Moçambique

Consiglieri Pedroso e a Casa Amarela

A Consiglieri Pedroso junto à Praça 7 de Março. Creio que a caixa de correio estilo inglês ainda permanece junto à esquina, ao lado do Museu da Moeda (Antiga Casa Amarela).



Não é perfeitamente conhecida a data que a "Casa Amarela",onde se encontra instalada a 1 esquadra da polícia na Praça 7 de Março, teria sido construída.

Em declarações da D.Emília Fernandes da piedade, uma senhora inglesa com quem o pioneiro Manuel Fernandes da piedade casou em durban e trouxe para lourenço marques em Junho de 1866, a "Casa do governador erguia-se onde é hoje a Praça 7 de Março e era um edifício grandioso". presume-se que a senhora se referisse no seu depoimento, recolhido nas colunas do "Lourenço Marques guardian", na edição de 25 de Novembro de 1907, a esse edifício . Sendo assim, ele completa este ano aproximadamente 140 anos e deve ser dos mais antigos de Lourenço Marques.

Lourenço Marques era ainda um "presídio" quando a casa foi construída, como habitualmente com pedra penosamente trazida da ponta Vermelha. Estava-se ainda a dez anos da data em que El-Rei D.Luís I elevaria o povoado à categoria de vila. Não passava então de um povoado pobre.

A então Travessa do tenente Valadim, em determinados pontos, dava franco acesso à praia. Dessa praia uma imunda viela vinha morrer na Praça, então chamada da Picota, ou Praça do governador, e que, mais tarde, veio a chamar-se 7 de Março, em memória da data da chegada da Expedição de Engenheiros.

PATRIMÓNIO DO ESTADO DESDE 1873

Em nota das Obras Públicasm transcrita no Boletim Oficial N 2, de 9 de Janeiro de 1875, encontra-se referência de que o edifício fora adquirido pelo Estado em Novembro de 1873, pela quantia de 750 libras esterlinas. O seu estado de conservação não era mau.

O aspecto exterior não seria muito diferente do que se apresenta actualmente, mas nota curiosa: dispunha de terraços, talvez para desafogo nos dias terríveis do Verão africano. Dessa comunicação pode ler-se o seguinte:

"Esta casa, depois de realizados os melhoramentos em projecto e que sobre os terraços se adicione uma cobertura de zinco, tem muito boas condições para o fim a que se destina e oferecendo longa duração. Os quatro compartimentos em projecto, destinados dois para secretaria e armazém da delegação da fazenda, ficando por este efeito esta repartição bem acomodada e dando resultado a resid~encia dispor de mais um quarto e armazém, sobretudo completamente independente de estranhos. Os outros dois compartimentos para gabinete e armazém de instrumentos para a secção de obras públicas e competente armazém para arrecadação de sobressalentes. A quantia a despender com esta obra é, decerto, bastante insignificante; temos cal e madeiras, só nos resta a aquisição da pedra e zinco para a cobertura.

Para a cobertura de zinco sobre os terraços do prédio já existentes pelas mesmas circunstâncias só há a despender com a compra do zinco, calculado em duas e meia toneladas; a despesa a fazer-se não excederá a quantia de cento e setenta libras. Tanto este como aqueles melhoramentos são de imediata necessidade mas muito principalmente a cobertura proposta, porque atento ao mau estado dos terraços, muito em perigo está o edifício e por consequência os valores que nele se abrigam".

Eduardo de Noronha confirma que o edifício "foi comprado em 1873 a um particular ( não indica o nome) pela soma de 3.375$000 réis". e era ali que residiam os governadores. Por várias vezes, porém, se alojaram lá as repartições públicas até que definitivamente se instalaram nesse edifício, em 1892, funcionando ali " a secretaria de Fazenda, Arquivo, Correio, Almoxarifado e delegacia". Há, porém, dúvidas que o Correio, tenha estado de facto ali instalado, como afirma Eduardo de Noronha, que informa ainda que desde "4 de Outubro de 1875, gastou-se com reparações e apropriações de várias espécies a soma de 17.415$706 réis". è de crer que nesses trabalhos de reparação do edifício estariam incluídas as obras com a cobertura em zinco dos respectivos terraços mais tarde substituída por telha.

REUNIÃO DA PRIMEIRA CÂMARA MUNICIPAL

Nesse histórico edifício realizou-se no dia 6 de Setembro de 1877, sob a presidência do comandante Augusto Vidal de Castilho Barreto e Noronha, então Governador do Distrito, a primeira reunião da primeira comissão municipal que teve Lourenço Marques, após a criação da vila e instituição do seu Município por força do decreto de 9 de Dezembro de 1976 de El-rei D.Luís I. dessa primeira comissão municipal faziam parte como vereadores os comerciantes Pedro António de oliveira e joaquim Thomaz da Fonseca. Esse facto éra rememorado numa lápide colocada no átrio dos Paços do conselho de Lourenço Marques.

A comissão municipal continuou a funcionar naquele edifício até Agosto de 1878, data em que a Câmara se instalou numa casa pertencente a Joaquim Thomaz da Fonseca, naquela que viria a ser a AV. da Replública e ficaria situado onde se ergue o edificio moderno que era o "P.Santos Gil".

O SEU ENQUADRAMENTO NA PRAÇA EM 1882

A Praça 7 de Março aparece-nos enquadrada em 1882 (depoimento de Eduardo de Noronha) pelas feitorias holandesas e a francesa, Casa Régis, a Resid~encia do Governador e algumas moradias particulares. A erva crescia à vontade nessa praça, em redor da qual vegetavam árvores enfezadas, atestando bem o martírio de sedes por que que haviam passado. À beira-mar, a emparelhar com o velho presídio de Nossa senhora da Conceição, do outro lado da Praça ( em terreno depois ocupado pelo edifício do conselho de Câmbios e Estudos Gerais) " acumulavam-se as repartições públicas num edifício de pavimento térreo de fantasiosa arquitectura com pretensões a estilo entre mourisco e gótico, risco e execução do major Joaquim Lapa." Esse edifício foi entregue pelo Governo ao serviço aduaneiro para instalar nele a Alfândega.

NO TEMPO DE ANTÓNIO ENES

O Comissário Régio António Enes, deixou da "Casa Amarela" uma curiosa descrição no seu livro de memórias "A Guerra em África, 1895". Diz ele:

" Nos seus prédios de construção utilitária, distribuídos por duas ruas principais, cortadas por travessas, e numa praça, a de sete de Março, comprimiu o Estado as repartições públicas, e o comércio dilatou os armazéns; o mouro e o baneane vendem algodões e avelórios nas lojas das casas onde as hospedeiras empilham ingleses, os caixeiros dos bancos contam libras ao som dos pianos dos "bars" vizinhos, as estâncias de materiais de construção tapam com as medas de tabuado e de chapas de zinco as janelas das habitações, os estabelecimentos grávidos da latarias luzentes e de garrafões de álcool disputam o terreno aos cafés, que têm por tabuletas criadas louraças encostadas às ombreiras da porta com as costas das mãos nos quadris.

A uma esquina da praça Sete de Março, a Residência do governador do distrito, a Secretaria do Governo e a repartição de Fazenda empurram-se e acotovelam-se dentro das quatro paredes e do pátio duma casa abarracada, por cujas janelas baixas os negros vadios espreitam para dentro os arcanos da administração pública e que precisa ter sempre ao portão ordenança e polícias para não entrarem lá estrangeiros a pedir, por engano, bifes na grelha ou copos de "whisky". Faz-lhe "vis-à-vis" o edifício do Banco Nacional Ultramarino, bonito, dum coquetismo piegas, com trepadeiras floridas enroscadas na balaustrada da varanda. O resto da moldura da praça é formada de casas comerciais principalescas, tais como Règis, Pott, Mac-Intoch, soberbas dos seus armazéns imensos e empavesadas com bandeiras e escudos consulares, pela Alfândega, que deixa ver através dos gradeamentos pátios desarranjados. pela Capitania do porto, um casarão amarelo abeirado da praia, e o centro do "square" foi destinado para recreio pela edilidade, que embainhou com arvoredos o seu chão esquadrado e encarnado como um lenço de rapé, e entre as bainhas bordou canteiros de flores em torno dum coreto fantasiado onde certas noites a banda do batalhão indígena - cognominada arroz e caril - interpreta música europeia com a lazeira peculiar da Índia e a estupidez própria da África".

SECRETARIA-GERAL E ADMINISTRAÇÃO CIVIL

Na "Casa Amarela", da Praça 7 de Março estiveram instalados até à II Guerra Mundial e anos seguintes a Secretaria-Geral e a Direção dos Serviços de administração Civil. Quando a Administração Civil transferiu as suas instalações para o Prédio Fonte Azul, acabado de construir, instalou-se nele a 1a Esquadra da polícia.

Em Março de 1959, pensou-se na venda do imóvel pertencente ao estado, abrangendo o edifício anexo, até há pouco ocupado pela Inspecção dos Serviços de administração Civil, com base de licitação não inferior a 5000$00 o metro quadrado. A ideia, porém, foi posteriormente posta de parte.

PROCLAMADO MONUMENTO NACIONAL E DESTINADO A MUSEU HISTÓRICO DA CIDADE





Devido ao entusiasmo do distinto historiador Dr. Alexandre Lobato, que nesse sentido encontrou apoio seguro tanto na Comissão de Monumentos e Relíquias Históricas de moçambique como do antigo governador-Geral Almirante Sarmento rodrigues a "Casa Amarela" acabou por ser finalmente proclamada "monumento nacional" e transferida para a posse do Município de Lourenço Marques para instalação nela do Museu da Cidade, recentemente criado.

A portaria da sua proclamação tem o N 17.685, é datada de 8 de Abril de 1964 e foi publicada em suplemento ao Boletim oficial de 11 de abril de 1964.

A velha "Casa Amarela" da esquina da Rua Consiglieri Pedroso para a Praça 7 de Março tem alto significado histórico que interessa legar intacto e valorizado á memoria dos homens que é naturalmente dada a esquecer-se do esforço e do sacrifício das gerações passadas.

Com efeito, dali se governaram presídio, vila e cidade, sucessivamente, e o vasto "mato" em redor; se processou toda a política de convíviuos para a pacífica integração dos povos na vida nacional. se regeu a primitiva economia so sul de moçambique baseada no comércio do marfim,, que foi interesse que aliciou as populações, atraiu colonos e abriu o sertão; dali, em resumo, partiram todas as iniciativas que culminaram numa transformação total da vida dos povos do distrito, como está patente e é iniludível.




Casa Amarela nos dias de hoje




Casa Amarela hoje (Foto de www.visitusinmaputo.com)

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