CONTO FANTÁSTICO Poderia dizer que foi uma noite intrigante... Os pássaros não se recolheram. Um bem amarelinho, chegou à janela dela e começou a cantar. Eram mais ou menos 20 horas. Logo após, a cantata começou e parecia não mais parar. Era canto forte, grave, afinado, canto para todo lado. Uma sinfonia sem par. Mozart, coitado, ficaria até acanhado diante da ousadia da natureza que nesse momento superava as belezas das melodias criadas pelo homem. Um raio de sol, de repente, entrou no quarto dela. Tudo o mais era noite, menos naquela janela. Aquela mulher nua, deitada de bruços, escrevia, e o sol começou a brilhar só para ela. O raio subia e descia pelas espáduas nuas, beijando o corpo daquela cinderela. Ela sentiu o seu calor, sorriu, gostou. Não procurou explicações, virou-se para recebê-lo, abandonou o texto para o lado da cama e amou o sol com cortesia. Meigamente, como gueicha, se entregou. Olhos fechados gemia orgasmicamente. Quando o amor terminou, sentiu-se aquecida, amada em demasia. O Sol pouco disse, mas ela registrou em sua memória: Ele voltaria. Aquela estrela de quinta grandeza saiu lentamente, foi se afastando, porém deixou a cama com um brilho incandescente e ela, adormecida numa grande letargia. Depois que a estrela se foi, a cantoria acabou e só ficou o passarinho na janela. Margaret Pelicano |
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