Entrevista n. 1
Sobre trajetória enquanto militante gay

1 - Gostaria que você falasse um pouco sobre sua história de vida, sua descoberta como homossexual. Sempre teve certeza da sua opção?
LUIZ MOTT - Nasci em SP, SP, em 1946, numa família de oito irmãos, classe média alta, estudei no seminário dos dominicanos em Juiz de Fora, fiz Ciências Sociais na USP durante a ditadura. Desde menino me sentia diferente, delicado, mas sem modelos nem informação que me permitissem assumir o que não entendia e tinha medo: eu gostava do mesmo sexo. Após 7 anos de seminário, tive muitas experiências homossexuais, mas considerava apenas uma tendência, com medo de assumir que era mesmo gay. Casei-me, aos 25 anos, com a intenção honesta de tornar-me exclusivamente heterossexual, tanto que revelei então à minha noiva minhas experiências, coisa do passado. Após duas filhas e 5 anos de casamento, cordial mas frustrante para mim, decidi assumir integralmente minha homossexualidade e parar de representar para a sociedade. Foi duro, difícil, mas não me arrependo um só instante desta decisão, pois para mim, a homossexualidade foi e continua sendo uma graça!

2 - Como sua família reagiu quando, há quase 30 anos, vc resolveu assumir publicamente sua opção sexual?
LUIZ MOTT - Embora a maioria das famílias desconfia ou mesmo saiba quando um filho é gay ou lésbica, existe aquele joguinho hipócrita: o gay finge que não é e as pessoas fingem que não sabem, e a vida continua. O perigo muitas vezes está em verbalizar o que está sub-entendido. Um velho gay casado me disse: meu casamento só se mantém, há 30 anos, porque nunca dissemos a palavra homossexualidade. Por isto que o homossexualismo foi chamado "nefando", isto é, o que não pode ser dito, pois se dissermos a verdade, que é bom ser gay ou lésbica, muita gente vai querer experimentar e sair da gaveta.

3 - Quais foram os piores momentos que teve que enfrentar preconceito e discriminação?
LUIZ MOTT - 1979: estando com seu companheiro Aroldo Assunção contemplando o por do sol atras do Farol da Barra, um indivíduo desconfiando que eram gays, deu em L.Mott um forte tapa no rosto - meses depois L.Mott fundou o Grupo Gay da Bahia para lutar contra a homofobia
¨ 1985: no Campo Grande, ao perceber um pregador protestante fundamentalista a presença de L.Mott no local, iniciou um sermão extremamente homofóbico, ao qual contestando L.Mott, ao retirar-se, um crente desferiu um murro em seu rosto
¨ 1991: ao divulgar a biografia de Santos Dumont, apontando-o como homossexual, L.Mott recebeu diversos telefonemas anônimos ameaçando-o de morte e numa noite, em frente ao Teatro Maria Betânia, um indivíduo agarrou-o pelas costas tentando sequestrá-lo para dentro de um carro do outro lado da rua, sendo socorrido por pessoas que aguardavam na fila do cinema. Registro de Queixa na Delegacia do Rio Vermelho, matérias na imprensa.
¨ 1995: ao divulgar pistas históricas de que Zumbi dos Palmares era gay, L.Mott teve os vidros de seu carro quebrados e pixações nos muros de sua casa com a mensagem "Zumbi vive". Registro de Queixa na 1a Delegacia, matérias na imprensa.

¨ 1998/99: diversas ameaças na internet , assinadas por um tal Rancora e pela Frente Negra Zumbi dos Palmares, ameaçando me matar e oferecendo dinheiro a quem incendiasse a sede do Grupo Gay da BAhia
¨ 2-7-2000: no desfile de Dois de Julho, L.Mott e outros membros do Grupo Gay da Bahia tiveram a bandeira do grupo violentamente arrancada de suas mãos e L.Mott foi jogado no chão onde levou chutes e escoriações nos braços e perna. Registro de Queixa na Delegacia Especial do Turista, matérias na imprensa.

4 - Já teve que entrar na justiça muitas vezes para ver seu direito
respeitado?
LUIZ MOTT - Queixas-crimes registradas por Luiz Mott na Justiça da Bahia
Na década de 80, registramos diversas queixas na Secretaria de Segurnça Pública da Bahia contra o jornalista José Augusto Berbert, de A Tarde, por constantes ataques contra Luiz Mott e contra o GGB, pela utilização de termos vulgares e calúnias.
O Serviço Jurídico da Univ.Fed.da Bahia negou duas vezes meus pedidos para incluir meu parceiro Marcelo Cerqueira na condição de "união estável" como ocorre com os "amásios" heterossexuais. Mais recentemente, em 2001, entrei com uma queixa crime contra uma jornalista que me chamou de "viado equivocado" num jornal de Salvador. Creio que tive de recorrer à justiça contra a homofobia uma dezena de vezes: contra jornais e jornalistas, contra médicos preconceituosos, contra emissoras de televisão.

5 - Como anda hoje o movimento? Faça um panorama rápido do início atéhoje, números de adesões? A última passeata foi uma prova de como o movimento vem ganhando força.
LUIZ MOTT - O Movimento Homossexual no Brasil nunca esteve tão forte como nesta entrada do 3o milênio: vários projetos de lei em andamento conferindo maiores direitos e cidadania aos homossexuais; 70 grupos de gays, lésbicas e travestis espalhados de norte a sul do país; a fantástica passeata qu reuniu 120 participantes; j30 candidatos GLST para as próximas eleic\ções, enfim, parece que estamos acelerando o carro da história.
Sobre a parada gay:
250 mil gays, lésbicas, travestis, bissexuais, drag-queens, transexuais, gogo-boys e simpatizantes desfilaram na 4a Parada do Orgulho Gay de São Paulo. A maior concentração homossexual em toda história da América Latina.
De acordo com o Relatório Kinsey, os homossexuais representam 10% da população do mundo ocidental, o que permite-nos avaliar que só na Paulicéia Desvairada devem existir por volta de dois milhões de gays, lésbicas e transgêneros. Conclusão: mais de 90% dos homossexuais de S.Paulo não saíram da gaveta, continuam enrustidos.
Essa fantástica manifestação popular, para que não se transforme tão somente em mais um carnaval fora da época, e para contrabalançar os efeitos negativos na população mais conservadora, devido aos excessos de nudez e homoerotismo inevitáveis em celebrações dionisíacas, deve a parada do orgulho gay necessariamente se politizar: estimular àqueles milhares de rapazes alegres e meninas de piso forte, a assumirem sua cidadania nos restantes 364 dias do ano. Pois verdade seja dita: a grande maioria dos manifestantes em vez de orgulho gay, no seu dia a dia, ainda vivem com o rabo escondido no meio das pernas, com medo e vergonha de dizer aos quatro cantos: é legal ser homossexual!
Que toda essa alegria do orgulho gay se solidifique em indignação e consciência cidadã. Ser homossexual é muito mais do que rebolar pela avenida ou desfilar fantasiado numa parada anual. É lutar para ser respeitado como ser humano com os mesmos direitos e deveres que os demais cidadãos. É se respeitar e impor respeito, pois só assim podemos dizer com orgulho: somos milhões, estamos em toda parte e o futuro é nosso

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