Nunca se sabe


cuidado, a esa mujer le dispararon a traición y huye
anda herida de muerte, esperando algo
dicen que es peligrosa
que en ese estado puede deparar crueldades,
precisas municiones, y hasta cursilerías
afirman que donde hay luces ve estallidos
donde hay aglomeraciones pobreza ve
cuidado
porque herida de muerte como está
alcanza a divisar claramente los esqueletos detrás de la carne
los corazones atroces detrás de las muecas
no le importan la magia, el mal, los malvones
solamente confía en su soledad, los paredones y las leales sílabas
cuidado
la mujer en ese estado posee enorme dificultad para la metáfora
es capaz de bestialidad
y escalofriantes deformaciones del lenguaje
esa mujer herida de muerte puede decir:
cobarde, soberbio, mentirosa, criminal,
te deseo, te amo, sabia, muerto en vida
vegetal, venganza
con la misma facilidad con que cualquiera oculta,
mastica, pinta una pared,
conduce un automóvil,
se rasca la cabeza
o escupe sangre
cuidado
nunca se sabe cuándo una mujer está herida de muerte


Emilce Strucchi
Argentina, julio de 2004




Nunca se sabe


cuidado, essa mulher foi atraiçoada, e agora
anda ferida de morte, esperando algo

dizem que é perigosa
que nesse estado pode ser cruel
usar armas precisas, e até malabarismos

afirmam que onde há luzes vê explosões
onde há aglomerações vê pobreza

cuidado
porque ferida de morte como está
claramente consegue ver os esqueletos por detrás da carne
os corações atrozes por detrás das fisionomias

não lhe importam a magia, o mal, os cravos
apenas confia na sua solidão, nos paredões, e nas sílabas correctas

cuidado
a mulher nesse estado tem enorme dificuldade em entender a metáfora
é capaz de selvajaria
e de horripilantes deformações da linguagem

essa mulher ferida de morte pode dizer:
cobarde, soberbo, mentirosa, criminosa,
desejo-te, amo-te, sabia, morto-vivo,
vegetal, vingança

com a mesma facilidade com que qualquer um cala,
mastiga, pinta uma parede,
conduz um automóvel,
coça a cabeça
ou cospe sangue

cuidado
nunca se sabe quando uma mulher está ferida de morte


Tradução de Carmo Vasconcelos (Lisboa-Portugal, Julho de 2004)
Carmo Vasconcelos
Emilce Strucchi
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