Tríptico do sonho 1 Eram belas, no céu, as estrelas! Vinha longe a manhã... e era dia! Poder vê-las... poder merecê-las... Que delírio de cor florescia! Era amante a ternura do vento, afagando a liberta raiz... Era o tempo do pão e do alento, a sagrar, na verdade, a matriz. As crianças brincavam, na rua... As mulheres choravam, felizes... Esta terra era minha, era tua... Das feridas, tão-só, cicatrizes. De olhos torvos, querendo entender, os mastins, sem poderem morder... Várzea, SPS, 13.11.2003 2 Espingardas e cravos florindo garantiam a todos a paz... "Nunca mais voltaremos atrás" era o grito do sonho tão lindo! O poder era o povo e crescia... Era a vida cumprindo a promessa... Era o tempo do tempo com pressa, que corria, corria, corria... Era o sangue escaldante, nas veias... Era a sede de todas as fontes... Eram vales, planícies e montes, horizontes sem dor nem cadeias... Eram cravos de sonho florindo... O poema mais lindo... mais lindo! Várzea, SPS, 14.11.2003 3 Na candura, a nudez sem idade, a cantar a ternura do enigma, de si mesma se fez paradigma da grandeza da luz-claridade. Claridade de nós, de mãos dadas, ser de todos o todo que temos, da fartura do pão que comemos às crianças de sonhos perladas. Só que presa não rima com fera... Só que vida não rima com morte... Só que o verso de puro recorte sempre o zoilo indecente lacera... E novembro chegou, prussiano... e gorou o sonhar lusitano. José-Augusto de Carvalho Várzea, SPS, 15.novembro.2003 |
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