Cada vez mais as tecnologias permeiam todas as nossas ações e atividades cotidianas. Elas alteram a cultura social, o modo de viver, de se relacionar, de aprender e ensinar.Dentro do contexto educacional, os professores se deparam com um grande contingente de crianças e adolescentes, filhos das classes sociais com maior acesso aos recursos tecnológicos, que crescem vivenciando a tecnologia como uma coisa natural, rotineira e prazerosa. São indivíduos que tendem a interagir melhor em grupos, compartilham bem informações e as buscam de uma maneira ampla e multidimensional. E quanto aos educadores?
Será que estes estão abertos, plenamente capacitados a lidar com este público ávido, ágil em buscar e processar informações, que no futuro se tornarão multiplicadores de informação?
Qual o perfil do educador para acompanhar esta evolução no processo educacional, atuando como facilitador, direcionando toda essa avidez e curiosidade para resultados de aprendizagem eficazes, em busca da formação de cidadãos plenos, com visão multidisciplinar, capacitados a entender e fazer novas relações?
Que valores deveriam ser passados a estes alunos? O que é educar? O que é educar em vista de incorporar a tecnologia no cotidiano da sala de aula? Para isto se faz necessário levantar e talvez rever as crenças que sustentam as atitudes dos professores em relação ao uso das tecnologias, em especial ao uso da informática como ferramanta facilitadora no processo de ensino aprendizagem.
Como ser crítico e ter um novo olhar sobre o uso da tecnologia computacional na educação, sem estar num estado de deslumbramento total( ciente das limitações e dificuldades pessoais e de infraestrutura que possam ocorrer na implantação e uso de projetos educacionais) , e por outro lado, resistir até mesmo em pensar em aplicá-las no dia a dia da sala de aula?
Como lidar com as diferenças sociais, o panorama de exclusão social e de informação? A implantação e uso da tecnologia na educação deve ser extendida sem limites para aqueles que tem problemas mais graves no cotidiano social?
Na nova sociedade globalizada desta virada de milênio, a nova moeda , o novo bem de capital é a pessoa , o conhecimento que esta detem e as possibilidades deste no decorrer de sua vida pessoal e profissional. Valoriza-se a pessoa que tem o conhecimento, poder é conhecimento. As pessoas são vistas como um patrimônio ativo da sociedade, da empresa ou entidade educacional onde trabalha, patrimônio que detem o conhecimento dominante.
Esse conhecimento, antigamente era obtido quase que exclusivamente através de educação formal, limitada a uma formação acadêmica regular, medida em ciclos estruturados. Bastava ao futuro profissional possuir uma formação básica , generalista de ciências e humanidades nos primeiros anos de ensino regular, para mais tarde ao entrar na universidade buscar se desenvolver em um assunto específico, a que se deteria pelos anos seguintes da carreira.
Eventualmente, os mais curiosos e embuídos de um espírito acadêmico, iriam em busca de cursos de extensão para aumentar sua expertise. As informações transformadas em conhecimento, ficavam mais contidas, como fonte pessoal do indivíduo, um banco de recursos próprios para seu desenvolvimento pessoal, eventualmente compartilhado.
Os tempos mudaram, os valores são outros, a cultura é cada vez mais globalizada exigindo uma mudança no perfil do cidadão e profissional apto a estar inserido neste novo contexto social.
Quando pensamos o processo educacional no contexto social e tecnológico dos dias de hoje e com um olhar para o futuro, é importante questionarmos para que, para quem e como educar.
Se formos conscientes da visão do que se deseja em termos de sociedade, da missão da escola e de seus membros como formadora de cidadãos que se alinhem adequadamente a este novo quadro social e econômico, podemos elencar as capacidades, do educador e do aluno neste quadro futuro; ações que são necessárias hoje para que se atinja o quadro imaginado para o próximo milênio.Educadores com habilidades de formar crianças e adolescentes tendo em vista cidadãos e profissionais atuantes, multiplicadores dos valores sociais apreendidos durante a educação formal e informal.
Cabe a nós, educadores contemporâneos uma parcela significativa do movimento de mudança do contexto atual ao novo paradigma da educação, seja ele utópico ou não, onde a ênfase está no educar centrado no crescimento pessoal e coletivo, na busca da auto consciência e da visão ecológica, na autonomia para a vida e nas competências conscientes. Em busca de um sujeito integrado numa nova era, relacional, apto a viver em ambientes distribuídos de informação e ecologicamente conscientes e críticos de seu papel social num universo cada vez mais globalizado, multicultural, sem as antigas fronteiras geográficas e de conhecimento.
O se observa é que os atuais alunos sem que se dêem conta, aprendem o tempo todo, com ou sem a escola formal, estão sendo educados, especialmente quando as informações chegam a eles de uma maneira mais lúdica, informal, menos consciente das possibilidades de aprendizagem.Se na educação não formal as tecnologias são em geral bem aceitas, por que isso não ocorre na educação formal? Ocorre que a escola que não utiliza tecnologia, informática, acaba perdendo pontos ao ver deste aluno acostumado a interagir naturalmente com as multiplas mídias do cotidiano, receptor e usuário diário da tecnologia.
Que diferentes papéis, funções tem os recursos audiovisuais e especialmente o computador na transmissão de informações relevantes, por exemplo uma filme ou documentário em vídeo, um programa de TV comercial ou a cabo , o computador conectado na Internet na sala da casa do estudante ou educador, quando ele é usado em busca de novos artigos, materiais para pesquisa, leitura de jornais e revistas on line, para jogar video game ou entrar num chat?
São elementos lúdicos e portanto atraentes, além de familiares. Cresce-se convivendo com toda essa parafernália eletrônica.
Quando se pensa nesses recursos utilizados na educação formal, as coisas mudam de figura. Apesar de educadores e coordenadores concordarem com a utilidade e validade enquanto ferramental de impacto pedagógica dessas mídias no processo de ensino aprendizagem, ainda hoje esbarramos em resistências quanto ao uso cotidiano ou continuado delas. Será que nosso conceito de educar se restringe somente ao espaço restrito entre quatro paredes de uma sala de aula, com um detentor do conhecimento falando para meros ouvintes acríticos ou sem espaço para refletir e questionar?
A possibilidade da utilização de recursos audiovisuais , sejam eles vídeos, CD ROMS, Internet ,na educação exige um novo repensar pedagógico. Estes recursos por serem não lineares modificam a fruição do conhecimento. Tornando-o totalmente individual , desenvolvido no ritmo particular do estado cognitivo do sujeito que interage com essas tecnologias. Isto é interessante e inovador pois tira da mão da escola e do educador formal a exclusividade e total responsabilidade da forma que sempre se ensinou e aprendeu, dá mais autonomia, flexibilidade ao aprendiz, possibilita que a nova informação mature melhor, que o educando faça relações mais ricas e aprofundadas entre este novo conhecimento e o que já faz parte de seu background teórico e vivencial.
Se alguns educadores e acadêmicos há algum tempo pensam sobre a utilização destas novas tecnologias e as aplicam em sala de aula existem ainda amplos vácuos de como lidar com estes novos paradigmas educacionais.
A missão das escolas, enquanto organizações, é de um modo geral prover formação e transmissão de conhecimento de qualidade a seus alunos. Para isso é preciso contar com o suporte pedagógico de um corpo docente sábio, consciente de seus potenciais, aptos a vencerem com elegância e eficácia os desafios do cotidiano da sala de aula ou coordenação. Profissionais em constante processo de atualização, aprendendo sempre, criativos
e flexíveis no ensinar, gerenciando equipes com satisfação, flexibilidade , criatividade maestria e responsabilidade.Desta forma, aumentando o seu desempenho como um todo e fazendo com que o processo educacional seja fluido, sinergético e produtivo.
É hora de repensar se realmente contamos com educadores com perfil adequado para que esta missão se realize, pois os paradigmas educacionais estão mudando, o mundo está se globalizando a todo vapor, e ninguém em sã consciência quer perder o trem da história, correr o risco de se tornar um "excluído cultural" mesmo tendo capacidades que outrora eram tidas como suficientes para ser um bom professor, um educador de primeira linha.
A realidade educacional brasileira é feita de contrastes violentos. Se por um lado temos uma rede pública defasada nas mais primárias condições de infraestrutura física ( luz, telefone, espaço físico adequado, material didático, merenda) e carente de capacitação ( com milhares de professores leigos ministrando aulas para alunos em diferentes estados de desenvolvimento cognitivo numa mesma classe), contamos também com núcleos de desenvolvimento acadêmico de primeiro mundo e projetos de ponta em Universidades Estaduais e Federais.
Há também inúmeras escolas da rede privada empenhadas em capacitar seu corpo docente de maneira contínua e planejada, implantar atividades interdisciplinares instigantes aos educandos, implementar os mais modernos recursos tecnológicos possíveis a serviço da Educação.
Com raras exceções, a política educacional brasileira, mesmo com seus arroubos de desenvolvimento progressista coletivo, sua vontade de implantar programas capazes de prover capacitação para educadores e disseminar uma nova maneira de ensinar usando recursos tecnológicos ( sejam eles TV, vídeo, Internet) ainda tropeça nas próprias pernas, se arrasta na burocracia, se perde nas mudanças de planos ao sabor das mudanças de seus dirigentes, na
falta de um planejamento estratégico que possibilite uma real implantação e continuidade destes projetos bem intencionados.Não adianta dotação de verba seja em esfera estadual ou federal, para a compra de computadores, vídeos, se não há quem os saiba operar. Mesmo havendo pessoal habilitado para isto, há necessidade de uma infraestrutura pedagógica que possibilite ver esse novo ferramental não como mais um recurso aliado ao ensino tradicional, ou um mero modismo tecnológico, mas como uma nova possibilidade de ensinar, um novo jeito de aprender.
Estamos aqui falando de mudanças de cultura, revisão de valores, do que se considera ideal que um aluno possa aprender, como ele pode aprender. É fazer com que estes educandos sejam formados dentro de um novo paradigma educacional, aprendendo a aprender, aprendendo a pensar, competências essenciais na sua vida futura quando se tornarem adultos.
Mas alguns poderiam questionar a validade da implantação dessas novas tecnologias em tão distante lugares, classes perdidas no fundo dos sertões desse País. Para que serviria um vídeo, um computador, uma TV numa precária escola rural?
A questão que se levanta é: se pudermos através da utilização de multimeios tornar mais atraente e cooperativa a educação formal, fazer com que ela fique mais praseirosa, mais próxima dos padrões estéticos e comunicacionais da educação não formal( TV, vídeo, cinema como lazer) por que não usá-las?
Se as linguagens audiovisuais possibilitam um aprendizado mais intenso, rápido, captam e cativam mais a atenção do espectador- aluno, seduzem-no pelos sentidos, pela emoção, por que não usá-las para a divulgação de informações que possibilitem a construção do conhecimento de novos valores sociais, de uma visão mais ecológica, do desenvolvimento sustentável ,da cidadania, de uma socidade mais justa e integrada num panorama global?
Se insistirmos na tese de que já há muita exclusão social e econômica para se ficar gastando verbas em tecnologia que possibilitem novas formas de aprender e ensinar, estaremos ratificando essa exclusão, pois aqueles de uma visão educacional mais ampla (e que teriam acesso a estas tecnologias) privarão uma geração de educandos de entrar em contato com esses novos recursos, e assim não teremos multiplicadores em número suficiente para a formação de uma massa crítica de educadores e aprendizes capacitados.
Texto extraído do site: http://sites.uol.com.br/cdchaves