Antes de começar a escrever no computador, vamos abrir as janelas da palavra para paisagens interiores de cada coisa, de cada pensamento. Pessoas? Também claro, o que seriam paisagens sem olhos de admirar, sem o espanto que circunda cada manhã no coração do ser quase humano, que se esquece tantas horas que o é. O que há por detrás dessas janelas? A música de Paredes chora guitarras, enquanto a árvore de flores despindo-se, perde a alvura de há dias atrás. O que chega na música desse instrumento que a guitarra toca e que toca guitarra, e que não conseguiu que o seu génio lhe permitisse não só viver da obra conseguida mas também, que tal viver, lhe tenha aberto caminhos de horas que não pôde prender às mãos de guitarra. Afastaram o artista da sua Arte e fomos todos nós os espoliados. O minuto que Carlos Paredes não pôde dedicar à música; por imperiosa necessidade de permanecer vivo, foram composições que não puderam ser, que esperavam o génio libertador, que não permitiram que chegasse até elas. Produziu muito? Pois mais teria ofertado, inventado, criado. Assim a música portuguesa e nós o povo que a habitamos é que ficámos mais pobres! Paredes não. Ele é o génio que a graça habita, ele ficou quem era, músico e digno. Nos é que perdemos o direito de vir a defender um património que não deixámos nascer. Portugal, e seus artistas, nas mãos castradoras de um poder devasso e corrupto, que não reconhece seus maiores. Portugal que não chega senão a perder-se infinitamente de si. Portugal Camões Portugal Paredes. Marília Gonçalves |
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