Entrevista n. 8
Sobre homossexualidade, movimento gay, futuro

Para A Notícia , Florianópolis, 11.2.2001 - Jefferson Saavedra

Joinville - Foram apenas cinco anos de casamento para Luiz Mott desistir do que qualifica como "farsa". Com duas filhas, o paulistano hoje radicado na Bahia se separou e assumiu a homossexualidade. "Eu me tive a felicidade de ver que estava vivendo uma hipocrisia, e que eu e minha mulher éramos suficientemente jovens para refazermos nossas vidas", lembra. A causa gay no Brasil ganhou um dos seus mais ferrenhos militantes. Presidente do Grupo Gay da Bahia, o professor e antropólogo da Universidade Federal da Bahia, autor de 15 livros, Mott conseguiu dar visibilidade à luta pelos direitos dos homossexuais. O professor nem chega a cobrar direitos, e sim igualdade com os heterossexuais, como reconhecimento da união civil e adoção de filhos, por exemplo. Aos 52 anos de idade, Mott reconhece que a luta dos homossexuais se manterá difícil por muito tempo. "Tem quer ser macho para ser gay", resume. Com relacionamento estável com Marcelo Cerqueira há doze anos, Mott tem entre os principais incentivadores as duas filhas do casamento fracassado. Abaixo, a entrevista concedida À Notícia.


1. A Notícia - De forma foi realizada a luta dos homossexuais nos países nos quais houve avanços da causa, como a permissão para união civil na Holanda?
Luiz Mott - O movimento homossexual surgiu na Europa exatamente na Holanda em 1948. A sociedade holandesa, assim como a dinamarquesa, sueca, norueguesa, é marcada pela tolerância e respeito aos direitos humanos. Assim, os homossexuais se mobilizaram para que uma das primeiras conquistas, além da proibição de discriminação devido à orientação sexual, fosse a igualdade de direitos em relação aos heterossexuais no caso da união civil. Foi levado em consideração que são países em que o inverno frio dura a maior parte do ano dificultando as aventuras amorosas, conquistas. A maioria das pessoas prefere estar no verão já estar com relação estável para garantir estabilidade no inverno.

2. AN - No Brasil, a discriminação contra os homossexuais é da idade do País?
Mott - O Brasil tem um triste destaque no cenário mundial. É o campeão de assassinatos de homossexuais. A cada dois dias, um gay, lésbica ou travesti é barbaramente assassinado, vítima da homofobia. O Brasil tem uma tradição de intolerância em relação à homossexualidade que foi imposta pela própria tradição católica e reforçada pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. E ainda pela legislação civil. Desde a implantação das capitanias hereditárias, os primeiros regimentos permitiam que fossem condenados à morte os praticantes do crime de traição nacional, quem confeccionasse moedas falsas, os hereges e os homossexuais. A sodomia era considerado o mais torpe, sujo e desonesto pecado. Segundo a crendice supersticiosa da época, o sodomita provoca a ira divina, causando inundações, tragédias, pestes. Até a AIDS, recentemente, teria sido um castigo divino. De modo que a condenação do "crime" de sodomia era tão rigorosa, com punição tão severa como matar o rei.

3. AN - Por que a implicância das religiões com a homossexualidade?
Mott - Segundo pesquisas antropológicas, 36% das sociedades humanas são hostis à homossexualidade. O restante é favorável. Infelizmente, o ocidente faz parte da civilização judaico-cristã (e isso ocorre nos países islâmicos) consideram a homossexualidade o maior dos pecados. A explicação antropológica para essa intolerância tem a ver com a política ou ideologia demográfica: os povos queriam crescer sua população ao máximo. Qualquer ato sexual que não fosse reprodutivo ia contra esse projeto civilizatório.


4. AN - E no caso da Igreja Católica?
Mott - No caso específico da religião católica, há estudos de pesquisadores americanos e europeus que mostram que houve mais tolerância na Idade Média do que observado hoje em dia. A partir do século 14 que a Europa de torna extremamente preconceituosa, dominando a partir daí o anti-semitismo e homofobia. No que se refere às protestantes, que são as que têm demonstrado mais intolerância hoje, eu tenho uma explicação. Os homens protestantes, pelo código de moral estrita, rígida, eles fogem do padrão do macho típico latino-americano, o brasileiro. Eles são conquistadores, eles não adulteram, não ficam assediando sexualmente as mulheres, casam virgens. O estereótipo do crente tradicional fica bem mais próximo do gay do que do machão. Exatamente para evitar o estigma, o perigo de serem tachados de homossexuais, existem os mecanismos de auto-reforço. Na verdade, a intolerância protestante se reflete nas várias seitas. Na Universal do Reino de Deus, por exemplo, existem sessões de exorcismo como se homossexualidade fosse possessão demoníaca. Outras igrejas protestantes têm programa de cura de homossexuais, como Êxodus e Gênesis. Programas que já foram condenados pelo Conselho Federal de Psicologia como sendo um charlatanismo. Homossexualismo não é doença e por isso não há o que ser curado.

5. AN - Existem 70 teorias para tentar explicar as causas da homossexualismo. Existem hoje algum consenso?
Mott - Em primeiro lugar, o termo politicamente correto para definir o amor entre duas pessoas do mesmo sexo é homossexualidade e não homossexualismo. A idéia do "ismo" está ligada à uma patologia, a uma doença. Em 1985, o Conselho Federal de Medicina excluiu o homossexualismo como doença, mesma medida tomada em 1990 pela Organização Mundial de Saúde. Em 1999, o próprio Conselho Federal de Psicologia também reforçou que a homossexualidade não é doença. Qualquer tentativa de cura da homossexualidade vai contra os princípios éticos da medicina e psicologia.


6. AN - Mas e as causas?
Mott - Quanto às causas, os homossexuais sempre costumam dizer que não interessa descobrir quais são, pois a sexualidade humana é diversa. Como dizia o Freud, ela é polimorfa. Assim, o mesmo princípio que leva algumas pessoas a serem heterossexuais, ou a gostarem dos dois sexos, no caso dos bissexuais, também existem algumas pessoas que gostam de parceiros do mesmo sexo. O que nos interesse mais é saber as causas da intolerância, da homofobia, e como superá-las. Eu, pessoalmente, quanto professor e doutor em antropologia - que procura fazer da ciência sua régua e compasso - considero que todas as pesquisas sobre a homossexualidade, desde que realizadas dentro de princípios éticos, são bem vindas e importantes. Principalmente para descartar pseudo teorias que já foram completamente superadas.

7. AN - Por exemplo?
Mott - No Rio Grande do Sul, o professor Renato Flores, da UFRGS, realizou uma pesquisa com a participação da Universidade Federal da Bahia com a participação de gays e lésbicas indicados pelo próprio Grupo Gay da Bahia. Nesse estudo, estamos descartando algumas teorias que foram moda. Uma delas, por exemplo, defendida no Japão e na Austrália, dizia que as impressões digitais dos homossexuais são diferentes das dos heterossexuais. Isso foi descartado. Tem outra brincadeira científica que diz que os homossexuais tem os dedos diferentes dos heterossexuais.

8. AN - O abuso na infância também é outra pseudo teoria?
Mott - Infelizmente, esta pseudo teoria que os homossexuais foram abusados na infância tem sido muito repetida, principalmente por psicólogos de origem evangélica, que vêem a homossexualidade como uma infelicidade, como resultados de experiências negativas. Um psicólogo paulista chegou a publicar na década de 80 que a maioria dos homossexuais eram pessoas feias que tinham dificuldade de encontrar parceiros do sexo oposto, então se conformavam em manter relações com quem sobrava, no caso, do mesmo sexo. Isso é absolutamente equivocada, errôneo. Homossexuais são fisicamente, biologicamente e psicologicamente iguais aos heterossexuais, inclusive no que se refere à capacidade intelectual, à fama e à criminalidade. Até deveria haver mais homossexuais revoltados com a opressão e estigma e reagindo com ações anti-sociais. No entanto, a criminalidade dos gays, lésbicas e travestis é equivalente à dos heterossexuais.

8. AN - Na média, como os brasileiros reagem à homossexualidade?
Mott - O Brasil é um País contraditório no que se refere à homossexualidade. Por um lado é campeão de assassinatos de homossexuais, por outro lado a presença de homossexuais na artes, sobretudo na televisão, música, teatro, é uma constante. A presença de travestis na televisão, carnaval, também ocorre, o que escandaliza muitos países onde há mais respeito aos homossexuais mas há menos visibilidade. Essa contradição de manifestou de forma evidente no começo dos anos 90 quando a transexual Roberta Close foi eleita como modelo de beleza da mulher brasileira. Não existem estatísticas sobre a homossexualidade, apesar da insistência do Grupo Gay da Bahia para que o IBGE a variável orientação sexual no censo. Aliás, essa ausência de dados dificulta a elaboração de políticas públicas para os homossexuais.

10. AN - Mas de que forma se manifesta o preconceito ao homossexual?
Mott - Algumas pesquisas de institutos confiáveis mostram que o grau de rejeição aos homossexuais em algumas áreas, como formadores de opinião, chega a 80%. Isso é preocupante porque a televisão, a mídia, ou omite a presença de homossexuais dignos, respeitosos e bem-sucedidos, através do complô do silêncio, ou então exibem caricaturas ou estereótipos que reforçam o preconceito. A tal ponto que recentemente, em um encontro de psicólogos protestantes, uma "ex-lésbica" vinda do Canadá falou que a homossexualidade era uma infelicidade, uma parada no desenvolvimento da personalidade. Nesse mesmo dia em que foi publicada a notícia, um jovem soropositivo homossexual tentou o homicídio por ter sua auto-estima rebaixada ao nível mínimo. Eu considero que todas as minorias sociais, os gays, lésbicas e travestis são os mais discriminados, porque a intolerância começa dentro de casa. Enquanto que uma criança negra ou deficiente tem todo o apoio da família para enfrentar a hostilidade, os homossexuais tem que viver escondidos. Se os pais descobrem, são insultados, às vezes obrigam a tratamento compulsórios e inócuos, surram a ponto de matar em alguns casos. No Brasil, precisa ser muito macho para ser gay no Brasil.

10. AN - Até que ponto seria recomendável ao homossexual sair do armário?
Mott - A questão de sair do armário já foi alvo de muitas discussões, inclusive teóricas. Por que o negro tem orgulho de admitir a negritude? Os índios cada vez se orgulham? Por que o homossexual tem que viver na sombra, dentro da gaveta? Como eu disse, de todas as minorias, os homossexuais ainda são discriminados. Ainda permanece com o maior tabu do Ocidente. Infelizmente, grupos de defendem os direitos humanos, pessoal da igreja, inclusive profissionais do sexo, ainda tem aversão ao homossexualismo. Muitas vezes pela influência do Papa João Paulo II, que chegou a declarar que o homossexualidade é intrinsecamente má. Acho fundamental que as pessoas saiam da gaveta, se assumam, sobretudo as pessoas mais famosas. Assim, eles estarão fornecendo modelos positivos para os jovens homossexuais, que não tem nenhum ícone. Saberão que o homossexual poderá ser uma pessoa bem sucedida. No caso da pessoa se assumir e receber represálias profissionais e familiares, isso obviamente será negativo. Mas no Brasil já existem punições para quem discrima por orientação sexual. Falta um cálculo de custo-benefício das pessoas famosas. Todo mundo sabe que tal artista, cantor, ator, é homossexual mas eles preferem permanecer na gaveta por uma mera paranóia, burrice.

12. AN - Não seria uma decisão mercadológica?
Mott - Não. Muitos que se assumiram não perderam sua fonte de renda ou seus fãs. Pelo contrário, não só dá mais tranqüilidade emocional, essas pessoas ficarão na História como heróis contra a hipocrisia. Quem não se assume é escravo e escraviza. Tanto que nesse mês de abril o Grupo Gay da Bahia vai lançar o Dia Nacional da Verdade Homossexual (2 de abril), no qual vamos estimular que as pessoas famosas homossexuais se assumam. O número de suicídios de jovens homossexuais é três vezes maior que no caso dos heterossexuais.

13. AN - Qual sua sugestão para pais homossexuais?
Mott - Em primeiro lugar, minha sugestão que a pessoa que se considere predominante homossexual, jamais case. No caso de homossexuais já casados, com filhos, resolvem se separar, a orientação é que não escondam nada dos filhos. Não há risco nenhum que filhos de homossexuais serão homossexuais. Meus pais não eram. Há pesquisas que mostram que mostram que ter pai homossexual em nada interfere na orientação dos filhos. E mesmo que o fossem, não teria problema nenhum, afinal não é crime, doença. É só preconceito que alimenta esse temores sobre a adoção de crianças pelos homossexuais.

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