enquanto a edificação no planalto está em pleno desenvolvimento, continua o crescimento da parte baixa da cidade, é terminada a estrada de circunvalação e cresce o bairro informal de Paquitequete, mas a encosta do planalto, hoje completamente ocupada por assentamentos informais, ainda está livre (fotografia aérea conservada o Conselho Municipal de Pemba - localizada à esquerda).

A evolução da ocupação da terra entre 1973 e 1998 como documentado nos mapas cadastrais - No centro da página há o mapa cadastral de 1973 (DCU) que documenta a situação na véspera da independência. Quinze anos mais tarde outro mapa (DINAGECA Joint Venture Norway Mapping Mozambique, Norplan AS, Norconsult Int. AS, Blom ASA, Plano da cidade de Pemba, 1998) evidencia a expansão recente, à volta da antiga cidade colonial, e a atividade de planificação que foi realizada nos primeiros anos da independência para reordenar o limiado assentamento informal herdado do periodo colonial e preparar novos atalhoamentos, respondendo aos pedidos da população que no entanto abandonava os campos.

Uma relíquia: O que resta do Forte ROMERO:

O primitivo reduto fortificado foi transformado em um fortim chamado Forte S. Luis em 1863, embora em forma muito mais modesta do projecto aqui apresentado(imagem do centro) (Montez, op. cit., pág. 75).
Mais tarde foi dedicado a Jerónimo Romero e reedificado como aparece na fotografia à esquerda (Pereira, op. cit., pag. 224) e ainda hoje existe ao lado da estrada marginal em frente ao mar (imagem à direita).

 

As mais antigas tipologias habitacionais e comerciais: Lojas e habitações em frente do porto:
Trata-se de uma das mais antigas construções da cidade, ligada aos tráfegos do porto.
Como resulta de uma fotografia antiga (postal, AHM 120, pormenor) o complexo comercial já funcionava nos anos Vinte.
O edifício ainda existe e é parcialmente utilizado para habitação.
Imagens do mesmo complexo em seu estado atual logo ao lado.

A residência do governador, o edifício das repartições e o observatório no planalto.
Os edifícios ao lado representam as mais antigas construções no planalto.
Todas as construções ainda existem, embora a residência do Governador (antigamente sede do Intendente do Distrito e hoje sede da Municipalidade) tenha sofrido algumas alterações menores.

Casa para militares (casa para os cabos da 2a. Companhia Indígena)
(DP-MOP).
O edifício, do que foi encontrado o projecto, ainda existe e está em razoável estado de conservação.

A sede antiga do Tribunal - O edifício, que foi realizado na primeira década do século XX, originariamente tinha funções comerciais, a partir dos anos Trinta foi sede do Tribunal e presentemente está revertido ao comércio. Aparece (imagem do lado esquerdo) num pormenor de uma fotografia de 1912 (postal, AHM 2224, pormenor) e hoje possui praticamente o mesmo aspecto (levantamento P. Martins, S. Tembe, S. Meguegy, CEDH). De facto, embora a cobertura tenha sido renovada, ainda possui colunas em ferro fundido originárias, que eram importadas da Inglaterra.
Provavelmente representa o edifício mais antigo da cidade ainda existente.

Lojas e habitações - Edifício de dois pisos com varanda.
Trata-se de uma tipologia que em Porto Amélia era muito rara na época e que sofreu ao longo do tempo um singular processo de transformação.
A primeira fotografia (lado direito - postal, AHM 132, pormenor) documenta uma fase da construção e a segunda (lado direito -  postal, AHM 142, pormenor) mostra-a acabada, poucos anos depois.
Em época ignota foi demolida a varanda no lado da rua mas uma varanda ainda sobrevive no lado do quintal.

Lojas e habitações: Habitação privada em frente ao jardim municipal.
Esta habitação, com pretensões estéticas e representativas era propriedade de uma citadina (Clotilde Lecercle) bastante conhecida em Porto Amélia.
O edifício, edificado nos anos Vinte, aparece num postal antecedente a 1929 (AHM 139, pormenor) e num pormenor de uma fotografia aérea do fim dos anos Cinquenta (AHM 5588).Num período foi também utilizado como pensão (Pensão Moderna) e durante o levantamento apareceu bem conservado embora privado de coberturas (levantamento D. Nhanjane, I. Mendonça, M. Buvana, M. Chissano, CEDH).
Presentemente está a ser reabilitado.
É interessante notar que o mesmo edifício foi objecto de numerosas propostas de variantes, documentadas no Arquivo da Direcção de Construção e Urbanização da Municipalidade de Pemba, com vista a melhor aproveitamento de um talhão que com o tempo ficara numa posição privilegiada.Aconteceu que o edifício foi implicado no delicado problema de dignificar a praça, inominada mas consagrada pelo jardim público, que de facto existia no cruzamento da rua Jerónimo Romero, da rua III (actual rampa do Mercado) e da rua Oliveira Salazar (actual rua CI.010).Foram portanto apresentadas várias propostas para resolver arquitectonicamente (e obter espaços comerciais) a frente do lado do jardim, que na origem era simplesmente o muro de vedação da área das dependências.

Edifícios industriais e escritórios: Do lado direito, uma fotografia antiga (postal, AHM 130, pormenor) representa o escritório da empresa comercial "William Phillippi & Co.", edificado provávelmente nos anos Vinte.
A seguir mais um pormenor do seu estado actual (levantamento P. Martins, S. Tembe, S. Meguegy, CEDH).
Por último, pormenor em foto do estabelecimento industrial e escritórios da Sociedade Agricola Algodoeira (SAGAL), edificado mais tarde nos anos Cinquenta, como está hoje (levantamento P. Martins, S. Tembe, S. Meguegy, CEDH). Os dois edifícios, embora de períodos diferentes, constituem exemplos de uma arquitetura industrial ou comercial que, com fins representativos, utilizava elementos decorativos de diversa origem.

A RENOVAÇÃO URBANA - Racionalismo tardio com influências "deco" dos anos Cinquenta.
É apresentada imagem da tipografia SOTIL e aspecto actual do edifício, hoje utilizado como armazém e garagem, e o complexo do vizinho mercado central, no cruzamento entre a rua III (actual rampa do Mercado) e a rua Oliveira Salazar (actual rua CI.010) que constiui a charneira entre a parte baixa da cidade e a nova expansão no planalto.

A RENOVAÇÃO URBANA - A Modernização do Club (Bar) Marítimo.
O pequeno edifício do Club (Bar) Marítimo na rua Jerónimo Romero foi transformado, tendo sido modernizada a fachada e com uma nova decoração do interior (DCU - Direcção, Construção e Urbanização da Municipalidade de Pemba - 7075/1925).
O edifício apresenta ainda o aspecto original como se pode ver comparando a fotografia mais antiga (postal AHM - Arquivo Histórico de Moçambique da Universidade Eduardo Mondlane -132 - pormenor) e a situação actual.

 

A RENOVAÇÃO URBANA - Novos tipos de lojas e habitações.
Com a aprovação do novo plano de urbanização de 1967, intensifica-se o processo de substituição das tipologias do antigo centro histórico.
Os antigos edifícios de um só piso com varanda, para loja e habitação, são substituídos por tipos mais complexos de dois ou três andares.
Apresenta-se (à esquerda deste texto) a fotografia de um edifício deste tipo (postal, AHM 5601 - Arquivo Histórico de Moçambique da Universidade Eduardo Mondlane) em seu aspecto poucos anos depois da construção.
A tentativa de construção de uma frente unitária de pórticos ao longo da rua Jerónimo Romero, perseguida desde os anos Vinte foi, portanto, a partir deste momento, drásticamente interrompida.
O resultado da transformação incompleta do tecido edifícado, independentemente da qualidade individual das intervenções, é agora um ambiente urbano contraditório e fora de escala.
=====
Obs. -
Desconhece o autor destas páginas a utilização atual do edifício acima referido.
Sabe, se a memória não falha, que até à independência de Moçambique em 1975, ali funcionou primeiramente um ponto de vendas de carros "OPEL" sob denominação comercial "Pendray & Sousa, Ltda."(fonte António Coelho) e, posteriormente, uma agência de venda de carros FORD, auto-peças e oficina (nos fundos) da Companhia Agricola e Comercial João Ferreira dos Santos, SARL. 
No piso superior existem duas residências, tendo numa delas, habitado o encarregado da mesma oficina, Sr. Cruz.
A outra (geminada), parece-me que foi residência do Sr. Ventura, funcionário da Alfândega da então Porto Amélia.

OS EDIFÍCIOS PÚBLICOS - Igrejas entre revival histórico e modernismo.
À direita vê-se a Catedral de São Paulo, numa fotografia da época (postal, AHM 5640 - Arquivo Histórico de Moçambique da Universidade Eduardo Mondlane) e outra fotografia no estado actual.
A Igreja de São Paulo inpira-se, simplificando-as, a uma igreja copta, nas formas usadas no século X até ao século XIX.
Na terceira fotografia à direita está reproduzida uma vista da Igreja Maria Auxiliadora de formas modernas.

OS EDIFÍCIOS PÚBLICOS - Edifícios públicos da avenida XXV de Setembro.
Do lado esquerdo, o pormenor de uma fotografia aérea de cerca de 1970 (AHM 5887) mostra a série de edifícios que do lado da pendente flanqueavam a antiga avenida António Enes (actual avenida XXV de Setembro). Trata-se do Colégio Liceu São Paulo de 1960-1965 (hoje escola secundária), do Seminário São José, do mesmo período, e da Escola Técnica (arq. João Tinoco), dos anos 1965-1970, da qual podem-se ver três imagens actuais também ao lado.

OS EDIFÍCIOS PÚBLICOS - Projectos para o cinema: sala de espectáculo e restaurante.
O novo cinema da cidade representou nos anos Sessenta um significativo investimento económico e em consequência um importante desafio para os arquitectos chamados ao melhor aproveitamento de uma área de grande significado paisagistico (DCU-Pemba Arquivo da Direcção, Construção e Urbanização da cidade de Pemba).
Está, ao lado direito desta página, apresentada uma foto actual do edíficio e o projecto (DCU-Pemba Arquivo da Direcção, Construção e Urbanização da cidade de Pemba) de 1967, em duas imagens, executado pelo arquitecto Paulo de Melo Sampaio que corresponde fielmente a quanto foi realizado.

OS EDIFÍCIOS PÚBLICOS - Residência Episcopal (1960/1965) -Com imagens actuais é apresentado à esquerda o pormenor de uma fotografia aérea tirada entre 1965 e 1970 (AHM 5587) assim como duas fotos que mostram o edifício já acabado.

OS EDIFÍCIOS PÚBLICOS -Palácio das Repartições, actual sede do governo do distrito (arq. João Tinoco e Carlota Quintanilha, 1965-1970).  
Com imagens actuais, ao lado direito é apresentado o pormenor de uma fotografia aérea de cerca de 1970 (AHM 5589) que mostra o edifício já acabado e o conjunto de três imagens actuais do mesmo palácio agora chamado das Repartições.
Obs. -
podem notar-se também - embora a qualidade da imagem não permita muitos detalhes - a antiga repartição de Finanças, a antiga escola D. Francisco de Almeida, os edifícios das antigas Administração Cívil, antigas oficinas do Almoxarifado, a sede da OPV-Org. Prov. de Voluntários e diversas residências como a de Travassos Rocha-Sagal e outras gémeas da antiga rua capitão Curado entre demais gravadas na imagem aérea.

OS EDIFÍCIOS PÚBLICOS - Sedes dos Bancos.
Os casos apresentados testemunham uma atitude muito diferente do projectista em relação à dúplice exigência de realizar um edifício representativo e inseri-lo num contexto de construções mais antigas.
No lado esquerdo, na primeira imagem, o projectista do Banco Nacional Ultramarino (actualmente Banco de Moçambique) insere o seu projecto (DCU-Arquivo da Direcção, Construção e Urbanização da Municipalidade de Pemba) com indiferença pelo contexto, estando principalmente preocupado com um resultado funcional.
Pelo contrário, o projectista (arq. Amâncio Miranda d'Alpoim Guedes) do Banco Standard Totta (actualmente Standard Bank), cujo projecto aparece nas segunda e terceira imagens, conserva as antigas estruturas das paredes, mas sobrepõe uma nova fachada e redesenha completamente o interior.

ARQUITECTURA PARA ATRAIR ATENÇÃO E ARQUITECTURA FANTASTICA.
A fotografia à direita ilustra uma estação de bombas existente na cidade, que é resultado da execução de um projecto tipo, difundido em Portugal e nas Colónias e devido à autoria do arq. Nuno Craveiro Lopes.
Nota  - Esta bomba de gasolina foi explorada em primeiro lugar por um comerciante de Nampula, de nome Manuel Justino Sargento. Existe uma outra igual em Montepuez. Vendia inicialmente produtos Shell.
Parece-nos ter sido ainda explorada pela Companhia Agricola e Comercial João Ferreira dos Santos... funcionou, até pouco tempo antes da independência de Moçambique, se os "lapsos" de memória permitem, sob administração de antigo sargento-mecânico da Força Aerea Portuguesa, João Antunes Pereira .
Pós-independência, forçado pelas circunstâncias, depois de alguns anos como emigrante no Canadá, João Antunes Pereira regressou e vive no seu rincão natal, lá para os lados do Gerês em Portugal.

NEO-REGIONALISMO - Em todas as colônias africanas a partir dos anos Quarenta até os últimos anos da descolonização, esteve na moda a reelaboração, para a construção de residências individuais de tipos de arquitectura popular européia (arquitectura neo-regionalista), escolhidos por afinidades sentimentais ou climáticas.
Ao lado apresentamos o projecto (DCU-Pemba) duma moradia individual livremente inspirada aos tipos produzidos pelo movimento "casa à portuguesa" teorizado pelo arquitecto Raul Lino no início do século XX, e duas imagens do edifício que se mantém em ótimo estado de conservação.

ARQUITECTURA MODERNA - Moradia unifamiliar.
O pequeno edifício, do qual se apresenta ao lado direito o projecto (DCU-Pemba) e o estado actual pode-se considerar um produto típico do ecletismo modernista dos anos Sessenta e Setenta.
Não obstante as dimensões limitadas do edifício, estão presentes todos os símbolos que no grande público identificam a arquitectura moderna, tal como a planta livre, a sustentação do alpendre em grande V, a cornija da janela como quebra sol enfatizado, os elementos, aparentemente de apoio, que são inopinadamente inclinados.
Pode ser interessante notar que o elemento de sustento em V encontrou grande sucesso de público e está presente em Pemba em muitas construções dos anos Sessenta e Setenta.

ARQUITECTURA MODERNA - Moradia unifamiliar.
A moradia unifamiliar representa ainda um caso que se pode classificar como ecletismo modernista embora em forma mais simples e menos pretenciosa do que a anterior.
Também neste caso se apresenta o projecto (DCU-Pemba) e o estado actual.

ARQUITECTURA MODERNA - Edifício para escritório e casa geminada de dois andares.
Um tema similar que encontra duas respostas bastante diferentes.
Na primeira imagem à direita é ilustrado o projecto (DCU-Pemba) de um edifício para escritório da Junta de Comércio Exterior na avenida Marechal Craveiro Lopes (actual avenida Eduardo Mondlane) e sua imagem actual, sendo agora sede da Direcção Provincial de Industria e Comércio e da Direção Provincial da Justiça.
Trata-se de um projecto de rotina, provávelmente elaboração de gabinete no anos Sessenta e que mistrura elementos tradicionais como por exemplo a forma requintada do telhado, com elementos simplificados do léxico da arquitectura moderna ou simplesmente na moda, como a parede em pedra irregularmente cortada.*
-----
*Nota do blogue - Neste edifício e ainda no tempo colónia trabalhavam e residiam, já que o andar superior era moradia para funcionários, em uma das residências, o casal Mendes e seu filho Emanuel Mendes, oriundos da Ilha da Madeira e na outra residência o Sr. Barradas - pessoa muito conhecida por sua ligação ao desporto Moçambicano quando jovem-, sua filha Maria João Barradas, prof. Adelaide. O chefe da repartição chamava-se Leite Faria, conforme nos lembra nossa Amiga IO do "Chuinga".
-----
Mais sóbria no desenho da fachada é a casa geminada de dois andares na segunda imagem à direita, da qual igualmente é apresentado o projecto (DCU-Pemba) e uma vista forntal no seu estado actual.

HABITAÇÕES DE BAIXO CUSTO
Fazia parte da política colonial do Estado Novo a tentativa de fixação dos colonos portugueses nas áreas agrícolas assim como nas cidades, fornecendo habitações de qualidade medíocre e de custo baixo.
A política foi incentivada para responder ao grande fluxo de imigrados dos anos Cinquenta e Sessenta.
A intervenção correspondia a dois modelos principais: casas ultra-económicas (terceira imagem à esquerda) com pagamento parcial e diferido (modelo adoptado pela fundação Salazar e finalizado a fornecer uma habitação a operários imigrados da metrópole ou para assimilados); facilitações no acesso à terra e ajuda no pagamento dos juros bançários (principalmente através de empréstimos do Banco Montepio) para construções de bom nível destinadas em grande parte a funcionários (primeira e segunda imagens à esquerda).
Mais tarde, nos primeiros anos da independência foi tentada um política de construções a baixo custo utilizando elementos pré-fabricados com tecnologia importada de Cuba ou de países do Leste Europeu, que se revelou demasiado cara e foi rapidamente abandonada (sistema Sandino).
Depois de 1994 foi criado o Fundo de Fomento da Habitação, um organismo que, utilizando os recursos obtidos através da privatização do património imobiliário publico, financia a urbanização e a construção de casas a baixo custo (quarta imagem) que é reembolsado pelos utilizadores em vários anos.

Nota - Nas primeira e segunda imagens pode observar-se o estado atual de moradias construídas na antiga Rua Capitão Curado, fazendo parte de um "combóio" de seis ou sete casas idênticas e onde residiram diversas Famílias na então Porto Amélia e entre as quais destaco porque recordo: Família de César da Auto-Porto Amélia, Família de António Baptista Carrilho, Família de José Franco Carrilho, Sr. Babo Carrilho e Esposa, Família de Luis Fernandes, Família Percheiro e Família de Jaime Ferraz R. Gabão.

Edificações na Avenida Marechal Craveiro Lopes.
O grande eixo da avenida já aparece indicado no Plano de Urbanização de 1950 do Gabinete de urbanização Colonial (arq. João Aguiar).
Foi confirmado no Plano de urbanização aprovado em 1967 (arq. Paulo de Melo Sampaio) e estava já traçado mas ainda não edificado no fim dos anos Sessenta.
O complemento da edificação como hoje aparece teve lugar só nos últimos anos da denominação colonial.
Ao lado direito, imagem do prédio "Januário" na esquina com a rua Governador Basílio Seguro (actual rua Primeiro de Maio).
Ao lado direito também, na segunda imagem, uma das poucas e novas construções (recentes).


QUITÉQUETEH - Uma oportunidade de estudo ( clique na mini-imagem para ampliar)
Pemba, capital da Província de Cabo Delgado, é a cidade onde se localizou o tema de trabalho dos alunos da licenciatura da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da UEM durante o ano lectivo de 2003/2004. Foi uma boa ocasião para observarmos a cidade, ouvirmos e vermos as razões do desenho e das pessoas, de modo a tentar compreender melhor as razões da arquitectura das áreas em estudo. Estamos perante uma realidade fortemente marcada por contrastes, como acontece com todas as cidades moçambicanas e, de uma maneira geral, com quase todas as cidades por este mundo afora. Porque a cidade, para além de ser o tipo de aglomerado humano onde a democracia se afirmou como tal, é também a forma de organização espacial humana onde talvez sejam mais visíveis a desigualdade, o desnivelamento social, a luta pelo alcance de metas ou descons­trução das vidas, o exacerbamento de paixões; mas também o sítio da construção frenética, do aparente conforto extremo, do desenvolvimento, da discussão criado­ra, das mentes julgadas mais livres..., por vezes mesmo reféns do seu apego à liberdade. Tudo isto é bem visível no núcleo inicial do actual bairro de Paquitequete, o mais velho assentamento informal da cidade. Talvez mesmo um núcleo mais velho do que a própria cidade: a sua povoação de origem? É sobre este assentamento inicial e mais antigo da zona informal da cidade de Pemba que incidirá a presente análise.
O Bairro Paquitequete está hoje definido como sendo uma agregação de quatro zonas: a zona A, B e C que coincidem respectivamente com os antigos bairros de Quitéqueteh (genericamente designado também por Paquitequete e que incluía a zona do Cufungu), Cumissete/Cuparata e Cumilamba. No seu conjunto, o Bairro assim definido possuía 9162 habitantes em 1997, distribuídos por 1665 casas. É servido por quatro escolas primárias, sendo duas do EP1 e uma do EP2, possui um Posto Médico novo, desde meados de 2004 e duas Mesquitas, sendo uma delas, a maior, o edifício mais importante das redondezas. Neste trabalho abordaremos aspectos espaciais e arquitectónicos apenas da parte mais antiga do actual bairro de Paquitequete  (e que hoje se estendeu ao conjunto das quatro zonas referidas), o qual, daqui em diante passaremos a designar por (Pa)Quitéqueteh.

O bairro de Paquitequete: designação e preexistências.
Custa-me apelidá-lo de informal pela sua idade; pela sua personalidade; pela delicadeza da sua gente cheia de regras, de cumprimentos formais, de tradições e de mitos. Lugares assim como este só são informais porque as leis dos Estados que temos, não apenas no nosso país, não souberam ainda caber neles.
Disse-me um velho morador da cidade, outrora residente no bairro, que o seu nome original não era esse. Quitéqueteh não foi sempre Quitéqueteh. Aqui passo as estórias seguintes sem documento escrito que as fundamentem:
- diz-me o Sr. Jacob Mamudo que o nome original, antes mesmo do início do séc. XX, teria sido M'pira ou Nu Pa'mpira. Sendo Pa'mpíra, era de supor que o nome do lugar resultasse de quaisquer árvores-da-borracha que ali tivessem existido. O tipo de flora que hoje ali se vê, bem como o típo de solo que caracteriza o local levam-me a duvidar desta explicação. É dúvida, e não certeza da sua impossi­bilidade, porque está documentada a existência, em tempos idos, do negócio da borracha, o qual atraía mercadores para a região, havendo gente que se lhe refira ainda agora. De resto, também ainda hoje é possível ver crianças de localidades do litoral Norte de Cabo Delgado, nomeadamente na região de Macomia, a brincarem com bolas feitas com um látex esbranquiçado e translúcido, com um comportamento semelhante aos das normais bolas de borracha. Quanto à expressão Nu P'ampíra, ela resultaria do facto de o pequeno assentamento, de que eventualmente surgiu o actual bairro, ter tido como chefe local uma senhora de nome Pampíra, e daí Nu Pampíra, o que, traduzido para o português, seria a Senhora Pampíra. Será? Cá está um tema interessante para os historiadores, antropólogos, botânicos e outros especialistas, de modo a discernirem sobre a verdade dos factos. O certo é que, em mapa de Jerónimo Romero, de 1860, no qual a praia localizada na zona do actual bairro de Paquitequete aparece com a designação de Pampira. E mais ainda: a versão da tradição oral que atribui a origem do nome do bairro à designação M'pira ou Mepira também encontra apoio no mapa de Serpa Pinto, de 1984/53. Interessante, esta coincidência entre as fontes orais actuais e os documentos antigos. Outras versões:
-Disseram-me também que, quando no início da primeira década do séc. XX, a sede da Companhia do Niassa mudou provisoriamente do Ibo para Pemba – a Porto Amélia do tempo colonial, nome de uma rainha portuguesa, à maneira da Port Elisabeth sul-africana em nome da rainha inglesa - os pequenos funcionários da administração colonial no Ibo, maioritariamente mestiços e assimilados e outros habitantes da ilha, se estabeleceram naquele bairro. Era um local povoado, com espaço disponível, e próximo do pequeno estabelecimento formal que hoje configura a parte mais velha (e também a parte mais abandonada) da actual Pemba, a antiga Baixa da cidade, outrora ocupada pelas elites comercial e administrativa do lugar e por algumas instituições. E deram ao bairro o nome que hoje ostenta: Paquitequete, ou seja, na língua kimwani, «no lugar onde as pessoas residem», ou «no lugar onde há uma aglomeração de pessoas», ou, mais livre­mente, «no povoado».
-Segundo o antigo Presidente do bairro, o Sr. Ahmada Abdala, os velhos do bairro dizem que o lugar em que se ele se erigiu se teria chamado inicialmente Pa Nuno, que quer dizer "o lugar da senhora" (de novo a referência a uma tal senhora local); e que o actual nome do bairro - Paquitequete - deriva da palavra Kutéqueterah, que significa "o acto de sumir sem deixar rasto, o acto de alguém deixar de ser visto no meio de uma densa mata, por exemplo". Também se referiu à existência de arbustos parecidos com as mandioqueiras, que davam um látex do tipo da borracha, com o nome local de m'pira, dos quais existiriam ainda alguns espécimes em 1950. De uma das formas descritas por estes testemunhos, ou de parte delas, ou ainda de outras formas, se teria fixado a actual designação do bairro. Será? E qual delas é válida?
Da maioria destas versões ressalta a ideia de que o lugar era ocupado por densa vegetação, a qual, de algum modo, teria estado relacionada com a sua designação em algum momento da sua história, e que esse lugar possuía espaço que podia ser reconvertido para ocupação humana, próximo do centro comercial do novo estabelecimento da elite ligada ao poder colonial. Este local tinha a vantagem de estar dele separado por uma língua de mar, evitando promiscuidades indesejáveis para os colonos e, simultaneamente, permitindo aos novos residentes locais uma maior independência de organização segundo as normas e os usos da sua cultura.
Em conclusão: independentemente das explicações e origem do nome do bairro, ele localiza-se numa mancha de solos dunares de uma língua de terras baixas separada, por uma entrada de mar, do ponto extremo e mais baixo do promontório em que se localiza a parte formal e mais antiga da cidade de Pemba. Essas terras baixas teriam sido, outrora, ocupadas por uma densa mata de vegetação, em que o mangal também existiria como uma componente importante. É provável que a escassa vegetação natural que ainda existe junto às margens da lângua, periodicamente alagada pelas marés, seja um resquício da vegetação que, originalmente, povoou a zona de Paquitequete, hoje coberta de coqueiros, uns trezentas no dizer do Presidente do bairro.

Elementos de caracterização urbana
Aspectos gerais
Do ponto de vista morfológico, o bairro apresenta um padrão sinuoso de organização espacial, no qual é possível distinguir, no entanto, não só uma hierarquia de ruas, caminhos e passagens, alguns dos quais não têm mais de um metro e meio, bem como uma rede de espaços abertos do tipo largo ou praceta também claramente hierarquizáveis consoante a sua dimensão, funções e história. Até fins da década de cinquenta do século passado o bairro estava ligado em permanência à cidade formal (a antiga Baixa de Pemba) por uma ponte de madeira para peões, a chamada Ponte Chica. Esta construção, localizada no enfiamento da velha Mesquita da antiga parte baixa da cidade, foi abandonada e desapareceu depois da construção do drift de betão armado, construido no início da década de sessenta, que hoje permite o acesso ao bairro, não apenas a peões, mas também a veículos motorizados. Na preia-mar a zona de Quitéquetê é quase completamente rodeada pela água do mar que avança pelo canal que a separa da cidade formal. Por vezes, nas marés vivas acompanhadas de temporais, Quitéqueteh transforma-se mesmo numa ilha. Um percurso pela principal via de circulação do bairro, com incursões laterais para o interior do casario, apoiado pelas entrevistas realizadas e pela memória da situação da sua ocupação antes da independência, fez ressaltar as seguintes percepções:
(i) não parece que o bairro se tenha densificado, no seu miolo, a ponto de terem desaparecido os mais importantes espaços livres que existiam no princípio dos anos setenta (ou mesmo antes). Permanecem livres muitos desses espaços característicos dessa altura e que ainda hoje são importantes para o Jazer e a comunicação inter-pessoal e colectiva, e aonde as crianças brincavam e os adultos socializavam ao fim da tarde, e que poderíamos classificar como espaços de tudo e de nada (alguns dos quais do tipo das pracetas quase fechadas, à maneira árabe);
(ii) é possível hoje atravessar o bairro, inclusive de carro, a partir da ponte que lhe dá acesso, voltando ao ponto de orígem, o que significa que o objectivo de possibilitar a circulação de emergência para o interior do bairro terá sido respeitado e realizado;
(iii) o aumento da ocupação do bairro fez-se essencialmente com a utilização de espaços (muito desaconselhável) junto à praia na zona Noroeste do bairro e das franjas livres nas margens do canal de entrada de mar, junto à baixa antiga da cidade, reduzindo-se a vazão deste e agravando-se a sua poluição bem como o maior espalhamento da água do mar e deposição dos lixos, pelas marés-cheias, ao longo da área alagadiça que se prolonga até à zona de Cumilamba.

As ruas e caminhos.
Como se referiu o sistema viário é composto por um sistema de vias desenvolvido organicamente e no qual se pode definir a seguinte hierarquia:
- a(s) rua(s) principal(is), estabelecendo articulação com o resto do tecido urbano da cidade e permitindo o atravessamento do bairro, pelo seu interior; inclusivamente por veículos motorizados de pequena envergadura (carros ligeiros);
- os caminhos de penetração, estabelecendo a ligação entre o subsistema principal com o miolo do bairro (motorizadas e bicicletas);
- caminhos vicinais muito estreitos permitido o acesso directo ás habitações, e em que, geralmente, não podem circular mais de duas pessoas lado a lado.

Os espaços alargados
Quanto a este tipo de espaços de estar ao ar livre e de integração pudémos estabelecer as seguintes categorias:
- o espaço alargado nucleado (do tipo largo ou praceta), para o qual os caminhos de penetração e vicinais convergem, e que funciona como lugar de socialização e elemento espacial de integração das habitações que dele se servem;
- O espaço alargado linear, que também serve o estar ao livre e a integração das habitações, mas que resulta do alargamento de uma via de circulação, em geral uma via de penetração.
- o espaço misto, no qual se associam o espaços públicos alargado linear e nucleado;
- o espaço alargado indefinido.
Na entrevista ao sr Anli Abujade, morador da praceta que analisámos com mais detalhe, ele informou-nos que o espaço livre da praceta era muito importante para os moradores.
Foi assim que ele definiu a relevância desse espaço: "Este largo serve para muitas coisas. São lugares muito importantes para nós. Serve para os batuques (sessões culturais tradicionais); serve para as cerimónias religiosas, como por exemplo o Maulide; serve para as crianças e jovens se encontrarem e brincarem; areja e desafoga o quarteirão."

Infra-estruturas
No que respeita a infra-estruturas desta zona, podemos fazer a seguinte caracterização sumária: a maioria das casas tem luz eléctrica, uma parte das casas é servida de água canalizada, outra a partir de poços e outra ainda a partir de fontanários.
O total de fontanários nas três zonas é de 5, sendo dois em Quitéqueteh, dois em Cumissete e um em Cumilamaba. A água dos poços não é própria para beber. Ela geralmente é utilizada para lavagens e banho. Obtivemos no entanto informações de que, em situações de grande carência e de interrupção por avaria do sistema de água potável da cidade, a população recorre ao consumo da água dos poços.

As casas.
No âmbito da arquitectura, a tipologia relevante e que merece uma reflexão mais detida é a habitacional. Para procedermos a uma abordagem fundamentada deste tema visitamos o bairro e, uma vez detectados os subtipos de casas mais frequen­tes, deu-nos o acaso a sorte e a surpresa de encontrarmos um espaço alargado, de tipo praceta, praticamente fechado, no qual estavam representados esses subtipos mais significativos, não apenas nesse bairro mas também noutros bairros informais da cidade de Pemba. O efeito surpresa é ampliado pelo acesso à praceta, a partir da via principal, por um caminho curto e estreito e com não mais de um metro e meio de largura, desembocando num espaço expandido cheio de luz, limpo e bem definido.

O desenho.
Na praceta estudada encontram-se em sequência várias casas que, do meu ponto de vista, reflectem por um lado o processo histórico de apropriação local, adaptação e desenvolvimento da casa de matriz swahili e, por outro lado, a influência de casa da cidade moderna.
De facto, nas fachadas Nascente e Norte as casas são de elaboração mais recente e denunciam a atitude de transposição para o informal, pelos respectivos proprietários, de elementos de imagem e volume captados e reinterpretados em exemplos da tipologia habitacional da zona formal da cidade. Na fachada Poente, de apenas quatro casas, e como se, estivessemos perante um mostruário bem sintetizado da história, no litoral Norte do país, do evoluir da casa popular por aquisição de elementos exógenos, os quais foram repensados sobre uma mesma base arquitectural de tipo swahili, segundo uma lógica de afirmação ou reelaboração de opções espaciais, de natureza endógena. Parece evidente, neste caso concreto, o facto de estarmos perante influências do desenho das casas da ilha do Ibo, estendendo-se para o Quitéqueteh o processo de transfor­mações ali iniciado. Pelo seu interesse fez-se a observação mais detalhada das casas do alçado Poente da praceta e entrevistamos alguns dos actuais proprietários para entendermos os processos as técnicas e os materiais utilizados. Procedeu-se a um levantamento arquitectónico expedito do conjunto de casas desta ala da praceta cujos moradores eram, de Sul para Norte, a Sra. Chamo Arame e os seus netos e bisnetos (seis pessoas), o Sr. Anli Abujade e esposa mais os filhos e cunhado (oito pessoas), o Sr. Mussa Nssaje e esposa, filha e netos (seis pessoas), a Sra. Zainaba Abubacar mais as netas e bisnetas (seis pessoas).
De um modo geral as quatro casas analisadas apresentam uma coerente similari­dade tipológica, particularmente no que se refere à opção básica de organização espacial, caracteristica das casas populares de tipo swahili, e que se reflecte principalmente na sua compartimentação. Os elementos de diferenciação estão relacionados com (1) as normais necessidades de ampliação comummente realizadas com a adição, ao longo do tempo, de compartimentos nas alas laterais e na fachada frontal; (2) o fechamento da sala, fazendo com que o corredor central se estenda desde a fachada frontal até à fachada posterior; (3) a utilização de elementos construtivos regionais, como o tecto falso e os bancos nos extremos da varanda frontal, sendo estes muito utilizados nas casas do Ibo e também nas casas da zona de macúti da ilha de Moçambique; (4) o uso de materiais e técnicas de construção mais recentes ou modernos, nomeadamente o cimento, o varão de ferro, o bloco de alvenaria, a chapa zincada ondulada, o vidro, as ferragens e as tintas industriais...
A casa de Chamo Arame, a mais antiga do conjunto, é aquela que melhor reflecte a volumetria e a imagem das casas populares do litoral Norte de Moçam­bique. Por seu lado, e não obstante a extensão do corpo do edifício para a varanda frontal, a casa de Mussa Nssaje é aquela que melhor representa o tipo de habitações de estratos da população relativamente mais pobre, integrada no siste­ma de produção camponesa de subsistência. A casa de Zainaba Abubacar é aquela que apresenta mais elementos de aculturação a partir da cidade moderna (os materiais, a organização espacial e a definição da cobertura em duas águas, posteriormente transformadas em três por ampliação da casa), sendo tipologi­camente mais próxima das casas de estratos populacionais mais ricos e ou ligados ao sistema de comércio internacional do índico.
Quanto à paleta de materiais tradicionalmente utilizados encontramos aqui: o uso de pau redondo e varas de diversos tipos de espécies vegetais, com particular realce para o pau e varas de mangal colhidos maioritariamente no interior Nordeste da baía de Pemba; o uso do macúti ou de folhas de palmeira brava nas coberturas; o uso, como elemento de amarração, de cordas da casca de espécies arbóreas do interior da província; o uso de terra argilosa obtida nomeadamente na encosta mais próxima do promontório em que se desenvolve a cidade de Pemba e na lângua ou área pantanosa alagadiça junto ao bairro; o uso generalizado do bambu para a construção das paredes com a técnica do maticado e para a construção dos tectos falsos.

Um caso específíco.
Pelo seu interesse tipológico e motivações procedeu-se a um levantamento mais detalhado da casa de Anli Abujade, com quem tivemos uma conversa mais longa sobre os processos, técnicas e materiais de construção, e da qual reproduzimos o seguinte:
- O terreno foi adquirido por dois milhões e quinhentos mil meticais em 1998 e, nesse mesmo ano, foi por ele construída a casa. Na sua concepção utilizou, como o próprio nos descreveu, o modelo das casas da ilha do Ibo. Tem duas varandas: uma varanda fachada posterior para serviço e estar privado, onde durante o dia a esposa, filhos pequenos e amigos podem ver a televisão, e outra varanda na fachada frontal, para estar e descanso em contacto público. Na varanda frontal utilizou os cantos para colocar dois bancos de repouso em cimento (que no Ibo são chamados 'xequina'). A compartimentação interior segue o tipo comum da ilha. A casa possui uma casa de banho de dentro no corpo principal do edifício, para serventia privativa do casa, e uma casa de banho de fora, localizada no quintal, para serventia geral. As construções anexas consistem numa cozinha com despensa, um forno coberto e uma capoeira. Na construção das paredes foi utilizada a técnica do pau-a-pique maticado, tendo sido usados neste caso prumos de madeira de mangal (Ceriops tagal), meias canas de bambu, cordas feitas com tiras de borracha, pedra pequena, terra argilosa e cimento para o reboco, o qual é duas vezes mais espesso no exterior do que no interior. Um aspecto que vale a pena realçar é o facto de a casa possuir um estrado superior que funciona simultaneamente como tecto falso, como arrecadação e arma­zém de produtos e ainda como base sobre a qual assentam os prumos que conformam a cobertura. Este estrado, muito comum nas construções populares no campo e que constatámos estar muito divulgado nas zonas informais de Pemba, é construido com canas de bambu inteiras assentes em vigotas de madeira de outro tipo de mangal, (Avicennia marina). É provável que este tipo de conformação da cobertura com base em dois prumos assentes num estrado, eventualmente suportado pelo conjunto das paredes inferiores, seja uma evolução da estrutura da cobertura das casas swahili que é basicamente constituída por dois prumos contínuos com função verdadeiramente estrutural enterrados na base da casa. A cobertura, de quatro águas, é feita em placas de macúti, sendo de quinze cen­tímetros a sobreposição das placas (maior do que o espaçamento corrente), o que, segundo o dono da casa, melhora a duração do seu funcionamento eficiente que, normalmente, varia entre um e meio a dois anos. A habitação é abastecida de água e de energia eléctrica das redes gerais da cidade. Todo o edifício principal está sobrelevado em relação ao nível natural do terreno, sendo o pavimento em cimento queimado à colher pequena.

Elementos de personalização singularidade do Bairro, ou factores de coesão e resistência?
Logo após a proclamação da independência nacional, Quitéqueteh deveria ter sido objecto de uma operação de des-densificação. Pretendia-se abrir espaço no então referido como um emaranhado de casas, para criar condições de melhoria da salubridade. Houve de facto moradores que, no quadro dessa intenção, e entre 1976 e 1978, se mudaram para novos atalhoamentos14 no bairro de Ingonáni, na zona livre então mais próxima da parte alta da cidade de Pemba. Mas não foram muitos os que se mudaram. Não muito mais de três centenas de pessoas. Parece que não o fizeram cedendo às necessidades de melhoria da salubridade do bairro e nem sequer se tratou de moradores antigos do bairro. "Fizeram-no porque uma tempestade mais violenta provocou a inundação de partes da zona de Cufungo e da zona de Cumissete". Se considerarmos que pelo menos esta última zona não fazia parte do que antes da independência se considerava o bairro de Paquitequete, então podemos deduzir que nessa transferência de população para a parte alta da cidade terão participado muito poucos habitantes do núcleo original do actual bairro de Paquitequete.
Na realidade os moradores de Quitéqueteh apresentam fortes elementos de coesão que tornam eventualmente mais complexa qualquer operação de realojamento, nomeadamente as relações de vizinhança, as rotinas diárias conso­lidadas, a utilização da língua kimwani como língua veicular (ao contrário do que acontece no resto da cidade), as fortes referências culturais ligadas aos antepassados das ilhas Quirimbas. Fui uma das testemunhas da difícil discussão havida nessa altura (em data compreendida entre cerca de 1975 e 1976) com a população desta zona, no sentido de a sensibilizar para a abertura de espaços de circulação e equipamento social, construção de latrinas, melhoria da habitação, prevenção de incêndios etc. Sim a tudo isso, sempre que possível, mas não à mudança de bairro. E ficou claro que o apego ao lugar era mais forte do que uma aparentemente «vaga intenção governamental louvável de melhorar a sanidade do bairro», sobretudo porque isso parecia significar para os moradores de Quitéqueteh o despojamento em relação à sua própria identidade de cultura e de história. É evidente que esta situação terá de se alterar um dia. Hoje começa a haver jovens que acabam por se mudar voluntariamente para outras áreas da cidade com mais espaço disponível, embora distantes, nomeadamente a área do Wimbi.
Nas entrevistas feitas aos moradores Anli Abudjade, Mussa Nssadji e Ahmada Abdala ficou evidente que as relações da população de Quitéqueteh com o resto da cidade se resumem ao absolutamente necessário. Vai-se à cidade para trabalhar, para comprar produtos processados ou de produção industrial que não existem nas barracas ou lojas informais locais (por exemplo arroz, açúcar, roupa, instrumentos e utensílios diversos), para tratar de assuntos na Administração e noutras repartições do Estado, para assistência médica no Hospital Provincial e pouco mais. Os problemas mais comuns e correntes da vida diária acabam por encontrar solução no próprio bairro. Não existindo um mercado permanente de produtos alimentares frescos, o abastecimento destes produtos essenciais é feito através do que os moradores inquiridos chamaram de mercado temporário que, todos os dias às seis horas da manhã se constitui na praia de Cufungu, a partir de mercadores de frescos que trazem diariamente os produtos obtidos na outra margem da baía, em Metuge, e os colocam à venda, em prioridade à população do Paquitequete, ali mesmo em plena praia de desembarque dos barcos em que se transportam. Assim se obtêm, nalguns casos de acordo com a época própria, a papaia, a banana verde e madura, a melancia, o pepino, a batata-doce, a abóbora, o tomate, a couve, a cenoura, a cebola branca e vermelha, a beringela, a mandioca fresca e o piripiri, bem como o peixe fresco e o peixe seco. A importância deste mercado temporário de todos os dias é reforçada pelo facto de muito poucas famílias do bairro possuírem machambas para abastecimento familiar. Será este um sinal do carácter eminentemente urbano do bairro de Paquitequete, ao contrário de muitos dos bairros da periferia das pequenas e médias cidades do pais? É que me parece que a distância às áreas agricultáveis não é argumento suficiente para que a maior parte da população de Quitéqueteh não possua machamba, inclusive a sazonal, na qual um membro da família para lá se desloque durante a época de produção, como pudemos observar, por exemplo, na cidade de Lichinga.


Estes textos e imagens também poderão ser vistos no blogue "ForEver PEMBA". Divulgue-nos entre Amigos e amantes de PEMBA !!!



E-mail : portoamelia@gmail.com

Tecle "F11" para abrir ou fechar "tela inteira"

 Voltar à Home Pemba

© - HOME PAGE PEMBA E RÉGUA 2000/2008 - Por Jaime Luis Gabão, 26 de Novembro de 2005 - Última alteração em: 02/04/2008 23:49:29


 

1