Meu neto vem aí!



Estava trabalhando a mil no escritório, quando a cara-metade me liga e me conta as novidades.

A filha ligou dos USA. Dizendo que tinha ido ao médico, feito foto e ultrasom, e que o herdeiro era herdeiro com ô. Macho. Menino sô!

Acho que foi a primeira vez, desde que soube da gravidez, que me dei conta de que essa história não era pra boi dormir.

Ou seja: um neto a caminho, a coisa é mesmo de verdade. E hoje foi possível ver detalhes, até o pintinho do futuro. É verdade que eu nunca vi nada direito naquelas fotos, ao menos no meu tempo. Mas a emoção, o ouvir do coraçãozinho, sim, tudo isso era sempre muito emocionante. Saber que há vida - uma outra vida- dentro de você, é algo inaudito.

E hoje - embora não tivesse nem visto nem ouvido nada - fiquei sabendo pelo telefone o que estava ocorrendo lá no hemisfério norte, onde vive o tal Bush.

Agora que sei que o neto é O neto, espero que esse senhor mequetrefe se apoquente e se aquiete. Senão farei da educação dele "a vingança". Vou comprar todo algodão-doce que ele pedir. Vou mimá-lo (o que não podia fazer com meus filhos). O sujeito vai ser inteligente e rabugento, além de mimado, é claro.

Na intimidade, todos saberão que é uma vingança. E ele será meigo e terno (sem ser viado, claro, a despeito de nascer e viver em San Francisco).

Foi então que, saindo tarde do trabalho, pensando pequenas bobagens e tendo boas lembranças, comprei um bom uísque (o bom que o salário ainda permite), vim pra esse canto coletivo que é o Magriça, enchi o copo de gelo, derramei o cachorro (cachorro é o melhor amigo do homem, o uísque é o cachorro engarrafado, tuco copyright do Vinícius, que era chegado nos cachorros). E comecei a escrever.

Que nome terá meu neto? Já devem estar escolhendo. Pra mim, desde que não seja George, qualquer um está bom. Conheci um George legal, mas esse era russo: George Kamensky, muito boa gente. Agora, esse George, contemporâneo, que todo mundo conhece, esse não.

É engraçado saber que você vai ter um neto, por um aspecto. Parece que o tempo andou passando rápido demais, além da imaginação. Eu, se pudesse escolher, teria mais filhos, isso, teria sim (será já o efeito do cachorro?).

Claro que caio na real, todas as manhãs, quando encontro aquele maldito espelho. Faz questão de me mostrar os cabelos brancos, a gordura e as rugas. Decerto que penteio os cabelos, passo o perfume e até tento me enganar como algo que se apeteça. Mas sei que são atenuantes. Me fazem me sentir bem: os cabelos em ordem, as peles com suas pomadas e perfumes, a roupa bem passada e limpa. Tudo pronto para um novo dia.

Chega de falar de mim: o meu macho neto vem aí. E vem para provar que em San Francisco não há só viados. E mando um beijo grande-grande-grande para minha filha, que está gerando diariamente esta façanha mágica. Longe de mim e de todos que a querem muito. Exceto do marido, que também anda radiante, pelo que sei. Nós estamos aqui, nesse Brasil de Lula, cada dia mais estranho (agora vão distribuir cachimbos para que o pessoal que fuma crack não venha a pegar hepatite - assim como distribuem seringas e camisinhas para não pegar AIDS. É mole? É mole mas sobe, como diz o Simões).

Espero que meu futuro-presente neto ajude a melhorar este mundo. Lá ou aqui, não me importa. Importa que ele seja digno, respeitoso, consciente. Emagnânimo, claro. Afinal, é meu neto! E tenho dito!


Notívaga Noturna
Letra N
Menu