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Lua de março Soares Feitosa Era uma lua de dezembro, a última: vertigem e vertical, o centauro-de-mim apeou-se e gentilmente perguntou ao vento, às palmeiras, às tanajuras, às avoantes: Quem a jovem, de ar tão calmo, que fizera o potro estacar, corcovear, empinar? Então, as palmeiras, o Vento, as avoantes e as tanajuras foram voz: «É uma serrana, que também se assustou com o teu estranho ginete. «E fica sabendo, forasteiro, aquela que quase te matou de susto é a mais bela dentre todas as serranas, desta Serra que chamam Grande, dita também Ibiapaba: «A mais bela. Ela. Cuidado!» Disseram. E numa lua bem próxima, o mesmo potro, ainda mais selvagem, risca às porteiras, escarva o chão, e mais uma vez as palmeiras, as avoantes as formigas voadoras, quando também o Vento frio são chamados e confirmam: «Ela que não te esquece. «Vê, forasteiro, não chove há meses nesta serra, mesmo assim, os regatos murmurejam, o chão está ensopado de tanta lágrima: «Dela... de só. «Vieste roubá-la, temerário, neste estranho animal, que também é tuas costas, teus pés, tuas mãos? «Ficaremos sozinhos? Tens mesmo a coragem de levá-la? Achas, aventureiro, que deixaremos?» O potro-centauro não se intimidou e explodiu resoluto: «Vim buscá-la! Li nos olhos dela, ela disse que vai.» Ao que a tanajura, que sempre cria asas a se perder, disse: «Sinto que você vai roubá-la; não posso dar jeito. «Trabalho a terra, trabalho o céu: sou mais que pássaro, se ela vai, vou com vocês» Foi a vez da avoante: «A tanajura sabe pouco do mundo, nunca vai muito longe, voa só um pouquinho, se enterra outra vez. «Sou de arribar, arribaçã, groteio tudo, meu giro é amplo. Se a moça vai, quer'ir também.» A palmeira, puro ouro, puro verde, falou: «Não dou fé em bicho que avoa. Prefiro o chão, profundo, para enfiar, prefiro o céu, vazio, para subir! Donde raiz e céu contemplo tudo: estou! «No mesmo canto, todos os dias, todas as horas, tenho pacto com o Sol, que sabe e precisa de mim: por dentre o leque de minha copa, os bichos suavizam os olhos e contemplam, fulgente, o Sol, de levante e ocidente: é quando marco sombra vasta. «Quando não instalo sombra nenhuma, estou dividindo, ao meio, o dia! «Compadre Sol sabe disto «O Sol se aproveita do mim para irisdescer o vale: sem a franja da minha copa, o clarão do Sol seria um luzeiro sem matiz. Ele sabe! «O tamanho e a direção da minha sombra bendizem a aurora, abençoam o crepúsculo! «Mesmo assim, se a moça vai contigo, forasteiro, sigo também... «Onde chegarmos, deito raiz, raízes que serão tuas, raízes de céu, raízes de terra, pois de vasta descendência.» Eis que o Vento até então calado: «Não estou gostando desta conversa! «Já viste, forasteiro, o perfume da moça, senão quando do meu soprar? «A brisa, somente a brisa consegue trazer-te a fragrância da rosa. «Minhas: a brisa, a fragrância; talvez a rosa: minhas! «Lavro, para ti, os sons, as palavras murmuradas, quand'ela fala sozinha e diz teu nome. «Seriam a fugaz arribaçã, a louca tanajura que te levam recados? «Quantos segredos já foi-te contar a acomodada palmeira? «Confias, forasteiro, em asa de formiga? « Que a palmeira arrogante se retrate da fábula que inventou do Sol! Posso arrancá-la pela raiz! «Levo e trago os murmúrios do regato. Só eu sei peneirar a neblina: quando mestre Sol timidamente fabrica o Arco-íris, verdade mesmo, o Artista sou eu tanjo as nuvens! «Quem sustenta as aventuras da arribaçã? «Vê se ela atreve um vôo contra mim?! «Quem dá asas à tanajura senão este velho Vento? «E fica sabendo, forasteiro: para o conforto da moça, mando soprar ameno; porém, intrépido e tórrido aos corações, é assim que estremeço o assobio da noite às biqueiras da saudade quando a ausência é medo. «É assim que sei soprar, e assopro. Disse o Vento E decidido, compadre Vento finalizou: «De uma vez por todas, fica sabendo: se ela resolveu te seguir, também vou. Marquei território numa lua de março: Butim de guerra, butim de suusto: trint'anos, quero outros trinta! Sim, eu quero! ela disse. Salvador, madrugada alta, 30.04.1995 |