Digressão sobre a vida e seu sentido Antes de tudo, peço que me perdoem o estilo, acreditem, não é fácil encontrar um tom adequado em face de um tema tão grave. Temo parecer cansativo e por demais pedante, porém não pude fazer melhor. Quisera eu ser um velho ancião recolhido numa montanha ao invés de um jovem citadino de 23 anos para poder dirigir-me a vocês. Mas sobre o que eu iria falar mesmo? Ah, sim, sobre a vida... A vida, essa velha senhora conhecida de todos nós, constantemente me fascina e penso que a alguns de vocês também. Objeto de reflexão tão vago e escorregadio, e ao mesmo tempo, tão necessário... não concordam? Afinal, em que consiste a vida? Vejamos... a vida pode ser tudo e também pode não ser nada, somos nós, seres viventes que a determinamos. Isso de acordo com o existencialismo de Sartre. Na prática, estamos completamente inseridos na vida e nos seus objetos, sendo que nós próprios nos objetificamos, (a velha reificação) ao invés de nos mantermos como sujeitos ativos e interpretantes, conferindo sempre um sentido à nossa experiência (mesmo que não haja nenhum). Corroborando nossas humildes palavras, porém atribuindo outro sentido aos conceitos de vida e de existência, está outro mestre, o escritor Oscar Wilde: "Viver é a coisa mais rara no mundo. O que a maioria das pessoas faz não é mais do que existir." Com Sartre, nos díriamos inversamente que "Existir é a coisa mais rara no mundo. O que a maioria das pessoas faz não é mais do que viver". Isso porque a ex-sistência para Sartre é mais do que a vida, pois é um modo de ser especificamente humano. Somente o homem ex-siste. Isto porque através de uma projeção no nada, ele transcende o seu "ser em-si", transformando em "ser para si". Ou seja, deixa de ser "fenômeno" e torna-se "consciência". Mas deixemos a existência e voltemos para a vida... Em "Grande Sertão: Veredas", Riobaldo nos diz que "a vida não é entendível", frase com a qual concordo, porém reluto teimosamente em aceitar. Riobaldo também nos diz: "Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer, para mim, é quase igual perder dinheiro". Sou como Riobaldo: não gosto de esquecer. Isso porque quando eu esqueço alguma coisa, sinto que estou perdendo um pedaço da minha vida. Vida a que tanto me apego justamente por ser "minha" (doce ilusão). Esqueci-me já de tantas coisas... umas agradáveis e outras desagradáveis. Até mesmo as lembranças desagradáveis não gosto de esquecer. Afinal fazem parte da minha trajetória temporal. Dá até dó de ver que as intensas paixões platônicas da adolescência foram todas por água abaixo. Os rostos dessas antigas musas se perderam no tempo. Nem mesmo consigo rememorar o que sentia direito. E olhem que eram sentimentos tão nobres e elevados! Vários bons momentos com a minha família também se perderam. Momentos de minha infância, de brincadeiras na rua com meus amigos. Minha vida está toda mutilada. Uns poucos pedaços estão na década de 80, outros na década de 90 e a maioria de 2000 para cá. Experiências que pareciam inesquecíveis são esquecidas tão facilmente que eu agradeço se sobram retalhos. Creio que isso acontece com vocês também, meus leitores. Quanto a mim, queria guardar tudo o que já vivi. Não esquecer nada, nadinha. No entanto, nossa memória é limitada e também é seletiva, está presa aos nossos interesses imediatos. Se eu fosse o mesmo jovem ingênuo de minha adolescência, com certeza, me lembraria de todas as musas. Se eu continuasse apaixonado por minha ex-namorada, com certeza, teria vivo em minha memória os momentos mágicos que passamos juntos. O fato é que todos nós mudamos. Foram outros "Thiagos" que viveram esses momentos. É difícil que o Thiago atual abranja todos os anteriores. Querer isso é ir além do humano. Quero compartilhar algo com vocês: Quando penso no fenômeno "vida", logo penso em mim e nos meus irmãos da humanidade, penso também nos animais e em outros seres vivos. O quanto somos grandes e ao mesmo tempo o quanto somos pequenos. Fico maravilhado, bem próximo de um êxtase místico. Se eu conseguisse ser menos frio e abstrato e ter uma vivência sentimental disso, com certeza, alcançaria este "êxtase". Com certeza, vocês já devem ter pensado: Haverá um sentido geral para tudo isto? Eu creio que sim. Em meu texto "Do Fundamento do Ser", afirmo que "o fundamento do ser é experienciar", ou seja, que o sentido do ser está em passar por infinitas experiências através dos entes individuais, para assim alcançar o crescimento de sua própria potência, que não pode ficar no nível do abstrato. Piorou, né? Vou tentar ser mais simples: "O ser é como um copo vazio que precisa ser preenchido e o liquído com que este copo é prenchido são as experiências que todos os seres (vivos ou não) atravessam". Sendo assim, qual seria o sentido geral da vida? Tenho a ousadia de responder. Proporcionar uma melhor qualidade de experiências para o "Ser". Os entes inanimados, de constituição mais simples, não estavam proporcionando uma boa qualidade de experiências para o Ser. Este, por sua vez, incumbiu o Demiurgo (ou então Jeová, Allá, o nome é você quem escolhe) de implantar um programa de "Qualidade Total" e assim surgiram os entes animados, os quais dispõem de uma certa "autonomia" por assim dizer, ao contrário de seres inanimados, que são completamente determinados. Essa "autonomia" vai se desenvolvendo gradualmente, de acordo com o processo evolutivo, passando por várias categorias de seres, até chegar ao homem, no qual enfim, essa autonomia se torna consciência. A consciência, por sua vez, amplia os horizontes da experiência, a qual vai se tornando cada vez mais complexa, e ao mesmo tempo potencializa a sensação de prazer e de dor a graus não alcançados por outros seres. Schopenhauer nos confirma: "Em função da reflexão desenvolve-se no homem, a partir daqueles elementos do prazer e do sofrimento, que o animal com ele tem em comum, um acréscimo da sensação de sua felicidade e infelicidade, que pode levar ao momentâneo encantamento ou ao suicídio desesperado". Para Schopenhauer, pessimista como ele só, a medida da dor cresce muito mais que a medida do prazer. Porém, isso fica para uma outra conversa. E qual seria o sentido da minha vida em particular? Qual seria o sentido da sua vida, caro leitor? (Vida louca, vida, vida imensa) Esta vida estranha, desconcertada e intrigante no que se convencionou chamar de pós-modernidade? . Não quero cair na fácil resposta relativista, que diz que o sentido da vida é o sentido que cada um dá à ela. Não, apesar disto estar correto em parte, o tema permanece obscuro. Estou mais inclinado em seguir com o esboço de solução apresentado em "Do Fundamento do Ser" : "No processo da existência, nesse processo temporal determinado pela sua existência, o ente vai conhecendo pouco a pouco o sentido do seu ser". Em suma, o sentido da vida de cada um está profundamente relacionado com a própria vida, mais especificamente aos eventos do passado. Então cada vida tem o seu próprio sentido, no entanto, não é o vivente que dá o sentido ao seu bem entender, mas sim, a que ele fez da sua liberdade na construção dessa sua vida, a interpretação que ele dá a tudo que ele viveu até agora e a projeção que ele faz em relação ao futuro. O sentido da vida nunca é dado por completo, mas é descoberto junto com a própria vida. "O homem está condenado a ser livre", nos lembra Sartre. A liberdade humana é um fator radical na busca pelo sentido da vida. Sim, pois permite a construção de um projeto existencial que seja resultado do uso de nossa liberdade e sobretudo porque permite a contínua reavaliação desse projeto mediante os efeitos de nossas escolhas passadas. O não uso da liberdade implica na falta dessa percepção do sentido de nossa vida. De fato, o sentido vai se esvaindo cada vez mais quando abrimos mão de um projeto existencial, quando a vida se torna automatizada, quando deixamos de ser sujeitos para se tornamos objeto de outrem, quando nos deixamos constrangir pela repressão alheia à nossa liberdade. O sentido das vidas particulares está na diretriz do projeto existencial que cada um vai construindo ao longo da sua vida. Se não há projeto existencial, não há sentido para a vida dessa pessoa. Lembramo-lhes, ilustres leitores, que não basta apenas viver, temos que ex-sistir. Segundo Sarte, a ex-sistência propriamente dita só se dá quando o homem "projeta-se para fora de si... perseguindo fins transcendentes." Isto porque o sentido individual das vida também está relacionado com o sentido da vida em geral, o qual consiste em proporcionar experiências profundas para o Ser. Se apenas vivemos e deixamos de ex-sistir, nossa vida se torna mais pobre nas experiências. Se ex-sistimos, e assim, temos experiências condizentes com a condição humana, em toda a complexidade e profundidade que ela nos permite, nós estamos realmente nos aproximando do Ser. É prematuro, no entanto, considerar que uma vida de prazeres ou o que modernamente se considera como "epicurismo" constitua por si só uma espécie de aprendizado existencial. Para alcançar uma experiência realmente satisfatória, é necessário engajamento (entrega), abertura para o Ser (a famosa clareira de Heidegger), autenticidade e um fim transcendente. Meus caros amigos, peço-lhes sobretudo que não se limitem à situação fática que estão vivendo, ao emprego que tem, à família que cuidam, às atividades rotineiras do dia-a-dia, mas sim que atribuam um significado a tudo isto, e se não poderam atribuir um significado, procure mudar a sua rotina para que esse significado se evidencie. Já é fato comprovado que simplesmente viver a vida é conduzir a vida para o abismo, o não-sentido, o Nada. É uma mortificação em vida. A vida é uma oportunidade dada a ti para que possa ter uma história, para que construa seus valores, para que sofra, para que ria, para que ame e para que odeie, e mesmo sendo gratuita, não poderia ser desprezada. Por mais que tua vida em particular seja um grão de areia meio à imensidão do Universo, saiba que se trata de "uma aventura inédita para o Ser" e repetir de maneira automática os mesmos padrões impostos pela humanidade mesquinha, esquecida do verdadeiro sentido da vida, significa jogar essa oportunidade no abismo do Não-Ser, regredir a um estágio inumano do Ser, indigno do Homem. Eu sei o quanto isso é difícil, confesso-lhes a minha fraqueza, até eu estou meio perdido nessa busca pelo sentido da minha vida (tenho a contínua tentação de salvar a humanidade do caminho errado que ela vem trilhando, porém tremo diante da minha incapacidade), mas não se desesperem, afinal, somos o "exército de um homem só". Se vocês realmente busca pelo sentido da vida, ele irá se mostrando no desenrolar de sua vida. Não de maneira completa, mas é o que temos. Não falei aqui do absurdo, da angústia existencial que muitas vezes afligem aqueles que na busca pelo sentido, somente acham o Nada, o "não-sentido". A grande maioria dos chamados"depressivos" se enquadram nessa situação. Eu mesmo passei por essa fase. Vocês não imaginam como eu sofri e vivenciei isso em minha própria carne. Só não optei pelo suicídio, porque considerei errado usar a minha liberdade para dar cabo à minha própria vida. Além disso, tenho a convicção que mesmo sofrendo, é preciso viver. Hoje não penso mais assim, pois mesmo que a vida não tenha sentido, é preciso construir um sentido. Despeço-me pedindo perdão se a minha digressão inconsequente lhes incomodou, continuem vivendo a sua vidinha de sempre. Thiago Maia |
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