Legião Urbana - Brasília - O Show o Caos

Estádio Mané Garrincha - 18/06/1988

 

 

Uma semana após um desagradável incidente no show em São Paulo onde, durante a primeira música "Que País É Este", Marcelo Bonfá foi atingido por uma garrafa, a Legião estava de volta a Brasília para uma única apresentação. O clima, a princípio, era de festa. Os luminosos do ginásio exibiam "GDF - Governo do Distrito Federal - Bem Vindos de volta a Brasília Jovens do Legião Urbana".

O show começa, por recomendações, com atraso (vide adiante) com cumprimentos de Renato seguida da canção título do 3° álbum da banda. O show prossegue em clima até amigável, com Renato bem humorado fazendo brincadeiras com a platéia.

Durante a quarta música, "Conexão Amazônica", uma canção anti-drogas, Renato relata o que aconteceu com alguns garotos viciados em drogas que formavam o Clube Da Criança Junkie. No saldo, relata: "-Um morreu, dois pararam, três passaram no vestibular e se casaram. Mas teve um que não morreu. Ele ficou assim ó (estiliza um esquizofrênico)". Neste momento, um suposto doente mental fura o cerco da segurança e agarra Renato pelo pescoço como se quisesse estrangulá-lo. Renato tenta livrar-se dele a golpes de microfone.

O show e a música prosseguem num clima sombrio. Durante o solo de "Ainda É Cedo", Renato se irrita com um segurança que estava agredindo uma pessoa da platéia: "Para agora, solta ele! Tu levas um microfone na cabeça meu irmão. Sacanagem, tem que segurar numa boa, eu vi dando mão na cara.". Já nestas alturas, Renato, bastante irritado, reclama: "É por isso que gente só volta aqui de ano e meio em ano e meio. Não dá pra se divertir!".

 

A música continua com as tradicionais músicas incidentais até uma bomba estourar no palco. Renato dá outra bronca na platéia, corta três músicas e pede cumplicidade: "Vocês então que falem pra quem está atacando coisa. Se o cara estiver do teu lado, dá esporro. Eu não tenho nada a ver com isso."

Após "Será", a banda deixa o palco antes do planejado (e antes que alguém se machucasse). Começa o caos: a platéia lança mais bombas, garrafas, coquetéis molotov, começa um grande quebra-quebra pelo estádio. Resultado: 385 atendimentos médicos e um processo movido pelo governo do Distrito Federal.

 

As Músicas: (na sequência)

Que País É Este

Eu Sei

Quase Sem Querer

Conexão Amazônica

O Reggae

A Dança

Daniel Na Cova Dos Leões

Ainda É Cedo

Faroeste Caboclo

Tempo Perdido

(???)

Será

 

  

Noite de Som e Fúria
Correio Braziliense (14-06-1997)

A Volta da Legião Urbana à Brasília para o lançamento do disco Que País É Este: 1978/1987 foi planejada meticulosamente durante cinco meses. Mas falhas no esquema de segurança contribuíram para o surgimento de tumultos antes, durante e depois da apresentação da banda.

A idéia surgiu durante uma festa estranha , "um reveillon meio maluco", segundo o anfitrião, o empresário e produtor de shows Fernando Artigas. Em um apartamento na 312 sul , no primeiro dia de 1988, Artigas e Renato Russo decidiram repetir a parceria que tinha possibilitado a realização do, até então, maior da Legião Urbana em sua cidade, no ginásio de esportes, em dezembro de 1986.

"Eu quero fazer muito, mas no ginásio não dá, é pequeno", disse Artigas, ciente da popularidade vertiginosa que a banda brasiliense experimentava depois do lançamento do terceiro disco: Que País É Este: 1978/1987. "Então vamos para o estádio (Mané Garrincha), definiu Renato que fez uma exigência: Esse vai ser o show da minha vida, por isso quero que embrulhe pra presente, que nem Bon Jovi", comparou o vocalista, referindo-se à mega estrutura das apresentações da banda americana.

Não era uma empreitada fácil. O último show da Legião na capital, para lançar o segundo disco (Dois), foi atribulado.

Houve superlotação no ginásio Nilson Nelson e muitas pessoas se machucaram ao pular da arquibancada para a pista. Além disso a excursão de lançamento do Que País É Este estava lotando ginásios pelo Brasil, mas ainda não havia sido levada a um estádio de futebol. "Era uma empreitada difícil. Eu temia um show no estádio " , reconhece Rafael Borges, empresário da banda desde setembro de 1987.

Por causa dos laços- afetivos e profissionais- anteriores, a produção do show foi entregue à empresa brasiliense Agora Eles, de Fernando Artigas e dos irmãos Rodrigo e Marcelo Amaral. Mesmo com a resistência de Rafael. " Eu teria optado em fazer com produtores mais experientes, como a WTR, com quem tínhamos trabalhado antes. Mas os próprios legionários pediram para eu dar atenção especial à proposta do pessoal de Brasília, que estava muito entusiasmado", lembra o empresário.

O "pessoal de Brasília" estava tão entusiasmado que contratou 500 seguranças particulares- o maior contingente já contratado para um único evento realizado na cidade. Também fez questão de fazer seguidas reuniões com representantes do poder público e outras entidades- Secretaria de Segurança Pública , Defer (administrador do estádio ), Defesa Civil, Cruz Vermelha e etc. Tudo para garantir a segurança do público. Tanta preparação não evitou que fossem cometidos erros primários. Como a altura do palco, por exemplo, apenas 2m10 separavam o tablado de madeira do gramado do estádio. "Foi um pedido do Renato que não queria ficar distante do público", argumenta Artigas. "Se foi pedido não passou pelo escritório, não era pra ficar 30 metros acima, mas tinha que ser proporcional ao estádio e não podia interferir na comunicação do artista com o público", rebate Rafael que fez inspeção rápida no palco e o achou um pouco vulnerável".

Na passagem de som o clima não era muito tranqüilo. Renato Russo reencontrou artigas e comentou:" Realmente o estádio está embrulhado para presente, mas tenho medo que possa virar Gimme Shelter", numa referência à música dos Stones que diz: "(...) uma tempestade ameaça minha vida". O clima ruim se dissipou quando os amigos saíram do estádio. Os dois , mais a irmã de Renato (Carmem Tereza) e uma amiga em comum jantaram no Piantella em clima de comemoração antecipada do que o vocalista chamava de " o show dos meus sonhos". "Ele estava superfeliz", garante Artigas.

No Sábado, dia 18 de junho, a banda passou quase o dia inteiro no hotel Saint Paul. Enquanto isso o clima começava a pesar, ônibus chegavam com os vidros quebrados . Longas e desorganizadas filas formavam-se em frente ao estádio. Na tentativa atrabalhoada de organizar a confusão, a polícia agiu com energia dentro e fora do estádio. Cães e cavalos foram usados para intimidar o público, estimado em 50 mil pessoas.

O tumulto na entrada obrigou os produtores a pedirem que a Legião atrasasse o início de sua apresentação, marcada para às 21:30- não havia banda de abertura . " Em dezembro de 86, o show começou impreterivelmente na hora e o pessoal estourou as catracas do ginásio. Foi por uma questão de segurança que atrasamos", justifica o empresário. O atraso de quase uma hora irritou a banda e o público, já incomodado com a ação enérgica da polícia e dos seguranças. Mesmo que Renato tenha começado o show perguntando se todos estavam ali para se divertir, já estava aceso o estopim para os tumultos ocorridos durante os inesquecíveis 58 minutos de som e fúria.

 

Por que a Legião parou ?

Dado Villa-Lobos sentiu um nó na garganta ao passar pelo estádio Mané Garrincha, em Setembro de 1997. Convidado pelos Paralamas do Sucesso para um show no ginásio Nilson Nelson, nove anos depois da última apresentação da Legião Urbana em Brasília, o guitarrista voltou à cidade apreensivo, sem saber o que poderia acontecer.

À tarde ele ficou andando perto do estádio , relembrando o tumultuado show de junho de 1988. À noite, no palco, foi recebido pela platéia como nos bons tempos, com gritos de "É Legião! É Legião!". Saiu emocionado, com a alma lavada." - Foi a redenção.

Marcelo Bonfá sentiu o mesmo no Tributo a Renato Russo, realizado no dia 2 de Dezembro de 1996. "Foi muito legal, muito positivo", diz o baterista. "Mas nunca tive problema nenhum com a cidade . Foi em Brasília que tudo aconteceu . Foi uma fase ótima, mágica, que não volta mais. A gente só não tocou mais em Brasília porque não tocava em lugar nenhum", garante.

Meio desligado, Bonfá lembra pouco do show do Mané Garrincha. Lembra do rapaz que grudou no pescoço do Renato, dos gritos antes do show ("É Legião! É Legião!), do clima de festa, de euforia. "Queríamos fazer uma festa, estávamos muito empolgados, mas a coisa se desvirtuou".

"Era um show intenso e quando é assim anda mais rápido", comenta o baterista. Com uma música atrás da outra, sem respirar, você pode tocar mais de uma hora que as pessoas acham que foi 15 minutos. Ali quatro horas não seriam suficientes".

O baterista ficou mais chateado porque as pessoas não entenderam o que havia acontecido. " Até meus pais falaram: 'Pô vocês não podiam Ter feito isso!'. Ninguém entendeu. A gente não quis voltar porque disseram que estavam quebrando tudo."

"As coisas estavam fora de controle", afirma Dado Villa-Lobos. "O palco era daqueles de encaixe seria mais fácil passar por baixo do que pular. E essa grade estava passando de mão em mão... os ônibus já chegaram depredados, as pessoas chegaram com esse estímulo, com essa energia. Ficou insustentável. Faltou estrutura dos organizadores. O palco era baixo e a segurança falha, não esperavam tanta gente". Segundo Renato Russo em entrevista ao Correio Dois em junho de 1996, " era tanta gente que parecia que estava vazio" . Para Marcelo Bonfá, era tanta gente que a vontade de tocar já não era a mesma. "Sabe quando passa a hora do almoço e você não tem vontade de comer ?", diz o baterista. " Foi assim, tinha gente demais".

E foi nesse show que Dado Villa-Lobos se viu numa " grande banda de rock". " Foi nesse dia que materializei, pela primeira vez, que as coisas tinham mudado", diz o guitarrista. " No começo a Legião Urbana era só uma forma de expressão artística, musical, e a partir desse dia virou 'carreira'. Descobri que, finalmente éramos uma grande banda de rock, que supostamente se presta a isso também".

 

Tristeza no dia seguinte

Mutismo absoluto. Foi essa a atitude tomada por Renato Russo desde o momento em que deixou o estádio Mané Garrincha até a hora em que deixou o apartamento da família , na SQS 303, no final da tarde de Domingo, seguindo para o Aeroporto Internacional , onde embarcou para o Rio.

Com a irmã Carmem Tereza Manfredini só conversou o necessário, assim como com as amigas Ana Paula Camarinha e Cíntia Paixão. Abriu exceção apenas para Celso Araújo, à época, repórter do Correio Brasiliense, para quem deu entrevista.

"Saímos juntos do estádio e o Júnior manteve-se calado, mas era visível sua tristeza. Ao chegar tomou banho, relaxou e foi dormir na cama dos nossos pais que estavam passando uma temporada no Rio". Contou Carmem.

A irmã lembra que Renato não fez qualquer comentário, mesmo depois de tomar conhecimento das pichações feitas em paredes de prédios da quadra. " Ele ficou arrasado, mas não se manifestou e nós preferimos respeitar o silêncio dele".

"Isso (as pichações) marcou demais, tocou muito o Renato, principalmente porque ele gostava muito de Brasília, nunca deixava passar em branco um ataque à cidade", confirma o empresário da banda, Rafael Borges.

Carmem revela que além das pichações, aconteceram vários telefonemas, "de pessoas que faziam ameaças".

Certamente foi por isso que Fernado Artigas, um dos produtores do show, convocou o judoca Murilão Azevedo, amigo de Renato desde a época do movimento punk, ao apartamento.

Murilão afirmou que chegou à 303 sul Domingo pela manhã, acompanhando o vocalista ao aeroporto. "na garagem descobrimos uma garota debaixo do carro que levaria Renato ao aeroporto. A menina queria um autógrafo. Ao chegar ao aeroporto fomos direto para a sala Vip, onde Renato evitou contato com qualquer pessoa.

Quando se encontrou com a mãe Maria do Carmo, no Rio, Renato falou de sua decepção e tristeza por não ter conseguido fazer o "show dos seus sonhos". Ela acredita que se o vocalista não tivesse morrido, a Legião voltaria a fazer show em Brasília. "Para todo mundo, o Júnior dizia que a Legião não tocaria mais na cidade. Tempos depois, porém, conversando comigo, o pai, e a Carmem deixava em aberto essa possibilidade". É o que acha também Rafael Borges: " muito tempo depois, ele me olhou com um ar meio maroto e perguntou: "e se a gente voltasse a Brasília ?".

 

A Imprensa

Os jornalistas falso-moralistas de plantão tiveram esses episódios como uma benção para suas matérias. Na época, a cantora e compositora Araci de Almeida havia falecido. Não faltaram comentários de radialistas do tipo "Nosso país perde uma grande artista enquanto nossos jovens são levados pela violência do grupo Legião Urbana".

Poucos foram as matérias que mostraram o que realmente ocorreu. Foi um prato cheio para abafar fatos como a violência no futebol e os recentes episódios violentos ocorridos durante o Show da Xuxa em 30 de junho de 1988 e no show dos Menudos. Destruir a imagem foi a solução encontrada para abalar o prestígio de uma banda que pôs em cheque a máquina, as instituições e o governo. Afinal, "rock é isso mesmo" como, até hoje, alguns dizem.

Em entrevista ao Fantástico, uma semana depois do ocorrido, Renato responde ao repórter:

"Eu acredito que existe uma maldade muito grande por parte de certas pessoas do público que saem de casa com bombas e entram no estádio com bombas pra atacar no artista. Tudo que fizemos foi nos defender e colocar a nossa opinião. Nós sempre colocamos o que nós pensamos. Subiram nas minhas costas tentaram me estrangular "-Renato, você vai morrer". Foi horrível, gente. Vocês não imaginam o efeito psicológico de uma bomba no palco, você fica olhando pra aquele negócio brilhando sabendo que aquele troço vai explodir. As pessoas já saíram de casa pensando em agressão. Nós apenas colocamos a nossa opinião e eu não desminto nada do que eu falei."

Naquela semana, a Legião se apresentou em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e, por fim, no extinto Projeto SP em São Paulo. Ambos, sem nenhuma ocorrência violenta.

LEGIÃO URBANA PAGE

Texto: Jairo Rosa - inclui matéria do Correio Brasiliense de 14/06/97

Voltar

 

1